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A CIÊNCIA DO ERRO | Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva - Parte 1: Uma resposta a Marcelo Gleiser

A CIÊNCIA DO ERRO Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva Parte 1:   Uma resposta a Marcelo Gleiser Dedicado ao me...

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

ORQUESTRANDO A LIDERANÇA


Dedicado a Reginaldo Faria, grande "maestro"!!!


ORQUESTRANDO A LIDERANÇA

A primeira responsabilidade de um líder é bem definir a realidade. A última é dizer obrigado. Entre estes dois pontos, o líder deve servir. - Jacqueline du Pré
Na gestão, a primeira preocupação da empresa deve ser a felicidade das pessoas que estão ligadas a ela. Se as pessoas não se sentem felizes e não podem ser felizes, essa empresa não merece existir. – Kaoru Ishikawa

Faltam quinze minutos para o início do concerto. Dediquei algum tempo para encontrar o melhor local, e de olho no piano solo. Mas agora estou absorto, e namorando cada detalhe da arquitetura desse majestoso lugar. O teatro Dom Predro II em Ribeirão Preto tem um estilo arquitetônico próprio, adequado a espetáculos de ópera foi fundado na tradição das salas italianas. Em mais de cinquenta anos de história superou a decadência, foi parcialmente destruído por um incêndio, e ficou eternizado como a “Caverna do Diabo” - quando o seu subsolo recebeu bailes carnavalescos. Quase posso ouvir os sons do passado...

A orquestra já está no palco, e sou despertado de minha viagem no tempo pelo ruído e caótico do espetáculo dos músicos afinando os seus instrumentos... Scheherazade de Korsakov e sua leituras das Mil e Uma Noites está prestes a desabrochar. 20:00 e nem mais um minuto, e o maestro entra em cena. Todos os músicos se levantam em reverência, e ele se dirige ao primeiro violino para uma saudação especial. Agora é hora de receber o pianista com nova reverência. O protocolo de cordialidade e respeito está cumprido, e concerto pode começar. Mas o maestro se dirige ao público, visivelmente emocionado, e captura gentil e alegremente a atenção de todos ao passear pela sinopse da obra que será executada.

De súbito, uma linguagem que ainda não era capaz de entender, transforma o antes caótico cenário, agora em relutante silêncio, em harmonia e música... Gestos ininteligíveis para minha parca compreensão da música clássica parecem fazer todo o sentido para esta maravilhosa orquestra. E logo fica muito claro que todos aqueles espetaculares e virtuosos músicos estão sendo liderados para conjurar um espetáculo magnífico, e muito maior do que suas possibilidades individuais.

Mas suspeito que o segredo de toda esta orquestração não resida simplesmente no aprendizado da linguagem corporal do maestro, mas em um protocolo muito mais sútil, embora poderoso e eficaz, e que pretendo investigar. Também noto que os músicos focam mais em suas partituras do que no maestro... Seria o maestro de alguma forma dispensável? Qual o seu papel? Maravilhosos e bem treinados músicos, suas partituras, pentagramas, notas, divisões rítmicas... não está tudo ali naqueles documentos?

Neste concerto em particular não pude deixar de notar a alegria do maestro e o seu papel como mestre de cerimônias, conectando a sinfonia e os músicos à audiência. Senti certa perplexidade e sabia que estava diante de um momento especial; e a minha cabeça fervilhava de ideias e pensamentos, enquanto passeávamos de forma allegro non troppo pela primeira parte: O mar e o navio de Simbad. E percebi que estava bem diante de um exemplo sólido e elegante de LIDERANÇA. E percebi a importância de que este líder estivesse feliz, satisfeito com o seu trabalho... e percebi também que isso transcendia ao amor pela música. Ele estava feliz por partilhar outras estórias, as estórias de cada músico, do compositor, da obra, da audiência, de Steinway, Stradivarius, e mesmo daqueles que construíram, restauraram e conservaram esse teatro. Todas estas estórias estão sendo contadas em um concerto ao vivo, e eu percebia isso pela primeira vez.

Reconheço certo viés extático, afinal estava envolto por esta inebriante névoa clássica, épica, lírica. Mas tudo fazia enorme sentido, e ainda faz, enquanto relembro esta experiência, para conectar esta estória agora escrita com a estória de cada um que a estará lendo e encenando em seu teatro privado – a mente. Mas não basta o lirismo, e aprofundo minha observação... Quero produzir alguma noção prática, tangível, funcional, dessa experiência. Tudo isso fluía durante a segunda parte, apinhada de solos e variações dinâmicas, ora lento, depois andantino, allegro molto, e finalmente con moto...  para contar A história do Príncipe Kalender.

