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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
QUEM DEVE SAIR PELA PORTA DOS FUNDOS É A IGREJA
DEZENAS DE MILHARES DE PADRES, AVATARES PARAMENTADOS DO MITO DE JESUS, ESTUPRARAM CENTENAS DE MILHARES DE CRIANÇAS EM TODO O MUNDO E VOCÊ ESTÁ PREOCUPADO COM O PROGRAMA HUMORÍSTICO PORTA DOS FUNDOS?
MAS A BÍBLIA CHAMA JESUS DE ASSASSINO, E ISSO NÃO LHE ABORRECE? SIM, JÁ QUE ELE SERÁ O COMANDANTE EM CHEFE DA PASSAGEM MÍTICA DO HUMANICÍDIO APOCALÍPTICO… ENTÃO, NÃO SE IMPORTA COM A ALCUNHA DE ASSASSÍNO CRUEL DE BILHÕES, NEM COM O RANGER DE DENTES EM SOFRIMENTO DE SUAS INOCENTES VÍTIMAS, MAS COM A "OFENSA" DE SER CHAMADO DE “GAY”?
VOCÊ, TÃO IMPERTIGADO, CERTAMENTE PROTESTOU CONTRA A PEDOFILIA PRATICADA EXTENSIVAMENTE PELOS PADRES DE SUA IGREJA? NÃO? AO MENOS PROTESTOU CONTRA O USO DA SUA DOAÇÃO PARA PAGAR BILHÕES DE DÓLARES A GORDOS ADVOGADOS DE DEFESA? VOCIFEROU? NÃO? NENHUMA PETIÇÃO, AÇÃO, PROCESSO, CENSURA? PEDIU A EXTINÇÃO DESTE TERRÍVEL GRÊMIO SÁDICO DE CRIMINOSOS E COVARDES; ASSIM COMO A PRISÃO SUMÁRIA DE SEUS RESPONSÁVEIS, COMEÇANDO POR SEUS CÍNICOS DIRIGENTES? NÃO? NÃO FEZ NADA? ESTRANHO!!!
CRIANÇAS DE CARNE E OSSO VIVEM O TERROR NA TERRA, E VIOLÊNCIA INDIZÍVEL NAS MÃOS DE VERDADEIROS MONSTROS, NA ESCURIDÃO FÉTIDA DA SACRISTIA; E VOCÊ ESTÁ PREOCUPADO COM UM MITO QUE FOI CHAMADO DE GAY POR UM PROGRAMA HUMORÍSTICO? E CONSIDERA ESSA “OFENSA” DIGNA DE LUTA, MAS NÃO LAMENTA A MORTE EM VIDA DE MILHÕES DE PESSOAS EM DÉCADAS DE ABUSOS? OS SUICÍDOS? A IMPUNIDADE? NÃO?
ESSA É UMA CRENÇA BEM BIZARRA, E SEUS FIEIS SEGUIDORES PRECISAM DE TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO OU OFTALMOLÓGICO… E A IGREJA CATÓLICA DEVE DEIXAR A HISTÓRIA PELA PORTA DOS FUNDOS…
Q.E.D.
CARLOS SHERMAN
sábado, 3 de agosto de 2019
A CIÊNCIA DO ERRO | Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva - Parte 2: Afinal, existem verdades?
A CIÊNCIA DO ERRO
Sobre Verdades,
Veracidade e Realidade Objetiva
Parte
2: Afinal, existem verdades?
Dedicado ao meu amigo Carlos Teles
O que é
necessário não é a vontade de acreditar,
mas o desejo de
descobrir,
que é justamente
o oposto.
Bertrand Russell
ENDEREÇAR A VERDADE CONSISTE EM
CONHECER OS FATOS, NÃO AS OPINIÕES... E é exatamente isso que praticamos todos
os dias no campo da Justiça, baseado no vigoroso e inefável princípio do onus
probandi... Neste artigo em especial citarei
muitos dos homens notáveis sobre os ombros dos quais este anão que vos dirige a
palavra subiu para ver mais longe... muito mais longe!!!
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O filósofo e matemático alemão
Friedrich Frege (1848-1925) escreveria – abrindo os trabalhos:
Entendo por pensamento não o ato subjetivo de pensar, mas o seu conteúdo objetivo.
Isso, ipso facto, se
aceito pela pertinência da definição, deitaria por terra um sem-número de pensamentos...
juntamente com a devoção aos respectivos ditos pensadores!
Um pensamento é fruto inescapável
do processamento neural; e será por meio da linguagem que trataremos de
manifestar o seu conteúdo ou objeto. A linguagem é inata, hoje sabemos, mas a
escrita não. O filósofo e matemático polonês Alfred Tarski (1901-1983)
solucionaria o problema da correspondência entre uma proposição formulada pela
linguística e a realidade; e o fez de forma surpreendentemente simples,
intuitivamente satisfatória, e irrefutável.
Tarski focou na formulação
semântica de proposições:
A sentença (T) é verdadeira se, e somente se, o que ela diz é verdade.Onde T seria a Convenção de Tarski.
Imagine que você e eu estamos
contemplando uma bela cadeira vermelha, estilo Luis XV - exatamente como esta
bem ao lado da lareira em minha sala. A proposição “Esta cadeira é
vermelha” seria verdadeira se e somente se “esta cadeira” for vermelha. Isso
me parece lógico! Ou não? E óbvio! O que você acha?
Então qual foi a contribuição de
Tarski? A sacada de Tarski foi eliminar nebulosidades semânticas,
preocupando-se em formatar de maneira objetiva a formulação das sentenças ou
proposições, e evitando truques, hipérboles, verbosidades e falácias retóricas.
Para isso ele utilizou os conceitos de “objeto” ou conteúdo, “verdade” ou
veracidade, “metalinguagem”, “metalinguagem semântica” e “linguagem-objeto”.
Por exemplo: se tomamos o português como metalinguagem e o inglês como
linguagem-objeto, e o seguinte objeto “the dog is sleeping", então
poderíamos formular a seguinte sentença em nossa metalinguagem semântica: A
proposição do inglês (linguagem-objeto) “the dog is sleeping” (objeto)
corresponde aos fatos (é verdadeira) se e somente se o cachorro está dormindo.
A verdade começa por uma
formulação semântica adequada que permita a sua comprovação ou refutação. O que
está vago e mal definido não pode ser confrontado com a realidade. E se existe
uma metalinguagem na qual podemos apresentar proposições, descrever fatos,
então também será possível, e de forma trivial, estabelecer a correspondência
entre fatos e proposições - endereçando assim a verdade ou a veracidade de
sentenças e argumentos. Isso, e bastando alguma honestidade retórica e
integridade intelectual - conforme acentuado por Feynman - nos leva à atitude
científica...
A Convenção de Tarski (T) pode
ser formalmente descrita por:
(T) X é verdadeiro se, e só se, p; onde p é o predicado que pretendemos validar para a sentença X
O exemplo utilizando uma
linguagem-objeto em inglês serviu para conter eventuais arroubos relativistas
de ordem interlinguística ou ainda intercultural. Vale repetir que a
construção linguística é inata; em milhares de dialetos e diferentes linguagens
em todos os tempos e lugares sempre estiveram presentes as figuras do sujeito,
verbo – ou ação -, substantivo e predicado; já o vocabulário e as regras
gramaticais precisarão ser aprendidos - e à duras penas.
