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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sessão de Terapia





Uma amiga escreveu pedindo apoio para certas questões em sua vida pessoal, e em busca de um rumo... Respondi:

Querida, conte comigo, o meu negócio é servir...

Quando estamos - como você diz - 'sem rumo', tratamos de buscar saídas, e o difícil é encontrá-las... Normalmente pendemos para as saídas fáceis... Lamento dizer que grandes problemas ou grandes questões, exigem saídas elaboradas... Desconfie sempre da verborragia fácil e barata, das "leis do retorno", "você pode", "desperte sua luz interior", e baratos afins... Basicamente, o desespero das saídas fáceis desemboca no mundo mágico - e placebo - da auto-ajuda, ou coisa muito pior... 

O que poderia ser 'muito pior'??? Religiões, espiritismo, astrologia, numerologia, freudismo, junguianismo, e esoterismos correlatos... Para desenvolver a capacidade, e a auto-suficiência para encontrar suas próprias respostas, precisamos de verdadeiro conhecimento -  multi-disciplinar -, experiências, e 'a capacidade de aprender com  as nossas experiências... Mas as pessoas tem mais ou menos dificuldade em aprender com suas próprias experiências... Muitas vezes, é necessário um 'mestre' ou 'mentor', mas é bem difícil cruzar com eles, rsrsrsrsr... 

Outro problema reside na inércia para aprender... O besteirol esotérico é apenas um boa fábula, como a novela das 20:00hs, que pode ser "aprendida" por muitos, pela massa... Mas é difícil indicar uma literatura adequada para quem pretende começar a aprender 'Como a Mente Funciona' - título homônimo da obra do fantástico Psicologia e Neurocientista Steven Pinker... Esta talvez não seja a melhor obra de Pinker para iniciantes... 'Tábula Rasa' pode ser o caminho, mas devo advertir, que apesar de ser uma leitura sensacional e agradável, em nada se parecerá com livros de auto-ajuda - ou deveria dizer auto-engano (?)...

Mas existem outros caminhos para entender o comportamento humano, a Genética é essencial, e nesta particular, um obra se destaca: 'O que nos faz humanos' - Matt Riddley... Se faz mister dizer que tais obras não oferecerão receitas mágicas, imediatistas, fáceis... Tais obra são antes de tudo, conhecimento efetivo, que uma vez absorvido, passará a integrar o seu próprio conjunto de conhecimento, e servirão para analisar as questões de sua vida, na tentativa de elucidá-las e ajudando você a formulas suas próprias respostas... 

Entre Pinker e Riddley, a imperdível obra de Daniel Dennett, 'Quebrando o Encanto', também servirá como fonte inesgotável de conhecimento sobre os porquês do comportamento, assim como promoverá um autêntico choque de realidade... 

'A Dança do Universo' de Marcelo Gleiser, te conduzirá pela deliciosa história do conhecimento humano, contribuindo para a maravilhosa compreensão sobre o seu lugar no Cosmo... Carl Sagan também é uma leitura indispensável, nesta indescritível experiência de habitar verdadeiramente, e pala primeira vez, o seu lugar no Cosmo... 'Bilhões e Bilhões' é a minha sugestão neste caso... Estas duas obras citadas neste parágrafo, foram editadas pela Companhia de Bolso, uma série econômica da Companhia das Letras...

Igualmente editadas pela Companhia de Bolso, estão as obras primas do Neurocientista Oliver Sacks, 'Tio Tungstênio' e 'Um Antropólogo em Marte'... Não se assuste com o título, Sacks é extremamente gostoso e fácil de ler...

O delicioso e esclarecedor livro de Fernando Reinach, 'A Longa Marcha dos Grilos Canibais - e outras crônicas sobre a vida no planeta Terra', é uma coletâneas de textos publicados por Reinach em sua coluna na revista Nature... Infelizmente esta obra-prima não fez alarde na mídia literária, até porque não é um livro para todos... Reinach tangencia em um breve capítulo nesta obra prima, a questão das dificuldades da aprendizagem...

"Gato escaldado tem medo de água fria" é um ditado popular que resume a questão do aprendizado pela dor, trauma, etc... Mas podemos aprender também com estímulos positivos... O Hipocampo, responsável - em grande parte - por nosso processo de memorização, trabalha sob efeito emocional... Emoções extremas, excitação, dor, ou medo, podem conduzir à um processo de memorização mais efetivo de nossas experiências, assim como a indiferença, o desânimo, e a apatia, podem induzir também o nosso Hipocampo pelo desprezo por aquela experiência... 

