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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A CIÊNCIA DO ERRO - Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva



A CIÊNCIA DO ERRO - Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva
[Uma resposta a Marcelo Gleiser]

"Somos todos ignorantes, mas não sobre as mesmas coisas" - Albert Einstein

E poderíamos apendar as palavras do célebre pensador ashkenazi para salvaguardar também a questão da escala da ignorância, assim com a gradação do erro associado ao feito - ou desfeito, ou defeito! Somos todos ignorantes, sim, mas não sobre as mesmas coisas... e nem na mesma gradação... 

Respondendo a um tal Daniel, enquanto debatíamos sobre a última eleição brasileira, afirmei que 'sim' existem proposições verdadeiras e falsas - não importa o tema. E podemos 'sim' atestar a força, veracidade, ou falsidade, de proposições; e devemos nos preocupar com isso, para viver melhor, de forma mais ética e justa... E contra toda sorte de relativismos oportunistas, podemos ainda dizer que 'sim' existe uma realidade objetiva. Aguardem até o fim, e entenderão.

Certa feita Asimov recebeu uma carta de um licenciado em literatura inglesa - e não iniciado na busca pelo conhecimento - que muito vem ao caso neste momento - motivo pelo qual devo citá-lo:

“Um jovem especialista em literatura inglesa, tendo me citado, passou a me repreender severamente sobre o fato de que, através dos séculos, as pessoas pensavam ter compreendido finalmente o universo, e através dos séculos ficou provado que estavam errados. Isso significava que a única coisa que podemos dizer sobre o nosso conhecimento ‘moderno’ é que ele está errado.”

Asimov brilharia em sua resposta:

“Quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, estavam erradas. Quando as pessoas pensavam que a Terra era – ‘exatamente’ [grifo meu] - esférica, estavam erradas. Mas, se você considera que ‘pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana’, então a sua visão está mais errada do que as duas juntas.” - Isaac Asimov (‘A Relatividade do Erro’; 1989)

Asimov explicaria ainda que as pessoas estão sempre em busca de certezas absolutas, ou negações absolutas. As pessoas estão platonicamente aprisionadas em uma falsa noção de perfeição; de forma que se alguma coisa não é "exatamente" ou "absolutamente" perfeita então ela estará totalmente errada. Acrescento que isso nos conduz a falácias retóricas e cognitivas, ou ao nada vezes nada... uma tradicional forma de fugir às nossas responsabilidades mais básicas, como entender e superar problemas. Existem gradações de erros, sentenças verdadeiras e falsas; e a ostentação de verdades absolutas somente serve ao propósito de turvar nossa visão crítica diante da ‘realidade objetiva’ – à qual Gleiser [o Marcelo] chama pejorativamente de "objetvismo"; impedindo que possamos diminuir a confusão reinante, optando por posições mais acertadas e melhores do que outras - e sem relativismos de ocasião.

"Objetivismo" é particularmente abjeto, irresponsável, e injustificável, partindo de alguém que alega pensar de forma racional e "científica"; sempre lembrando que um tapa na cara da racionalidade corresponde a um tapa na cara da verdade... Podemos sim ‘endereçar a verdade’, e este é o propósito da investigação científica - muito embora não seja a sua principal fonte de inspiração... Somos inspirados pela beleza da vida, por nossas paixões, amores, e pela devoção a estes amores e princípios. E aqui discordo de outro conceito da “ilha” - ('A Ilha do Conhecimento – Os Limites da Ciência e A Busca Por Sentido'; 2015) de Gleiser, quando alega que a motivação científica seja a "ignorância". Na verdade, pretendemos escrever a poesia da realidade - e por amor...

Sob o pretexto de uma verdade absoluta, Gleiser questiona que existam verdades - assim como o professor de literatura de Asimov... Gleiser levanta-se para procurar "sentido em sua vida", disparando contra a CIÊNCIA, contra o conhecimento... Mas não demonstra mais do que suas próprias e covardes limitações. Aliás, Galileu, um célebre “cavaleiro do apocalipse”, tendo escolhido ridicularizar crendices infundadas com as de Gleiser, salvaguardaria o vigor de sua lucidez, e a postos, quando disse que:

“Io stimo più il trovar un vero, benché di cosa leggiera, che `l disputar lungamente delle massime questioni senza conseguir verità nissuna. / Mais estimo encontrar uma verdade sobre qualquer assunto leve do que entrar em uma disputa longa sobre máximas questões sem atingir verdade nenhuma.” - Galileu Galilei

Mas Galileu também esteve equivocado algumas vezes, como no notório caso dos anéis de Saturno; afinal, com o seus parcos instrumentos de trabalho, os discos lhe pareceram como dois astros mais ladeando o planeta. Mas os acertos de Galileu e seu exemplo e vida valem muito mais do que seus evidentes equívocos – e Gleiser deveria saber disso.

Enquanto especulamos sobre a planura da Terra, estivemos equivocados; mas tratávamos de endereçar a verdade, afinal, a curvatura da superfície terrestre está 'sim' próxima de zero. Este ‘erro’ refletia as limitações instrumentais para a época; mas, e sobretudo, refletia as limitações em termos de critérios para o conhecimento. Ainda não havia uma concisa teoria para o conhecimento, nem estatutos, nem recomendações formais, ou uma metodologia para o conhecimento que estabelecesse um universo de validez, indicando a margem de erro esperada no confronto com a ‘realidade’. As ‘verdades’ eram publicadas com ansiedade e alarde, e, portanto, sem critérios. Tudo estava por saber, e não sabíamos ao certo 'como saber'.

Mas os tempos mudaram... e mudaram com o filósofo grego Eratóstenes (276-195 AEC), um “gênio do tamanho da Terra”; e que seria o primeiro a notar que a longitude das sombras em relação ao mesmo horário do dia variava com a latitude onde a medição fosse procedida. Eratóstenes sabia que no vigésimo primeiro dia do mês de Junho aconteceria o Solstício de Verão na cidade de Siena, e que, precisamente ao meio dia, o Sol brilharia direto dentro de um poço, iluminando “o seu fundo sem que nenhuma sombra se projetasse em suas paredes”; isso enquanto em Alexandria, exatamente à mesma hora, ainda haveriam sombras projetadas sobre a parede.

Eratóstenes inferiria, então, que a Terra deveria ser esférica; uma revolução para o seu tempo. Com ajuda da trigonometria, considerando a distância entre Siena e Alexandria, e o ângulo formado por este arco em relação ao “centro da Terra”, ele calculou a curvatura correta da Terra. Isso foi medido em “passos” e “estádios”, e envolveu “sombras”; tudo muito impreciso, embora engenhoso, perspicaz, apaixonante e científico...

Endereçávamos a verdade com ainda mais acuracidade, ao que hoje podemos adicionar algumas casas decimais, calculando a curvatura da Terra em 0,0000786 por quilômetro. Isso seria crucial para que pudéssemos revisar toda a cartografia da época;  e os mapas, palmo-a-palmo, passariam a ser muito mais precisos, a navegação revolucionada, e o mundo ‘redescoberto’... Tudo isso graças ao gênio e à ousadia de Eratóstenes, apesar do ‘erro’ irremediavelmente incorporado pelas limitações de seu tempo...

“A ciência, meu rapaz, é feita de erros, mas estes são erros uteis de serem cometidos, pois nos conduzem pouco a pouco à verdade.” - Jules Verne ('Viagem ao Centro da Terra')

Errar nos permite o desafio, mas necessitaremos entender onde estamos errando para aprender... Não basta errar, porque não é o erro que conduz ao conhecimento, mas sim o correto entendimento sobre porque erramos, para promover a mitigação do erro - ou cometer novos erros...

Agora a Terra era uma “esfera” perfeita, o que também estaria equivocado por algum tempo. Observando os céus e os demais planetas, o gênio investigativo de Newton demonstraria que a massa terrestre em rotação sofria um acentuado achatamento nos polos. Medidas mais precisas nos permitiriam calcular o grau de elipsidade da Terra. A Terra esferoide ainda seria muito mais próxima de seu passado "perfeita e platônicamente esférico" do que de seu passado "biblicamente plano" - e diminuindo a gradação de erro. Uma esfera prefeita nos daria uma curvatura em torno de 12,5 cm/km, enquanto a curvatura elíptica varia de fato entre 12,657 e 12,472 cm/km. Estávamos chegando lá! Estávamos irremediavelmente errados? Ou estávamos cada vez menos errados?

Este raciocínio conduzido por Asimov, stricto sensu, nos permite dizer que julgar a Terra esférica é muito mais correto do que considerá-la plana; e tal noção tem enorme impacto sobre as nossas vidas. Também podemos dizer que julgar a Terra plana é muito mais incorreto do que julgá-la esférica, com os mesmos e severos impactos sobre o nosso convívio com a ‘realidade objetiva’. E ensinar tais princípios, valorizar o ‘endereçamento’ obstinado da verdade, é muito mais produtivo do que destacar a imprecisão deitada sobre o caminho... Pensem nisso!

Mesmo o nosso esferoide elíptico ‘perfeito’ seria revisado em 1958, quando o satélite Vanguard I entrou na orbita da Terra. Uma literal vanguarda científica seria capaz de medir a forma da Terra com uma precisão sem precedentes. Descobrimos que nos parecíamos mais com alguma coisa entre uma ‘pera’ e uma ‘batata’ – flutuando e rodopiando no espaço. Correções da ordem de milionésimos de centímetros por quilômetro foram procedidas, e aqui estamos graças ao gênio de Eratóstenes...

Vivemos um conflito neuropsicológico de ordem evolutiva; somos causais, dicotômicos, lineares, animistas, intencionalistas, maniqueístas, e tateamos assustados no terceiro milênio, com cérebros de 150.000 anos adaptados à savana africana... Vagamos perdidos em uma espécie de 'gangorra de absolutos', tudo ou nada, certo e errado, bom ou mal. Mas a realidade se descortina livre, desimpedida, e precisamos estabelecer novos parâmetros e bases de compreensão para conformar avanços ‘objetivos’. O absolutismo, o generalismo, e seu homólogo, o relativismo, tem se prestado ao inconsequente e especioso propósito de justificar medidas autoritárias e dogmáticas, alegando a impossibilidade de exatidão. Pois não seria muito melhor, sempre, acender mais um pequeno lampejo de luz do que tropeçar na escuridão?

Hoje sabemos que a ‘mecânica genética’ de nosso corpo também evoluiu para mitigar os erros e mutações em nosso código genético. É isso mesmo, o código genético tem um mecanismo autocorretivo, e desta forma estamos menos sujeitos a mutações drásticas do que estivemos no passado. E podemos dizer que a Ciência conta hoje com o mesmo sofisticado mecanismo: o Método Científico. De forma que a falibilidade assumida da Ciência, de hoje em diante, está muito menos sujeita a erros crassos do que esteve no passado das crenças.

“[...] talvez a Terra seja esférica agora, mas um cubo no próximo século, e um icosaedro oco no próximo, e com a forma de donuts no seguinte. O que ocorre, na realidade, é que quando os cientistas consegue elaborar um bom conceito, eles gradualmente o refinam e ampliam, com crescente sutileza, à medida que seus instrumentos de medição melhoram. As teorias não estão tão equivocadas, mas incompletas.” – Isaac Asimov (idem)

Não é tão importante definir se este valoroso processo se estenderá infinitamente ou não, absolutamente ou não; mas, sobretudo, devemos considerar o bem que este honesto procedimento provê, na medida em que, inescapavelmente, ilumina o que antes era escuridão. O importante não é a alcançar qualquer sorte de perfeição 'totalitária' ou 'fascista', senão progressar de forma sustentável e responsável...

Muitas vezes teorias que alcançam o status de revolução científica não passam de um conjunto apropriado manipulações e refinamentos de um corpus de conhecimento pregresso; como quando Copérnico nos levou de um sistema centrado na Terra a um sistema centrado no Sol. Copérnico estava desafiando o que parecia ser óbvio com algo que soava ridículo. Aristarco de Samos e Eratóstenes viveram a mesma experiência...

Normalmente, e há algum tempo, vivemos de refinamentos; caso contrário, e considerando a autorregularão e autocorreção científica em voga, uma teoria estapafúrdia teria vida muito curta. Exemplos pífios como a “fusão a frio” não passaram de pseudociência, e não resistiram o crivo científico mais elementar. Isso nos deveria alertar - ainda mais - sobre a necessidade de aprimorar nossos critérios, e não desconsiderá-los – como Gleiser e o “professor de literatura” sugerem.

Voltando a Copérnico, e por mais que a proposição heliocêntrica ‘parecesse’ revolucionária, toda esta ‘revolução’ não passava de um problema político-religioso – da alçada do “absoluto” e do “absolutismo”. Cientificamente, no entanto, tratava-se de um refinamento teórico em relação aos movimentos dos  corpos celestes. Seria a autoridade religiosa Católica, expressa em seu "livro negro" - ou 'Index' -, quem elevaria o trabalho de Copérnico à condição de heresia, sete décadas depois de sua publicação em 1616, e lá permanecendo até 1822 - mas aí já era tarde, e o estrago já estava feito...

Copérnico pretendia apenas encontrar um modelo que melhor acomodasse a realidade de suas observações celestiais. Neste caso, e em especial, apesar de toda a gambiarra incorporada ao modelo aristotélico-ptolomaico, a sobrevivência do antigo - “salvando a teoria” platonicamente - só seria possível, e por tanto tempo, devido à força da autoridade político-religiosa vigente.