Observem que o predicado “[...]
corresponde aos fatos” ou “[...] é verdade” está protegido pela metalinguagem,
não importando se algum dialeto porventura venha a evitar esta vital
caracterização... Sendo assim “[...]” ou “X” poderá ser definido nos termos de
qualquer linguagem-objeto; então, enfoquemo-nos na verdade, e utilizando como
linguagem-objeto a nossa própria língua vernácula: o português.
E neste ponto ficará evidente a
motivação por trás da incessante busca por proposições verdadeiras ou positivas
na Ciência. E vamos com o eminente Karl Popper:
De uma classe (ou um sistema) de proposições, que são todas verdadeiras, nenhuma proposição falsa pode ser assumida.
Enquanto os postulados religiosos
ou “espirituais” dormem em berço esplendido, percebam o cuidado em estabelecer
os contornos da verdade ou da veracidade. Isso implica que, embora deus seja um
bolso cada vez mais vazio, e enquanto reduzimos inequivocamente o oceano de
ignorância, ainda assim não poderemos apenas por princípio descartar a
existência de deuses ou do “unicórnio cor-de-rosa”.
De teorias (sistemas de proposições) que concordem com os fatos, não se pode derivar nenhuma proposição lógica que não concorde com os fatos. - Karl Popper
Esta importante regra, que de
fato perfaz uma atitude ética, explica por que em Ciência efetivamos
proposições positivas e nunca negativas. “A Terra descreve uma orbita fechada –
ou captiva - em torno do Sol” é uma proposição científica; mas “não
existem gnomos empurrando a Terra” não é – por mais que saibamos ser uma proposição
lúcida. Podemos invalidar ou provar a falsidade de uma proposição positiva; e.g.,
“a Terra é plana e está assentada sobre colunas” é uma proposição científica,
mesmo que sendo inteiramente falsa; mas “a Terra não é verde” não nos leva a
lugar algum.
Claro que existe o fato da vida
finita, de forma que o fator tempo a perder estará sempre em jogo, assim como a
questão da prioridade ou utilidade: Cui bono? Ou seja, não podemos
cientificamente e em princípio negar a existência de Tupã; mas podemos considerar
a busca pela sua existência uma tremenda idiotice quando confrontamos a mais
absoluta falta de evidências; isso, além do flagrante conflito com proposições
já demonstradas como: “culturas primitivas praticaram o animismo” ou “culturas
primitivas desconhecedoras do ciclo da chuva, cortaram gargantas e fizeram
danças rituais para que chovesse”. E daí a escolha é sua!
As filhas do sumo sacerdote Anius transformavam o que quisessem em trigo, óleo em vinho. Atalida, filha de Mercúrio, ressuscitou diversas vezes. Esculápio ressuscitou Hipólito. Hércules resgatou Alceste da morte. Heres retornou ao mundo após passar uma quinzena no inferno. Os pais de Rômulo e Remo eram um deus e uma vestal virgem. O Paládio caiu do céu na cidade de Tróia. O cabelo de Berenice se tornou uma constelação. [...] Dê-me o nome de um povo em meio ao qual incríveis prodígios não aconteceram, especialmente quando poucos sabiam ler e escrever. - Voltaire (Questões Sobre os Milagres; 1770)
A Teoria da Verdade como
Correspondência nos assegura que um pensamento pode ser considerado verdadeiro
se a proposição que formula tal pensamento é verdadeira. Proposições gerais ou
universais devem ser encaradas como fundamentalmente hipotéticas, mesmo que
possam ser verdadeiras. E por isso é tão importante o caráter científico ao
reduzir seus problemas e limitar suas proposições, já que buscamos o
acercamento e o endereçamento da verdade. Começando humildemente,
poderemos construir proposições verdadeiras de grosso calibre, com no caso do
Modelo Padrão da Física.
A Metodologia Científica é um
sério e consequente conjunto de recomendações, ao que Gleiser jamais poderia
haver chamado de cientismo... O que é isso? E cientistas não passam de homens
neuropsicologicamente curiosos, obstinados, talvez ousados, e certamente sem
temores conservadores; homens buscando a verdade e falhando em encontrá-la –
mas inexoravelmente atidos a ela. E falhando poderemos aprender, e recomeçar; o
que parecia ser uma potencial falsificação da teoria newtoniana da gravidade no
caso da orbita calculada para Urano nos levou ao descobrimento de Netuno.
Mas voltemos à verdade, voltemos
à minha cadeira vermelha, afinal você pode estar esperando para me desbancar.
Então temos a seguinte proposição devidamente formatada, uma questão semântica
que pode ser submetida ao escrutínio da ciência: “Esta cadeira é
vermelha” é uma proposição verdadeira se, e somente se, esta cadeira é
vermelha.
Mas como podemos assegurar que o
vermelho que você vê é o mesmo que eu vejo? E como poderemos definir o que é ou
não vermelho? Simples: imaginem vocês que providencialmente eu trago comigo um
espectrofotômetro; um daqueles aparelhos que medem a frequência dentro do
espectro eletromagnético, podendo exprimir a cor em um número objetivo dentro
do sistema decimal, medido em comprimento de onda ou frequência - não
importando que sejamos daltônicos, portadores de catarata ou icterícia. Através
de uma singela convenção linguística concordaremos que comprimentos de onde
dentro de determinada faixa do espectro eletromagnético nos leva por
correspondência simples ao termo em português "vermelho".
Uma psicóloga amiga me interpelou
neste ponto: "Mas cálculos matemáticos são exatos?" Devo dizer que
sim, lato sensu, mesmo que esse não seja o caso aqui! Mas entendo a
confusão dela - stricto sensu. Ela, vocês e Gleiser estão
interessados no erro referente a esta medição; afinal, este é um equipamento
desenvolvido por físicos e engenheiros para medir o espectro da luz visível. Um
equipamento vendido pela Internet, e que apresenta um valor objetivo em um
display LCD, com uma precisão de 0,15 DE, levando apenas alguns segundos para
calcular o resultado. E se for discutir sobre cognição e cores, esteja segura
de conhecer os conceitos básicos relativos às disciplinas correlatas.
Diante de situações cotidianas
como esta, me preocupo em entender como um experimento tão trivial suscita
tanta contestação e controvérsia. Qualquer crendice, qualquer afirmação
descabida, tem maior respeito, autoridade e aceitação do que o conhecimento
objetivo de fenômenos naturais. Será o sistema educacional? Será a
relativização filosófica? Serão tendências neuropsicológicas? Ou a conjunção
sistêmica de todos estes fatores? Certamente não se trata de um problema
relativo às “limitações da ciência” – como afirma Gleiser... Outras limitações
e outras fronteiras estão em jogo; todas elas devidamente estudadas pela
Neurociência Cognitiva.
Consideremos algumas variantes do
Paradoxo do Mentiroso, sendo a mais antiga que se tem notícia a versão do
jônico Eubulides de Mileto, sucessor de Euclides de Mégara, ainda no século VI
AEC:
Um homem diz que ele está mentindo. O que ele diz é verdadeiro ou falso?