Aprendemos com as punições e com as recompensas, certo? Nem sempre... Um grupo de cientistas alemães entendeu e quantificou este processo, demonstrando o papel de um gene, um receptor de Dopamina (D2), sobre a nossa capacidade de aprendizado... Os experimentos mostraram que dependendo de uma forma alterada para este gene (D2+A1), os indivíduos não serão capazes de aprender com a mesma facilidade que aqueles que possuem a forma original (D2), mas apenas sob efeito da punição... Em relação ao aprendizado por estimulo, os dois grupos não apresentaram diferenças sensível... 

Desta forma, pudemos demonstrar que uma parcela de nossa população (D2+A1), tem dificuldades para aprender com os seus erros, ou a partir da respectiva punição... Isso é revelador... E pode nos indicar por exemplo, porque códigos morais punitivos, regidos pela experiência negativa - como as Instruções de Shuruppak, Bíblia, Corão -, tem menos eficácia do que as instruções positivas - Tao Te King, ou 'O Livro do Caminho e da sua Virtude', assim como 'A Conquista da Felicidade' de Bertrand Russell -, onde sugerimos como viver melhor, mas não educamos pelo erro ou pela punição...

Na instrução negativa é dito por exemplo "se você fizer isso, será morto por deus, e se ouvirá o ranger de seus dentes"... Na instrução positiva dizemos "faça isso e serás mais feliz, evite isso porque causa a dor"... Esta é a diferença básica entre a tradição sumeriana, reproduzidas nos livros judaico-cristãos-islâmicos, em contraste com a Filosofia Oriental, as ideias Iluministas de do Humanismo Secular...

Sabemos, já há algum tempo, que a Dopamina está relacionada com o nosso comportamento, e o gene em questão (D2), atua sobre os neuroreceptores para a Dopamina, enquanto grande parte da farmacologia associada à depressão, age diretamente na oferta de de Dopamina no cérebro... Todos possuímos duas cópias pare este gene (D2), mas algumas pessoas possuem uma destas cópias ligeiramente alterada (D2+A1), implicando em um número menor de neuroreceptores para a Dopamina no cérebro... Estamos falando de uma pessoas normal e lúcida, mas com uma variante para este gene, assim como possuímos variantes genéticas para a cor da pele,  ou cor do olho... Trata-se de uma variante dentro da normalidade... Embora acarrete certa desvantagem sobre o aprendizado - da mesma maneira que menos pigmentação com a melanina, diminui a nossa proteção UV...

O resultado dos testes surpreendeu a todos... Os voluntários com o gene em sua forma original (D2), foram capazes de evitar cometer erros já cometidos, em 70% dos casos, contra 50% - o que equivale à uma escolha aleatória - dos voluntários com a variante (D2+A1)... 

Vale ressaltar ainda, que estes resultados podem ajudar na compreensão da correlação entre a quantidade de receptores para a Dopamina e a propensão a vícios e obsessões, como o álcool, drogas, jogos e até mesmo a religião... A hipótese mais em voga, sugere que tais indivíduos, em função da maior dificuldade em aprender com seus erros, e experiência negativas, tornam-se mais suscetíveis à estes distúrbios ou vícios, na forma de uma repetição de tais atos... Na verdade, este cenário é um pouco mais complexo, e estamos avançando a passos largos, mas existem outros genes, e outros efeitos sobre o comportamento, que estarão alinhados com o D2, para explicar outras variantes do comportamento humano...

Mas pensem nas implicações morais, jurídicas, psicológicas e educacionais, em demonstrar um incremento genético, sobre a dificuldade de aprender com os seus próprios erros e com a punição...

Finalmente, gostaria de indicar o livro supra-citado de Russell, 'A Conquista da Felicidade'... A Felicidade precisa ser conquistada, e também dependemos de nossa genética para a 'potência desta ação de conquistar', e também na hora de nos sentirmos 'felizes'... A sensação de realização e felicidade, está muito mais relacionada com os nossos neuroreceptores e neurotransmissores do que com nosso entorno... Quem nunca viu uma pessoas sujeita à toda sorte de intempéries, presa à um cadeira de roda, e com outras desvantagens fisiológicas, mas que não para de sorrir... A facilidade em sentir-se feliz, é interior, mas não é sempre uma questão de 'escolha'... Normalmente não é...

Mas, a em nosso processo de auto-conhecimento 'efetivo', real, comportamental, neurofisiológico, bioquímico, podemos descobrir quem somos, e assim sermos de propósito, rsrsrsrsr... Ou efetuar alguns ajustes, estar atentos a alguns detalhes, mas ainda assim seremos quem somos... 

Somos quem somos sem intencionar sê-lo... Mas somos... E respondemos socialmente e legalmente por isso...

Carlos Sherman

Fonte de Pesquisa:  "Genetically determined   differences  in learning from errors", 
Science, vol. 318, p. 1.642, 2007

sábado, 7 de abril de 2012

Fruuuuuummmm...


