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A CIÊNCIA DO ERRO | Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva - Parte 1: Uma resposta a Marcelo Gleiser

A CIÊNCIA DO ERRO Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva Parte 1:   Uma resposta a Marcelo Gleiser Dedicado ao me...

segunda-feira, 30 de março de 2020

COVID-19 E A CORAGEM DA VERDADE



Observem o Gráfico e a Tabela acima, informações atualizadas em 30 de Março de 2020, cuja fonte é o MINISTÉRIO DA SAÚDE DO BRASIL! O que podemos concluir de uma análise superficial, com noções básicas de estatística? O que você vê? Primeiro, que a riqueza não é parâmetro de contágio, mas densidade populacional sim - como se nota também na Europa e nos Estados Unidos. O problema, no caso da riqueza ou da pobreza, é a taxa de mortalidade. Já imaginou o que acontecerá em uma favela? Na África, com baixa densidade demográfica em relação com a Europa ou Ásia, o contágio será propagado mais rapidamente nos países mais densamente povoados, como a África do Sul; mas a morte encontrará morada nos países mais pobres. E é importante considerar que a África entende de barreiras epidemiológicas; e, apesar dos pesares, sabem cumprir uma quarentena. Eles conhecem o preço do sofrimento, e já perderam a conta...

Depois, notamos que o vírus prefere sim climas amenos ou frios, mas vive muito bem em todos os climas do planeta, do norte ao sul da Europa, no fim do inverno, e da Austrália ao Brasil, passando pela Malásia, Índia, todo calor Africano, e nas dimensões continentais dos Estados Unidos. Mas as pandemias se comportam de forma muito distinta em termos de sazonalidade, quando comparadas com o convívio viral típico.

Muitas doenças infecciosas aumentam e diminuem com as estações do ano. A gripe geralmente chega com os meses mais frios do inverno, assim como o norovírus o "vírus do vômito". Outros, como a febre tifoide, tendem a atingir o pico durante o verão. Os casos de sarampo caem durante o verão em climas temperados, enquanto nas regiões tropicais atingem o pico na estação seca. Por isso, muitas pessoas agora estão perguntando se podemos esperar uma sazonalidade semelhante no caso Covid-19. Desde que surgiu na China, em meados de dezembro, o vírus se espalhou rapidamente, com o número de casos agora aumentando mais acentuadamente na Europa e nos EUA. Muitos dos maiores surtos ocorreram em regiões onde o clima é mais frio, levando a especulações de que a doença possa começar a diminuir com a chegada do verão. Muitos especialistas, no entanto, já alertaram contra o uso desta informação como uma certeza epidemiológica, o que seria inteiramente falso.

E eles estão certos por recomendarem a cautela. O Covid-19 - oficialmente denominado SARS-CoV-2 - é novo demais para ter dados firmes sobre como os casos mudarão com o tempo. O vírus Sars estreitamente relacionado que se espalhou em 2003 foi contido rapidamente, o que significa que há pouca informação sobre como foi afetado pelas estações do ano. Mas existem algumas pistas de outros coronavírus que infectam os humanos sobre se o Covid-19 pode eventualmente se tornar sazonal.

Um estudo realizado há 10 anos por Kate Templeton, do Centro de Doenças Infecciosas da Universidade de Edimburgo, Reino Unido, descobriu que três coronavírus - todos obtidos de pacientes com infecções do trato respiratório em hospitais e cirurgias de GP em Edimburgo - mostraram “sazonalidade acentuada no inverno ”. Esses vírus pareciam causar infecções principalmente entre dezembro e abril - um padrão semelhante ao observado com a gripe. Um quarto coronavírus, encontrado principalmente em pacientes com sistema imunológico reduzido, era muito mais esporádico. Há algumas dicas de que o Covid-19 também pode variar com as estações do ano. A disseminação de surtos da nova doença em todo o mundo parece sugerir que ela tem preferência por condições frescas e secas.

Uma análise inédita comparando o clima em 500 locais em todo o mundo onde houve casos do Covid-19 parece sugerir uma ligação entre a disseminação do vírus e a temperatura, a velocidade do vento e a umidade relativa. Outro estudo não publicado também mostrou que temperaturas mais altas estão ligadas à menor incidência de Covid-19, mas observa que a temperatura sozinha não pode explicar a variação global na incidência. Pesquisas posteriores ainda não publicadas preveem que o clima ameno e/ou frio é o mais vulnerável ao atual surto de Covid-19, seguido por regiões áridas. Partes tropicais do mundo provavelmente serão menos afetadas, dizem os pesquisadores. Mas outro fator muito importante aí, é a densidade populacional. Normalmente, regiões áridas são menos povoadas, assim como regiões úmidas em densamente florestais.

Mas sem dados confiáveis ao longo de várias temporadas os pesquisadores só podem confiar na modelagem computacional para prever o que pode acontecer ao longo do ano. Extrapolar dados sobre a sazonalidade do Covid-19 com base em coronavírus endêmicos - ou seja, vírus que circulam nas populações humanas há algum tempo - é um desafio. Isso não é menos importante, porque os vírus endêmicos são sazonais por vários motivos que podem não se aplicar atualmente à pandemia do Covid-19.

As pandemias não seguem os padrões sazonais...

Como dito, as pandemias geralmente não seguem os mesmos padrões sazonais observados mesmo em surtos. A gripe espanhola, por exemplo, atingiu o pico durante os meses de verão, enquanto a maioria dos surtos de gripe ocorre durante o inverno. Deixando um registro oficial de 50 milhões de mortos; que, em função da precariedade da época, podem ter chegado facilmente à 100 milhões. Vale lembrar ainda que a epidemia começou nos Estados Unidos, durante a Primeira Guerra, tendo sido acobertado pelas autoridades, até ser desvelada ao mundo pela Espanha - que finalmente teria o seu gentilício ligado à epidemia. E o próprio avô do presidente Trump morreu da doença. Ele minimizou o efeito da nova pandemia, para depois curvar-se aos números, que catapultaram os Estados Unidos ao topo da lista, com 50% mais em casos do que a China, embora com uma população 5 vezes menor. "Eventualmente, esperaríamos ver o Covid-19 se tornar endêmico", diz Jan Albert, professor de controle de doenças infecciosas especializado em vírus no Instituto Karolinska, em Estocolmo. “E seria realmente surpreendente se não mostrasse sazonalidade na época.