A Teoria da Evolução também enfrentou os mesmos credos, e as mesmas barricadas:

“[...] as formações geológicas terrestres mudam muito lentamente, assim como os seres vivos evoluem tão lentamente, que parecia razoável no início supor que não haviam mudanças, e que a Terra e a Vida sempre existiram como são até hoje. Sendo assim, não faria diferença se a Terra e a Vida tivessem bilhões de anos de antiguidade, ou somente milhares. Milhares era mais fácil de compreender.” (idem)

A exemplo do entendimento sobre a curvatura terrestre, quando medições mais precisas revelaram que a Vida evoluía em um ritmo muito lento, porém vigoroso, pudemos aprofundar também a compreensão sobre a idade da Vida. Nasciam a Geologia Moderna, a Evolução, e a Biologia.

“É apenas porque a diferença entre taxa de variação em um universo estático e a taxa de variação em um universo em evolução está entre zero e muito próximo de zero que os criacionistas podem continuar a propagar seus disparates.” (idem)

O raciocínio também se aplica ao mundo dos micro-organismos; um mundo de escalas invisível estava escondido de nós, e toda sorte de crendice seria erigida para preencher as lacunas diminutas hoje ocupada pela microbiologia. Cotidianamente, dizíamos – e muitos ainda dizem: “menino, não tome esta friagem porque você vai ficar gripado”. Recentemente ouvi tal disparate de uma amiga microbiologista, para quem o filho descalço resultaria resfriado. Tratei de recordá-la de dois aspectos: primeiro, como microbiologista, ela estava obrigada a bem conhecer a origem viral de gripes e resfriados; depois, como bióloga, seria imperdoável que ela não recordasse que a seleção natural jamais teria poupado nórdicos, russos, além dos inuits, se tal conjectura fosse minimamente possível...

Os ‘sábios’ conselhos da ‘medicina popular’ estão todos sub judice depois que a ciência adentrou o mundo secreto dos microrganismos, e ajustando a sua escala para uma compreensão profunda e necessária da natureza. A realidade em uma placa de petri... Deuses e tradições evaporavam no ar, enquanto a Ciência aprimorava seus métodos e instrumentos e reduzia suas escalas. O caminho para a descoberta dos antibióticos - como a Penicilina -, vacinas, agentes... e vida, a partir da vida obstinada de homens como Pasteur.

O ‘gap’ entre o conhecimento disponível no acervo científico humano e a nossa práxis cotidiana é gigantesco. Com a desculpa de que ‘não sabemos tudo’ permanecemos ‘sem saber nada’ sobre quase tudo. Apenas tangenciamos a realidade, mas não somos capazes de mergulhar nesta maravilhosa REALIDADE. Quando escrevi 'FIAT LUX - O Homem, Memória do Universo', estabeleci como missão colateral interessá-lo pela realidade, despertando a curiosidade em conhecê-la ‘por dentro’.

O conhecimento científico disponível está muito mais perto de um eventual ‘conhecimento último’ - em cada uma das fronteiras do conhecimento –, do que o 'fulano médio' está da linha de largada para o conhecimento do ensino fundamental. A maioria de nós sequer começou a jornada do conhecimento, e sequer chegou na marca onde diz ZERO.

O físico Marcelo Gleiser diz que o conhecimento é como uma “ilha” em meio ao desconhecido; e que quanto mais esta “ilha” cresce maior serão as suas fronteiras. É verdade. Mas quanto mais esta ilha 'do que é conhecido' cresce, por mais que hajam novas fronteiras, menor será o espaço lá fora - ou daquilo que 'ainda' não conhecemos.

Podemos chutar uma pedra com facilidade, mas pensaremos duas vezes antes de pisar em uma formiga ou esmagar um mosquito, e jamais consideraremos a hipótese de maltratar um cãozinho. Estas são conquistar recentes, afinal aprendemos sobre a complexidade dos sistemas neurais, e sabemos que muitos seres vivos sentem dor e sofrem.

Por isso avançamos sobre o oceano de ignorância que nos cercava, arbitrado pela crença de que o homem era uma espécie de “escolhido”, sendo o único sujeito à dor. Ainda assim, na Bíblia e em Aristóteles, alguns homens são mais escolhidos do que outros, e a escravidão é amplamente aceita e recomendada. Matar um infiel - na Bíblia e no Corão - é antes um dever... Pelo humanismo, pela iluminação científica, sabemos que isso não é correto. Tais fronteiras não aumentaram a nossa ignorância, mas certamente abriram novas fronteiras dentro da “ilha”...

“O conhecimento avança, e a região inexplorada recua [...] com nosso conhecimento expandido.” – Linda Randall

Um dia, este espaço tomado pelo desconhecido representou a diferença entre morrer na selva de dor de dente aos 23 anos; ou ministrar uma dose de 500mg de Cloridato de Tetraciclina, e voltar a sorrir por mais 40, 50, 60 anos. O importante não é chegar ao fim, mas seguir em frente, viver a viagem, viver uma vida digna, útil, e prazenteira; contribuindo como Humanidade, para que enderecemos a verdade.

Gleiser insiste, sob o tendencioso pretexto de que a Ciência não poderá ser exata ou completa, que uma tal “espiritualidade”, ainda mais inexata, e na verdade “irreal”, poderá ser invocada para preencher as lacunas...

“Uma balança mede o nosso peso com precisão dada pela metade de sua menor graduação: se a escala é espaçada por 500 gramas, só poderemos aferir o nosso peso com precisão de 250 gramas. Não existe medida exata: toda medida deve ser expressa dentro da precisão do instrumento usado e o faz com ‘barras de erros’. [...] uma medida de 70 quilos deve ser expressa como 70 +/- 0,25 kg [...]. Não existem medidas perfeitas, sem erro.”

Em busca do exato, do absoluto, do “espiritual”, esquecemos ou desconhecemos sobre a existência de gradações de erro, e uma falibilidade assumida na atitude científica - sendo essa sua maior fortaleza. Saber de tudo, repito, é um agravante religioso - e não científico... E esta atitude covarde, politicamente e falsamente "correta", orquestrada, é o que mais prejudica o avanço científico e humano.

“Quem pensa ver algo sem falhas, pensa naquilo que nunca existiu, que não existe, e que nunca existirá.” - Alexander Pope

O vigoroso e genial físico Richard Feynman dá o seu depoimento:

“Um princípio de pensamento científico corresponde a uma espécie de honestidade incondicional [...].”

É esta honestidade incondicional ou Ética que reside no Ceticismo Científico, confrontando a vacuidade das crenças e os ‘discursos persuasivos’ - em favor de mentiras, interesses e sandices. Isso porque as crenças se baseiam apenas na caprichosa, débil, ou vã, vontade de acreditar. Não se pode, de forma alguma, comparar a nobre atitude de tornar-se ciente pelo confronto de hipóteses sérias, e consequentes com a realidade, com a autoridade especiosa de velhas ou novas convicções.

Não se pode usar como desculpa a falibilidade assumida da ciência para validar crenças. Uma verdade científica tem uma validez e universo de aplicação, assim como seu erro assumidamente demarcado, e que estará sob crivo constante, acirrada revisão, e variada fiscalização, sendo esta a maior fortaleza da Ciência, e não o contrário.

Sobre a pretensa critica ao erro científico, devo reagir lembrando que dogmas religiosos não podem ser revistos, e por isso mesmo, sua defesa se faz com cinismo, agressividade, violência - e no passado ‘médio’, por meio dos artefatos do terror ‘inquisitório’. Asimov nos ensinou sobre a ‘relatividade do erro’ e não da VERDADE...

E insisto que nenhum debate dito filosófico ou político – e sob nenhum pretexto - estará isento da necessidade de entender - antes - a 'realidade' e os subsequentes parâmetros que regem a nossa tênue lucidez neuropsicológica.

Sim, mas e daí? Uma balança caseira de precisão de uma ou duas casas decimais está sob um crivo mais ‘frouxo’ em termos científicos; mas quanto mais ciência mais exatidão: medimos a temperatura média do Universo com precisão de 5 casas decimais. Não há como ser ‘exato’, ‘absoluto’, mas e daí? Indicar a margem de erro é uma lição Ética da Ciência e não o contrário. Deus e a religião não indicam suas margens de erros, e justificam isso alegando que o absoluto a deus pertence - ou é “incognoscível”... E não precisamos da perfeição, já que a natureza e o universo emergem da imperfeição e da diferença. O argumento de Gleiser é platônico...

Asimov concorda com isso, e tem algo mais a dizer sobre a Ciência e a escuridão:

“Existe apenas a Luz da Ciência, e acendê-la em qualquer lugar é como acendê-la em todos os lugares.”

Um anúncio afixado diante de uma igreja batista americana, da seita ‘New Canaan’ [ou ‘Nova Canaã’], alertava:

“Um livre pensador é um escravo de Satan.”

Sei que Gleiser alegará que esta congregação é doentia, ou que ele não fala “desse tipo de espiritualidade”, mas crimes contra a liberdade de pensamento, sempre estão associados à religião...

“Com ou sem religião, pessoas boas podem se comportar bem e as pessoas ruins podem fazer o mal; mas para que pessoas boas façam o mal, elas precisam de religião.” - Steven Weinberg (discurso em Washington em 1999)

Sobre os “limites do conhecimento”, Asimov desafia:

“Se o conhecimento pode nos trazer problemas, não será através da ignorância que iremos resolvê-los.”

Gleiser insiste na escuridão ‘científica’ justificada por sua inexatidão e reducionismo, mas tolera sem pesos ou medidas uma tal “espiritualidade”... Convido a advertência de Sagan no adágio de abertura de seu inesquecível ‘O Mundo Assombrado por Demônios’:

“É melhor acender uma vela do que praguejar contra a escuridão.”

Por que escrever uma obra para ressaltar os limites da Ciência, se as fronteiras continuam “dentro da ilha”? E como Gleiser citou a Lucrécio, inestimável livre pensador, e o verdadeiro algoz dos deuses - que seria seguido pro Jean Meslier, para que Nietzsche levasse a fama; eu também gostaria de citar Lucrécio, e este aforismo me parece mais do que apropriado:

“Assim como as crianças tremem e têm medo de tudo na escuridão cega, também nós, à claridade da luz, às vezes tememos o que não deveria inspirar mais temor do que as coisas que aterrorizam as crianças no escuro.” - Titus Lucretius Carus (‘De Rerum Natura’ ou ‘Sobre a Natureza das Coisas’; 60 AEC)

Mas existem verdades? Existe uma verdade absoluta? A primeira questão é objeto de trabalho da Ciência, a segunda parte de pressupostos fechados e dogmas religiosos; mas podemos sim afirmar que existem verdades, existem asserções verdadeiras, assim como proposições mais corretas do que outras, e gradações de erro. E sabemos disso com ainda mais segurança depois de Tarski, Russell, Frege, Popper, Sagan e Asimov...

O filósofo e matemático alemão Friedrich Frege (1848-1925) escreveria – abrindo os trabalhos:

“Entendo por pensamento não o ato subjetivo de pensar, mas o seu conteúdo objetivo.”

Um pensamento é um processamento neural; mas aqui, e para todos os efeitos, será por meio da linguagem que trataremos de manifestar o seu conteúdo ou ‘objeto’. A linguagem é inata, hoje sabemos - embora dependa de imprinting -, mas a escrita não. O filósofo e matemático polonês Alfred Tarski (1901-1983) solucionaria o problema da correspondência entre uma proposição formulada pela linguística e a realidade; e o fez de forma surpreendentemente simples, intuitivamente satisfatória, e irrefutável.

Tarski focou na formulação semântica de proposições:

“A sentença (T) é verdadeira se, e somente se, o que ela diz é verdade.”

Onde ‘T’ seria a Convenção de Tarski...

Imagine que você e eu estamos contemplando uma bela cadeira vermelha, estilo Luis XV - exatamente como esta, bem ao lado da lareira em minha sala. A proposição “Esta cadeira é vermelha” seria verdadeira se e somente se “esta cadeira” for vermelha. Isso parece justo! Ou não? E óbvio! Então qual foi a contribuição de Tarski?

A sacada de Tarski foi eliminar ‘nebulosidades’ semânticas, preocupando-se em formatar de maneira objetiva a formulação das sentenças ou proposições, e evitando truques, verbosidades e falácias retóricas. Para isso ele utilizou os conceitos de “objeto” ou conteúdo, “verdade” ou veracidade, “metalinguagem”, “metalinguagem semântica” e “linguagem-objeto”. Por exemplo: se tomamos o português como metalinguagem e o inglês como linguagem-objeto, e o seguinte objeto “the dog is sleeping” poderíamos formular a seguinte sentença em nossa metalinguagem semântica: ‘a proposição do inglês (linguagem-objeto) “the dog is sleeping” (objeto) corresponde aos fatos (é verdadeira) se e somente se o cachorro está dormindo’.

A verdade começa por uma formulação semântica adequada, que permita a sua comprovação ou refutação. O que está vago e mal definido, não pode ser confrontado com a realidade. E se existe uma metalinguagem na qual podemos apresentar proposições, descrever fatos, então, também será possível, e de forma trivial, estabelecer a correspondência entre fatos e proposições, endereçando assim a verdade ou a veracidade de sentenças e argumentos. Isso, e bastando alguma honestidade retórica e integridade intelectual, conforme acentuado por Feynman, nos leva à atitude científica...