Ainda no século VI, o paradoxo
também foi associado a Epimênides de Creta, que teria dito:
Todos os cretenses são mentirosos.
Um tal "São Jerônimo"
teria aplicado o conceito a David, quando afirma nos salmos bíblicos que:
[...] Todos os homens são mentirosos. - Salmos [116:11]
Trata-se apenas de um truque
lógico, com uma confissão moral... Teofrasto, sucessor de Aristóteles,
escreveria três rolos de papiro sobre este "paradoxo", enquanto Crísipo
redigiria outros seis. Todo este trabalho e toda esta perda de tempo
silogística seriam enterrados pelas areias do tempo. Esta antinomia prova que
um argumento pode parecer lógico embora seja falso; e por vezes, como é o caso,
ridículo...
Esta frase não é verdade.
Verdadeiro ou falso? Logicamente
astuto, moralmente pouco recomendável ou desonesto. Tarski salientou que o
truque fundamental do Paradoxo do Mentiroso reside no uso de uma linguagem
semanticamente fechada ou negativa – conforme já foi explicado. E provar a
inexistência constitui um absurdo lógico, como já sabemos. Mas devemos fundar
aqui pelo menos duas ressalvas. Quando Sagan diz:
A ausência da evidência não significa evidência da ausência.
Faço a seguinte ressalva, anuindo
e ampliando:
A
ausência de provas não é prova da ausência;
muito
menos da existência.
Os argumentos contra a existência
de propósitos morais para o universo são vastos e fortes. E não existem
argumentos em favor de propósitos morais religiosos que não tenham sido
invocados por meio de mentiras, fraudes, falácias retóricas e engodos
semânticos... Nenhuma comprovação, nenhuma pista, nada! Por que devemos
considerar religiões – qualquer uma – como um domínio de conhecimento?
O Universo e a Vida estão
desenhados pela aleatoriedade e pela involuntariedade - quer gostem ou não.
Podemos inventar opiniões, mas não poderemos inventar fatos; não impunemente! E,
sem provas, fatos, ou evidências, não existe de fato conhecimento algum.
O que pode ser afirmado sem provas também pode ser rejeitado sem provas. – Christopher Hitchens
Ao que também concordo e amplio:
O que é afirmado sem provas
pode e deve
ser rejeitado.
Finalmente:
Quem nada sabe em tudo crê. – Jan Neruda
Isso opõe Ciência e religião, e
não as nivelas - nunca... Contemple e observe o Universo como ele realmente é,
e maravilhe-se com isso; e ensinemos aos nossos filhos como encarar as suas
próprias fronteiras sem verdades absolutas, nem mentiras politicamente
corretas, ou “alívios” que obliterem a LUCIDEZ. Considere a aterrorizante
possibilidade de que um ser humano, saudável por natureza possa estar privado
de vivenciar a realidade? Considere a possibilidade do desperdício desta vida?
Deus é um argumento autocontraditório, embora pareça tranquilizador; mas não
nos liberta como humanos plenos. Nas célebres palavras de Cornelius Tacitus:
Tranquilitas non Libertas.
Ao que modestamente agregaria:
Tranquilitas non Veritas.
Quando nos curvamos à autoridade
ou nos entregamos ao mero solipsismo, sem a submeter as nossas proposições ao
exame de sua pertinência, estaremos potencializando problemas de toda sorte nas
mais diversas áreas. Algumas disciplinas estão fundadas sobre falácias, e vivem
da autoridade e da idolatria, e impulsionadas pelo historicismo - como a
filosofia social, política, religiosa ou de relações humanas.
Diferentes modalidades de
fascismos pipocaram nas mãos de líderes carismáticos, messiânicos e totalitários.
Devotos e arrebanhados em torno de uma tal identidade nacional, estatal, racial
ou religiosa, foram convocados à luta derradeira contra alguma entidade
metafísica, demônios diversos, judeus, judeus, judeus, capitalistas,
materialistas, cientistas etc... Esta é a sina historicista, com origem na
lateralização de nossos hemisférios cerebrais - sendo esta outra tese.
Sabemos ainda pelo entendimento
do comportamento humano que algumas mentes estão mais capacitadas do que outras
para encontrar padrões e ordem em meio ao caos. Algumas mentes estarão ainda
destinadas a seguir e idolatrar líderes, enquanto algumas fantasiaram
doentiamente sobre a realidade. Alguns líderes estarão destinados à iluminação,
enquanto outros pretenderão, pela nevoa espessa e pela escuridão, um reinado de
medo. Alguns estarão fadados à generosidade e a solidariedade, enquanto outros
praticarão o mais sórdido egoísmo através de controle rígido e totalitário. O
narcisismo, a ambição, a pulsão de vida e a procriação darão o tom; estamos bem
distantes da savana africana, embora dispondo do mesmo aparato neural.
Vale notar que racionalismo e
sensibilidade emocional não são mutuamente exclusivos. São características
independentes e que podem até colidir em nosso cérebro, sendo estampado em
nosso comportamento; mas uma pessoa emocional não significa uma pessoa
irracional, e vice-versa. O sentimento é outra estória, é a verbalização da
sensação emocional pura; e, portanto, estará impregnado pela linguagem, pela
cultura, e por nossos estratagemas políticos. Daí tanta confusão.
Existem também pessoas que
praticam o sentimentalismo; ou seja, que usam o sentimento como estratagema e
alegando emoção... Daí a tal “espiritualidade”! A emoção é bioquímica,
involuntária, real, física, e comanda as nossas vidas - sempre. O hipocampo,
por exemplo, é responsável por selecionar e copiar trechos de nossa memória de
curo prazo em nossa memória de longo prazo. Este importante módulo neural
trabalha acossado pela emoção ou limitado pela falta dela. O racionalismo é uma
capacidade genética, neural e bioquímica, e que não anula a emoção; sendo
inclusive deflagrado por ela.
Gleiser comete muitos erros
crassos em sua retórica quando deixa de trabalhar em prol do conhecimento para
fazer o que chama de “estratégia diplomática”, e recusa a verdade. Ele comenta
que deu uma entrevista para uma rádio AM, diante de uma plateia composta por
pessoas simples – “operários e diaristas”; ao final, conta ele, foi interpelado
por um senhor “com rugas precoces no rosto sujo de graxa”:
Quer dizer que o senhor quer tirar até Deus da gente?
Conheci muitos senhores com rugas
prematuras mundo afora; e bem sei que o fenômeno da biologia da crença e o
efeito rebanho não escolhem classes sociais. Mas a crença em deuses, a tendência
a crendices sobrenaturais pode ser indutiva de piores condições sociais. De
qualquer forma, uma boa instrução definitivamente pode ser um fator limitante
no caso da tendência crente inata, e induzindo certa noção de lucidez e
liberdade; e um fator estimulante quando a neuropsicologia é fértil para o
convívio com a realidade. Mas vamos responder a Gleiser sobre a questão do
senhor com “rugas prematuras”:
Não será mentindo sobre deuses forjados
pelo historicismo para o mero controle político que o você aliviará o
sofrimento deste senhor!