A grande questão é se a sensibilidade deste vírus às estações influenciará sua capacidade de se espalhar em uma situação de pandemia. Não sabemos ao certo, mas deve estar profundamente entendido que isso é possível." Portanto, precisamos ser cautelosos ao usar o que sabemos sobre o comportamento sazonal de outros coronavírus para fazer previsões sobre a atual pandemia de Covid-19. Mas por que a família coronavírus é sazonal? E por que isso oferece esperança para esse surto? Os coronavírus pertencem à família dos chamados "vírus envelopados". Isso significa que eles são revestidos com uma camada oleosa, conhecida como bicamada lipídica, cravejada com proteínas que se destacam como pontas de uma coroa, ajudando a dar-lhes o nome - sendo "corona" a versão em Latim para coroa.

Pesquisas com outros vírus envelopados sugerem que esse revestimento oleoso os torna mais suscetíveis ao calor do que aqueles que não possuem um. Em condições mais frias, o revestimento oleoso endurece para um estado semelhante a borracha, assim como a gordura da carne cozida endurece à medida que esfria, para proteger o vírus por mais tempo quando está fora do corpo. A maioria dos vírus envelopados tende a mostrar forte sazonalidade como resultado disso. Mas, pesquisas já mostraram que o Sars-Cov-2 pode sobreviver por até 72 horas em superfícies duras, como plástico e aço inoxidável, a temperaturas entre 21-23 °C (70-73 °F) e umidade relativa de 40%.

De forma que, não sabemos como o vírus Covid-19 se comporta diante da temperatura e umidade, e precisamos de mais tempo, dados confiáveis, e testes. Por outro lado, pesquisas com outros coronavírus sugerem que eles podem sobreviver por mais de 28 dias a 4 °C. O que poderia justificar mais contaminação em climas frios do que quentes, mas nunca eliminar o contagio sob outras condições, e principalmente como justificativa para descartar o isolamento. Isso porque mesmo diante de uma sobrevida mais baixa no calor, a densidade populacional desempenha um caráter forte de disseminação, e uma vez contaminado a luta passa ocorrer dentro do organismo. Um coronavírus intimamente relacionado que causou o surto de Sars em 2003 também sobrevivia melhor em condições mais frias e secas. Por exemplo, o vírus Sars em superfícies secas e lisas permaneceu infeccioso por mais de cinco dias entre 22 e 25 °C, com uma umidade relativa de 40 a 50%.

Quanto mais alta a temperatura e a umidade, mais curta foi a sobrevida do vírus. Lembrando sempre que isso aumenta ou diminui a OPORTUNIDADE infecciosa, por mais ou menos tempo, mas se o contagio é rápido, pela densidade populacional, então essa variável será praticamente anulada. É por esse motivo que as pandemias não respeitam climas e períodos sazonais típicos. “O clima entra em jogo porque afeta a estabilidade do vírus fora do corpo humano quando expulso por tosse ou espirro, por exemplo”, diz Miguel Araújo, que estuda os efeitos das mudanças ambientais na biodiversidade no Museu Nacional de Ciências Naturais de Madri Espanha. “Quanto maior o tempo em que o vírus permanece estável no ambiente, maior sua capacidade de infectar outras pessoas e se tornar epidêmica. Enquanto o Sars-Cov-2 se espalhava rapidamente por todo o mundo, os principais surtos ocorreram principalmente em locais expostos ao clima frio e seco.”

Por outro lado, o frio faz com que as pessoas procurem o confinamento, para proteger-se do frio. Mas é muito importante repetir: A OPORTUNIDADE DE CONTAMINAÇÃO POR SOBREVIDA DO VÍRUS FORA DO COMPORTO É SUPERADA PELA DENSIDADE CONTAGIOSA. Explico com um exemplo, não sendo este o caso do Sars-Cov-2, pela carência de dados: se o vírus vive fora do corpo humano por apenas um dia em clima quente e úmido, três dias em clima quente e seco, e cinco em clima frio, a oportunidade de contágio será proporcional à essa condição; mas, a concentração de pessoas representará um fator multiplicativo, em uma taxa de contágio de um para seis, o que supera inclusive a componente de sobrevida do vírus; concluindo que tanto o clima quando a densidade demográfica jogam papéis relevantes, sendo a densidade demográfica superior em qualquer pandemia.

Os modelos estatísticos parecem confirmar ao padrão de surtos em todo o mundo, com o maior número de casos fora dos trópicos. Ou seja, no caso do Brasil isso diminuiria a incidência apenas no Norte do Brasil, e precisamente em nossas regiões menos povoadas; explicando também porque existe mais casos no Sul e Sudeste, com temperaturas mais amenas e em regiões densamente povoadas. Araújo, o especialista espanhol citado, acredita também que se o Covid-19 apresentar a sensibilidade esperada para a temperatura e umidade, isso pode significar que os casos de coronavírus poderão eclodir em momentos diferentes por todo o mundo. Isso sem descartar que o raciocínio não modifica as ações neste momento, já que estamos lidando com uma pandemia; mas aponta o futuro para esta doença que passará a viver entre nós. É razoável esperar vírus da mesma família mutacional compartilhem comportamentos semelhantes. Mas Araújo destacada que “[...] essa não é uma equação de uma variável. O vírus se espalha de humano para humano. Quanto mais humanos em um determinado local e quanto mais eles entrarem em contato, mais infecções haverá. O comportamento deles é essencial para entender a propagação do vírus.” E retornamos ao importante aspecto das barreiras epidemiológica.

Uma pandemia não é uma equação 
com apenas uma variável... 

Outro estudo, dessa vez conduzido pela Universidade de Maryland, mostrou que o vírus se espalhou mais nas cidades e regiões do mundo onde as temperaturas médias estão em torno de 5-11 ° C (41-52 ° F) e a umidade relativa é baixa. Mas também houve um número considerável de casos em regiões tropicais. Uma análise recente da disseminação do vírus na Ásia, por pesquisadores da Harvard Medical School - onde também estudei -, sugere que esse coronavírus pandêmico será menos sensível ao clima do que muitas esperam. Eles concluem que o rápido crescimento de casos em províncias frias e secas da China, como Jilin e Heilongjiang, juntamente com a taxa de transmissão em locais tropicais, como Guangxi e Cingapura, sugere que aumentos na temperatura e na umidade, durante a primavera e o verão, poderão levar ao declínio nos casos. Lembrando que o Brasil adentra o outono, à caminho do inverno - que é bem mais rigoroso no sul. O estudo enfatiza ainda sobre a necessidade de extensas intervenções e extremas medias em saúde pública para conter e controlar o avanço da doença.