A Convenção de Tarski (T) pode ser formalmente descrita por:

(T) ‘X’ é verdadeiro se, e só se, ‘p’; 
onde ‘p’ é o predicado que pretendemos validar 
para a sentença ‘X’

O exemplo utilizando uma linguagem-objeto em inglês serviu para conter eventuais arroubos relativistas mais básicos, inter-linguísticos, ou ainda interculturais. Vale repetir que a construção linguística é inata; em milhares de dialetos e diferentes linguagens em todos os tempos e lugares, sempre estiveram presentes as figuras do sujeito, verbo – ou ação -, substantivo e predicado; já o vocabulário e as regras gramaticais precisarão ser aprendidos - e à duras penas.

Observem que o predicado “[...] corresponde aos fatos” ou “[...] é verdade” está protegido pela metalinguagem, não importando se algum dialeto por ventura venha a evitar esta ‘vital’ caracterização... Sendo assim “[...]” ou “X” poderá ser definido nos termos de qualquer linguagem-objeto; então, enfoquemo-nos na verdade, e utilizando como linguagem-objeto a nossa própria língua vernácula: o ‘português’.

E neste ponto podemos entender por que buscamos por proposições verdadeiras ou positivas na Ciência, com o auxilio de Popper:

“De uma classe (ou um sistema) de proposições, que são todas verdadeiras, nenhuma proposição falsa pode ser assumida.”

Enquanto os postulados religiosos ou “espirituais” dormem em berço esplendido, percebam o cuidado em estabelecer ‘verdades’ ou ‘veracidade’... Isso implica que, embora deus seja um bolso cada vez mais vazio, e enquanto reduzimos inequivocamente o oceano de ignorância, ainda assim não poderemos, apenas por princípio, descartar a existência de deuses ou do “unicórnio cor-de-rosa”...

“De teorias (sistemas de proposições) que concordem com os fatos, não se pode derivar nenhuma proposição lógica que não concorde com os fatos.” - Karl Popper

Esta importante regra, que de fato perfaz uma atitude ética, explica por que em Ciência efetivamos proposições positivas, buscando a veracidade ou verdades, e nunca proposições negativas. “A Terra descreve uma orbita fechada – ou captiva - em torno do Sol” é uma proposição científica; mas “não existem gnomos empurrando a Terra” não é – por mais que saibamos ser uma proposição lúcida... Podemos invalidar ou provar a falsidade de uma proposição positiva. Por exemplo, “a Terra é plana e está assentada sobre colunas” é uma proposição científica, e também é inteiramente falsa; mas “a Terra não é verde” não nos leva a lugar algum.

Claro que existe o ‘fato’ da vida finita, de forma que o fator ‘tempo a perder’ está sempre em jogo, assim como a questão: ‘Cui bono?’. Ou seja, não podemos, cientificamente, e em princípio, negar a existência de Tupã; mas podemos considerar a busca pela sua existência uma tremenda idiotice quando confrontamos a mais absoluta falta de evidências; isso, além do flagrante conflito com proposições já demonstradas como: “culturas primitivas praticaram o animismo”, ou “culturas primitivas, desconhecedoras do ciclo da chuva, cortaram gargantas e fizeram danças rituais para que chovesse”... E daí a escolha é sua!

A Teoria da Verdade como Correspondência, nos assegura que um pensamento pode ser considerado verdadeiro se a proposição que formula este pensamento é verdadeira. Proposições gerais ou universais devem ser encaradas como fundamentalmente hipotéticas, mesmo que possam ser verdadeira. E por isso é tão importante o caráter científico de ‘reduzir seus problemas’ e ‘limitar suas proposições’, já que buscamos o acercamento e o endereçamento da verdade. Começando humildemente, podemos construir proposições verdadeiras de grosso calibre, com no caso do Modelo Padrão.

A Metodologia Científica é um sério e consequente conjunto de recomendações, ao que Gleiser jamais poderia haver chamado de ‘cientismo’... O que é isso? E cientistas não passam de homens neuropsicologicamente curiosos, obstinados, talvez ousados, e certamente sem temores conservadores; homens buscando a verdade, e falhando em encontrá-la – mas inexoravelmente atidos a ela. E falhando podemos aprender, e recomeçar; o que parecia ser uma potencial falsificação da teoria newtoniana da gravidade, no caso da orbita calculada para Urano, nos levou ao descobrimento de Netuno...

Mas voltemos à verdade, voltemos à minha cadeira vermelha, afinal você pode estar esperando para me desbancar. Então temos a seguinte proposição, devidamente formatada, uma questão semântica que pode ser submetida ao escrutínio da ciência:

“Esta cadeira é vermelha” é uma proposição verdadeira se, e somente se, esta cadeira é vermelha.
Mas como podemos assegurar que o vermelho que você vê é o mesmo que eu vejo? E como podemos definir o que é ou não vermelho? Simples: imagine você que, providencialmente, eu trago comigo um espectrofotômetro; um daqueles aparelhos que medem a frequência dentro do espectro eletromagnético, podendo exprimir a cor em um número ‘objetivo’, e em comprimento de onda ou frequência - não importando que sejamos daltônicos ou portadores de icterícia. Através de uma singela convenção linguística, concordamos que comprimentos de onde dentro de determinada faixa nos leva ao termo em português: vermelho.

Uma psicóloga amiga, neste ponto, interpelou: mas cálculos matemáticos são exatos? Devo dizer que ‘sim’, lato sensu; mas entendo o ponto de vista dela, e sua confusão, stricto sensu. Ela, vocês, e Gleiser, estão interessados no ‘erro’ referente a esta medição; afinal este é um equipamento desenvolvido por físicos e engenheiros para medir o espectro da luz visível.

[um equipamento vendido pela Internet, e que apresenta um valor objetivo em um display LCD, com uma precisão de 0,15 DE, levando apenas alguns segundos para calcular o resultado]

Diante de situações cotidianas como esta, me preocupo em entender como um ‘experimento’ tão trivial suscita tanta contestação e controvérsia. Qualquer crendice, qualquer afirmação descabida, tem maior respeito, autoridade, e aceitação, do que o conhecimento objetivo de fenômenos naturais. Será o sistema educacional? Será a relativização filosófica? Serão tendências neuropsicológicas? Ou a conjunção sistêmica de todos estes fatores? Certamente não se trata de um problema relativo às “limitações da ciência” – como afirma Gleiser... Outras limitações e outras fronteiras estão em jogo – todas elas devidamente estudadas pela Neurociência...

Consideremos algumas variantes do Paradoxo do Mentiroso, sendo a mais antiga que se tem notícia a versão do jônico Eubulides de Mileto, sucessor de Euclides de Mégara, ainda no século VI AEC:

“Um homem diz que ele está mentindo. O que ele diz é verdadeiro ou falso?”

Ainda no século VI, o paradoxo também foi associado a Epimenides ‘de Creta’, que teria dito:

“Todos os cretenses são mentirosos.”

Um tal "São Jerônimo" teria aplicado o conceito a David, quando afirma nos samos bíblicos que:

“[...] Todos os homens são mentirosos.” - Salmos [116:11]

Trata-se apenas de um truque lógico, com uma confissão moral... Teofrasto, sucessor de Aristóteles, escreveria três rolos de papiro sobre este paradoxo, e Crisipo mais seis. Todo este trabalho, e toda esta perda de tempo silogística seriam enterrados pelas areias do tempo. Esta antinomia prova que um argumento pode parecer lógico embora seja falso – e por vezes, como é o caso, ridículo...

“Esta frase não é verdade.”

Verdadeiro ou falso? Logicamente astuto, moralmente pouco recomendável ou desonesto. Tarski salientou que o truque fundamental do Paradoxo do Mentiroso reside no uso de uma linguagem semanticamente ‘fechada’ ou ‘negativa’ – conforme já foi explicado. Por isso, provar a inexistência constitui um absurdo lógico. Mas devemos fundar aqui pelo menos duas ressalvas. Quando Sagan diz:

“A ausência da evidência não significa evidência da ausência.”

Faço a seguinte ressalva, ampliando:

A ausência de provas não é prova da ausência, e muito menos da existência.

Os argumentos contra a existência de ‘propósitos morais’ para o universo são vastos e fortes. E não existem argumentos em favor de ‘propósitos’ morais religiosos que não tenham sido invocados por meio de mentiras, fraudes, falácias retóricas e engôdos semânticos... Nenhuma comprovação, nenhuma pista, nada. Por que devemos considerar religiões – qualquer uma – como um domínio de conhecimento?

O Universo e a Vida estão desenhados pela aleatoriedade e pela involuntariedade - quer gostem ou não. Podemos inventar opiniões, mas não poderemos inventar fatos - não impunemente! E sem provas, fatos, ou evidências, não existe - de fato - conhecimento.

“O que pode ser afirmado sem provas também pode ser rejeitado sem provas.” – Christopher Hitchens

Eu também ampliaria dizendo que:

O que é afirmado sem provas pode e deve ser rejeitado...
Finalmente:

“Quem nada sabe em tudo crê.” – Jan Neruda

Isso opõe Ciência e religião, e não as nivelas - nunca... Contemple e observe o Universo como ele realmente é, e maravilhe-se com isso; e ensinemos aos nossos filhos a encarar suas próprias fronteiras sem ‘verdades absolutas’, nem mentiras politicamente corretas, ou “alívios” que obliterem a LUCIDEZ. Considere a aterrorizante possibilidade de que um ser humano, saudável por natureza, possa estar privado de vivenciar a realidade. Considere a possibilidade do desperdício desta vida? Deus é um argumento ‘autocontraditório’, embora pareça tranquilizador, mas não nos liberta como humanos plenos. Nas célebres palavras de Cornelius Tácitus:

“Tranquilitas non Libertas.”

Ao que eu modestamente agregaria:

Tranquilitas non Veritas.

Quando nos curvamos à autoridade, ou nos entregamos ao mero solipsismo, sem a submeter as nossas proposições ao exame de sua pertinência, estaremos potencializando problemas de toda sorte nas mais diversas áreas. Algumas disciplinas estão fundadas sobre falácias, e vivem da autoridade e da idolatria, impulsionadas pelo historicismo, como a filosofia social, política, religiosa, ou de relações humanas.

Diferentes modalidades de fascismos pipocaram nas mãos de líderes carismáticos, messiânicos ao totalitários; unidos em torno de uma identidade nacional, estatal, racial ou religiosa, e mobilizados de forma submissa à luta derradeira com alguma entidade metafísica, demônios diversos, judeus, judeus, judeus, capitalistas, etc... Esta é a sina historicista, com origem na lateralização de nossos hemisférios cerebrais - mas esta é outra tese.

Sabemos ainda, pelo entendimento do comportamento humano, que algumas mentes estão mais capacitadas do que outras para encontrar padrões e ordem em meio ao caos. Algumas mentes estarão ainda destinadas a seguir e idolatrar líderes, enquanto algumas fantasiaram doentiamente sobre a realidade. Alguns líderes estarão destinados à iluminação, enquanto outros pretenderão, pela nevoa espessa e pela escuridão, um reinado de medo... Alguns estarão fadados à generosidade e a solidariedade, enquanto outros praticarão o mais sórdido egoísmo, através de controle rígido e totalitário. O narcisismo, a pulsão de vida e a procriação darão o tom, estamos bem distantes da savana africana, embora dispondo do mesmo aparato neural.

Vale notar que racionalismo e sensibilidade emocional não são mutuamente exclusivos. São características independentes, e que podem até colidir em nosso cérebro, estampado em nosso comportamento, mas uma pessoa emocional não significa uma pessoa irracional, e vice-versa. O sentimento é outra estória, é a verbalização da sensação emocional pura; e, portanto, estará impregnado pela linguagem, pela cultura, e por nossos estratagemas políticos. Daí a confusão...

Existem pessoas sentimentalistas, ou seja, que usam o sentimento - alegando emoção - como linguagem, em detrimento de medidas mais racionais e efetivas; mas isso é um estratagema... Daí a tal “espiritualidade”! A emoção é bioquímica, é involuntária, é real, física, e comanda as nossas vidas - sempre... O hipocampo, responsável por selecionar e copiar trechos de nossa memória de curo prazo em nossa memória de longo prazo, trabalha acossado pela emoção, ou limitado pela falta dela. O racionalismo é uma capacidade genética, neural e bioquímica, e que não anula a emoção; sendo, inclusive, deflagrado por ela.

Gleiser comete muitos erros crassos em sua retórica quando deixa de trabalhar em prol do conhecimento para fazer o que chama de “estratégia diplomática”, e recusa a verdade... Ele comenta que deu uma entrevista para uma rádio AM, e diante de uma plateia composta por pessoas simples – “operários e diaristas”; ao final, conta ele, foi interpelado por um senhor “com rugas precoces no rosto sujo de graxa”:

“Quer dizer que o senhor quer tirar até Deus da gente?”

Conheci muitos senhores com rugas prematuras mundo afora; e bem sei que o fenômeno da biologia da crença e o efeito rebanho não escolhem classes sociais... Mas a crença em deuses, a tendência a crendices sobrenaturais, pode ser indutiva de piores condições sociais. De qualquer forma, uma boa instrução definitivamente pode ser um fator limitante no caso da tendência crente inata, contribuindo com a lucidez; e um fator estimulante quando a neuropsicologia é fértil para o convívio com a realidade. Mas, vamos responder ao senhor com “rugas prematuras” citado por Gleiser:

Não será mentindo sobre deuses forjados pelo historicismo para o mero controle político que o você aliviará o sofrimento deste senhor!