Por que Gleiser não lhes falou
sobre os avanços em termos de Ciência Médica, com a redução da mortalidade
infantil e o aumento da expectativa de vida - conforme supracitados? Gleiser
não pensou que este senhor de rugas, por sua hesitação, e nesta mesma noite,
vai pagar o dízimo a algum estelionatário? Este humilde senhor, além de estar
livre da poliomielite, da varíola, do tifo, do sarampo, da morte prematura –
com o sem rugas -, poderia estar livre também de ser sumariamente roubado!
Aliás, este senhor tem a idade que tem, e pode orgulhar-se das rugas em seu
rosto porque confrontamos as superstições em favor da VIDA!
A ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento: são aqueles que sabem pouco e não aqueles que sabem muito que tão positivamente afirmam que esse ou aquele problema jamais será resolvido pela ciência. - Charles Darwin
No século XVIII, as velhas
crenças teológicas estavam sob fogo cruzado do livre-pensamento. Não obstante,
a vontade de crer era reativada, reaparecendo de forma delirante, sempre que uma
nova moda sobrenatural era encenada. A varíola foi uma destas oportunidades
para a ignorância religiosa desfilar o círio, e desatando uma tempestade de
protestos teológicos contra a razão... Um clérigo anglicano chegou ao cúmulo de
publicar um sermão onde afirmava que:
[Assim como] as pústulas de Jó eram devidas à inoculação do diabo, assim havia sucedido com a crescente epidemia de varíola.
Vários "ministros"
eclesiásticos escoceses escreveram manifestos contra a Ciência Médica e em
especial contra a recente descoberta da circulação sanguínea, os estudos de
anatomia, fisiologia, etc. – assim como o estudo de células-tronco em nossos
dias; afirmando que estávamos “tratando de desafiar o julgamento de deus” –
sobre quem deve ou não deve morrer, e quando... Mas a varíola responderia à
toda esta carolice com mais e mais mortes; quanto mais oravam e praguejavam
contra a Ciência, mais mortos. Os terrores teológicos foram acalmados pelo
terror imposto pela realidade da morte!
A controvérsia parecia declinar,
quando foi descoberta a VACINA. Os "clérigos" de todas as facções da
cristandade afirmaram em uníssono que:
[A vacina era um] insolente desafio aos céus, e à VONTADE DE DEUS.
Em Cambridge e na Sorbonne
universitários cristãos unidos pronunciaram sermões opondo-se à VACINA. O mais
grave sucedeu quando em 1885 e já no século XIX houve um disparo no número de
casos da doença em Montreal, Canadá; e a parte católica da população repudiou a
vacinação. Um sacerdote católico declarou que:
Se estamos afligidos pela varíola é porque comemoramos o carnaval no último inverno, festejando a carne e ofendendo ao Senhor.
As mortes vieram sem trégua sobre
os católicos; "deus", por alguma misteriosa razão, pouparia apenas
àqueles que foram vacinados...
Os Padres Oblatos, cuja igreja estava situada no coração do distrito infestado, seguiram denunciando a vacina; foi exortado aos fiéis para que se dedicassem a diversos tipos de devoção; com a permissão das autoridades eclesiásticas, foi ordenada uma grande procissão com um solene chamamento à Virgem, e foi cuidadosamente especificado o uso do rosário. (White; op. cit., v.II, p.60)
Pobres fiéis, aniquilados pela
varíola! Esta seria uma excelente estória para Gleiser contar ao “senhor de
rugas”; e sobre os mal entendidos envolvendo a nobre atitude científica – esta
sim, uma verdadeira "benção", se preferirem... E existem outros
tantos exemplos. O mesmo sucederia com o advento da descoberta dos efeitos
anestésicos do clorofórmio, pelo médico escocês Sir James Young Simpson
(1811—1870). Simpson, em 1847, recomendou o uso do clorofórmio para alívio das
dores no parto, ao que o clero lhe respondeu com Gênesis [3:16]:
E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. - Gênesis [3:16]
Simpson, no entanto, logrou
aprovar os anestésicos para os homens, salientando que:
Deus anestesiou Adão, adormecendo-o, antes de extrair sua costela.
Terrível! Sim, precisamos abolir
tudo isso, o Corão, a Torá, o Velho e o Novo Testamento, a RELIGIÃO; para
vivermos melhor, com mais saúde, paz, e em verdadeira harmonia. E não seremos
capazes da fazê-lo se não pudermos entender e combater o primeiro fundamento
contido em tais livros; i.e., o enaltecimento da ignorância pelo repúdio à
razão e ao entendimento, ao conhecimento REAL, factual, científico... E a
subsequente glorificação da submissão, da servidão e do conceito de manada.
Não seremos capazes de abolir
tais livros se não pudermos entender antes a clara sentença de morte à
consciência e àqueles que a conservam: os "hereges"... E não
poderemos dar este passo se não pudermos constatar também o preconceito, o
sectarismo, o racismo, a pulsão de MORTE, e o regozijo pela morte, contido em
tais mensagens apologéticas.
Precisaremos confrontar os dogmas
de tais sociedades extremamente preconceituosas, estratificadas, eliminando o
aspecto "pecaminoso" de escolher com quem se casar, ou não se casar,
e de viver como pretendemos; eliminando a figura absurda do dote, e enaltecendo
a figura do afeto entre parceiros, entre casais. Esta não é a supremacia de uma
cultura sobre a outra, senão a supremacia da liberdade sobre a opressão.
Precisamos enaltecer o valor PENSAMENTO repudiando o culto à SUBMISSÃO...
Se eu pudesse impedir o
sofrimento, eu o faria; se pudesse impedir o estupro, a violência contra
crianças, a opressão de indefesos, a injustiça, eu o faria. E isso, além da
coragem da verdade, me separa dos deuses... e os reduz a um pálido e doentio
facho de terror, medo, e covardia - que a Neurociência pode explicar.
Se
os deuses não se saíram bem com este mundo,
por
que se sairiam melhor em outro?
O
problema com as utopias é que nunca serão postas à prova.
E neste ponto devolvo a citação
apelativa de O Pequeno Príncipe a Gleiser - porque este gesto
de coragem é o verdadeiro gesto de amor:
Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. – Antoine de Saint-Exupéry (O Pequeno Príncipe)
Um homem de bem poder até seguir
em frente com sua preferência devota, mas não pode esconder a VERDADE alegando
que não existem verdades... E escutem a Galileu quando sabiamente adverte que a
melhor forma de endereçar a verdade é propor proposições bem demarcadas e
objetivas; questões genéricas e o truque da VERDADE ABSOLUTA só serve ao
propósito de destruir proposições claras e objetivas, e benéficas à VIDA. Sim,
porque diminuímos a mortalidade, a violência, e aumentamos a expectativa de
vida porque existem verdades... Mas subimos uma rampa em forma de serra, com
vieses locais de alta e baixa... mas avançando de forma contingente,
convergente e cega... E fascismos do tipo Lula-land, como presenciamos
em nosso país, destroem os sonhos de algumas gerações. Destacando mais uma vez
que existem gradações de erro, existem verdades, existem mentiras!
[...] não há testemunho suficiente para fundamentar um milagre, a menos que o testemunho seja tal que sua falsidade seria ainda mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer [...]. Peso um milagre contra o outro e, de acordo com a superioridade que descubro, pronuncio minha decisão e rejeito sempre o milagre maior. – David Hume
Outro tipo de desserviço intelectual
é o deboche... por vezes cínico... Charles Bukowski arrastou um rebanho de
tolos, pela vã idolatria, enquanto se autodestruía pública e narcisisticamente.