Isso ocorre porque a propagação de um vírus depende muito mais do que simplesmente sua capacidade de sobreviver no ambiente. E é aí que a compreensão da sazonalidade das doenças se torna complicada. Para uma doença como o Covid-19, são as pessoas que estão disseminando o vírus e, portanto, mudanças sazonais sobre o comportamento humano também podem levar a mudanças nas taxas de infecção. Os casos de sarampo na Europa, por exemplo, tendem a coincidir com o período escolar, e diminuindo durante as férias - quando as crianças não estão transmitindo o vírus umas às outras. Também foi sugerido que a enorme migração de pessoas ao redor do Ano Novo Lunar da China, em 25 de janeiro, teve um papel fundamental na expansão do Covid-19 de Wuhan para outras cidades da China e do mundo. O clima também pode mexer com o próprio sistema imunológico, nos tornando mais vulneráveis ​​à infecções.

Existem evidências de que os níveis de vitamina D em nossos corpos podem afetar a vulnerabilidade à doenças infecciosas. No inverno, nosso corpo produz menos vitamina D, devido ao decréscimo na exposição à luz solar, principalmente porque passamos mais tempo em ambientes fechados e nos envolvemos em roupas contra o ar frio. Mas alguns estudos sérios e bem conduzidos demonstram ser improvável que essa teoria seja responsável isoladamente pela variação sazonal observada em doenças como a gripe. Mais controversa ainda é a discussão sobre a influência do frio enfraquecendo o nosso sistema imunológico; alguns estudos sugerem que sim, mas outros apontam o aposto, de que o frio aumenta a nossa resistência imunológica, aumentando o número das células que defendem nosso corpo contra infecções.

Há evidências mais fortes, no entanto, de que a umidade pode ter um impacto maior na nossa vulnerabilidade à doenças. Quando o ar está particularmente seco, reduz-se a quantidade de muco que reveste nossos pulmões e vias aéreas. Essa secreção pegajosa forma uma defesa natural contra infecções; e, com menos muco, estaremos naturalmente mais vulneráveis ​​aos vírus. Estudo todas essas variáveis e suas correlações. Muitas destas variáveis apresentam forte correlação entre si, e isso interfere em uma regressão linear múltipla, e muitas vezes escondendo as correlações mais fortes quando vistas de forma global.

Minhas investigações sobre os dados disponíveis, resultado de um trabalho em graduação avançada em Estatística e Ciência e Análise de Dados pelo MIT, apontam para uma correlação muito acentuada com a densidade populacional, seguida pela umidade, e finalmente pelo clima. Minhas observações e modelos se encaixam perfeitamente ao quadro observado para o SARS-CoV-2.

Um estudo intrigante levado à cabo por cientistas chineses, sugere que existe algum tipo de relação entre o quão mortal o Covid-19 pode ser e as condições climáticas. Eles analisaram quase 2.300 mortes em Wuhan, China, e as compararam com os níveis de umidade, temperatura e poluição no dia em que ocorreram. Isso nos leva ao tema do MUCO... Embora ainda não tenha sido publicado em uma revista acadêmica, suas pesquisas sugerem que as taxas de contaminação eram mais baixas nos dias em que os níveis de umidade e temperatura eram mais altos. Também sugere que, nos dias em que as faixas de temperatura máxima e mínima eram maiores, havia níveis mais altos de contaminação. Esse trabalho esta baseado em modelagem computacional, de modo que somente dados muito confiáveis, colhidos com a frequência adequada, e em grande número, poderão aproximar o modelo da realidade.

Portanto, o desafio de prover um PROGNÓSTICO CONFIÁVEL sobre o comportamento deste vírus ainda será muitas vezes revisitado; sendo a Biologia, apoiada pela Ciência de Dados, o ambiente seguro e de onde emerge o conhecimento necessário para este sério embate que une todo o globo. Como o vírus que causa a pandemia do Covid-19 é novo, é improvável que muitas pessoas, se houver alguma, tenham imunidade contra ele; isso, até que tenham sido infectadas e se recuperem com facilidade e naturalmente. Isso significa que o vírus se espalhará, infectará e causará doenças de maneira bem diferente dos vírus endêmicos.

Na verdade, estamos diante de quadros dramáticos vividos no passado, como a Gripe Espanhola, a Peste negra e congeneres; deitando centenas de milhões de vidas pelo caminho, em função da falta de conhecimento biológico e recursos computacionais, assim como estratégias imunológicas e anti-epidemiológicas, conhecimento em infectologia viral e terapias científicas de combate e luta pela vida.

Um estudo publicado na Nature pelo Imperial College of London, onde também estudei, fez a predição de mais de 40 milhões de mortos pelo Covid-19 sem as medidas de isolamento e barreiras epidemiológicas; mas dificilmente escaparemos adicionar mais de seis dígitos ao número de mortos. 

As viagens aéreas têm sido a principal rota pela qual o vírus se espalhou pelo mundo tão rapidamente, diz Vittoria Colizza, diretora de pesquisa do Instituto Francês de Saúde e Pesquisa Médica. Mas uma vez que começa a se espalhar dentro de uma comunidade, é o contato próximo entre as pessoas que dirigem a transmissão. Interromper o contato entre as pessoas também deve reduzir as taxas de infecção. É exatamente isso que muitos governos tentam fazer com o crescente bloqueio de locais públicos em todo o mundo. "Ainda não há evidências para um comportamento sazonal do Covid-19", assevera Colizza. "O componente comportamental também pode desempenhar um importante papel." Mas ela alerta que é muito cedo para saber se as medidas adotadas serão suficientes para impedir a propagação do vírus, e se "Por si só, poderá reduzir parcialmente a contagiosidade efetiva devido à redução dos contatos ao longo dos quais a doença pode ser transmitida."

E os casos do Covid-19 podem aumentar nos próximos meses, sobretudo por decisões políticas equivocadas, como do presidente Trump - que já voltou atrás em função dos caixões lacrados -, e de Bolsonaro - cuja teimosia obtusa persiste; também enfrentaremos falhas nas medidas de prevenção, isolamento e bloqueios. Também poderemos experimentar um cenário de imunidade crescente na população, como efeito da sazonalidade, como sugerem os modelos. Se houver um efeito sazonal, isso ainda poderá mascarar a correlação com as demais variáveis, como a demografia.

Em países onde um forte bloqueio mitigou a contaminação, não seria surpresa alguma se uma nova onda, o efeito rebote, eclodisse no outono e no inverno... e surpreendendo com a força de um tsunami epidemiológico. Mesmo que o Covid-19 mostre alguma variabilidade sazonal, é improvável que desapareça inteiramente durante os meses de verão, como alguns sugeriram. Mas, uma queda nos casos pode trazer muitos benefícios, ou até mesmo representar um divisor de águas. As medidas que estamos tomando para nivelar a curva são custosas, em termos econômicos, da economia doméstica ao panorama macroeconômico; mas podem nos ajudar a levar essa pandemia para o verão no hemisfério norte; no sul, as medidas terão um caráter preventivo, e ainda mais relevante.