Por que Gleiser não lhes falou sobre os avanços em termos de Ciência Médica, com a redução da mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida, conforme supracitados? Gleiser não pensou que este senhor de rugas, por sua hesitação, e nesta mesma noite, vai pagar o dízimo a algum estelionatário? Este humilde senhor, além de estar livre da poliomielite, da varíola, do tifo, do sarampo, da morte prematura – com o sem rugas -, poderia estar livre de ser sumariamente roubado!

No século XVIII as velhas crenças teológicas estavam sob fogo cruzado do livre-pensamento; mas a vontade de crer era ativada e reaparecendo delirante sempre que uma possibilidade ‘sobrenatural’ se acercava. A varíola foi uma destas oportunidades para a ignorância religiosa desfilar o ‘círio’, e desatando uma tempestade de protestos teológicos contra a ‘razão’... Um clérigo anglicano publicou um sermão onde afirmava que:

“[assim como] as pústulas de Jó eram devidas à inoculação do diabo, assim havia sucedido com a crescente epidemia de varíola.”

Vários ‘ministros’ eclesiásticos escoceses publicaram manifestos contra a Ciência Médica, e em especial contra a recente descoberta da circulação sanguínea, os estudos de anatomia, fisiologia, etc. – assim como o estudo de ‘células-tronco’ em nossos dias; afirmando que estávamos “tratando de desafiar o julgamento de deus” – sobre quem deve ou não deve morrer... Mas a varíola responderia a toda esta carolice com mais e mais mortes; quanto mais oravam e praguejavam contra a Ciência, mais mortos... Os terrores teológicos foram acalmados pelo terror imposto pela ‘realidade da morte’!

A controvérsia parecia declinar, quando foi descoberta a VACINA... Os ‘clérigos’ de todas as facções da cristandade afirmavam em uníssono que:

“[a vacina era um] insolente desafio aos céus, e à VONTADE DE DEUS.”

Em Cambridge e na Sorbonne universitários cristãos unidos pronunciaram sermões opondo-se à VACINA. O mais grave sucedeu quando, em 1885, e já no século XIX, houve um disparo no número de casos da doença em Montreal, Canadá, e a parte católica da população repudiou a vacinação. Um sacerdote católico declarou que:

“Se estamos afligidos pela varíola é por que comemoramos o carnaval no último inverno, festejando a carne e ofendendo ao Senhor.” 

As mortes vieram sem trégua sobre os católicos; ‘Deus’, por alguma misteriosa razão, pouparia apenas àqueles que foram ‘vacinados’...

“Os Padres Oblatos, cuja igreja estava situada no coração do distrito infestado, seguiram denunciando a vacina; foi exortado aos fiéis para que se dedicassem a diversos tipos de devoção; com a permissão das autoridades eclesiásticas, foi ordenada uma grande procissão com um solene chamamento à Virgem, e foi cuidadosamente especificado o uso do rosário.” (White; op. cit., v.II, p.60)

Pobres fiéis, todos aniquilados pela varíola! Esta seria uma excelente estória para desmistificar, diante do “senhor de rugas” sobre os mal-entendidos envolvendo a nobre atitude científica – esta sim, uma verdadeira ‘bendição’... E existem outros exemplos...

O mesmo sucederia com o advento da descoberta dos efeitos anestésicos do clorofórmio, pelo médico escocês Sir James Young Simpson (1811—1870). Simpson, em 1847, recomendou o uso no parto, ao que o clero lhe respondeu com Gênesis [3:16]:

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” - Gênesis [3:16]

Simpson, no entanto, logrou aprovar os anestésicos para os homens, salientando que:

“Deus anestesiou Adão, adormecendo-o, antes de extrair sua costela.”

Terrível! Sim, precisamos abolir tudo isso, o Corão, a Torá, o velho e o novo testamento, a RELIGIÃO; para vivermos melhor, com mais saúde, paz, e em ‘verdadeira harmonia’. E não seremos capazes da fazê-lo se não pudermos entender e combater, o primeiro fundamento contido em tais livros; i.e., o ‘enaltecimento da ignorância’ pelo repúdio à razão e ao entendimento, ao conhecimento REAL, factual, científico... E a subsequente ‘glorificação da submissão’, da servidão e do conceito de ‘manada’...

Não seremos capazes de abolir tais livros se não pudermos entender ‘antes’ a clara sentença de morte à consciência e àqueles que a conservam: os ‘hereges’... E não poderemos dar este passo, se não pudermos constatar também o preconceito, o sectarismo, o racismo, a pulsão de MORTE, e o regozijo pela morte, contido em tais mensagens apologéticas.

Precisaremos confrontar os dogmas de tais sociedades extremamente preconceituosas, estratificadas, eliminando o aspecto 'pecaminoso' de escolher não se casar, e de viver como pretendemos; eliminando a figura absurda do dote, e enaltecendo a figura do afeto entre parceiros, entre casais. Esta não é a supremacia de uma cultura sobre a outra, senão a supremacia da liberdade sobre a opressão. Precisamos enaltecer o valor PENSAMENTO repudiando o culto à SUBMISSÃO...

E neste ponto devolvo a citação do ‘Pequeno Príncipe’ a Gleiser - porque este gesto de coragem é o verdadeiro gesto de amor:

“Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” – (Antoine de Saint-Exupéry; ‘O Pequeno Príncipe’)

Um homem de bem poder até seguir em frente com sua preferência devota, mas não pode esconder a VERDADE alegando que não existem verdades... E escutem a Galileu quando sabiamente adverte que a melhor forma de endereçar a verdade é propor proposições bem demarcadas e objetivas; questões genéricas, e A VERDADE ABSOLUTA que tanto te preocupa, só servem para destruir proposições claras e objetivas, e benéficas à VIDA... Sim, porque diminuímos a mortalidade em 40 vezes, a violência em 100 vezes, e triplicamos a expectativa de vida porque existem verdades... Mas subimos em uma rampa acendente, com picos de altos e baixos; e fascismos, como estamos presenciando em nossa país, destroem os sonhos de algumas gerações. Acentuando mais uma vez que existem gradações de erro, existem verdades, existem mentiras...

Charles Bukowski, que muitos idolatram sem limites, não passou de um cínico e debochado; enquanto se autodestruía, publica e narcisisticamente, levou um mundo de bobos à vã idolatria... O mesmo fenômeno, com severos agravantes, pode ser dito do mito de Che Guevara, um psicótico covarde e assassino... Sendo estas proposições amplamente comprovadas - embora de outra classe de verificação, a documental.

MAS SIM, EXISTEM VERDADES - mesmo que não as queiram encarar... E relativizar a existência de proposições verdadeiras tem sido o primeiro ato daqueles que, logo em seguida, passarão a reclamar autoridade sobre a realidade - e sem apresentar qualquer tipo de prova, senão o CINISMO e, não raro, o DEBOCHE... Mas estarei aqui para denunciar!

Sob o obscuro pretexto de não atingir a perfeição muitos deixam de fazer a sua parte, capengando, e impedidos de culminar naquilo que realmente importa: PROGRESSAR!

Q.E.D.

Carlos Sherman

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Argumentum ad ignorantiam



Argumentum ad ignorantiam

O Argumento da Ignorância é do tipo "não sei o que é, mas tenho certeza que é exatamente como creio que seja"... Entendeu? Caiu a carapuça?

A lucidez não é a regra... Se fomos colonizados, como alegam uns, por alienígenas, ainda restará a questão "como evoluíram os alienígenas?" - uma regressão infinita... Se evocam deuses astronautas, ainda precisarão argumentar sobre a origem de tais "deuses"... Se sugerem que deuses existem porque assim como um relógio depende de um relojoeiro e uma cadeira de um marceneiro, logo o home precisa ser "confeccionado"; então um deus dependerá de seu criador, e novamente regredimos ao infinito...

Sempre recordando que todos os seres biológicos evoluem, diferentemente de objetos... A começar pela evolução fetal, e a terminar pela degradação dos tecidos, involuindo até a morte... Seres orgânicos crescem, aumentam, se reproduzem, aprendem - uns mais do que outros... e morrem...

Carlos Sherman

Neil deGrasse Tyson - Sobre OVNIs e o Argumento da Ignorância (LEGENDADO)

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

APOLOGIA BARATA


Publicaram a apologia barata acima... 

Objetei:


Pensavam a mesma coisa sobre bruxas, possessões demoníacas, entre outras besteiras ligadas a cerca de 12.000 divindades - como o deus-macaco Hanuman, ou o deus-elefante Ganesh, ou Tupã, Thor, etc... E as pessoas que fizeram sacrifícios humanos a Ai Apaec disseram o mesmo que você...

A diferença é que isso tudo aconteceu antes da invenção da eletricidade, da penicilina, e de outras benesses científicas... O seu deus, e o deus deles, durante 150.000 anos, nada pôde contra a natureza... Em pouco menos de 200 anos, triplicamos a expectativa de vida, além de reduzir a mortalidade infantil em 40 vezes, e a violência em quase 100 vezes...

Mas continue teimando com uma entidade mítica da Idade do Bronze, batendo o pé e dizendo: "eu acredito, acredito, e acredito"... E não me importo com isso, contanto que procure um médico para sua dor de dentes - porque essa era uma causa de morte frequente no mundo dominado apenas por divindades como a sua...

Carlos Sherman

AMOR...


"Esse remédio, o amor!"
Kay Redfield Jamison

UMA CAUSA PERDIDA



Recebi mais uma propaganda sobre "São Judas Tadeu, o Santo das Causas Perdidas" - e ele perdeu mesmo... E me cansei de ficar calado...

Respeitosamente, e já que recebi a propaganda, reflito sobre a questão: 

Apesar de ser retratado normalmente com uma espécie de arma ou porrete nas mãos - a "maça" -, e ser invocado pela crendice de uns em socorro às suas causas ditas "perdidas", este Judas teve o pai assassinado como consequência de sua fanática e cega devoção ao cristianismo; tendo sido, ele próprio, assassinado e  martirizado por uma multidão insuflada por sacerdotes zoroastristas, quando insistia em pregar a intolerantes devotos de outros credos, sua própria devoção intolerante...

A vida de Tadeu foi uma tremenda causa perdida... Por que a evocação mítica de sua memória deveria ter algum valor? Se a bíblia conclama a matança de pessoas que advogam em nome de outros credos, por que chorar seus próprios mártires? 

"Quando te incitar teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo, que te é como a tua alma, dizendo-te em segredo: Vamos, e sirvamos a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais; [...] Não consentirás com ele, nem o ouvirás; nem o teu olho o poupará, nem terás piedade dele, nem o esconderás; Mas certamente o matarás; a tua mão será a primeira contra ele, para o matar; e depois a mão de todo o povo. E o apedrejarás, até que morra, pois te procurou apartar do Senhor teu Deus [...];" - Deuteronômio [13:6-10]

Q.E.D.

Carlos Sherman

O ÔNUS DA PROVA



Não crer besteiras ou em afirmações sem a menor comprovação, não é outra face da mesma moeda "crente"; i.e., a não acatar proposições vazias não é um ato de "descrença", mas de civilidade e responsabilidade... O que pode ser alegado sem provas pode e deve ser descartado sem provas...
Muito embora a ausência de provas não prove a inexistência - MUITO MENOS A EXISTÊNCIA... O ônus da prova é uma das maiores conquistas da saga humana...
Fundamentar a vida em proposições evidenciadas ou comprovadas é bom e ético... Ciência é a versão latinizada para a palavra conhecimento - e só... Comprovar proposições antes de assumi-las é - antes de tudo - contribuir com um mundo mais JUSTO e consequente...
Carlos Sherman

Montalcini



"Cuando me preguntaban 'cuál es tu religión?', contestaba: 'Yo, librepensadora', y nadie sabía qué era eso. 'Y tu padre qué es?', 'ingeniero'. [Está preparada para morrir?] No hace falta. Morir es lógico. [Cuánto desearía vivir?] El tiempo que funcione el cerebro. Cuando por factores químicos pierda la capacidad de pensar, dejaré dicho en mi testamento biológico que quiero ser ayudada a dejar mi vida con dignidad. Puede pasar mañana o pasado mañana. Eso no es importante. Lo importante es vivir con serenidad [...]"

"Cuando ya no pueda pensar, quiero que me ayuden a morir con dignidad."

Rita Levi-Montalcini

Mais um apologeta: VIEMOS DO TIJOLO!



VIEMOS DO TIJOLO

Sobre um completo imbecil, de nome "Ricardo Castañón Gomez", comento que não parece possuir mais do que "un castañón en la cabeza"... Não pude evitar o "Ad hominem", ou "Ad stultus" - e que seja... Mas este falastrão, que se auto-intitula "cientista ex-ateu", parece NÃO SABER NADA SOBRE NADA... 