Passei a estudar o papel do maestro. E, analisando muitos vídeos, pude perceber que a minha analogia inicial, comparando um regente a um gestor, poderia estar equivocada; já que haviam diferentes tipos de maestros, diferentes estilos, indo da graça e elegância ao controle agressivo por meio de um gestual intimidante. E todos, em certa medida, pareciam funcionar perfeitamente. A minha esperança na analogia entre a regência e a gerência de um negócio parecia naufragar. Mas prossegui... até cruzar com a abordagem do maestro Itay Talgam, dedicada ao mesmo tema.

Talgam relatou o caso do grande maestro Ricardo Mutti, um dos estilos mais agressivos que já conheci, rsrsrsrs... Mutti costumava dizer que ele era o “responsável” por sua orquestra e pela obra; e entrevejo a palavra “chefe”. “Sou o responsável perante ele” – dizia olhando para o céu... E Mutti não se referia a nenhuma divindade, mas a Mozart:
Se eu sou o responsável por Mozart, esta será a única estória que será contada; como eu, Ricardo Mutti, o compreende.
E lá estava: eureca! Assim como na vida empresarial a liderança ou chefia de uma orquestra será exercida por homens... humanos, tropo umanos! E um traço em particular demarcava muito bem a fronteira entre um líder e um chefe: o personalismo

E a resposta a este personalismo seria igualmente agressiva; já que os 700 músicos do La Scala de Milão escreveram um manifesto dizendo a Mutti que:
Você é um ótimo maestro, mas não queremos trabalhar com você, por favor demita-se.
E agregaram ainda que eram músicos, humanos, e não meros instrumentos; e que não havia espaço expressar virtude, talentos e características individuais com alegria diante de tal controle estrito. Mas existem outras formas de exercer certo controle sem escorregar para a tirania. Richard Strauss, por exemplo, em seus Dez Mandamentos do Maestro escreveu:
Se está suando muito ao final do concerto, significa que não fez um bom trabalho [...] não olhe para os trombones, porque isso encoraja eles [...].
Particularmente considero o estilo de Strauss um tanto quanto apático, e ele deixa rolar... e isso até certo ponto também funcionou. Por outro lado Strauss escreveu sua própria música, e ainda assim regia olhando suas partituras, solicitando aos músicos que simplesmente seguissem as regras... sem interpretações. Sendo este outro tipo de autoridade. Afinal, como reger a terceira parte da obra de Korsakov sem suar a camisa? O Jovem Príncipe e a Jovem Princesa em andantino quasi allegretto, depois pochissimo più mosso, come prima e pochissimo più animato... Como estar piú animato em um fraque sem suar?

O grande maestro Karajan tinha um estilo mais fluido, nebuloso, intimista, misterioso, quase enigmático; o que permitia espaço para a má interpretação de seus gestos. Quando perguntado sobre os riscos de provocar confusão entre os músicos, mesmo na filarmônica de Berlin, ele explicou que o primeiro músico está atento aos seus gestos, enquanto os demais seguem a este músico, de forma que uns seguirão aos outros. Karajan acreditava que isso induzia algum tipo de interação de grupo; de forma que gostava de acentuar que os seus comandos nunca eram muito claros.

Tenho as minhas ressalvas sobre este modelo, já que Karajan regia com os olhos fechados, e seus músicos pareciam estressados tentando interpretar o que fazer. Em um episódio em Londres o flautista perguntou: “Maestro, quando devo começar?”; ao que Karajan respondeu: “Quando não estiver mais aguentando.”. De todas as formas este estilo também guardava muito personalismo, já que todos estavam tentando descobrir o que Karajan desejava. Era a música dele, o estilo dele, e de olhos bem fechados para outras necessidades. Este também era um controle rígido, embora exercido pela evocação de abstrações, e disfarçando mais uma vez a figura de um chefe... um chefe bem misterioso neste caso.

O caso que muito me impressionou, no entanto, foi o estilo de Carlos Kleiber. Ele regia com alegria, conectado aos músicos e à audiência, fiel à obra, mas solto e quase íntimo... como o maestro de Ribeirão Preto. Kleiber consolidava as minhas suspeitas sobre a possibilidade de liderar em lugar de chefiar uma orquestra. Assim como acredito ser possível liderar uma companhia ao invés de chefiá-la, abarcando as diferentes personalidades humanas, aplicando este mesmo conceito a diferentes negócios, produtos e serviços, fruto de diferentes histórias, e que participarão das estórias e histórias de outras pessoas e empresas.

Kleiber viaja na obra, mas abrindo espaço para a expressão da virtuose individual em meio a uma condução segura, embora saltitante... Como na Festa em Bagdá e no Naufrágio do Barco nas Rochas, fechando a quarta parte da obra de Korsakov em allegro molto, vivo e allegro non troppo maestoso. Assim como fizera o maestro Cláudio Cruz, regente apaixonado da Orquestra Jovem do Estado, ao abrilhantar o espetáculo no Teatro Dom Pedro II.