Se houver alguma sazonalidade, sendo esse o cenário mais provável, achatar a curva ajudará os sistemas de saúde do mundo inteiro a lutar contra o tempo e suas limitações. É hora de FORÇOSAMENTE, DISPONIBILIZAR MAIS RECURSOS PARA A SAÚDE. E em um mundo que luta para lidar com o número cada vez maior de casos, pode ser esse o tempo que precisamos... desesperadamente. 

Conhecimento salva vida, ignorância mata... mesmo com boa vontade. 
A economia pode ser ressuscitada, mortos não - nem hoje, nem nunca... 
Fantasias à parte, e esqueçam discursos políticos populistas, 
TODA VIDA É IMPORTANTE... 
Cada pessoa da sua família, de sua lista de contatos, cada pessoa de minha família... 
Não façamos apostas com a vida humana... 

Em resposta ao presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, na mesma linha que o inóbil presidente Jair Bolsonaro, quando declarou que "a vida não tem valor infinito", eu lhe pergunto: QUANTO VALE A VIDA DE SEU FILHO? E A SUA? O seu plano médico cobre tratamento no Sírio-Libanês e no Einstein... e brasileiro recorrerá ao SUS com seus entes queridos nos braços e sufocando... "Muita bobagem é feita e dita, inclusive por economistas, por julgarem que a vida tem valor infinito. O vírus tem que ser balanceado com a atividade econômica"... Absurdo, terrível... 

Mas pode piorar, e piora com Bolsonaro, declarando em cadeia nacional, do alto do cargo que ocupa, que essa pandemia perigosíssima não passa de uma “gripezinha”. Sua ignorância galopante ainda acredita em mortos de frio... Mas como? Congelamento? Ninguém no Ministério da Saúde explicou ao presidente que gripe é causada por vírus, e jamais por firo? Mas ele sempre se supera: “Alguns vão morrer? Vão! Fazer o que, é da vida…”. Vão morrer agonizando sem atendimento, e o número no Brasil pode chegar a seis dígitos... E Bolsonaro frequente o Sírio-Libanês. 

Tudo isso é verdade, assim como é verdade que o PT, comandado por psicopatas, e chefiado por Lula, dilapidou a economia, e preferiu "estádios" do que "hospitais". Mas e daí? Isso torna as declarações de Bolsonaro sobre a pandemia legitimas? Jamais... Trata-se de uma falácia retórica e intelectiva, o Non Sequitur, ou "não se segue". Verdades ou meias-verdades são alinhadas para criar a falsa ideia de que uma coisa justifica a outra. E antes que o maniqueísmo seja tentando, declaro que votei em Bolsonaro... e mais: VOTARIA OUTRA VEZ! Por quê? Porque lutei contra um mal AINDA maior. Foi necessário utilizar o meu voto para encarcerar um perigoso psicopata, um cleptocrata, um autocrata, para empossar um IMBECIL... Mas um imbecil transparente, e que respeita os poderes - até aqui. É claro que seria muito pior com Lula, roubando em plena crise... Mas isso não desliga a minha honestidade intelectual e análise crítica.

Parafraseando Keynes, quando interpelado por um repórter sobre a quinada e o distanciamento em relação ao comunismo, o célebre economista disse algo como: QUANDO OS FATOS MUDAM EU MUDO DE OPINIÃO... E O SENHOR, O QUE FAZ? Bom, eu não estive engado sobre as limitações de Bolsonaro e o risco que ele TAMBÉM representa, mas não tive uma terceira escolha no segundo turno. Preferi a quimioterapia ao câncer, e agora preciso cuidar dos efeitos colaterais. Mas finalmente, que indicar o uso constante de mais uma falácia: O TERCEIRO EXCLUÍDO... Só existe duas alternativas, ser Lulista ou Bolsonarista... ser livre-pensante, e honesto intelectualmente está fora de questão? Não posso desejar que Lula apodreça na cadeia e que Bolsonaro deixe de vomitar asneiras que podem custar vidas? E tem mais, Lula é um psicopata como Trump, Putin, Berlusconi, Fidel, Edir Macedo, Malafaia, Feliciano e congeneres... Bolsonaro não! Bolsonaro é apenas fraco, ignorante, crente, limitado... maniqueísta, portando inteiramente míope. Mas se ajoelha diante de um psicopata, pede a benção à outro, e é uma caricatura de um terceiro... Assim que, mesmo que a corrupção não seja o seu pecado, e não é, ele anda em péssima companhia; e definitivamente não está minimamente preparado para dirigir um país. Espero que tenhamos candidatos mais competentes no futuro, onde honestidade será apenas um pré-requisito, conforme previsto em lei: a Ficha Limpa.   