E se o termo "ciência" não passa da versão latinizada para a palavra "conhecimento", a atitude científica decorreria, forçosamente, do embasamento de opiniões a partir do conhecimento comprovado - Onus probandi... Mas Castañón desconhece tudo - e algo mais... Vejam esta pérola da estupidez:

"[...] Científicos... ellos insisten en que venimos del mono, ellos insisten en esas teorías que venimos de caos, de los choques interplanetarios, de las primeras partículas que cayeron, ... Y ahora miren cuan inteligente es el hombre de hoy que le es más fácil creer que venimos del mono que de Dios. Es que es grave. Y hay teorías que dicen que venimos de las abejas (risas), no se como harán esa concepción, de un mamífero semejante que salgan las abejas (risas)..." - Ricardo Castañón

Pois rimos por último deste pateta... Afinal, o "Dr." considera mais factível que sejamos parentes próximos do TIJOLO - sim, já que viemos do BARRO! - do que tenhamos evoluídos como parte integrante da natureza, como fartamente comprovado... Aqui dispomos de alguns pontos interessantes, a começar por verdades isoladas que podem configurar acachapantes falsidades - no caso, as credenciais de Castañón como cientista... E devo insistir que não importam as credenciais; pois se estamos tratando de proposições torpes, fracas, não bastarão credencias... O que importa não é o que fizemos ou não em outras esferas, quem somos, mas quais são os fatos e proposições que deitamos sobre a mesa...

Castañón alega haver trabalhado com Rita Levi-Montalcini - célebre ganhadora do Nobel de Medicina e Fisiologia em 1986, pela descoberta de uma substância envolvida no crescimento de células nervosas, possibilitando ampliar os conhecimentos sobre o Mal de Alzheimer e a Doença de Huntington; mas Castañón trabalhou apenas no laboratório desta eminente "cientista", em questões periféricas, e não diretamente nesta pesquisa - de cunho estritamente biológico... Afinal, deveria haver aprendido algo com a cientista, já que seu trabalho serve de substrato para que compreendamos a imperfeição que nos habita, a sujeição a desvios de percepção - e entre eles a crendice da qual Castañón é vítima...

E mais, o "ex-ateu" parece não haver aprendido sequer sobre os rudimentos da atitude científica, e muito menos sobre o ceticismo de Montalcinos - ateia e secular até o fim de sua vida:

"Desde pequena não me sentia igual aos demais. Quando me preguntavam 'qual é a sua religião?', respondia: 'Eu sou livre-pensadora', e ninguém sabia o que era isso. 'E seu pai o que é?'... é engenheiro." - Rita Levi-Montalcini

De nada vale dizer que somos bons, sem sê-lo; assim como de nada vale dizer que somos "cientistas", sem adotar uma atitude "científica"... As credenciais, legítimas ou não, não emitem pareceres sobre proposições e fatos.. Sendo esta uma conhecida falácia retórica: Argumentum ad baculum ou Ad verecundiam...

Castañón, em seus vídeos, faz um "copy/paste" dos piores, mais frágeis, e primitivos, argumentos apologéticos, sobre a existência de UM DEUS ESPECÍFICO - o "deus de Castañón"... com alusões colaterais à "Aposta de Pascal", ao que devo objetar sem demora:

1. Em resumo, e supostamente, os pobres ateus vivem sem a menor esperança na VIDA APÓS A VIDA; ou seja, A VÃ ESPERANÇA DE QUE SEGUIRESMOS - VIVOS, DE ALGUMA FORMA - DEPOIS DE CONSAGRADOS COMO MORTOS - pelo Instituto Médico Legal de sua região... De forma que, e apenas por medo, seria melhor "fechar" com "deus", com o "deus de Castañón", e contrariando a todos os outros deuses... Não iremos ao inferno cristão, mas o que pensarão Hanuman - o deus-macaco -, e os milhares e diversos deuses dos diversos politeísmos? O que dirão Thor, Tupã, Ai Apaec etc?

2. Então, seria melhor acreditar em deus por ser mais garantido? E não custa mada? De forma que, de acordo com a estatística delirante de Pascal - e no fim de sua vida -, é mais garantido apostar em que deus exista, e garantir um "lugar ao céu"... E não custaria nada... É só "dizer que acredita"...

3. De forma que supomos um deus estúpido e vaidoso... Que engole o nosso engodo? É só dizer que creio e pronto?

4. Mas se deus não é estúpido, então teremos que seguir sua cartilha... O que significa uma vida impraticável e terrível... Então leiam a bíblia para anotar as regras...

Toda a infantilidade da aposta pascalina, além do besteirol teológico e metafísico, fazem parte do acervo de impropérios vomitados por Castañón... "Tudo tem um criador, se o relojo tem um relojoeiro, então o homem precisa de um técnico para projetá-lo e moldá-lo"... Bom, então temo um relojoeiro cego... E um criador bem incompetente... Que nos faz comer e respirar pelo mesmo orifício... Que projeta olhos em morcegos cegos...

Toda esta baboseira não passa de um bom lote de questões mal colocadas, e da esfera neurofisiológica - capítulo "Desvios Cognitivos - A Biologia das Crendices"... E devo dizer que:

AQUELE QUE DEFENDE COM ARGUMENTOS DE OCASIÃO, O QUE DIZ SEGUIR POR UMA QUESTÃO DE PRINCÍPIOS, NÃO ACREDITA NEM NOS ARGUMENTOS, E NEM EM SEUS PRINCÍPIOS... E não passará de um ilusionista, um estelionatário, ou coisa pior...

Castañón emite opiniões comparáveis a crianças que ainda não concluíram o primário - desde que hajam sido catequizadas... De forma que, se necessito qualificá-lo para este tipo de debate, e baseando-me apenas em suas proposições - e que de fato é o que interessa -, não poderia atribuir mais do que o predicado: "santa e soberba ignorância"... em relação aos seguintes temas: comportamento humano, genética comportamental, neurociência cognitiva, neuropsicologia, neurofisiologia, neuroanatomia, genética, biologia, etologia, física, astrofísica, astrobiologia... história, antropologia, arqueologia etc...

Sem mais, Q.E.D....

Carlos Sherman

EnFim



"Tateamos resolutos - e uns nem tanto - dentro de curiosos limites em nossa neuropsicologia - desenhada pela genética comportamental em nosso tênue destino fisiológico... O aprendizado e a educação desenvolvem ou acachapam a nossa potencia de ser, mas não a recriam - jamais... Pois descubra quem eres, e então o sejas de propósito... Isso enquanto seguimos rumo à morte certa, indefesos - ou nem tanto... São os sentimentos que nos curam de uma loucura qualquer... 'EnFim'..."

Carlos Sherman

A Origem do Problema: Presunção e Narcisismo



Sobre o ambicioso vídeo de Pedro Ivo de Souza de Alcântara: "A Ética na Pós-Modernidade - A Origem do Problema"...

Algumas referências respeitáveis em um arranjo confuso e forçado; i.e., o objetivo parece ser provar que existe um tal rótulo ou marco histórico e filosófico chamado de "pós-modernidade"... E daí? Esta me parece uma finalidade pomposa e inútil, sendo a História um processo sincrético... E inútil, sobretudo, por investigar a "História do Erro"; já que a Ética, e.g., é estimulada por outros, em um processo contínuo, contingente e cego - e não por decreto platônico-aristotélico, nem pela apodítica kantiana...

Dava para encher uma enciclopédia de erros com os dizeres da dupla ateniense... Enquanto Kant, acometido por um tumor cerebral, faz uma reviravolta em seu pensamento para a sua "Crítica" - como na "Aposta" de Pascal -, ensaiando um truque nomotético, e chamando a seu deus de "imperativo categórico"... E daí? Nada além de um turbilhão oncológico e neural, um devaneio filosófico irracional, e medo... Nada mais!

O vídeo, para a audiência despreparada, parece dispor de uma locução interessante, mas não é... Bastaria uma baforada de 'A Sociedade Aberta e Os Seus Inimigos' de Popper, ou uma deliciosa viagem na 'Tábula Rasa' de Pinker, assim como a impagável obra de Tony Judt, 'Pensando o Século XX'... Isso, para não acachapar o autor com os volumes de 'A Contra-História da Filosofia' de Onfray...

A conceituação ética ao longo da História do Pensamento Humano é continuamente revisada, não existindo início ou fim, nem tanta importância ou justificativa na caricatura que pretende debilitar o conceito em um tal "pós-modernismo"... Como se as declarações de Dilma dessem ao autor um salvo conduto para desfilar sua tese: "A Existência de uma tal Pós-Modernidade"...

Um blá-blá-blá pseudo-erudito, onde um autor que declara não ser filósofo se mete a filosofar - e valendo-se apenas da dita "filosofia" consagrada pela pia batismal católica... E isso, indo do nada a lugar algum, em um lugar comum filosófico que discute o sexo dos anjos sem sequer tangenciar o tema fulcral: "por quê acreditamos em anjos se de fato não existem?"... Chega de falar do erro, da crendice, chega de Kant, Aristóteles e Platão... Falemos de Hume, Smith, Camus, e NIetzsche - e sem devoção... Chega de discutir filosofia sem o bom entendimento da natureza humana, diversa, bipolar, e maravilhosamente imperfeita...

Não estou contra o vídeo, só afirmo que não realiza o que promete... O autor alega ter descoberto a pólvora, enquanto não passa de mais um carente de atenção, e repetindo a mesma ladainha "pós-moderna"... E quem se importa com o rótulo de "Pós-Modernidade"? Mais vale dedicar o seu tempo ao estudo dos hemisférios cerebrais, à Ética consagrada em nossa cultura por força de neuropsicologia e sentido de cooperação, e seus inimigos - como o clima, a disponibilidade de água, a densidade demográfica, a vizinhança ou o isolamento...

A cultura reflete a nossa biologia, e não o contrário: "Omnia cultura ex hominem"... Não foram achologistas crentes e tirânicos que encontraram o nosso caminho ético... Tateamos em um processo contínuo, cego e contingente.... e seguimos... Entenda o processo, entenda a realidade, esqueça a idolatria, e não pretenda ser idolatrado - afinal você não acrescentou ou descobriu nada... e lamento dizê-lo... Basta refletir sobre o título para entender tratar-se de "um pouco mais do mesmo": presunção e narcisismo...

Carlos Sherman

AQUI E AGORA


AQUI E AGORA

Um querido amigo especulou e convidou ao debate, disparando:

"Estou com insônia e o Facebook me pergunta: 'o que você está pensando'? Bom, lá vai: Se a teoria de alguns físicos modernos estiver correta e o Tempo for relativo e descontínuo, sendo possível viagens no tempo... E, ao mesmo tempo a teoria de reencarnação também estiver correta... seria possível morrer e renascer no passado???? Se você acredita nessas duas possibilidades, gostaria de saber a sua opinião..."

Então lá vai:

Rssrssr... A Relatividade é assunto sério... E não existe nenhuma teoria sobre reencarnação, sendo essa uma crendice infundada, e fundada no medo de morrer... O conjunto das proposições acima não passa de um raciocínio do tipo tautológico, donde devo insistir que nos adaptemos à realidade... Mas farei melhor do que isso...

Em Física, o enunciado da Relatividade Geral (1915) de Einstein prevê a generalização da Teoria da Gravitação de Newton. Trata-se de uma extensão da Relatividade Especial, e generaliza o princípio da "relatividade do movimento para sistemas que incluam campos gravitacionais". Este passo tem implicações profundas no nosso conhecimento sobre relação espaço-tempo, e de onde decorre que a matéria ou energia curva o espaço e o tempo à sua volta, naquilo que foi batizado como "continuum espaço-tempo". Em resumo, a Gravitação Universal não passaria de um efeito da geometria deste espaço-tempo.

É importante entender a obra de Einstein e o importante conceito do "continuum [e não descontinuum, rsrsrsrs] espaço-tempo" - e sobre como esta conceituação física afeta o imaginário popular ou a mente dos aficionados pelas missões da Enterprise... Einstein realmente elucubrou sobre algumas implicações teóricas de suas sacadas, como: (1) a velocidade da luz, 300.000 km/s, é a mesma para todos os observadores no universo - estejam eles em movimento ou não; (2) qualquer observador em velocidade constante deve "perceber" os efeitos das leis da física da mesma forma... Juntando as peças, teorizou que, como o tempo e o espaço são relativos - à velocidade da luz -, um observador em movimento poderia "sentir" a passagem do tempo em uma taxa mais lenta do que outro observador em repouso... Como o marco para esta relativização é a LUZ, os efeitos desta percepção seriam tão mais sensíveis quanto for a razão entre o nosso movimento e a velocidade da luz...

Sendo assim, quando viajamos em um avião a cerca de 1.000 km/h não percebemos que "o tempo passa relativamente mais devagar" - mas esta relatividade existe em relação apenas à velocidade da luz... Para uma vaga ideia de como isso nos afetaria, bastaria dividir 1.000 por 300.000.000, e esta seria a correção relativística necessária... A Teoria foi provada, quando relógios atômicos de altíssima precisão viajaram com foguetes em "alta" velocidade, retornando à terra um pouco atrasados em relação aos relógios que permaneceram em repouso...

As sondas espaciais da família Helios viajaram a 252.792 km/h, sendo os objetos mais rápido construído pelo homem... O problema de incluir humanos em missões espaciais não seria tanto a velocidade, e sim a ACELERAÇÃO... Os nossos melhores pilotos de caça, seres humanos notavelmente saudáveis, podem aguentar até no máximo 12 "g" de aceleração (algo em torno de ~120 m/s2); os astronautas estão submetidos a limites inferiores a isso... O corpo sofre muito com este nível de aceleração, com vômitos, desmaios etc.; além dos efeitos deletérios, em uma viagem espacial, da ausência ou diminuição dramática da gravidade...