Dança para John Frum


Os hindus divergem sobre quem é o Senhor Maior, Vishnu ou Shiva, e muita gente foi e tem sido morta por esta pendenga...  Segundo Klaus Klostermaier (1994), um dos maiors estudiosos em tradições culturais indianas: “Os Lingapurãna prometem o céu de Shiva a quem mate ou arranque a língua de quem insulte Shiva”...

Existe uma Ciência Cognitiva para a Religião... Um clássico nesta área é ‘Repensando a Religião: Conectando Cognição e Cultura e Analisando os Rituais: Fundamentos Psicológicos da Cultura’ – ‘Rethinking Religion: Connecting Cognition and Culture and Bringing Ritual to Mind: Psychological Foundations of Cultural Forms’ - de Thomas Lawson e Robert McCauley... Eles investigam uma enormidade de fenômenos culturais, ritualísticos e religiosos, à luz da Neurociência Cognitiva... Segundo este estudo, por exemplo, os Zulus acreditam que quando uma mulher está grávida e a ponto de dar a luz, uma “serpente-espírito de uma mulher velha” faz aparições, e sempre está muito zangada... São os Xamãs que interpretam estas questões, que normalmente redundam em sacrifícios animais, para que a criança nasça com saúde...

Sam Harris lembra que os Jivaro do Equador acreditam que você tem três almas... A alma verdadeira, que você tem desde o nascimento, regressa ao seu lugar de nascimento depois de sua morte, e se transforma em um demônio que também irá morre e se transformará em uma mariposa gigante, que por sua vez também morrerá transmutando-se em um nevoeiro... A segunda alma é chamada de Arutam, que você obtém através de praticas rituais, jejuando, tomando banho em uma cacheira sagrada ou através de da ingestão de um sumo alucinógeno – que o torna invencível... O engraçado é que esta alma, segundo os Jivaro, tem o curioso costume sair de cena quando você está em dificuldades... E finalmente temos a alma vingadora, ou Musiak, que foge da cabeça das vítimas para matar os seus respectivos assassinos... E é por isso que recomendam, para o caso de você decidir assassinar alguém, que fique fora do alcance da cabeça de sua vítima...

Apesar de espalhadas pelo planeta, e integrando boa parte da cultura de nossos povos, estas crenças bizarras não existem desde de sempre, como bem observa Dennett... Segundo Dennett “Houve uma época ante das crenças e praticas religiosas terem ocorrido a qualquer pessoa”... Examine o curioso caso do Culto à Carga...

Quando as grandes navegações europeias alcançaram as isoladas ilhas do Pacífico Sul, no século XVIII, os nativos – melanésios – que habitavam estas remotas paragens ficaram abismados com a nossa tecnologia... Navios a vela majestosos – ou nem tanto – para os padrões melanésios, artefatos mágicos, inimagináveis, como tigelas de aço, facas, espadas, tecidos, vidros, espelhos... Que se transformaram em presente, e os melanésios, assim como nós, eram loucos por presente... E pensaram, precisamos conseguir mais desta ‘carga’, ou dos ‘poderes mágicos’ destes semi-deuses, ou adorá-los... A conclusão dos melanésio foi simples, os europeus eram seus ancestrais – disfarçados –, que haviam regressado do reino dos mortos com incontáveis riquezas... No final do século XIX, missionários luteranos chegaram a Papua Nova Guiné para converter os melanésios sobre o cristianismo... Encontraram uma resistência obstinada dos nativos, contra aqueles ‘sovinas’ semi-deuses, que não traziam presentes, e insistiam em fazê-los entoar hinos em um dialeto estranho... 

Cultos à carga surgiram incontáveis vezes no Pacífico Sul... O mais interessante deles, e principalmente por estar bem documentado, é o culto a John Frum – com as variantes Jon Frum, John From, e também Frumm, Frumme, Fromme... 


Durante a Segunda Grande Guerra, os americanos procuraram estabelecer bases aéreas na ilha Efate, e recrutaram força de trabalho juntos aos nativos nas ilhas de Tanna e Vanatu, ... Quando milhares de trabalhadores regressaram da empreitada, a sociedade inteira foi varrida por uma dramática confusão, e obcecada com as histórias sobre homens brancos e pretos, que possuíam riquezas além dos sonhos dos ilhéus... Vinham dos céus em aves de prata, e podiam voar amarrados a grandes bolsas cheias de ar... 

Os ilhéus então deixaram de ir à igreja e começaram a construir pistas de pouso, armazéns e mastros de rádio de bambu, na crença de que, se tinha funcionado para os norte-americanos, na Efate, funcionaria para eles em Tana...  Modelos esculpidos de aviões, capacetes e rifles norte-americanos foram feitos em bambu e usados como ícones religiosos... 