O mesmo fenômeno, com severos agravantes, pode ser dito do mito de Che Guevara,
um psicótico covarde e assassino. Sendo estas proposições amplamente
comprovadas - embora de outra classe de verificação: a documental.
Lutamos por essa indelével nuance que distingue o sacrifício do misticismo, a energia da violência, a força da crueldade, por essa nuance ainda mais sutil que separa o falso do verdadeiro, e o homem que almejamos nos tornar dos deuses frágeis que vocês reverenciam. - Albert Camus (Carta a um Amigo Alemão - I; 1943)
MAS SIM, EXISTEM VERDADES - mesmo
que não as queiram encarar... E relativizar a existência de proposições verdadeiras
tem sido o primeiro ato daqueles que logo em seguida passarão a reclamar
autoridade sobre a realidade - e sem apresentar qualquer tipo de prova, senão o
CINISMO e não raro o DEBOCHE... Mas estarei aqui para denunciar!
A Filosofia não consistiria afinal em fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora? Ela duvida da existência, mas fala seriamente do "Universo". - Paul Valéry (O Homem e a Concha)
Homens “tementes a deuses”
realizaram proezas intelectuais e científicas; sempre e quando atuaram como
cientistas, como homens livres, e avessos à necessária submissão dogmática
religiosa – exercida pelo temor... Homens religiosos emularam comportamentos
científicos, e vice-versa. Então, separem conceitos e ideias de homens, e
credos ou temores de atitudes...
O que é necessário não é a vontade de acreditar, mas o desejo de descobrir, que é justamente o oposto. - Bertrand Russell
Sob o obscuro pretexto de não
atingir a perfeição muitos deixam de fazer a sua parte, capengando, e impedidos
de culminar naquilo que realmente importa: PROGRESSAR!
Algumas pedras da tradição devem ser
preservadas - poucas;
mas não por respeito às pedras, mas por amor aos
homens...
FELIZ DO HOMEM QUE PODE OPTAR
PELA VERDADE!
Q.E.D.
Carlos Sherman
A CIÊNCIA DO ERRO | Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva - Parte 1: Uma resposta a Marcelo Gleiser
A CIÊNCIA DO ERRO
Sobre Verdades,
Veracidade e Realidade Objetiva
Parte
1: Uma resposta a Marcelo Gleiser
Dedicado ao meu amigo Edson Lopes
mas não sobre as mesmas coisas.
Albert Einstein
ENDEREÇAR A VERDADE CONSISTE EM
CONHECER OS FATOS, NÃO AS OPINIÕES... E é exatamente isso que praticamos todos
os dias no campo da Justiça, baseado no vigoroso e inefável princípio do onus
probandi... Neste artigo em especial citarei
muitos dos homens notáveis sobre os ombros dos quais este anão que vos dirige a
palavra subiu para ver mais longe... muito mais longe!!!
----------------------
Einstein
disse com insuspeita ironia que somos todos ignorantes, mas não sobre as
mesmas coisas; e poderíamos ainda apendar o célebre pensador ashkenazi destacando
a escala da ignorância e a gradação do erro associado ao feito - ou desfeito,
ou defeito! Somos todos ignorantes, sim, mas não sobre as mesmas
coisas, nem no mesmo grau...
Certa feita, o físico Isaac
Asimov recebeu uma carta de um licenciado em literatura inglesa que muito vem
ao caso:
Um jovem especialista em literatura inglesa, tendo me citado, passou a me repreender severamente sobre o fato de que, através dos séculos, as pessoas pensavam ter compreendido finalmente o universo, e através dos séculos ficou provado que estavam errados. Isso significava que a única coisa que podemos dizer sobre o nosso conhecimento ‘moderno’ é que ele está errado. - Isaac Asimov (A Relatividade do Erro; 1989)
Asimov brilharia em sua resposta:
Quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, estavam erradas. Quando as pessoas pensavam que a Terra era – ‘exatamente’ [grifo meu] - esférica, estavam erradas. Mas, se você considera que ‘pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana’, então a sua visão está mais errada do que as duas juntas. - Ibidem
Ele explicaria ainda que as
pessoas sempre buscam certezas ou negações absolutas. Agrego que as pessoas
estão platonicamente aprisionadas em uma fantasiosa expectativa de perfeição;
de forma que se alguma coisa não é "exatamente" ou
"absolutamente" perfeita então ela estará totalmente errada; e isso
não nos leva a nada. Existem gradações de erros, sentenças verdadeiras e falsas,
e a veracidade de proposições pode conter um grau de força; e a ostentação de
verdades absolutas somente serve ao propósito de turvar a visão crítica diante
da realidade objetiva.
Quando um suposto divulgador
científico como Gleiser [o Marcelo] chama pejorativamente o honesto e abnegado
esforço humano na busca pelo conhecimento de "objetivismo", ele está
alimentando a confusão reinante, e acirrando o falacioso debate sobre razão
versus emoção, ou sobre conhecimento versus sensibilidade.
"Objetivismo" é
particularmente abjeto, irresponsável, e injustificável, partindo de alguém que
se declara comprometido com o conhecimento e seus critérios de validez; sempre
lembrando que um tapa na cara da racionalidade corresponde a um tapa na cara da
verdade... Podemos sim endereçar a verdade, sendo este o
propósito da investigação científica - muito embora não seja a sua fonte de
inspiração... Somos inspirados pela beleza da vida, por nossas paixões, amores,
e pela devoção a estes amores e princípios. E aqui discordo de outro conceito
da “ilha” de Gleiser (A Ilha do Conhecimento – Os Limites da Ciência e A
Busca Por Sentido; 2015), quando o autor afirma que a motivação científica
seja a "ignorância". Na verdade, pretendemos escrever a poesia da
realidade - e por amor!
Aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro. Porque a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não pode ver o fundo. Tem tanto medo! Gosta tão pouco de se meter na água! - Friedrich Nietzsche (A Gaia Ciência; 2012)
Sob o pretexto de uma tal
"verdade absoluta", Gleiser questiona a existência de verdades, e da
própria análise objetiva sobre a veracidade de proposições - assim como o
professor de literatura de Asimov. Gleiser alega procurar "sentido em sua
vida", disparando contra a CIÊNCIA e contra o conhecimento... Mas não
demonstra mais do que suas próprias e covardes limitações. Aliás, Galileu,
célebre “cavaleiro do apocalipse”, salvaguardaria o vigor de sua lucidez e à postos, tendo escolhido ridicularizar crendices
infundadas, as mesmas professadas por Gleiser - quando disse que:
Io stimo più il trovar un vero, benché di cosa leggiera, che `l disputar lungamente delle massime questioni senza conseguir verità nissuna. / Mais estimo encontrar uma verdade sobre qualquer assunto leve do que entrar em uma disputa longa sobre máximas questões sem atingir verdade nenhuma. - Galileu Galilei
Mas Galileu também esteve
equivocado algumas vezes, como no notório caso dos anéis de Saturno; afinal,
com o seu parco instrumento de trabalho e as compreensíveis dificuldades com o
foco, os famosos discos lhe pareceram dois astros mais ladeando o planeta. Mas
os acertos de Galileu, seu exemplo e vida, valem muito mais do que seus evidentes
equívocos – e Gleiser deveria saber disso.