De forma que, como precisamos acelerar para atingir velocidades "inter-galácticas", como no caso da turma do capitão Kirk, o assunto estaria fora de questão - seja ela física ou teórica, considerando as limitantes dos fenômenos biológicos... Isso sem contar os efeitos neuropsicológicos... Mas, se magicamente nos transportássemos à uma certa velocidade constante muito elevada, e apenas em princípio teórico, os limites seriam inimagináveis... Viajamos nos espaço, neste exato momento, a cerca de 108.000 km/h em torno do Sol, que por sua vez viaja a cerca de 1.000.000 km/h em torno de um Buraco Negro no centro na Via Lactea... Mas estamos em velocidade constante...

Como os princípios da Relatividade estão demarcados pela luz, sabemos com certeza que somente ondas eletromagnéticas podem se aproximar deste feito - e sem direito a Sursis... Apenas para curtir uma VGM clássica (Viagem Geral na Maionese), e satisfazer a fantasia popular, se a Enterprise estivesse viajando segura e constantemente à uma velocidade próxima à luz, dirigindo-se ao centro de nossa galáxia a partir da Terra, levaria cerca de 25 mil anos em tempo terrestre, enquanto a tripulação sentiria somente 10 anos de convívio... Em todo este tempo e alheios ao convívio na nave, uma terrível Federação Inter-galáctica poderia tramar a tomada do poder na Terra, e quem sabe em toda a Via-Láctea [sic] - afinal, somente na ida e volta, 50 mil em mudanças nos esperariam... E quem sabe os símios, nossos primos primatas, estivessem no poder! Quem sabe? Rsrsrsrsr, ai ai...

Mas o buraco é mais embaixo, e por quê? Porque, por exemplo, devo dizer que o Universo está em expansão, acelerando acima da velocidade da luz... Sim senhor, e isso é possível, mesmo considerando a Relatividade Geral... Explico: imagine um balão de aniversário, e imagine que desenhamos galáxias em sua superfície... Agora imagine que estamos enchendo o balão... Não podemos superar a velocidade da luz na superfície do balão, e entre outros motivos devo esclarecer que o Universo está conformado e feito de LUZ, de forma que não podemos desconsiderá-la jamais... Mas a velocidade de enchimento do balão, ou expansão do Universo pode e é maior do que a velocidade da luz... e continua acelerando por força da "energia escura"... E esqueça o Darth Vader - o papo aqui é sério e reto, rsrsrsrs...

E escrevi alguns livros para elucidar a questão, explicando porque a velocidade está limitada pela luz na superfície do balão - nosso universo -, mas pode ser superada fora dela... com destaque para 'FIAT LUX - O Homem, Memória do Universo', que estarei disponibilizando para compra na Internet em alguns dias... mas que terei o prazer de doar a quem não puder comprar...

E tem mais, muito mais, pois quando discutimos sobre Relatividade, como um refinamento da Gravitação de Newton, nos esquecemos de que a Teoria Padrão da Física Quântica revisou toda a questão, explicando por meio da Mecânica Quântica todas as forças no Universo: nuclear fraca, forte, electromagnetismo e gravitação... Sendo a última a força mais fraca no Universo; e podemos constatar que sim, quando um simples imã de geladeira ganha a luta pelo controle de uma folha de papel, contra toda a força gravitacional exercida pela Terra... 

Sendo assim, deveríamos também incluir esta discussão, e o "graviton" entraria em cena - assim como o bóson de Higgs... A Relatividade "sabe que", enquanto a Teoria Padrão trata de "saber como" tudo funciona... E estamos com o dever de casa quase concluído, embora já possamos afirmar que o modelo esteja validado... E isso não abre espaço para mais elucubrações "quânticas", "princípio da incerteza" etc... Afinal a abrangência da Física Quântica está regida pela Constante de Planck, e ponto final... Só podemos incluir neste debate fenômenos relacionados a partículas subatômicas, e nada mais...

Finalmente precisamos incluir a Termodinâmica nesse papo... Sendo a Entropia uma irrevogável SETA DO TEMPO... De forma que os mais românticos devaneios sobre "volta ao passado" estarão, após este arrazoado, fadados às telenovelas... As leis fundamentais da física não distinguem passado de futuro! MAS, os fenômenos à nossa volta, estes sim são inescapavelmente irreversíveis... A seta do tempo aparece com a complexidade, ou quando o número de partículas constituintes de um fenômeno é grande - como no caso dos fenômenos macroscópios que regem a vida e a vida do homem, e contam com cerca de 10^23 partículas... E por quê? Porque cada partícula jogará o seu destino individual... de certa forma imprevisível...

Devemos muito de este entendimento a Boltzmann, quando analisamos que um sistema de muitas partículas não passa espontaneamente de um estado de alta multiplicidade para um de baixa multiplicidade; i.e., e citando a belíssima e elegante Segunda Lei da Termodinâmica, "a Entropia de um sistema isolado nunca diminui", sendo a Entropia uma medida do grau de "desordem das partículas de um sistema físico"...

Isso sela definitivamente o assunto sobre voltar no tempo ou na vida...

"O tempo acaba o ano, o mês e a hora, a força, a arte, a manhã, a fortaleza; o tempo acaba a fama e a riqueza, o tempo o mesmo tempo de si chora." - Luís de Camões

De forma, meu amigo, O MELHOR - E ÚNICO [GRIFO MEU] - LUGAR DO MUNDO É AQUI E AGORA...

"O melhor lugar do mundo é aqui e agora. Aqui, onde indefinido, agora, que é quase quando. Quando ser leve ou pesado, deixa de fazer sentido." - Gilberto Gil ('Aqui e Agora')...

Já a "reencarnação" é um assunto neuropsicológico ou de aplicação do Código Penal - respectivamente vítima e algozes... Reencarnação é um assunto relacionado à mais ampla ignorância sobre todos os fenômenos que regem a vida e a cognição humana.. E não devemos perder tempo algum com estes delírios... Mas a fantasia e a crendice são preocupações REAIS, e existe uma "Biologia para a Crença", sendo esta amplamente estudada pela Neurociência Cognitiva, no capítulo Desvios Cognitivos de Percepção, onde figuram ilusões, delírios e até alucinações... E está dito e feito...

Tenham um lindo dia, AQUI E AGORA... Não existe vida após a vida... A morte será implacável, então cuidemos de não haver desperdiçado este maravilhoso tempo nesta maravilhosa realidade... maravilhosamente imperfeitos... Humanos, troppo umanos, 'EnFim' - título de meu livro sobre a morte...

P.S.: Assuntos complexos exigem respostas complexas, e o que pode ser afirmado sem provas pode e deve ser descartado sem provas... A ausência de evidências não é evidência da ausência, E MUITO MENOS DA EXISTÊNCIA... Consideremos, ao escolher as proposições sobre as quais gostaríamos de debruçar, que a vida é finita... A Metafísica é um bom lote de questões mal colocadas, então não desperdice sua vida em besteiras... Existe muito trabalho a ser feito...

TRY REALITY!

Carlos Sherman

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

SENTIMENTOS QUE CURAM


SENTIMENTOS QUE CURAM
(versão "beta", sem revisão)

No Terceiro Milênio, e no último Natal, 132 crianças californianas ainda estreavam seus presentes quando foram diagnosticadas com sarampo – porque visitaram a Disneyland ou porque estiveram em contato com alguém que fez o passeio... O vírus também passou pela imigração adentrando o Canadá, onde mais de 100 crianças foram diagnosticadas somente em Quebec. Mas o mais trágico  neste preâmbulo, é que o sarampo, capaz de matar uma criança debilitada, pode ser combatido de forma simples e eficaz. Basta uma pitada de Ciência, na forma de uma vacina, disponível há mais de meio século, para manter seguras as nossas crianças contra o sarampo.

Mas porque crianças americanas e canadenses não foram vacinadas contra o sarampo? Não amamos nossos filhos? Por que seus pais seguiram crendices e foram embalados pelo medo ignóbil? Entre outros fantasmas do imaginário popular, o vilão neste caso foi o medo de que “contraíssem” o autismo ao serem vacinadas. No funesto caso, a crendice nasceria de um artigo pseudocientífico  polêmico e inflamado, mas extensamente desmentido, retratado, e reconhecido como uma fraude deliberada pelo ‘British Medical Journal’...

Em 1998, o cirurgião inglês, Dr. Andrew Wakefield, e seus colegas, publicaram um estudo na conceituada revista médica  ‘The Lancet’, relatando 12 casos de crianças com autismo, e relacionando os casos de 8 delas com sintomas iniciados uma ou duas semanas após a aplicação da vacina tríplice viral – contra o sarampo, caxumba e rubéola.  O estudo de Wakefield era falho na medida em que não estudou a incidência de autismo em centenas e milhares de crianças que tinham ou não recebido a vacina tríplice viral – uma comum ignorância do tipo “estatística”, além de uma inegável tendência à crendice, e a argumentos do tipo Post hoc ergo propter hoc (ou falácia da correlação coincidente; a ideia de que dois eventos que ocorram em sequência cronológica estão necessariamente interligados através de uma relação de causa e efeito – depois disso por causa disso...).

Em 2010, o Conselho de Medicina Britânico considerou que Wakefield agiu de maneira antiética e desonesta ao vincular a vacina tríplice ao autismo; ainda de acordo com o Conselho, a sua conduta trouxe má reputação à profissão médica depois que Andrew coletou amostras de sangue de jovens na festa de aniversário de seu filho, pagando-lhes £5 por picada...

“[...] conduta desonesta e irresponsável [...] notório desprezo à vida.”

Assim o sarampo ressurgiria no Reino Unido e em vários países do mundo civilizado... Devido à ignorância, muitos pais deixaram de vacinar seus filhos, e as taxas de vacinação nunca mais voltaram a subir, e os surtos da doença tornaram-se mais frequentes depois da publicação do criminoso artigo – já que Andrew falsificou resultados, interessado apenas em promover o negócio de sua vacina tríplice “alternativa”. Wakefield hoje é ex-cirurgião e ex-médico... no Reino Unido.

A denúncia da fraude viria, finalmente, com uma matéria publicada pelo jornalista Britânico Brian Deer; mas não seria tão simples assim, afinal Deer também seria acusado de interesses escusos, e “envolvimento com os interesses das empresas farmacêuticas multinacionais, na tentativa de desacreditar a pesquisa”... Um pouco de conspiracionismo, ou “piração coletiva”, e a crendice estaria alastrada...

Diversos estudos seriam realizados em todos os continentes, demonstrando cabalmente que a vacina tríplice viral não causa autismo... e nada pode além de salvar vidas... Haveria uma horda retrações públicas, outros pesquisadores retiraram seus nomes do estudo, e a revista ‘The Lancet’ faria a sua retração formal na edição de fevereiro de 2010. Mas o estrago estava feito, e a mentira subsiste, por força da tendência humana de “crer na crença”, até os nossos dias...

Uma pitada de conhecimento ou scientia e estaremos livres de engodos e delírios, como no caso do autismo causado por vacinação... E, imediatamente, a figura do consagrado padre e santo católico “de culto irrestrito”, que viveu no século II, tendo influenciado os “doctores” Orígenes de Alexandria e Santo Agostinho, me vem à mente:

“Credo quia absurdum/ Creio porque é absurdo...”

Trata-se da paráfrase de uma dentre muitas sentenças da obra deste apologeta, intitulada ‘De Carne Christi’:

“[...] prorsus est credibile, quia ineptum est [...] / [...] se crê precisamente, porque é absurdo [...]" – Tertuliano de Cartago

Propondo exatamente que os dogmas cristãos devem estar apoiados, com ainda maior fervor e convicção, quando mais absurdas as teses nos pareçam... O que não passa de um convite à insanidade... Mas velhas crenças teológicas, quando pareciam debilitadas pela razão, reapareceriam em pleno século XVIII, ou sempre que uma possibilidade “sobrenatural” se acercava. A varíola foi uma destas oportunidades para a ignorância religiosa desfilar o “círio”, e desatando uma tempestade de protestos teológicos contra a ‘razão’.

Um clérigo anglicano publicou um sermão onde afirmava que, assim como “as pústulas de Jó eram devidas à inoculação do diabo, assim havia sucedido com a crescente epidemia de varíola”. Vários “ministros” eclesiásticos escoceses publicaram manifestos contra a Ciência Médica, e em especial contra a recente descoberta da circulação sanguínea, os estudos de anatomia, fisiologia, etc. – assim como o estudo de ‘células-tronco’ em nossos dias; afirmando que estávamos “tratando de desafiar o julgamento de deus” – sobre quem deve ou não deve morrer. Mas a varíola responderia a toda esta carolice com mais e mais mortes. Quanto mais oravam e praguejavam contra a Ciência, mais mortos. Os terrores teológicos foram acalmados pelo terror imposto pela realidade da morte.

A controvérsia parecia declinar, quando foi descoberta a VACINA. Os “clérigos” de todas as facções da cristandade afirmavam em uníssono que:

“[a vacina era um] insolente desafio aos céus, e à VONTADE DE DEUS.”