Carlos Sherman


URGENTE COVID-19: SEM ISOLAMENTO TERÍAMOS 40 MILHÕES DE MORTOS



Segundo publicação da prestigiosa organização de divulgação científica, a NATURE, o Covid-19 poderia ter matado 40 milhões de seres humanos sem a resposta global emergencial contra a propagação da pandemia.
90% da população do mundo poderia ter sido infectada, e 40,6 milhões de pessoas poderiam ter vindo à óbito, se não fossem adotadas medidas de mitigação para combatê-la, segundo estimativas de um respeitado grupo de especialistas em modelos analíticos e estatísticos do Imperial College de Londres - onde também tive o prazer de estudar.
O relatório "COVID-19 Response Team" do Imperial College, publicado em 26 de março, destaca a importância de agir cedo para suprimir o surto. A análise diz que a introdução de distanciamento social, teste e isolamento de pessoas infectadas reduziria as mortes em todo o mundo para 1,9 milhão, se realizada quando a taxa de mortalidade de cada país é de 0,2 por 100.000 pessoas por semana. A implementação dessas medidas somente quando a taxa de mortalidade chega a 1,6 por 100.000 pessoas por semana leva a 10,5 milhões de vidas perdidas em todo o mundo, segundo ele.
Ainda, e de acordo com a análise da Nature sobre as taxas de mortalidade, "Our World in Data", contando todos os dias no centro de uma janela semanal de mortes, a Itália atingiu o limite de 0,2 entre 2 a 3 de março, o Reino Unido em 17 de março e os Estados Unidos em 22 de março.
O relatório não quantificou o impacto social e econômico de tais políticas.
A análise foi publicada no mesmo dia em que o primeiro-ministro do Reino Unido Boris Johnson e o ministro da saúde do país, Matt Hancock, testaram positivo para o coronavírus. Em um vídeo em cadeia nacional, Johnson disse que tinha apenas sintomas leves e continuaria a trabalhar remotamente enquanto se isolava por 7 dias.
O número de casos confirmados de COVID-19 em todo o mundo ultrapassou 500.000 em 26 de março, segundo estatísticas compiladas pelo Centro de Ciência e Engenharia de Sistemas da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland. Atualmente, a pandemia abrange 175 países e todos os continentes habitados.
Até o final do dia 26 de março, os Estados Unidos haviam ultrapassado a China pelo maior número de casos confirmados. A Itália também está pronta para superar a China nos próximos dias. A Itália e a Espanha agora têm os dois maiores números de mortos, com a Itália respondendo por mais de um terço do total global.
O COVID-19 matou quase 23.000 pessoas. Mais de 120.000 se recuperaram da doença.
NÃO CÚMPLICES DE UM HUMANICÍDIO, POR IGNORÂNCIA...
Ignorância mata, e mata muito, ao longo de toda a história. Conhecimento salva vidas. Não pense que a sua irresponsabilidade veiculando mentiras, o minimizando esta pandemia, não contribui para o alastramento deste mal. A contaminação viral da ignorância não pode ser detida. Se está em isolamento, e agradeço, seja coerente em suas publicações.
Não existem mitos, e a natureza vive demonstrando isso. Sem Ciência a mortalidade seria como em outros tempos... vitoriosa. Estamos diante de uma quebra de paradigmas, com muitas lições a serem aprendidas enquanto a Ciência trabalha, os dados são computados, os modelos funcionam, a Biologia Molecular avança... os hospitais estão abertos, e as igrejas fechadas.
Seja honesto quanto ao combate contra a corrupção, mas seja honesto em seus conceitos e palavras... alinhando o que pensa, diz e faz. Seja íntegro, ético, ao apenas pense um pouco mais.
Sigam as orientações, salve sua vida, e não leve o vírus para a sua casa, nem para a minha... Podemos ressuscitar a economia, mas nunca foi e nunca será possível ressuscitar os mortos. A vida é o maior patrimônio, e cada vida importa.
Carlos Sherman

quinta-feira, 26 de março de 2020

Conhecimento, um ato de amor...




Excerto de EVA - AS ORIGENS DA MISOGINÍA (SHERMAN; 2011)

As velhas crenças teológicas, quando pareciam debilitadas pela razão, em pleno século XVIII, reapareciam sempre que uma possibilidade sobrenatural se acercava. A varíola foi uma destas oportunidades para a ignorância religiosa desfilar o círio, e desatando uma tempestade de protestos teológicos contra a razão.

Um clérigo anglicano publicou um sermão onde afirmava que, assim como “as pústulas de Jó eram devidas à inoculação do diabo, assim havia sucedido com a crescente epidemia de varíola”. Vários ministros eclesiásticos escoceses publicaram manifestos contra a Ciência Médica, e em especial contra a recente descoberta da circulação sanguínea, os estudos de anatomia, fisiologia, etc. – assim como o estudo de células-tronco em nossos dias; afirmando que estávamos “tratando de desafiar o julgamento de deus” – sobre quem deve ou não deve morrer.

Mas a varíola responderia a toda esta carolice com mais e mais mortes. Quanto mais oravam e praguejavam contra a Ciência, mais mortos. Os terrores teológicos foram acalmados pelo terror imposto pela realidade da morte. A controvérsia parecia declinar, quando foi descoberta a VACINA. Os clérigos de todas as facções da cristandade afirmavam em uníssono que:

[A vacina era um] insolente desafio aos céus, e à VONTADE DE DEUS.

Em Cambridge e na Sorbonne, universitários cristãos unidos, pronunciaram sermões, opondo-se à VACINA. O mais grave sucedeu quando, em 1885, e já no século XIX, houve um disparo no número de casos da doença em Montreal, Canadá, e a parte católica da população repudiou a vacinação. Um sacerdote católico declarou que:

Se estamos afligidos pela varíola é porque comemoramos o carnaval no último inverno, festejando a carne e ofendendo ao Senhor.
  
As mortes vieram sem trégua sobre os católicos, e deus, por alguma misteriosa razão, pouparia apenas àqueles que foram vacinados.

Os Padres Oblatos, cuja igreja estava situada no coração do distrito infestado, seguiram denunciando a vacina; foi exortado aos fiéis para que se dedicassem a diversos tipos de devoção; com a permissão das autoridades eclesiásticas, foi ordenada uma grande procissão com um solene chamamento à Virgem, e foi cuidadosamente especificado o uso do rosário. (White; op. cit., v.II, p.60)

Pobres fiéis, todos aniquilados pela varíola, perla ignorância, ou pela fé na divindade equivocada? O mesmo sucederia com o advento da descoberta dos afeitos anestésicos do clorofórmio pelo médico escocês Sir James Young Simpson (1811—1870). Simpson, em 1847, recomendou o uso no parto, ao que o clero lhe respondeu com Gênesis [3:16]:

E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. - Gênesis [3:16]

Simpson, no entanto, logrou aprovar os anestésicos para os homens, salientando que deus anestesiou Adão, “adormecendo-o, antes de extrair sua costela”.

Sim, precisamos abolir tudo isso, o corão, a torá, o velho e o novo testamento, a RELIGIÃO; para vivermos melhor, com mais saúde, paz, e em verdadeira harmonia. E não seremos capazes da fazê-lo se não pudermos entender e combater o primeiro fundamento contido em tais livros, i.e., o enaltecimento da ignorância pelo repúdio à razão, ao entendimento, ao conhecimento REAL, factual, Científico. E a subsequente glorificação da submissão, da servidão, do conceito de “manada”.

Não seremos capazes de abolir tais livros se não pudermos entender antes a clara sentença de morte à consciência e àqueles que a conservam: os “hereges”. E não poderemos dar este passo, se não pudermos constatar também o preconceito, o sectarismo, o racismo, a pulsão de MORTE, e o regozijo pela morte, contido em tais mensagens apologéticas.

Carlos Sherman

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

QUEM DEVE SAIR PELA PORTA DOS FUNDOS É A IGREJA




DEZENAS DE MILHARES DE PADRES, AVATARES PARAMENTADOS DO MITO DE JESUS, ESTUPRARAM CENTENAS DE MILHARES DE CRIANÇAS EM TODO O MUNDO E VOCÊ ESTÁ PREOCUPADO COM O PROGRAMA HUMORÍSTICO PORTA DOS FUNDOS?