Os ilhéus começaram a marchar em paradas com as letras USA pintadas, esculpidas ou tatuadas no peito e nas costas... John Frum surgiu como o nome do novo Messias deles, muito embora não haja registros de qualquer soldado norte-americano com este nome... Mas o nome ‘John’ era muito comum, assim como as inscrições ‘From USA’, que podem ter sido modificadas para ‘Frum’... ‘John From USA’... Um pequeno mal entendido pode ter sido suficiente para o reconhecimento de um padrão equivocado...

Também são utilizadas bandeiras aliadas, como a da Inglaterra, e é exibida uma foto do Príncipe Phillip, Duque de Edinburgh... A bandeira e a cruz característica da Cruz Veremelha também é exibida... Os ilhéus guardam muitos artefatos da época, uniformes, fotos, objetos, marcham vestindo calças jeans... 

Quando o último soldado norte-americano deixou o arquipélago no fim da guerra, os ilhéus previram o retorno de John Frum... O movimento continuou a florescer e, em 1957, uma bandeira norte-americana foi erguida na baía Enxofre para declarar a religião John Frum como oficial... Nesse dia, todos os anos, é celebrado o culto a John Frum... Os fanáticos acreditam que John Frum está esperando com seus guerreiros, e escondido no vulcão Yasur, de onde virá para entregar muitos presentes ao povo de Tana...

Monumento a John Frum
Durante as festividades sagradas, os anciãos marcham em imitação do exército americano... Uma espécie de desfile militar com direito a danças tradicionais... O sincretismo e a convergia são marcas típicas do fenômeno da transmutação cultural... O impacto da chegada dos americanos e a respectiva bonança advinda deste evento, deixaram marcas profundas neste povo – autóctone -, que converteu e misturou antigas crenças, às novas especulações, em uma tremenda confusão sincrética, capaz de parir uma nova crença bem diante de nossos olhos...

VIVER É APRENDER!!!


Carlos Sherman

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sobre Parasitas e Religião



Daniel Dennett começa a sua obra 'Quebrando o Encanto' com uma desconcertante analogia:

Observe uma formiga em um prado, laboriosamente subindo por uma folha de capim, cada vez mais alto, até que cai, depois sobre outra vez e mais outra, como Sísifo rolando a sua pedra, sempre tentando chegar ao topo. Por que ela faz isso? Que benefício estará buscando para si própria nesta estranha e extenuante atividade?

Dennett logo desfaz o mistério por trás deste comportamento bizarro e suicida... Na verdade as questões suscitadas estão equivocadas ou não fazem sentido algum neste caso, porque não existem de fato benefícios biológicos para a formiga... O seu cérebro foi infectado e está sendo controlado por um parasita, que utiliza a formiga como hospedeiro, para chegar ao estômago de um carneiro ou de uma vaca e assim completar o seu ciclo reprodutivo... Trata-se do Dicrocelium dendritcum... Este verme cerebral, explica Dennett, dirige a formiga a uma condição que beneficia a sua própria progênie, e não a da formiga... 

E Dennett desafia: "Será que com seres humanos acontece alguma coisa parecida?"... A comparação entre a 'palavra de deus' e o Dicrocelium dendriticum parece inquietante e forçada, mas existem boas evidências que apontam em outra direção... Estamos tratando aqui dos memes, ou ideias que se comportam como genes da cultura... Termo cunhado por Richard Dawkins... A religião poderia ser um meme apto, selecionado ao longo de séculos e milênios, até encontrar estas mal fadadas linhas em um Blog na Internet em 2012...

Em Mateus 13, podemos ler: Semen est verbum Dei; sator autem Christus - A palavra de Deus é uma semente, e o semeador é Cristo...  Parece que tal palavra, tal meme, encontrou os cérebros humanos, tendo sido propagada e disseminada por toda parte, enquanto promete a remissão da morte - eum qui audit manebit in eternum... Tal palavra - o meme do verbo - pede em troca completa submissão... Não é por acaso que a palavra islam significa 'submissão'... Submissão cega e incondicional...

É bem verdade que ideias não são seres vivos, não conseguem enxergar ou pensar, mas o  Dicrocelium dendriticum também não enxerga e nem sequer possui um cérebro... Mas as ideias estão bem engendradas em nossos cérebros, e chegam a partir da cognição, exatamente onde o Dicrocelium dendriticum executa a sua missão...

O antropólogo Clifford Geertz, em 'A interpretação da cultura', define a religião como:

(1) Um sistema de símbolos que age para (2) estabelecer humores e motivações poderosas, penetrantes e duradouras nos homens por meio da (3) formulação de conceitos de uma ordem geral da existência (4) em tal aura de veracidade que (5) os humores e motivações pareçam singularmente realísticos.

Se acrescentarmos às 'motivações poderosas' os adjetivos 'bizarro', 'grotesco' e até 'suicida', e substituirmos 'homens' por formigas, veremos claramente a 'palavra' - ou meme - de deus no Dicrocelium dendriticum...