Em Cambridge e na Sorbonne, universitários cristãos unidos pronunciaram sermões opondo-se à VACINA. O mais grave sucedeu quando, em 1885, e já no século XIX, houve um disparo no número de casos da doença em Montreal, Canadá, e a parte católica da população repudiou a vacinação. Um sacerdote católico declarou que:

“Se estamos afligidos pela varíola é por que comemoramos o carnaval no último inverno, festejando a carne e ofendendo ao Senhor.”
 
As mortes vieram sem trégua sobre os católicos, e “deus”, por alguma misteriosa razão, pouparia apenas àqueles que foram vacinados.

“Os Padres Oblatos, cuja igreja estava situada no coração do distrito infestado, seguiram denunciando a vacina; foi exortado aos fiéis para que se dedicassem a diversos tipos de devoção; com a permissão das autoridades eclesiásticas, foi ordenada uma grande procissão com um solene chamamento à Virgem, e foi cuidadosamente especificado o uso do rosário.” (White; op. cit., v.II, p.60)

Pobres fiéis, todos aniquilados pela varíola! O mesmo sucederia com o advento da descoberta dos afeitos anestésicos do clorofórmio pelo médico escocês Sir James Young Simpson (1811—1870). Simpson, em 1847, recomendou o uso no parto, ao que o clero lhe respondeu com Gênesis [3:16]:

“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” - Gênesis 3:16

Simpson, no entanto, logrou aprovar os anestésicos para os homens, salientando que “deus” havia – ele próprio - anestesiado Adão, “adormecendo-o, antes de extrair sua costela”.

Sim, precisamos abolir tudo isso, o Corão, a Torá, o velho e o novo testamento, a RELIGIÃO, para vivermos melhor, com mais saúde, paz, e em verdadeira harmonia. E não seremos capazes de fazê-lo se não pudermos entender e combater o primeiro fundamento contido em tais livros; i.e., o enaltecimento da ignorância pelo repúdio à razão e ao entendimento, ao conhecimento REAL, factual, Científico - e a subsequente glorificação da submissão, da servidão, do conceito de manada.
Não seremos capazes de abolir tais livros se não pudermos entender antes a clara sentença de morte à consciência, e àqueles que a conservam: os “hereges”. E não poderemos dar este passo, se não pudermos constatar também o preconceito, o sectarismo, o racismo, a pulsão de MORTE, e o regozijo pela morte, contido em tais mensagens apologéticas.

Em 1904, na cidade do Rio de Janeiro, diante de uma epidemia de varíola, o médico sanitarista Osvaldo Cruz liderou uma campanha pela vacinação, que viria assim a tornar-se obrigatória. Como relata a História, uma ampla reação na forma de desobediência civil e violência, seria orquestrada por setores conservadores e religiosos, sendo o movimento conhecido por “A Revolta da Vacina”... Não obstante isso, passado pouco tempo, e muitos mortos depois, as pessoas passariam à buscar a vacinação voluntariamente.

Como bem relatado pelo jornalista Simon Singh, os “gurus homeopatas”, a despeito de sua risível terapia, podem oferecer aconselhamento claramente nocivo à saúde. Quando questionados por Singh sobre a imunização de crianças com a vacina tríplice, “de 168 homeopatas consultados, apenas 75 responderam, mas apenas dois indicaram a vacinação” – estando os demais ocupados em seu comércio [nota minha]. “É evidente que a enorme maioria dos homeopatas não encoraja a imunização”, ressaltou o jornalista. Seria cômico se não fosse tétrico...

As farmácias que produzem e vendem produtos homeopáticos não são iniciativas corajosas, assim como Wakefiled, “contra as grandes indústrias farmacêuticas”; e ao contrário, a indústria homeopática está mais do que feliz em lucrar com aquilo que não possui efeito algum, e que reconhecidamente não possui qualquer substância ativa – muitas vezes abaixo da constante de Avogadro... A dita “medicina alternativa” pode ser uma forma “alternativa” de viver, mas certamente não se trata de Medicina... nada além de uma forma “alternativa” de lucrar com a vã esperança produzida pelo desespero.

O que torna a questão ainda mais revoltante, é que tais doentes poderiam encontrar esperanças concretas na Ciência Médica, e não o fazem... Prevalecem interesses comerciais, onde até mesmo os planos médicos apresentam cobertura. Um terrível e criminoso ato de negligência, desde a demonização da vacinação - um dos mais poderosos recursos médicos para controlar e erradicar doenças epidêmicas -, até casos como o de Daniel Hauser - felizmente curado do câncer pela medicina -, ou o de Gloria Sam - infelizmente morta através da homeopatia.

Quando assisto à iniciativa de médicos belgas em promover anualmente o “Dia do Suicídio Homeopático”, onde doses “cavalares” de formulações homeopáticas são ingeridas na tentativa vã de consagrar ao menos “um morto”; reflito que a questão não é nada cômica. Daniel Hauser contava apenas 13 anos, quando um “Linfoma de Hodgkin” foi diagnosticado. O menino foi submetido à quimioterapia, mas, contrariado com os notórios efeitos colaterais, e por decisão de sua mãe, alegou que gostaria de seguir uma “terapia alternativa”.

Por “alternativo”, a crendice popular vigente considera tudo aquilo que não esteja baseado na “medicina convencional” – onde convencional claramente corresponde a “atrasada”... Junte-se a isso um mantra de terminologias difusas e sedutoras como “holístico”, “nativo”, “natural”, “equilíbrio”, “harmonia”, “intuição”, “energia”, “forças ocultas”, “forças misteriosas”, “forças invisíveis”, “esotéricas”, “espirituais” etc., e blá blá blá blá blá... e assim está conformada a lambança. O caso de Daniel, a “alternativa” vinha da devoção cega de sua mãe pelo “tratamento médico holístico com base em práticas de cura do nativo americano chamado Nemenhah – A Voz da Razão e do Espírito dos Índios Americanos”... Sedutor, e cobrando USD 250 ao mês, mais extras de USD 100... por “proteção espiritual”...

Mas o que diz e pensa o “povo de Nemenhah”?

"Nós acreditamos na sabedoria do Criador. Esta sabedoria, juntamente com os dons da nossa cultura, nossos costumes, nossas tradições e nossas crenças, como eles são expressos nas declarações sagradas e performances do Caminho de Cura Sagrada Sahaptan, e estão presentes e foram dados a nós pelo Criador, através de Wyaykihn, e eles não podem nem ser dados nem levados por outras pessoas, povos, nações ou governos [...]" (‘Constituição Nemenhah’; Artigo Terceiro; 2014)

Mas este devaneio absurdo cresce a cada parágrafo...

“Nós acreditamos em milagres; tais como curas, profecias, visões, Wyaykihn (revelações pessoais e visitas espirituais), o falar em línguas, a interpretação de línguas, a tradução de línguas antigas, e assim por diante; e que é o direito de todas as pessoas em curar e serem curadas, sem restrições de qualquer governo terreno para a Medicina Natural, e modalidades naturais de cura, dons do Criador [...].” (‘Constituição Nemenhah; Artigo Décimo; 2014)

Trata-se basicamente de um delírio sincrético entre a sedução do “bom selvagem” com o “bom cristão” – duas flagrantes besteiras, já que a Bíblia nada versa sobre o “bom comportamento”, e quanto mais selvagem ou primitivo mais violento um povo será, contrariando os devaneios rousseaulianos fundados sobre uma leitura equivocada de Locke, e pelo confronto filosófico com Hobbes ...  Tal sincretismo conflui e desagua em relatos como este:

“Nós nos sentamos na escuridão quente, húmida [...] para saber por que o seu câncer de mama continuava a se espalhar, apesar de ‘fazer tudo certo’. [...] Ela praticava yoga, membros de sua igreja oraram por ela regularmente, ela tinha o mais famoso oncologista em sua região, e as mais recentes terapias. Ela fez acupuntura regularmente, recebeu vitaminas intravenosas, teve massagens de cura, e comeu uma dieta ‘vegan’. No entanto, o câncer continuou a se espalhar. Tínhamos viajado para Dakota do Sul para visitar um curandeiro nativo americano. Eu estava fazendo minha peregrinação regular, e Barb tinha pedido para se juntar a mim. Ela pensou: ‘um curandeiro tradicional pode ser capaz de mudar as coisas para mim’. [...] a porta se abriu e o vapor foi derramado. Nos esfriou enquanto a água fez sua passagem lenta, ao redor do círculo montado. Sonny falou em voz baixa o suficiente para que todos ouvissem: ‘Nariz Grande diz para perguntar-lhe o que não mudou?’, disse ele. ‘Ele não se importa com o que você tem feito. Ele quer que eu lhe pergunte: o que não foi alterado?’ Barb começou a soluçar, [...] ‘Eu ainda sou um fracasso’, disse ela. ‘Não somente um fracasso como uma esposa, mas também como mãe e advogada’, disse ela, ‘mas agora eu sou um fracasso para a cura também.’ Nariz Grande foi o principal ajudante espiritual de Sonny. Em vida, Nariz Grande havia sido o avô de Sonny. Agora Sonny havia invocado o espírito dele para obter instruções sobre como curar. [...] Durante treze anos, Sonny fez a viagem ao topo da Colina do Urso para sentar-se por quatro dias e noites, clamando por uma visão. Até que finalmente Nariz Grande veio.”

Uma salada perigosa de crendices diversas – vegan, yoga, acupuntura -, relacionada com nada menos do que o CÂNCER, para terminar em uma estorinha em quadrinho de “forte apache”, com direito ao “chefe Nariz Grande”, na “Colina do Urso”, com direito à delírios causados por 4 dias e noites em isolamento... um clássico no estudo neurocientífico. Tudo muito sedutor, anedótico, irresponsável e criminoso... Mas, se considera que sua vida está salvaguardada de devaneios deste calibre, então me responda por que faz o sinal da cruz diante de uma igreja, ou por que pede a benção à sua avó? Os ‘Testemunhas de Jeová’ são apenas uma variante do seu cristianismo, uma variante mais “coerente” com os dizeres bíblicos, quando dizem não à transfusão de sangue – um importante recurso para salvar vidas:

“Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da fornicação, do que é sufocado e do sangue.” – Atos [15:20]

Devaneios à parte, e retornando ao destino de Daniel, sabemos que um juiz cumpriria o seu dever, ordenando aos pais do menino que seguissem com a quimioterapia de indução e a radio – da qual o menino tanto necessitava. Foi quando a mãe de Daniel raptou o menino e partiu em fuga - e sua vida realmente correu perigo, até que o cerco a forçou a se entregar... Quando a Ciência Médica concluiu o seu trabalho, contrariando os desígnios do ‘Pinóquio Cherokee’, veio a declaração pública:

“Daniel Hauser, o adolescente Sleepy Eye, que ganhou atenção nacional por resistir judicialmente ao tratamento de câncer, terminou sua quimioterapia e agora tem planos para celebrar o feito com uma festa da pizza em sua casa, junto à família e amigo.”

Sua mãe, Colleen Hauser, e cuja crendice quase lhe custou à vida do próprio filho, diria:

"É muito bom o que ele conseguiu [...] Ele está vomitando, além de outras reações normais, mas vamos mantê-lo ocupado e distraído, e isso ajuda muito."

A náusea é um pequeno preço a pagar para sobreviver a um câncer potencialmente fatal... Zwakman, um “amigo” da família, teve a cara de pau de dizer que “as terapias naturais praticadas pela família ajudaram a enfraquecer o tumor antes da quimioterapia retomada”... Em uma palavra, e evitando xingamentos, devo dizer sonoramente que NÃO! Durante o par de meses em que as “terapias naturais” cuidaram do menino, o tumor quase dobrou de tamanho.

Os charlatões sempre querem levar a melhor, e este é o truque de “jogar tênis sem rede”... Se der certo “foi deus”, mas se der errado “fodeu” – com o perdão da palavra... Este é o truque dos picaretas, e se não funcionar a culpa terá sido de sua pouca fé no “tratamento espiritual”... A ‘Associated Press’ em Sydney, em sua primeira página, em 28 de Setembro de 2009, daria conta de “mais uma bola na rede espiritual”: “Casal homeopata preso pela morte da filha”...

Thomas Sam, de 42 anos, “professor de homeopatia”, e sua esposa Manju, 37 anos, ambos de Sydney, Austrália, foram condenados pelo homicídio culposo de sua filhinha de nove meses, Gloria... A ingloriosa crença na homeopatia havia vitimado mais uma criança, onde se lia na causa mortis do atestado de óbito: “septicemia e desnutrição” – século XXI... 25 anos de prisão por ignorância, e tendo causado o intenso sofrimento de seu bebê; decididos a não recorrer à “medicina convencional” diante de uma doença dermatológica gravíssima.

Mas o que existe de “convencional” em revolucionar o entendimento da vida e da morte, em revolucionar todo o entendimento da biologia, alçando a expectativa de vida humana aos 80, 90 anos – tendo esta adormecido, durante quase 150 mil anos, no mesmo patamar, entre 25 e 35 anos? O que existe de “convencional” na diminuição de mais de 40 vezes em nossas taxas médias de mortalidade infantil, cuja triste e funesta dissidência repousa apenas nos dados daqueles países optantes pela dita “alternativa”? Convencional é o a ridícula dicotomia do raciocínio do pai da homeopatia: “quanto menos mal, mais bem”, ou quanto mais ineficiente melhor...  