Por exemplo, enquanto
especulávamos sobre a planura da Terra estivemos equivocados; mas tratávamos de
endereçar a verdade, afinal a curvatura da superfície terrestre está sim muito
próxima de zero. Este erro refletia as limitações instrumentais para a época;
mas também, e sobretudo, refletia as limitações em termos de critérios para o
conhecimento. Ainda não havia uma concisa teoria para o conhecimento, nem
estatutos, nem recomendações formais, ou uma metodologia para o conhecimento
que estabelecesse um universo de validez, indicando a margem de erro esperada
no confronto com a realidade. As "verdades" eram publicadas com
ansiedade e alarde; e, portanto, sem critérios. Tudo estava por saber, e não
sabíamos ao certo como saber.
Mas os tempos mudaram, e mudaram
com o filósofo grego Erastóstenes (276-195 AEC), um “gênio do tamanho da
Terra”... que seria o primeiro a notar que a longitude das sombras em relação
ao mesmo horário do dia variava com a latitude onde a medição fosse procedida. Erastóstenes
sabia que no vigésimo primeiro dia do mês de Junho aconteceria o Solstício de
Verão na cidade de Siena; e que, precisamente ao meio dia o Sol brilharia
direto dentro de um poço, iluminando “o seu fundo sem que nenhuma sombra se
projetasse em suas paredes”; isso, enquanto em Alexandria exatamente à mesma
hora ainda haveriam sombras projetadas sobre a parede.
Erastóstenes inferiria, então,
que a Terra devia ser esférica; uma revolução para o seu tempo. Com ajuda da
trigonometria, considerando a distância entre Siena e Alexandria e o ângulo
formado por este arco em relação ao “centro da Terra”, ele calculou a curvatura
correta da Terra. Isso foi medido em “passos” e “estádios”, e envolveu
“sombras”; tudo muito impreciso, embora engenhoso, perspicaz, apaixonante e
científico...
Endereçávamos a verdade com ainda
mais acuracidade, ao que hoje podemos adicionar algumas casas decimais,
calculando a curvatura da Terra em 0,0000786 por quilômetro. Isso seria crucial
para que pudéssemos revisar toda a cartografia da época... E os mapas,
palmo-a-palmo, passariam a ser muito mais precisos, a navegação revolucionada,
e o mundo redescoberto. Tudo isso graças ao gênio e à ousadia de Erastóstenes -
e apesar do erro irremediavelmente incorporado pelas limitações de seu tempo.
A ciência, meu rapaz, é feita de erros, mas estes são erros uteis de serem cometidos, pois nos conduzem pouco a pouco à verdade. - Jules Verne (Viagem ao Centro da Terra)
Agora a Terra era uma “esfera”
perfeita, o que também estaria equivocado por algum tempo. Observando os céus e
os demais planetas, o gênio investigativo de Newton demonstraria que a massa
terrestre em rotação sofria um acentuado achatamento nos polos. Medidas mais
precisas nos permitiriam calcular o grau de elipsidade da
Terra. A Terra esferoide ainda seria muito mais próxima de seu passado esférico
do que de seu passado plano - e diminuindo a gradação de erro. Uma esfera
prefeita nos daria uma curvatura em torno de 12,5 cm/km, enquanto a curvatura
elíptica varia de fato entre 12,657 e 12,472 cm/km. Estávamos chegando lá!
Este raciocínio conduzido por
Asimov, lato sensu, nos permite dizer que julgar a Terra
esférica é muito mais correto do que considerá-la plana; e tal noção tem enorme
impacto sobre as nossas vidas. Também podemos dizer que julgar a Terra plana é
muito mais incorreto do que julgá-la esférica, com os mesmos e severos impactos
sobre o nosso convívio com a realidade objetiva. E ensinar tais
princípios, valorizar o endereçamento obstinado da verdade, é muito mais
produtivo do que destacar a imprecisão deitada sobre o caminho...
Mesmo o nosso esferoide perfeito
seria revisado em 1958, quando o satélite Vanguard I entrou na orbita da Terra.
Uma literal vanguarda científica seria capaz de medir a forma de nosso planeta
com uma precisão sem precedentes. Descobrimos que nos parecíamos com alguma
coisa entre uma pera e uma batata – flutuando e rodopiando no espaço. Correções
da ordem de milionésimos de centímetros por quilômetro foram procedidas, e aqui
estamos – graças ao gênio de Erastóstenes!
Vivemos um conflito
neuropsicológico de ordem evolutiva; somos causais, dicotômicos, lineares,
animistas, essencialistas, intencionalistas, maniqueístas, e tateamos
assustados no terceiro milênio, utilizando cérebros de 150.000 anos, adaptados
à savana africana... Vagamos perdidos em uma espécie de gangorra de absolutos,
tudo ou nada, certo e errado, bom ou mal. Estamos presos aos valiosos instintos
da categorização e do reconhecimento de padrões; e isso, por convenção, se
chama inteligência... Mas nos equivocamos, ou tropeçamos em imprecisões... e
portanto necessitamos de uma metodologia para a validez de nossos avanços,
assim como a análise crítica independente de nossos pares ou rivais... E é
assim que consolidamos um corpus de conhecimento humano... global...
Isso, enquanto a realidade se descortina
livre, desimpedida, solicitando o contínuo registro de acertos, sempre
associado à sua imprecisão ou erro... assumido! Esta atitude ética conforma
avanços objetivos. O absolutismo, o generalismo, e seu homólogo, o relativismo,
tem se prestado ao inconsequente e especioso propósito de justificar medidas
autoritárias e dogmáticas, alegando a impossibilidade de exatidão. Pois
não seria sempre bem melhor acender um pequeno lampejo de luz do que tropeçar
na escuridão?
Hoje sabemos que a mecânica genética
de nosso corpo evoluiu para mitigar os erros e mutações em nosso DNA. É isso
mesmo, o código genético tem um mecanismo autocorretivo, e desta forma estamos
menos sujeitos a mutações drásticas do que estivemos no passado. E podemos
dizer que a Ciência conta hoje com o mesmo sofisticado mecanismo: o Método
Científico, o Método Dedutivo Baseado em Prova (Popper). De forma que a
falibilidade assumida da Ciência de hoje em diante está muito menos sujeita a
erros crassos do que esteve no passado das crenças.
[...] talvez a Terra seja esférica agora, mas um cubo no próximo século, e um icosaedro oco no próximo, e com a forma de donuts no seguinte. O que ocorre, na realidade, é que quando os cientistas conseguem elaborar um bom conceito, eles gradualmente o refinam e ampliam, com crescente sutileza, à medida que seus instrumentos de medição melhoram. As teorias não estão tão equivocadas, mas incompletas. – Isaac Asimov (Ibidem)
Não é tão importante definir se
este valoroso processo se estenderá indefinidamente ou não, absolutamente ou
não; mas, sobretudo, devemos considerar o bem que este honesto trabalho provê;
na medida em que inescapavelmente ilumina o que antes era escuridão. O
importante não é a perfeição, senão progressar... Assim, em 250
anos de maturidade científica, triplicamos a expectativa de vida adormecida
desde o Homem de Cro-magnon, há 50.000 anos, reduzimos em quarenta vezes a
mortalidade infantil, e a violência em cem vezes... enquanto a população foi
multiplicada sete vezes.