Carlos Sherman

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Quebrando o Encanto...


O design inteligente está mais uma vez sendo manchete nos Estados Unidos. Mas qual é a atração exercida por essa teoria? Daniel Dennett falou à revista alemã Der Spiegel sobre a atração exercida pelo criacionismo, sobre como a própria religião sucumbe às idéias darwinianas, e sobre a irresponsabilidade social da direita religiosa nos Estados Unidos. 

Daniel Dennett é considerado um dos defensores mais vigorosos do darwinismo. Em vários livros, o professor de filosofia da Universidade Tufts, em Massachusetts, descreveu os humanos, a alma e a cultura humana como sendo produtos naturais do caldo primordial.
No seu novo livro, “Breaking the Spell” (“Quebrando o Encanto”), Dennett, 63, explica – segundo a ótica da evolução – por que os religiosos radicais têm tanto sucesso.
Leia a seguir a entrevista exclusiva concedida pelo filósofo:

Der Spiegel – Professor Dennett, mais de 120 milhões de norte-americanos acreditam que Adão foi criado por Deus há dez mil anos, a partir do barro, e que Eva foi feita com a costela do seu companheiro. Você conhece pessoalmente algum desses 120 milhões de indivíduos?

Daniel Dennett – Sim. Mas os criacionistas geralmente não se interessam em falar sobre isso. Aqueles que são realmente entusiasmados pelo desenho inteligente, no entanto, falam sobre o assunto incansavelmente. E o que eu aprendi é que eles estão repletos de desinformações. Mas eles encontraram essas desinformações em fontes muito plausíveis. Não é apenas o pastor que lhes ensina essas coisas. Eles compram livros que são publicados por editoras famosas. Ou acessam sites da Internet e vêem propagandas bem elaboradas, publicadas pelo Discovery Institute, em Seattle, que é financiado pela direita religiosa.

Spiegel – No centro do debate está a idéia da evolução. Por que é que a evolução parece provocar muito mais oposição do que qualquer outra teoria científica, como o Big Bang e a mecânica quântica?

Dennett – Creio que é porque a evolução conduz ao cerne da descoberta mais perturbadora da ciência nas últimas centenas de anos. Ela contesta uma das idéias mais antigas que possuímos, talvez mais antiga até que a nossa espécie.

Spiegel – Que idéia exatamente é essa?

Dennett – É a idéia de que é necessário algo de grandioso, especial e inteligente para a criação de uma coisa menor. Eu chamo isso de teoria da ordem descendente da criação. Ninguém jamais verá uma lança fazendo um fabricador de lanças. Tampouco verá uma ferradura criando um ferreiro. Nem um vaso de cerâmica gerando um ceramista. As coisas ocorrem sempre na ordem inversa, e isto é tão óbvio que simplesmente parece ser uma lei universal.

Spiegel – Você acredita que essa idéia já estava presente entre os macacos?

Dennett – Talvez entre o Homo habilis, o “faz-tudo”, que começou a fabricar instrumentos de pedra cerca de dois milhões de anos atrás. Eles tinham a sensação de serem mais perfeitos do que os seus artefatos. Assim, a idéia de um criador que é mais perfeito do que as coisas que cria é, acredito eu, uma idéia profundamente intuitiva. É exatamente a esta idéia que os defensores do desenho inteligente se referem quando perguntam: “Você alguma vez já viu uma construção sem construtores, ou uma pintura sem um pintor?”. Esse raciocínio é algo que captura esta idéia profundamente intuitiva de que jamais se obtém um desenho gratuitamente.

Spiegel – É um argumento teológico antigo…

Dennett – …que Darwin refuta completamente com a sua teoria da seleção natural. E ele demonstra que não. Não só é possível que se obtenham desenhos a partir de coisas não desenhadas, como também pode haver a evolução de desenhistas a partir dessas categorias não desenhadas. No final temos escritores, poetas, artistas, engenheiros e outros projetistas de coisas, outros criadores – que são frutos bastante recentes da árvore da vida. E isso desafia a idéia popular de que a vida possui um sentido.

Spiegel – Até mesmo o espírito dos humanos – a sua alma – é produzida desta forma?

Dennett – Sim. Como uma forma de vida multicelular e móvel, nós precisamos de uma mente, já que temos que perceber para onde estamos indo. Necessitamos de um sistema nervoso capaz de extrair rapidamente informações do mundo, de refinar essas informações e de fazer uso delas com presteza a fim de que elas guiem o nosso comportamento. O problema básico de todo animal é identificar aquilo de que necessitam, evitar tudo o que possa feri-los, e agir dessa forma mais rapidamente do que os elementos antagônicos. Darwin compreendeu esta lei, e entendeu que este desenvolvimento vinha ocorrendo havia centenas de milhões de anos, produzindo ainda mais mentes andróides. 