Thomas Sam, o “professor de homeopatia” continuou “acreditando” em sua magia, mesmo depois que sua filha foi diagnosticada com uma severa infecção aos quatro meses de idade, e sua “fé” persistiu quando sua saúde foi deteriorada a ponto de seu cabelinho negro se tornar completamente branco. Isso é horripilante! Gloria estava desnutrida pela “terapia” do pai, e seu sistema imunológico incapaz de lutar contra as infecções que invadiam seu corpinho, e controlavam o seu complexo sanguíneo através da pele erodida. Um sofrimento intenso, indizível, mesmo para os padrões do apocalipse cristão contra os hereges... Quando alguma lucidez superou a ignorância do “professor”, já era muito tarde... A menina foi acolhida em um hospital em estado de choque, os médicos ministraram doses cavalares de morfina para aliviar o intenso sofrimento do bebê – que tinha a pele queimando como em “mármore derretido”, e onde se podia escutar “o ranger dos dentes” de sua lacerante dor... Imediatamente, doses elevadas de modernos antibióticos, indicadas apenas a situações limítrofes da vida, tentaram combater - sem sucesso – uma terrível infecção ocular colateral que causava o “derretimento de suas córneas”. Três dias de suplicio, e esta inocente criança havia perdido a luta para a ignorância... E isso me remete outra vez a Tertuliano – Ipsis litteris:

“Crucifixus est Dei Filius, non pudet, quia pudendum est; et mortuus est Dei Filius, prorsus credibile est, quia ineptum est; et sepultus resurrexit, certum est, quia impossibile.” (De Carne Christi V, 4)

Ou “O filho de deus foi crucificado, não existe vergonha, porque é vergonhoso; e o filho de deus morreu, é por isso que cremos, porque é absurdo; e sepultado e ressuscitado, é certo porque é impossível”... Tautologias e devaneios verborrágicos, que escondem uma verdade atordoante, a prevalência de problemas mentais em oradores que arrastaram multidões... Alguns desejam reclamar a razão pedindo que nos desfaçamos dela, sendo Tertuliano um clássico no gênero. Agostinho, outro “santo”, tem uma fórmula similar, mas o truque se esconde de forma muito mais sutil:

“Credo ut intelligam/ Creio para entender.”

E retornamos Terceiro Milênio, onde pais crentes negligenciam a vacinação de seus bebês... E por quê? Além do “meme” crente disparado por Wakefield, um gráfico indicando que a prevalência do autismo vai crescendo ao longo do tempo – com destaque exponencial para o Século XX -, termina por provocar mais uma onda de choque e histeria - já que a doença sempre foi considerada “indiscutivelmente” rara. Psicólogos e pediatras ouviram falar do autismo por meio da literatura, e atravessaram toda uma carreira sem presenciar um único caso. Por décadas, as estimativas de prevalência permaneceram estáveis, entre três ou quatro crianças a cada dez mil. Mas nos anos 1990, os números começaram a disparar. Organizações como a “Autism Speaks”, sempre se referiram ao autismo como uma espécie de “epidemia”, como se fosse possível “contrai-lo de outra criança na Disneylândia”.

Mas então o que estava acontecendo? Se não são as vacinas, o que seria então? O que está causando o “aumento do autismo”? Por que era tão difícil de encontrar casos de autismo antes dos anos 1990? E foi então que o impagável autor americano, dedicado a temas neurocientíficos, Steve Silberman, decidiu responder a estas questões.

Silberman descobriu o problema residia “no poder sedutor da narração de histórias”, na eloquência humana, nos fascínio por ídolos, e na “crença na crença”... Durante o Século XX, uma estória equivocada propagaria um erro sobre o autismo. Uma estória mal nascida foi recontada e tendo assimilado mais equívocos, até encontrar novos protagonistas, em uma Ciência cada vez menos personalista – e aqui estamos diante de uma acachapante descoberta: havia uma segunda estória, muito mais precisa, e amplamente endossada por evidências e provas, e despida de arrogância e crendices - perdida e esquecida nos recantos obscuros da literatura clínica.

A história do erro, sobre o autismo, começa com o psiquiatra infantil do Hospital John Hopkins, Leo Kanner. Em 1943, Kanner publicou um artigo descrevendo 11 casos de jovens que pareciam “habitar mundos particulares”, ignorando as pessoas à sua volta, e até mesmo os próprios pais; podiam se divertir por horas batendo as mãos em frente ao próprio rosto, mas entravam em pânico por pequenas coisas, como quando o seu brinquedo preferido era trocado de lugar sem o seu conhecimento ou consentimento. Com base em seus pacientes, Kanner presumiu então que o autismo era “muito raro”.
Nos anos 50, consagrado como autoridade mundial e isolada sobre o tema, Kanner declararia que não havia visto mais de 150 casos de "sua síndrome", ao longo de sua carreira; isso, enquanto empreendia a busca de novos casos “em lugares remotos como a África do Sul”. Na verdade esta “raridade” não era de surpreender, considerando os critérios de Kanner para diagnosticar o autismo. Por exemplo, ele desprezou crianças que apresentavam surtos epiléticos, quando hoje sabemos que a epilepsia é muito comum no autismo. Certa vez, Kanner se gabou de ter dispensado nove entre dez crianças trazidas à sua clínica por outros especialistas, e diagnosticadas como autistas.

Kanner foi um cara esperto, mas seria bem melhor descrito como arrogante; suas teorias, em grande parte, estavam inteiramente furadas, e já caíram por terra... Ele classificou o autismo como uma forma de “psicose infantil” causada por pais frios e indiferentes.

“Estas crianças foram mantidas num refrigerador que não descongela.”

As “mães-geladeiras” escutariam ainda que seus filhos estavam condenados, por sua culpa, a...

“[...] um isolamento extremo desde o início da vida e um desejo obsessivo pela preservação da mesmice.”

O sofrimento dos pais destas crianças, por pelo menos duas gerações, é incalculável... As crendices behavioristas de Kanner, no entanto, desprezaram o fato de que muitos de seus jovens pacientes exibiam habilidades especiais concentradas e certas áreas e especialidades, como a música, matemática e memória. Um garoto em sua clínica conseguia distinguir entre 18 sinfonias diferentes antes de completar dois anos; quando a mãe tocava seus discos preferidos, ele dizia com exatidão: “Beethoven!”... Mas Kanner não viu nada disso, tratando estas inescapáveis habilidades com desdém, alegando que as crianças estavam apenas “regurgitando coisas que ouviram seus pais esnobes, desesperadas para ganhar a sua aprovação” – males do behaviorismo...

Uma mente congelada, responsável por estigmatizar o autismo, trancando pelo menos duas gerações de crianças em frias instituições – “para o seu próprio bem” -, e tornando-as invisíveis ao mundo até 1970 - ironicamente quando alguns pesquisadores começaram a testar a teoria de Kanner sobre o “autismo era raro”. Uma afetuosa mãe-geladeira, a londrina Lorna Wing, psicóloga cognitiva, considerava a teoria de Kanner sobre o “refrigerador parental” uma "total estupidez" – como diria pessoalmente a Silberman. Ela e o marido, John, extremamente afetuosos, eram os felizes pais de Susie – diagnosticada como autista.

Lorna e John conheciam de perto as dificuldades inerentes à educação de uma criança como Susie; não contando com serviços de apoio, educação especial, e outros recursos indisponíveis – além do estigma. Para convencer o Serviço Nacional de Saúde Britânico sobre a necessidade de destinar mais recursos para crianças autistas e suas famílias, Lorna e a sua colega Judith Gould, decidiram lutar contra um estigma de 30: realizando um estudo científico e efetivo sobre a prevalência do autismo na população em geral. Então, caminharam pelas ruas de um subúrbio londrino chamado Camberwell em busca de crianças autistas; e isso bastou para perceberem que algo cheirava mal no modelo de Kanner, enquanto a realidade do autismo era muito mais colorida e diversa do que os tons cinzentos sacramentados por seu detrator.

Algumas crianças eram incapazes de se comunicar, enquanto outras descreviam com fascínio com a astrofísica, dinossauros, ou discorriam sobre a genealogia da realeza... Em outras palavras, essas crianças não se enquadravam em alguns dos padrões mais óbvios e monolíticos estabelecidos por Kanner... No início, elas ficaram perplexas e perdidas, lutando com os dados e buscando algum sentido. Como ninguém havia notado essas crianças antes? Lorna então tropeçaria com um artigo publicado na Alemanha em 1944 - um ano após o artigo de Kanner; este artigo esquecido, enterrado com as cinzas de uma época terrível e que ninguém gostaria de lembrar, lançava uma revolucionária luz sobre o tema. Kanner sabia deste artigo concorrente, mas, meticulosa e ambiciosamente, evitou mencioná-lo em seu trabalho.

A História do Autismo seria então recontada... Uma estória alternativa, contada por um homem chamado Hans Asperger que dirigiu uma clínica e uma escola em Viena nos anos 30. As ideias de Asperger sobre ensinar crianças com “diferenças de aprendizado” eram revolucionárias mesmo para os padrões contemporâneos. As manhãs em sua clínica começavam com aulas de ginástica com música, e as crianças faziam peças teatrais nas tardes de domingo. Em vez de culpar os pais por causar o autismo, Asperger o delineou como “uma deficiência poligenética definitiva”, e que requer formas compassivas de apoio e adaptação durante todo o curso da vida do individuo. Em vez de tratar as crianças na clínica como “pacientes”, Asperger as chamava de “seus pequenos professores”, e contou com a ajuda delas no desenvolvimento dos métodos de educação que seriam adaptados a elas.
Crucialmente, Asperger via o autismo como “uma diversidade continuada que abrange uma incrível gama de talentos e deficiências”. Ele acreditava que o autismo e as características autistas são comuns e sempre foram, “vendo aspectos dessa continuidade em arquétipos familiares da cultura pop”, como o cientista desajeitado socialmente e o professor distraído. Ele até chegaria a dizer que “para obter sucesso na ciência e na arte, parece ser essencial uma pitada de autismo” – ou da sedutora “bipolaridade”...

Lorna e Judith logo perceberam que Kanner estava inescapavelmente equivocado sobre a “raridade do autismo”, sobre as “geladeiras”, e tudo mais... Durantes os anos seguintes, elas trabalhariam em parceria com a ‘Associação Americana de Psiquiatria’ para ampliar os critérios de diagnósticos que refletissem a diversidade do que elas chamaram de “o espectro do autismo”. No fim da década de ‘80 e início dos ‘90, suas descobertas tiveram um efeito devastador sobre o modelo de Kanner, a partir do modelo amplo e inclusivo de Asperger.

Tais mudanças pegaram carona no interesse de Hollywood pelo tema, em filmes como ‘Tempo de Despertar’ – que retrata o trabalho de Oliver Sacks, com De Niro e Robin Williams -, e ‘Rain Man’, em 1988, com a atuação inesquecível de Dustin Hoffman -como Raymond Babbitt -, para ganhar quatro estatuetas da Academia... Pediatras, psicólogos, professores, estavam mais curiosos do que nunca sobre a questão; enquanto pais de todo o mundo abriam suas portas, seus lares, e segredos, e já não havia nenhuma geladeira, senão no frio mundo de Kanner.

A combinação de ‘Rain Man’ com as mudanças de conceitos e critérios, criaram um maravilhoso efeito cascata, uma “perfeita tempestade” de consciência sobre o autismo. “O número de diagnósticos começou a subir exponencialmente”, assim como Lorna e Judith previram, permitindo que os autistas e suas famílias finalmente fossem ouvidos, e conseguindo o apoio e os serviços que tanto ansiavam.
E voltamos a Andrew Wakefield, sua fraude e vergonha... Uma poderosa e sedutora estória, tão aparentemente  plausível e equivocada quanto a teoria de Kanner sobre “o autismo raro”. Se a estimativa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, de que “1 em cada 68 crianças nos EUA” está dentro do espectro, estiver correta, “os autistas são um dos maiores grupos minoritários no mundo”. Nos últimos anos, os autistas se uniram na Internet para cunhar o termo e o subsequente conceito de “neurodiversidade”, celebrando as variantes da cognição e condição humana... Nas palavras de Silberman:

“Um jeito de entender a neurodiversidade é pensar em termos de sistemas operacionais humanos. Só porque um PC não está rodando o Windows, não significa que ele esteja quebrado.”

Pelos padrões autistas, o cérebro humano normal pode ser distraído com muita facilidade, é obsessivamente social, e sofre de déficit de atenção em relação a importantes detalhes [sic]... Oitenta anos depois, ainda estamos atrás de Asperger, que acreditava que a “cura” para a maioria dos aspectos disfuncionais do autismo é encontrada em professores compreensivos, profissionais solícitos, comunidades solidárias, e pais que apostam no potencial de seus filhos. Zosia Zaks, autista, diria:

“Precisamos de todas as mãos no convés para endireitar o navio da humanidade.”

Não sei se existe algo a ser “endireitado”, mas celebro a diversidade proposta por Zosia, e amplio... Estou de olho em outras variantes da condição humana, como o dito “Transtorno Bipolar”, entre tantas “diferenças”... MARAVILHOSAMENTE IMPERFEITOS... Nas palavras de Silberman:

“Já que navegamos rumo a um futuro incerto, precisamos de todas as formas de inteligência humana do planeta trabalhando juntas para encarar os desafios que temos como sociedade. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar um cérebro.”

Todas estas reflexões, portanto, apontam para disposições que salvam e SENTIMENTOS QUE CURAM...

Carlos Sherman