MAS A BÍBLIA CHAMA JESUS DE ASSASSINO, E ISSO NÃO LHE ABORRECE? SIM, JÁ QUE ELE SERÁ O COMANDANTE EM CHEFE DA PASSAGEM MÍTICA DO HUMANICÍDIO APOCALÍPTICO… ENTÃO, NÃO SE IMPORTA COM A ALCUNHA DE ASSASSÍNO CRUEL DE BILHÕES, NEM COM O RANGER DE DENTES EM SOFRIMENTO DE SUAS INOCENTES VÍTIMAS, MAS COM A "OFENSA" DE SER CHAMADO DE “GAY”?

VOCÊ, TÃO IMPERTIGADO, CERTAMENTE PROTESTOU CONTRA A PEDOFILIA PRATICADA EXTENSIVAMENTE PELOS PADRES DE SUA IGREJA? NÃO? AO MENOS PROTESTOU CONTRA O USO DA SUA DOAÇÃO PARA PAGAR BILHÕES DE DÓLARES A GORDOS ADVOGADOS DE DEFESA? VOCIFEROU? NÃO? NENHUMA PETIÇÃO, AÇÃO, PROCESSO, CENSURA? PEDIU A EXTINÇÃO DESTE TERRÍVEL GRÊMIO SÁDICO DE CRIMINOSOS E COVARDES; ASSIM COMO A PRISÃO SUMÁRIA DE SEUS RESPONSÁVEIS, COMEÇANDO POR SEUS CÍNICOS DIRIGENTES? NÃO? NÃO FEZ NADA? ESTRANHO!!!

CRIANÇAS DE CARNE E OSSO VIVEM O TERROR NA TERRA, E VIOLÊNCIA INDIZÍVEL NAS MÃOS DE VERDADEIROS MONSTROS, NA ESCURIDÃO FÉTIDA DA SACRISTIA; E VOCÊ ESTÁ PREOCUPADO COM UM MITO QUE FOI CHAMADO DE GAY POR UM PROGRAMA HUMORÍSTICO? E CONSIDERA ESSA “OFENSA” DIGNA DE LUTA, MAS NÃO LAMENTA A MORTE EM VIDA DE MILHÕES DE PESSOAS EM DÉCADAS DE ABUSOS? OS SUICÍDOS? A IMPUNIDADE? NÃO?

ESSA É UMA CRENÇA BEM BIZARRA, E SEUS FIEIS SEGUIDORES PRECISAM DE TRATAMENTO PSIQUIÁTRICO OU OFTALMOLÓGICO… E A IGREJA CATÓLICA DEVE DEIXAR A HISTÓRIA PELA PORTA DOS FUNDOS…

Q.E.D.

CARLOS SHERMAN



sábado, 3 de agosto de 2019

A CIÊNCIA DO ERRO | Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva - Parte 2: Afinal, existem verdades?




A CIÊNCIA DO ERRO

Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva


Parte 2: Afinal, existem verdades?

Dedicado ao meu amigo Carlos Teles

O que é necessário não é a vontade de acreditar,
mas o desejo de descobrir,
que é justamente o oposto.
Bertrand Russell



Esta é a parte de 2 de uma resposta a um tal Daniel, enquanto debatíamos sobre a última eleição brasileira, e quando afirmei que sim existem proposições verdadeiras e falsas - não importa o tema. Afirmei que sim podemos atestar a força, veracidade ou falsidade de proposições; e devemos nos preocupar com isso, com a finalidade de viver melhor, de forma mais ética e justa; aproximando interpretações e opiniões de fatos. E, contra toda sorte de relativismos oportunistas, podemos ainda dizer que sim existe uma realidade objetiva. Aguardem até o fim e entenderão.

ENDEREÇAR A VERDADE CONSISTE EM CONHECER OS FATOS, NÃO AS OPINIÕES... E é exatamente isso que praticamos todos os dias no campo da Justiça, baseado no vigoroso e inefável princípio do onus probandi...

Neste artigo em especial citarei muitos dos homens notáveis sobre os ombros dos quais este anão que vos dirige a palavra subiu para ver mais longe... muito mais longe!!!

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O filósofo e matemático alemão Friedrich Frege (1848-1925) escreveria – abrindo os trabalhos:
Entendo por pensamento não o ato subjetivo de pensar, mas o seu conteúdo objetivo.
Isso, ipso facto, se aceito pela pertinência da definição, deitaria por terra um sem-número de pensamentos... juntamente com a devoção aos respectivos ditos pensadores!



Um pensamento é fruto inescapável do processamento neural; e será por meio da linguagem que trataremos de manifestar o seu conteúdo ou objeto. A linguagem é inata, hoje sabemos, mas a escrita não. O filósofo e matemático polonês Alfred Tarski (1901-1983) solucionaria o problema da correspondência entre uma proposição formulada pela linguística e a realidade; e o fez de forma surpreendentemente simples, intuitivamente satisfatória, e irrefutável.

Tarski focou na formulação semântica de proposições:
A sentença (T) é verdadeira se, e somente se, o que ela diz é verdade.
Onde T seria a Convenção de Tarski.

Imagine que você e eu estamos contemplando uma bela cadeira vermelha, estilo Luis XV - exatamente como esta bem ao lado da lareira em minha sala. A proposição “Esta cadeira é vermelha” seria verdadeira se e somente se “esta cadeira” for vermelha. Isso me parece lógico! Ou não? E óbvio! O que você acha?

Então qual foi a contribuição de Tarski? A sacada de Tarski foi eliminar nebulosidades semânticas, preocupando-se em formatar de maneira objetiva a formulação das sentenças ou proposições, e evitando truques, hipérboles, verbosidades e falácias retóricas. Para isso ele utilizou os conceitos de “objeto” ou conteúdo, “verdade” ou veracidade, “metalinguagem”, “metalinguagem semântica” e “linguagem-objeto”. Por exemplo: se tomamos o português como metalinguagem e o inglês como linguagem-objeto, e o seguinte objeto “the dog is sleeping", então poderíamos formular a seguinte sentença em nossa metalinguagem semântica: A proposição do inglês (linguagem-objeto) “the dog is sleeping” (objeto) corresponde aos fatos (é verdadeira) se e somente se o cachorro está dormindo.

A verdade começa por uma formulação semântica adequada que permita a sua comprovação ou refutação. O que está vago e mal definido não pode ser confrontado com a realidade. E se existe uma metalinguagem na qual podemos apresentar proposições, descrever fatos, então também será possível, e de forma trivial, estabelecer a correspondência entre fatos e proposições - endereçando assim a verdade ou a veracidade de sentenças e argumentos. Isso, e bastando alguma honestidade retórica e integridade intelectual - conforme acentuado por Feynman - nos leva à atitude científica...