Spiegel – Mas, mesmo assim, algo fora do comum ocorreu quando os humanos surgiram.

Dennett – De fato. Os humanos descobriram a linguagem – uma aceleração explosiva dos poderes das mentes. Porque a partir disso foi possível aprender não apenas a partir da própria experiência do indivíduo, mas também de forma indireta, com base na experiência de outros. Aprender com pessoas que o indivíduo jamais conheceu. Com ancestrais mortos há muito tempo. E a própria cultura humana se transformou em uma força evolucionária profunda. É isto o que nos confere um horizonte epistemológico que é muitíssimo mais vasto do que o de qualquer outra espécie. Somos a única espécie cujos indivíduos sabem quem são, que sabem que evoluíram. As nossas músicas, nossa arte, nossos livros e nossas crenças religiosas são, todos eles, em última instância, um produto dos algoritmos evolucionários. Alguns acham esse fato fascinante. Outros o acham deprimente.

Spiegel – Em nenhum local a evolução se torna mais evidente do que no código do DNA. Não obstante, aqueles que crêem no desenho inteligente enxergam menos problemas no código do DNA do que nas idéias de Darwin. Por que isso?

Dennett – Eu não sei, já que a mim parece que a melhor evidência que temos da veracidade da teoria de Darwin é aquela que surge a cada dia da bioinformática, do entendimento do código do DNA. Os críticos do darwinismo simplesmente não querem encarar o fato de que moléculas, enzimas e proteínas conduziram ao pensamento. Sim, nós possuímos uma alma, mas ela é composta de vários robôs minúsculos.

Spiegel – Você não acha que seja possível deixar a vida a cargo dos biólogos, mas permitir que a religião se encarregue da questão da alma?

Dennett – Era isso que o papa João Paulo 2º exigia quando baixou a sua, muito citada, encíclica, na qual afirma que a evolução é um fato, frisando, entretanto: exceto com respeito à questão da alma humana. Isso pode ter deixado algumas pessoas satisfeitas, mas é algo simplesmente falso. Seria tão falso como afirmar: os nossos corpos são feitos de material biológico, exceto, é claro, o pâncreas. O cérebro não é um tecido mais maravilhoso do que os pulmões ou o fígado. É apenas um tecido.

Spiegel – As idéias de Darwin foram utilizadas de forma errônea por racistas e eugenistas. Seria este também um dos motivos pelo qual o darwinismo é tão vigorosamente atacado?

Dennett – Sim. Creio que a forma mais gentil de explicar isso é dizendo que a idéia darwiniana é muito simples – dá para explicá-la a alguém em um minuto. Mas, por este mesmo motivo, ela é também extremamente vulnerável a caricaturas e usos indevidos. Eu ensino aos meus alunos de forma muito paciente as bases da teoria evolucionária, e depois tenho que retornar ao tópico e esclarecer os maus entendidos, já que eles se entusiasmam demais com a teoria e acabam tendo idéias errôneas. O darwinismo é um doce para a mente. Ele é delicioso. Mas o fato é que o excesso de doces pode nos distrair, fazendo com que deixemos de nos concentrar na verdade. E isso pode ser utilizado por indivíduos racistas ou sexistas. Portanto, temos que praticar constantemente uma espécie de higiene intelectual.

Spiegel – Parece que tudo – incluindo o adultério, o estupro e o assassinato – está sendo atualmente analisado à luz da teoria da evolução. Como é que se separa a pesquisa séria das bobagens?

Dennett – É necessário que sejamos coletores meticulosos dos fatos relevantes. E temos que organizar esses fatos de tal maneira que contemos com uma hipótese testável, que possa ser realmente confirmada ou rejeitada. Foi isso o que Darwin fez. 

Spiegel – O seu colega Michael Ruse o acusou de ter saído do campo da ciência, e ingressado no da ciência social e da religião com as suas teorias. Ele chegou até a afirmar que, ao proceder dessa forma, você estaria inadvertidamente ajudando o movimento que defende o desenho inteligente.

Dennett – Michael está apenas tentando dar às implicações das descobertas de Darwin um enfoque suave, e assegurar às pessoas que não existe tanto conflito assim entre o ponto de vista da biologia evolucionária e as formas tradicionais de pensamento.

Spiegel – E quanto às acusações de que você estaria ajudando a teoria do desenho inteligente?
Dennett – Provavelmente existe um elemento de verdade nisto. Eu acabei de escrever um livro no qual olho para a religião por meio do prisma da biologia evolucionária. Creio que podemos, devemos, e até mesmo que temos que seguir essa rota. Outros dizem que não. Que devemos no manter afastados de certas áreas. Que não se pode permitir que a teoria da evolução chegue perto das ciências sociais. Creio que este é um conselho terrível. A idéia de que devemos proteger as ciências sociais e a humanidade do pensamento evolucionário é uma receita para o desastre.