Afinal, e quando aprimoramos ou reinterpretamos uma obra, também estamos construindo uma nova estória dentra da história. Não proponho aqui que divaguemos sobre a obra, e em absoluto, mas sim que alimentemos a liberdade criativa humana, e que contemos a mesma estória em outro tempo, e um outro capítulo histórico. Mas como isso acontece? Como este mágico momento acontece?
É como estar em uma montanha-russa [...] Mas as forças desse processo por si só mantém você no caminho. – Itay Talgam
Isso enquanto cada um se expressa de maneira individual, em um processo relativamente controlado...  A confiança, o respeito, a liderança segura e justa, transforma toda a orquestra em uma fraternal parceria – como em um barco a remo. Podem haver disputas internas, diferentes temperamentos e níveis de ambição, mas o processo não pode acomodar e incentivar ambições desmedidas, ou todos naufragam.

Todos precisam conhecer seus papéis, e estar em boa forma para exercê-los, além da alegria; mas a liderança os transformará em um organismo orquestrado... Os procedimentos estão lá, as partituras; o plano está traçado, assim como os diferentes protocolos a serem seguidos. Existe uma métrica subjacente, uma divisão rítmica, o tempo está contado. Mas subsiste a alegria da expressão e do orgulho pessoal como colaborador, como parte do grupo, atentos ao líder que por sua vez vibra com a performance de cada um, e de todos.

Uma apresentação de Kleiber em especial é fantástica, e quando um trompetista comete não um, mas três erros consecutivos; o maestro sutilmente indica a falha uma, duas, três vezes, e demonstra a sua autoridade sem perturbar o andamento de toda a orquestra. Kleiber é sutil na puxada de orelha, e demostra toda a sua maestria como líder. Um dos maiores desastres em uma empresa ou organização é viver em um ambiente de intriga e fofoca; mas o problema será infinitamente maior quando os próprios líderes alimentarem intrigas e fofocas.

Empresas modernas têm estudado ambientes e sistemáticas que não valorizem o péssimo hábito de falar pelas costas. A transparência e a ética serão bens muito valiosos nas próximas décadas. Um líder deve dar o exemplo; afinal, de alguma forma ele deve replicar o DNA da empresa em sua conduta. Estamos enveredando por um caminho onde o compliance deixará de estar só no papel. Na dúvida, faça o que é correto.

Em diversos momentos é possível notar na regência de Kleiber quando ele abaixa corpo, como se rendesse honras ao solista, e parece mesmo baixar os braços para apreciar o solo... É magistral, é excepcional. Ele rege com os olhos – bem abertos -, com a boca, com todo o corpo, e de repente, suspende tudo e se curva para apreciar os seus músicos... seus parceiros. Ele está lá, está entregue ao que faz, mas não está mandando... está conduzindo e apreciando o trabalho de seus colaboradores. Kleiber circunscreve o processo dentro de um objetivo, e passa então a servir sua orquestra, para finalmente agradecer pelo belíssimo trabalho... ou pelo incansável empenho. 

Não seria possível adentrar este mundo tão sutil, e esta linguagem tão maravilhosa, sem a ajuda de Talgam e a inspiração de Cláudio Cruz. E gostaria de tocar em um último ponto: a liderança não é um jogo de soma zero! O êxito de um líder não pode implicar em perdas e descaracterização de seus liderados. Eles estão no mesmo barco. O progresso não é um jogo de soma zero... E por esta razão estamos vivendo três vezes mais, morrendo quarenta vezes menos ao nascer, e somos cem vezes menos violentos do que no passado. O progresso, em termos objetivos, mais parece uma curva ascendente em forma de serra. As subidas e descidas produzem desvios cognitivos. E apesar dos psicopatas à solta nas altas esferas corporativas e políticas, a compaixão tem ganho a batalha.

E, ao entender tudo isso, será possível extrair boa música de sua empresa... e praticar a verdadeira liderança. Mutti tinha sempre a mesma expressão no rosto; Kleiber interpreta suas obras com tudo o que existe nele. Esta é a suma experiência da entrega. Um líder deve entregar-se... em sacrifício. E você poderá sentir e ver a música em seu rosto.

Leonard Bernstein tem uma variação do estilo de Kleiber, com maior desenvoltura nas obras que retratam o sofrimento – talvez por ser judeu. Em determinado momento, em meio à regência, Bernstein costumava colocar a batuta debaixo do braço, como se dissesse ao solista: agora você está comando, companheiro! Um líder não rouba a cena, ele promove seus colaboradores, ele faz música com eles.

E finalmente, um líder se torna um exímio contador de estórias... Bernstein simboliza este gesto em uma regência única de sua orquestra de câmara. Ele coloca a batuta debaixo no braço e passa a admirar todo o concerto, apenas fazendo movimentos com a face, com os olhos, boca, sem perder o controle... É sensacional! Bravo, bravíssimo!!!


Carlos Sherman

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