A Convenção de Tarski (T) pode ser formalmente descrita por:

(T) X é verdadeiro se, e só se, p; onde p é o predicado que pretendemos validar para a sentença X
O exemplo utilizando uma linguagem-objeto em inglês serviu para conter eventuais arroubos relativistas de ordem interlinguística ou ainda intercultural. Vale repetir que a construção linguística é inata; em milhares de dialetos e diferentes linguagens em todos os tempos e lugares sempre estiveram presentes as figuras do sujeito, verbo – ou ação -, substantivo e predicado; já o vocabulário e as regras gramaticais precisarão ser aprendidos - e à duras penas.

Observem que o predicado “[...] corresponde aos fatos” ou “[...] é verdade” está protegido pela metalinguagem, não importando se algum dialeto porventura venha a evitar esta vital caracterização... Sendo assim “[...]” ou “X” poderá ser definido nos termos de qualquer linguagem-objeto; então, enfoquemo-nos na verdade, e utilizando como linguagem-objeto a nossa própria língua vernácula: o português.

E neste ponto ficará evidente a motivação por trás da incessante busca por proposições verdadeiras ou positivas na Ciência. E vamos com o eminente Karl Popper:
De uma classe (ou um sistema) de proposições, que são todas verdadeiras, nenhuma proposição falsa pode ser assumida.
Enquanto os postulados religiosos ou “espirituais” dormem em berço esplendido, percebam o cuidado em estabelecer os contornos da verdade ou da veracidade. Isso implica que, embora deus seja um bolso cada vez mais vazio, e enquanto reduzimos inequivocamente o oceano de ignorância, ainda assim não poderemos apenas por princípio descartar a existência de deuses ou do “unicórnio cor-de-rosa”.
De teorias (sistemas de proposições) que concordem com os fatos, não se pode derivar nenhuma proposição lógica que não concorde com os fatos. - Karl Popper
Esta importante regra, que de fato perfaz uma atitude ética, explica por que em Ciência efetivamos proposições positivas e nunca negativas. “A Terra descreve uma orbita fechada – ou captiva - em torno do Sol” é uma proposição científica; mas “não existem gnomos empurrando a Terra” não é – por mais que saibamos ser uma proposição lúcida. Podemos invalidar ou provar a falsidade de uma proposição positiva; e.g., “a Terra é plana e está assentada sobre colunas” é uma proposição científica, mesmo que sendo inteiramente falsa; mas “a Terra não é verde” não nos leva a lugar algum.

Claro que existe o fato da vida finita, de forma que o fator tempo a perder estará sempre em jogo, assim como a questão da prioridade ou utilidade: Cui bono? Ou seja, não podemos cientificamente e em princípio negar a existência de Tupã; mas podemos considerar a busca pela sua existência uma tremenda idiotice quando confrontamos a mais absoluta falta de evidências; isso, além do flagrante conflito com proposições já demonstradas como: “culturas primitivas praticaram o animismo” ou “culturas primitivas desconhecedoras do ciclo da chuva, cortaram gargantas e fizeram danças rituais para que chovesse”. E daí a escolha é sua!
As filhas do sumo sacerdote Anius transformavam o que quisessem em trigo, óleo em vinho. Atalida, filha de Mercúrio, ressuscitou diversas vezes. Esculápio ressuscitou Hipólito. Hércules resgatou Alceste da morte. Heres retornou ao mundo após passar uma quinzena no inferno. Os pais de Rômulo e Remo eram um deus e uma vestal virgem. O Paládio caiu do céu na cidade de Tróia. O cabelo de Berenice se tornou uma constelação. [...] Dê-me o nome de um povo em meio ao qual incríveis prodígios não aconteceram, especialmente quando poucos sabiam ler e escrever. - Voltaire (Questões Sobre os Milagres; 1770)
A Teoria da Verdade como Correspondência nos assegura que um pensamento pode ser considerado verdadeiro se a proposição que formula tal pensamento é verdadeira. Proposições gerais ou universais devem ser encaradas como fundamentalmente hipotéticas, mesmo que possam ser verdadeiras. E por isso é tão importante o caráter científico ao reduzir seus problemas e limitar suas proposições, já que buscamos o acercamento e o endereçamento da verdade. Começando humildemente, poderemos construir proposições verdadeiras de grosso calibre, com no caso do Modelo Padrão da Física.

A Metodologia Científica é um sério e consequente conjunto de recomendações, ao que Gleiser jamais poderia haver chamado de cientismo... O que é isso? E cientistas não passam de homens neuropsicologicamente curiosos, obstinados, talvez ousados, e certamente sem temores conservadores; homens buscando a verdade e falhando em encontrá-la – mas inexoravelmente atidos a ela. E falhando poderemos aprender, e recomeçar; o que parecia ser uma potencial falsificação da teoria newtoniana da gravidade no caso da orbita calculada para Urano nos levou ao descobrimento de Netuno.

Mas voltemos à verdade, voltemos à minha cadeira vermelha, afinal você pode estar esperando para me desbancar. Então temos a seguinte proposição devidamente formatada, uma questão semântica que pode ser submetida ao escrutínio da ciência: “Esta cadeira é vermelha” é uma proposição verdadeira se, e somente se, esta cadeira é vermelha.

Mas como podemos assegurar que o vermelho que você vê é o mesmo que eu vejo? E como poderemos definir o que é ou não vermelho? Simples: imaginem vocês que providencialmente eu trago comigo um espectrofotômetro; um daqueles aparelhos que medem a frequência dentro do espectro eletromagnético, podendo exprimir a cor em um número objetivo dentro do sistema decimal, medido em comprimento de onda ou frequência - não importando que sejamos daltônicos, portadores de catarata ou icterícia. Através de uma singela convenção linguística concordaremos que comprimentos de onde dentro de determinada faixa do espectro eletromagnético nos leva por correspondência simples ao termo em português "vermelho".

Uma psicóloga amiga me interpelou neste ponto: "Mas cálculos matemáticos são exatos?" Devo dizer que sim, lato sensu, mesmo que esse não seja o caso aqui! Mas entendo a confusão dela - stricto sensu. Ela, vocês e Gleiser estão interessados no erro referente a esta medição; afinal, este é um equipamento desenvolvido por físicos e engenheiros para medir o espectro da luz visível. Um equipamento vendido pela Internet, e que apresenta um valor objetivo em um display LCD, com uma precisão de 0,15 DE, levando apenas alguns segundos para calcular o resultado. E se for discutir sobre cognição e cores, esteja segura de conhecer os conceitos básicos relativos às disciplinas correlatas.