Spiegel – Por quê?

Dennett – Eu daria a Darwin a medalha de ouro pela melhor idéia que alguém já teve. Ela unifica o mundo dos significados, dos objetivos, das metas e da liberdade com o mundo da ciência, com o mundo das ciências físicas. Quero dizer, nós falamos sobre a grande lacuna entre a ciência social e a ciência natural. O que preenche esta lacuna? Darwin, ao nos mostrar como objetivo, desenho e sentido podem surgir da falta de sentido algum, a partir da simples matéria bruta.

Spiegel – O darwinismo está em ação todas as vezes que algo de novo é criado? Até mesmo durante a criação do universo, por exemplo?

Dennett – É pelo menos interessante constatar que idéias quase-darwinianas ou pseudodarwinianas também são populares na física. Eles postulam uma enorme diversidade a partir da qual houve, em um certo sentido, uma seleção. O resultado é que nós estamos aqui, e isto é apenas uma pequena parte desta grande diversidade que presenciamos. Essa não é a idéia darwiniana, mas é uma idéia aparentada. O filósofo Friedrich Nietzsche teve a idéia – eu arriscaria dizer que ele talvez tenha se inspirado em Darwin – do eterno retorno: a idéia de que todas as possibilidades são concretizadas, e que, se o tempo é infinito, e a matéria também é infinita, então todas as permutações serão realizadas, não uma só vez, mas um trilhão de vezes.

Spiegel – Uma outra idéia de Nietzsche é a de que Deus está morto. Essa é também uma conclusão lógica a que chega o darwinismo?

Dennett – É uma conseqüência muito nítida. O argumento em favor do desenho inteligente, creio eu, sempre foi o melhor argumento em favor da existência de Deus. E quando Darwin surge, puxa o tapete sobre o qual esta idéia se sustenta.

Spiegel – Em outras palavras, a evolução não deixa espaço para Deus?

Dennett – É preciso que se entenda que o papel de Deus foi diminuindo no decorrer dos éons. Primeiramente tínhamos Deus, como você disse, fazendo Adão e todas as criaturas com as próprias mãos, arrancando a costela de Adão e fazendo Eva a partir dessa costela. A seguir trocamos esse Deus pelo Deus que coloca a evolução em movimento. E depois dizemos que sequer precisamos deste Deus – o decretador da lei –, já que se levarmos as idéias da cosmologia a sério, concluímos que existem outros locais, e outras leis, e que a vida surge onde pode surgir. Então, agora não temos mais o Deus criador descobridor de leis, nem o Deus decretador de leis, mas apenas o Deus mestre-de-cerimônias. E quando Deus é o mestre-de-cerimônias e, na verdade, não desempenha mais papel algum no universo, ele ficou diminuído, e não interfere mais de forma alguma.

Spiegel – Então, como é que tantos cientistas naturais são religiosos? Como é que eles harmonizam tal postura com o trabalho?

Dennett – Eles harmonizam essa postura com o trabalho porque não analisam atentamente como se dá esta harmonia. É um truque que todos nós podemos fazer. Temos as nossas maneiras de compartimentar as nossas vidas, de forma que confrontemos as contradições com a menor freqüência possível. 

Spiegel – Mas essa compartimentação também possui um lado positivo: a ciência natural fala sobre a vida, enquanto a religião lida com o sentido da vida.

Dennett – Tudo bem. Um limite. Mas o problema é que esse limite se move. E, à medida que se move, a descrição do trabalho de Deus encolhe. Eu, também, me quedo maravilhado com o universo. Ele é maravilhoso. Eu estou tremendamente feliz por estar aqui. Creio que é um grande lugar, apesar de todas as suas falhas. Adoro estar vivo. O problema é: não há ninguém a quem ser grato por isso. Não existe ninguém a quem expressar a minha gratidão.

Spiegel – Mas a religião com certeza nos confere padrões morais e nos fornece diretrizes sobre como nos comportarmos.

Dennett – Se a religião fizesse tal coisa, eu não acharia que ela fosse uma idéia tão tola. Mas não é isso o que ela faz. Na melhor das hipóteses, as religiões funcionam como excelentes organizadores sociais. Elas fazem do trabalho moral em equipe uma força bem mais eficiente do que ele seria em outras circunstâncias. No entanto, isto é uma faca de dois gumes. Isso porque o trabalho moral em equipe depende, em grande parte, de que você abra mão do seu próprio juízo moral em favor da autoridade do grupo. E, como sabemos, isso pode ser algo extremamente perigoso.

Spiegel – Mas a religião ainda nos ajuda a estabelecer padrões morais.