Hoje, muitas teorias que alcançam
o status de revolução científica não passam de um conjunto apropriado
manipulações e refinamentos de um corpus de conhecimento pregresso; como quando
Copérnico nos levou de um sistema centrado na Terra para um sistema centrado no
Sol. Copérnico estava desafiando o que parecia ser óbvio com algo que soava
ridículo. Aristarco de Samos e Erastóstenes viveram a mesma experiência... O
personalismo do empenho científico também cedeu lugar ao trabalho independente
de grupos e escolas, promovendo conclusões conscilientes.
Normalmente, e há algum tempo,
vivemos de refinamentos; caso contrário, e considerando a autorregularão e
autocorreção científica em voga, uma teoria estapafúrdia teria vida muito
curta. Exemplos pífios como a “fusão a frio” não passaram de pseudociência, e
não resistiram o crivo científico mais elementar. Isso nos deveria alertar
ainda mais sobre a necessidade de aprimorar nossos critérios, e não
desconsiderá-los – como Gleiser e o “professor de literatura” sugerem.
Voltando a Copérnico, e por mais
que a proposição heliocêntrica parecesse revolucionária, todo este alvoroço não
passou de um problema político-religioso – da alçada do “absoluto” e do
“absolutismo”. Cientificamente, no entanto, tratava-se de um refinamento
teórico em relação aos movimentos dos já conhecidos corpos celestes. Seria a
autoridade religiosa Católica, expressa em seu "livro negro" ou Index,
quem elevaria o trabalho de Copérnico à condição de heresia - sete décadas
depois de sua publicação em 1616, e lá permanecendo até 1822; mas já era tarde,
e o estrago já estava feito...
Copérnico pretendia apenas
encontrar um modelo que melhor acomodasse a realidade de suas observações
celestiais. Neste caso, e em especial, apesar de toda a gambiarra incorporada
ao modelo aristotélico-ptolomaico, a sobrevivência do antigo - “salvando a
teoria” platonicamente - só seria possível, e por tanto tempo, devido à força
da autoridade político-religiosa vigente.
A Teoria da Evolução enfrentaria
os mesmos credos e as mesmas barricadas:
[...] as formações geológicas terrestres mudam muito lentamente, assim como os seres vivos evoluem tão lentamente, que parecia razoável no início supor que não havia mudanças, e que a Terra e a Vida sempre existiram como são até hoje. Sendo assim, não faria diferença se a Terra e a Vida tivessem bilhões de anos de antiguidade, ou somente milhares. Milhares era mais fácil de compreender. - Ibidem
A exemplo do entendimento sobre a
curvatura terrestre, quando medições mais precisas revelaram que a Vida evoluía
em um ritmo muito lento, porém vigoroso, pudemos aprofundar também a
compreensão sobre a idade da Vida. Nasciam a Geologia Moderna, a Evolução, e a
Biologia.
É apenas porque a diferença entre taxa de variação em um universo estático e a taxa de variação em um universo em evolução está entre zero e muito próximo de zero que os criacionistas podem continuar a propagar seus disparates. - Ibidem
O raciocínio também se aplica ao
mundo dos micro-organismos. Um mundo de escalas invisíveis estava escondido de nós;
e toda sorte de crendice seria erigida para preencher as lacunas diminutas hoje
ocupadas pela Microbiologia. Cotidianamente, usávamos dizer – e muitos ainda o
fazem: “menino, não tome esta friagem porque você vai ficar gripado”.
Recentemente ouvi tal disparate de uma amiga microbiologista, para quem o filho
descalço resultaria resfriado. Tratei de recordá-la de dois aspectos: primeiro,
como microbiologista, ela estava obrigada a bem conhecer a origem viral das
gripes e resfriados; depois, como bióloga, seria imperdoável que ela não
recordasse que a seleção natural jamais teria poupado nórdicos, russos, além
dos inuits, se tal conjectura sobre a "friagem" fosse
minimamente verdadeira.
Os "sábios" conselhos
da dita "medicina popular" ou "medicina alternativa" estão
todos sub judice depois que a ciência adentrou o mundo secreto
dos microrganismos, e ajustando a sua escala para uma compreensão profunda e
necessária da natureza: a realidade em uma Placa de Petri... Deuses
e tradições evaporavam no ar, enquanto a Ciência aprimorava seus métodos e
instrumentos e reduzia suas escalas. O caminho estava aberto para a descoberta
dos antibióticos, vacinas, medicamentos... e mais vida - a partir da vida
obstinada de homens como Pasteur.
O gap entre o
conhecimento disponível no acervo científico humano e a nossa práxis popular
é gigantesco. Com a desculpa de que "não sabemos tudo" permanecemos
proibidos de saber, ou "sem saber nada" sobre quase tudo. Apenas
tangenciávamos a realidade; mas não éramos capazes ou encorajados a mergulhar
nesta maravilhosa realidade... Na POESIA DA REALIDADE! Quando escrevi FIAT
LUX - O Homem, Memória do Universo estabeleci como missão colateral
interessar meus leitores pela realidade, despertando a curiosidade em
conhecê-la por dentro... além da realidade sobre nossa própria
realidade.
O conhecimento científico
disponível está muito mais perto de um eventual conhecimento último - em cada
uma de suas fronteiras – do que o fulano médio está da linha de largada para o
conhecimento do ensino fundamental. A maioria de nós sequer começou a jornada
do conhecimento, e sequer chegou na marca onde diz: ZERO.
O físico Marcelo Gleiser diz que
o conhecimento é como uma “ilha” em meio ao desconhecido; e que quanto mais
esta “ilha” cresce maior serão as suas fronteiras. É verdade. Mas quanto mais
esta ilha do que é conhecido cresce, por mais que haja novas fronteiras, menor
será o espaço lá fora - ou daquilo que ainda não conhecemos. Afinal, o Universo
é finito, assim como finita é a sua estrutura.
Hoje, ainda podemos chutar uma
pedra sem ressalvas, mas pensaremos duas vezes antes de pisar em uma formiga ou
esmagar um mosquito, e jamais consideraremos a hipótese de maltratar um
cãozinho. Estas são conquistar recentes, afinal aprendemos sobre a complexidade
dos sistemas neurais, e sabemos que muitos seres vivos sentem dor e vivenciam o
sofrimento neuropsicológico.
Por isso, avançamos sobre o
oceano de ignorância que nos cercava - arbitrado pela crença de que o homem era
uma espécie de “escolhido”, e sendo o único sujeito à dor. Ainda assim, na
Bíblia e em Aristóteles, alguns homens são mais escolhidos do que outros, e a
escravidão é amplamente aceita e recomendada. Matar um infiel - na Bíblia e no
Corão - é antes um dever... Pelo humanismo, pela iluminação científica, sabemos
que isso não é correto. Tais fronteiras não aumentaram a nossa ignorância, mas
certamente abriram novos caminhos dentro da “ilha”.