Dennett – Mas, dessa forma, nós não seríamos moralmente bons apenas para que fôssemos recompensados no céu? Ou seja, Deus nos pune pelos nossos pecados e nos recompensa pelo nosso bom comportamento? Eu acho que essa idéia faz de Deus algo como um protetor arrogante e ameaçador. Ela é ofensiva, já que sugere que esse é o único motivo pelo qual as pessoas agem de forma moralmente louvável. Por exemplo, será que nós só nos comportaríamos bem para conseguirmos 76 virgens no paraíso? Essa é uma idéia que seria ridicularizada por muita gente no Ocidente.

Spiegel – Então, por que é que praticamente todas as culturas possuem religiões?

Dennett – Creio que a resposta a esta pergunta é parcialmente histórica, no sentido de que as tradições que sobrevivem desenvolvem adaptações para sobreviverem. Assim, as próprias religiões são fenômenos culturais extremamente bem projetados que evoluíram para sobreviver.

Spiegel – Como uma espécie biológica.

Dennett – Exatamente. O projeto de uma religião é completamente inconsciente, exatamente da mesma forma como o projeto dos animais e plantas é completamente inconsciente.

Spiegel – As religiões bem-sucedidas possuem traços em comum?

Dennett – Todas elas precisam possuir características que prolonguem a sua própria identidade –e muitas dessas características são na verdade interessantemente similares àquilo que encontramos também na biologia.

Spiegel – Você poderia dar um exemplo?

Dennett – Muitas religiões tiveram início antes que houvesse escrita. Como é que se obtém preservação de alta-fidelidade de textos antes que existam textos? Os cantos e recitações grupais são mecanismos eficientes para a manutenção e a disseminação de informações. E temos também outras características, como a necessidade de garantir que alguns aspectos da religião sejam realmente incompreensíveis.

Spiegel – Por quê?

Dennett – Porque assim as pessoas têm que cair na memorização rotineira. A própria idéia da eucaristia é um exemplo adorável: a idéia de que o pão é o símbolo do corpo de Cristo, e de que o vinho é o símbolo do sangue de cristo, não é suficientemente empolgante. É necessário que a idéia se torne estritamente incompreensível. O pão é Cristo, e o vinho é o seu sangue. Só então a idéia atrairá a atenção dos seguidores. Depois disso ela vencerá na competição com outras idéias mais entediantes, simplesmente porque o fiel não consegue deixar de pensar nela. É algo semelhante ao que ocorre quando temos uma dor de dente, e não conseguimos afastar a língua do dente dolorido. Todo bom muçulmano deve orar pelo menos cinco vezes por dia, não importa o que aconteça.

Spiegel – Você também vê nisso uma estratégia evolucionária para manter a religião viva?

Dennett – É bem possível. O biólogo evolucionário israelense Amotz Zahavi argumenta que aqueles comportamentos “caros” – que são difíceis de serem imitados – são os melhores para serem passados às gerações seguintes, já que os sinais “baratos” podem ser, e serão, falsificados. Esse princípio dos comportamentos caros é bem conhecido na biologia, e está presente na religião. É importante fazer sacrifícios. O “custo” do comportamento é uma característica com a qual o indivíduo não deve tentar interferir, já que isso implica riscos. Se os imames se reunissem e decidissem remover essa característica eles estariam prejudicando uma das adaptações mais poderosas do islamismo. 

Spiegel – Usando este tipo de argumentação, você é capaz de prever quais religiões serão vitoriosas?
Dennett – Os meus colegas Rodney Stark e Roger Finke pesquisaram por que algumas religiões se disseminam tão rapidamente, e outras não. Eles estão adaptando a economia do campo da oferta a esta questão, e têm dito que existe uma espécie de mercado ilimitado para aquilo que as religiões podem fornecer, mas apenas se elas forem caras. Assim, eles têm uma explicação para o fato de as religiões protestantes muito brandas e liberais estarem perdendo adeptos, enquanto aquelas mais extremadas e intensas atraem novos membros.

Spiegel – Você tem uma explicação para o fato de a crença no desenho inteligente ser mais disseminada nos Estados Unidos do que em qualquer outro lugar?

Dennett – Não, infelizmente não. Mas posso afirmar que a aliança entre religiões fundamentalistas ou evangélicas e a política de extrema direita se constitui em um fenômeno muito problemático, e que essa é certamente uma das razões mais fortes para a disseminação dessa crença no país. O que realmente assusta é o fato de muitas dessas pessoas realmente acreditarem que a segunda vinda está para acontecer – a idéia de que o armagedom é inevitável, de forma que nada faz muita diferença. Para mim isso é uma irresponsabilidade social do mais alto grau. É assustador.

Der Spiegel – Professor Dennett, muito obrigado por esta entrevista.

Fonte: Bule Voador