O conhecimento avança, e a região inexplorada recua [...] com nosso conhecimento expandido. – Linda Randall
Um dia, este espaço tomado pelo
desconhecido representou a diferença entre morrer na selva de dor de dente aos
23 anos ou ministrar uma dose de 500 mg de Cloridrato de Tetraciclina, e voltar
a sorrir por mais 40, 50, 60 anos... O importante, portanto, não é chegar ao
fim de seja lá o que for, mas seguir em frente, curtir a viagem, viver uma vida
digna, útil, e prazenteira; contribuindo como parte de um organismo maior
chamado: Humanidade.
Gleiser insiste, sob o
tendencioso pretexto de que a Ciência não poderá ser exata ou completa, que uma
tal “espiritualidade” ainda mais inexata e na verdade “irreal” poderá ser
invocada para preencher tais lacunas.
Uma balança mede o nosso peso com precisão dada pela metade de sua menor graduação: se a escala é espaçada por 500 gramas, só poderemos aferir o nosso peso com precisão de 250 gramas. Não existe medida exata: toda medida deve ser expressa dentro da precisão do instrumento usado e o faz com ‘barras de erros’. [...] uma medida de 70 quilos deve ser expressa como 70 +/- 0,25 kg [...]. Não existem medidas perfeitas, sem erro. - Marcelo Gleiser (A Ilha do Conhecimento)
Sim, mas e daí? Uma balança
caseira de precisão de uma ou duas casas decimais está sob um crivo mais frouxo
em termos científicos; mas quanto mais ciência mais exatidão. Medimos a
temperatura média do Universo com precisão de 5 casas decimais. Não há como ser
"exato", "absoluto", mas e daí? Indicar a margem de erro é
uma lição Ética da Ciência, e não o contrário. Deus e a religião não indicam
suas margens de erro; e seus fies seguidores simplesmente justificam isso
alegando que "o absoluto a deus pertence", ou é “incognoscível”...
Mas não precisamos da perfeição, já que a natureza e o universo emergem da
imperfeição e da diferença. O argumento de Gleiser é pois meramente platônico,
para não dizer falacioso e desonesto.
Asimov parece concordar com isso,
e tem algo mais a dizer sobre a Ciência e a escuridão:
Existe apenas a Luz da Ciência, e acendê-la em qualquer lugar é como acendê-la em todos os lugares. - Isaac Asimov (A Relatividade do Erro)
Em busca do exato, do absoluto,
do “espiritual”, nos esquecemos ou simplesmente desconhecemos a existência de
gradações de erro - uma falibilidade assumida na atitude científica, e
sendo essa sua maior fortaleza, e não o contrário. Saber de tudo, repito, é
um agravante religioso, e não científico. Esta atitude covarde ou amedrontada
diante da vida, politicamente ou falsamente "correta", orquestrada ou
não, é o que mais prejudica o avanço científico e humano.
Quem pensa ver algo sem falhas, pensa naquilo que nunca existiu, que não existe, e que nunca existirá. - Alexander Pope
O vigoroso e genial físico
Richard Feynman dá o seu depoimento:
Um princípio de pensamento científico corresponde a uma espécie de honestidade incondicional [...].
É esta honestidade incondicional
ou Ética que reside no Ceticismo Científico; confrontando a vacuidade das
crenças e os discursos persuasivos, que trabalham nas sombras e em favor de
mentiras, interesses e sandices. Isso porque as crenças se baseiam apenas na
caprichosa, débil ou vã vontade de acreditar. Não se pode, de forma alguma,
comparar a nobre atitude de tornar-se ciente pelo confronto de hipóteses sérias
e consequentes com a realidade, com a autoridade especiosa de velhas ou novas
convicções.
Não se pode usar como desculpa a
falibilidade assumida da ciência para validar crenças. Uma verdade científica
tem uma validez e universo de aplicação, assim como seu erro assumidamente
demarcado, e que estará sob crivo constante, acirrada revisão, e variada
fiscalização, sendo esta a maior fortaleza da Ciência, e não o contrário - insisto...
Sobre a pretensa crítica ao erro
científico, devo reagir lembrando que dogmas religiosos não podem ser revistos,
e por isso mesmo sua defesa se faz com cinismo, agressividade, violência; e no
passado médio, por meio dos artefatos do terror "inquisitório".
Asimov nos ensinou sobre a relatividade do erro e não da VERDADE...
E insisto que nenhum debate dito
filosófico ou político – e sob nenhum pretexto - estará isento da necessidade
de entender antes sobre a realidade e os subsequentes parâmetros que regem a
nossa tênue lucidez neuropsicológica.
Inventamos a
Ciência, em última análise,
para testar a
nossa própria lucidez!
Pinker nos remete com
brilhantismo à nossa origem biológica:
Nossa mente evoluiu pela seleção natural para a adaptação, e não para a busca da verdade. - Steven Pinker (Como a Mente Funciona; 2003)
Um anúncio afixado diante de uma
igreja batista americana da seita New Canaan [ou Nova
Canaã], alertava no terceiro milênio:
Um livre pensador é um escravo de Satã.
Sei que Gleiser alegará que esta
congregação é doentia, ou que ele não fala “desse tipo de espiritualidade”, mas
crimes contra a liberdade de pensamento sempre estão associados à religião.
Com ou sem religião, pessoas boas podem se comportar bem e as pessoas ruins podem fazer o mal; mas para que pessoas boas façam o mal, elas precisam de religião. - Steven Weinberg (discurso em Washington em 1999)
Sobre os “limites do
conhecimento”, Asimov desafia:
Se o conhecimento pode nos trazer problemas, não será através da ignorância que iremos resolvê-los.
Gleiser insiste na escuridão
científica justificada por sua inexatidão e reducionismo, mas tolera sem pesos
ou medidas uma tal “espiritualidade”. Convido a advertência de Sagan no adágio
de abertura de seu inesquecível O Mundo Assombrado por Demônios:
É melhor acender uma vela do que praguejar contra a escuridão.
Por que escrever uma obra para
ressaltar os limites da Ciência, se as fronteiras continuam “dentro da ilha”? E
como Gleiser citou a Lucrécio - inestimável livre pensador - de forma
desonesta, eu respondo também com o vigoroso e corajoso Lucretius:
Assim como as crianças tremem e têm medo de tudo na escuridão cega, também nós, à claridade da luz, às vezes tememos o que não deveria inspirar mais temor do que as coisas que aterrorizam as crianças no escuro. - Titus Lucretius Carus (De Rerum Natura [ou Sobre a Natureza das Coisas]; 60 AEC)
Devo lembrar a Gleiser que
Lucrécio foi o verdadeiro algoz histórico dos deuses, sendo seguido por Jean
Meslier, para que Nietzsche levasse a fama. Mas existem verdades? Existe uma
verdade absoluta? A primeira questão é objeto de trabalho da Ciência, a segunda
parte de pressupostos fechados e dogmas religiosos; mas podemos sim afirmar que
existem verdades, existem asserções verdadeiras, assim como proposições mais
corretas do que outras, e diferentes gradações de erro. E sabemos disso com
ainda mais segurança depois de Tarski, Russell, Frege, Popper, Sagan e
Asimov...
FELIZ DO HOMEM QUE PODE OPTAR
PELA VERDADE!
Q.E.D.
Carlos Sherman
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