Diante de situações cotidianas como esta, me preocupo em entender como um experimento tão trivial suscita tanta contestação e controvérsia. Qualquer crendice, qualquer afirmação descabida, tem maior respeito, autoridade e aceitação do que o conhecimento objetivo de fenômenos naturais. Será o sistema educacional? Será a relativização filosófica? Serão tendências neuropsicológicas? Ou a conjunção sistêmica de todos estes fatores? Certamente não se trata de um problema relativo às “limitações da ciência” – como afirma Gleiser... Outras limitações e outras fronteiras estão em jogo; todas elas devidamente estudadas pela Neurociência Cognitiva.

Consideremos algumas variantes do Paradoxo do Mentiroso, sendo a mais antiga que se tem notícia a versão do jônico Eubulides de Mileto, sucessor de Euclides de Mégara, ainda no século VI AEC:
Um homem diz que ele está mentindo. O que ele diz é verdadeiro ou falso?
Ainda no século VI, o paradoxo também foi associado a Epimênides de Creta, que teria dito:
Todos os cretenses são mentirosos.
Um tal "São Jerônimo" teria aplicado o conceito a David, quando afirma nos salmos bíblicos que:
[...] Todos os homens são mentirosos. - Salmos [116:11]
Trata-se apenas de um truque lógico, com uma confissão moral... Teofrasto, sucessor de Aristóteles, escreveria três rolos de papiro sobre este "paradoxo", enquanto Crísipo redigiria outros seis. Todo este trabalho e toda esta perda de tempo silogística seriam enterrados pelas areias do tempo. Esta antinomia prova que um argumento pode parecer lógico embora seja falso; e por vezes, como é o caso, ridículo...
Esta frase não é verdade.
Verdadeiro ou falso? Logicamente astuto, moralmente pouco recomendável ou desonesto. Tarski salientou que o truque fundamental do Paradoxo do Mentiroso reside no uso de uma linguagem semanticamente fechada ou negativa – conforme já foi explicado. E provar a inexistência constitui um absurdo lógico, como já sabemos. Mas devemos fundar aqui pelo menos duas ressalvas. Quando Sagan diz:
A ausência da evidência não significa evidência da ausência.
Faço a seguinte ressalva, anuindo e ampliando:


A ausência de provas não é prova da ausência;
muito menos da existência.


Os argumentos contra a existência de propósitos morais para o universo são vastos e fortes. E não existem argumentos em favor de propósitos morais religiosos que não tenham sido invocados por meio de mentiras, fraudes, falácias retóricas e engodos semânticos... Nenhuma comprovação, nenhuma pista, nada! Por que devemos considerar religiões – qualquer uma – como um domínio de conhecimento?

O Universo e a Vida estão desenhados pela aleatoriedade e pela involuntariedade - quer gostem ou não. Podemos inventar opiniões, mas não poderemos inventar fatos; não impunemente! E, sem provas, fatos, ou evidências, não existe de fato conhecimento algum.
O que pode ser afirmado sem provas também pode ser rejeitado sem provas. – Christopher Hitchens
Ao que também concordo e amplio:


O que é afirmado sem provas 
pode e deve ser rejeitado.

Finalmente:
Quem nada sabe em tudo crê. – Jan Neruda
Isso opõe Ciência e religião, e não as nivelas - nunca... Contemple e observe o Universo como ele realmente é, e maravilhe-se com isso; e ensinemos aos nossos filhos como encarar as suas próprias fronteiras sem verdades absolutas, nem mentiras politicamente corretas, ou “alívios” que obliterem a LUCIDEZ. Considere a aterrorizante possibilidade de que um ser humano, saudável por natureza possa estar privado de vivenciar a realidade? Considere a possibilidade do desperdício desta vida? Deus é um argumento autocontraditório, embora pareça tranquilizador; mas não nos liberta como humanos plenos. Nas célebres palavras de Cornelius Tacitus:
Tranquilitas non Libertas.
Ao que modestamente agregaria:


Tranquilitas non Veritas.


Quando nos curvamos à autoridade ou nos entregamos ao mero solipsismo, sem a submeter as nossas proposições ao exame de sua pertinência, estaremos potencializando problemas de toda sorte nas mais diversas áreas. Algumas disciplinas estão fundadas sobre falácias, e vivem da autoridade e da idolatria, e impulsionadas pelo historicismo - como a filosofia social, política, religiosa ou de relações humanas.

Diferentes modalidades de fascismos pipocaram nas mãos de líderes carismáticos, messiânicos e totalitários. Devotos e arrebanhados em torno de uma tal identidade nacional, estatal, racial ou religiosa, foram convocados à luta derradeira contra alguma entidade metafísica, demônios diversos, judeus, judeus, judeus, capitalistas, materialistas, cientistas etc... Esta é a sina historicista, com origem na lateralização de nossos hemisférios cerebrais - sendo esta outra tese.

Sabemos ainda pelo entendimento do comportamento humano que algumas mentes estão mais capacitadas do que outras para encontrar padrões e ordem em meio ao caos. Algumas mentes estarão ainda destinadas a seguir e idolatrar líderes, enquanto algumas fantasiaram doentiamente sobre a realidade. Alguns líderes estarão destinados à iluminação, enquanto outros pretenderão, pela nevoa espessa e pela escuridão, um reinado de medo. Alguns estarão fadados à generosidade e a solidariedade, enquanto outros praticarão o mais sórdido egoísmo através de controle rígido e totalitário. O narcisismo, a ambição, a pulsão de vida e a procriação darão o tom; estamos bem distantes da savana africana, embora dispondo do mesmo aparato neural.

Vale notar que racionalismo e sensibilidade emocional não são mutuamente exclusivos. São características independentes e que podem até colidir em nosso cérebro, sendo estampado em nosso comportamento; mas uma pessoa emocional não significa uma pessoa irracional, e vice-versa. O sentimento é outra estória, é a verbalização da sensação emocional pura; e, portanto, estará impregnado pela linguagem, pela cultura, e por nossos estratagemas políticos. Daí tanta confusão.

Existem também pessoas que praticam o sentimentalismo; ou seja, que usam o sentimento como estratagema e alegando emoção... Daí a tal “espiritualidade”! A emoção é bioquímica, involuntária, real, física, e comanda as nossas vidas - sempre. O hipocampo, por exemplo, é responsável por selecionar e copiar trechos de nossa memória de curo prazo em nossa memória de longo prazo. Este importante módulo neural trabalha acossado pela emoção ou limitado pela falta dela. O racionalismo é uma capacidade genética, neural e bioquímica, e que não anula a emoção; sendo inclusive deflagrado por ela.

Gleiser comete muitos erros crassos em sua retórica quando deixa de trabalhar em prol do conhecimento para fazer o que chama de “estratégia diplomática”, e recusa a verdade. Ele comenta que deu uma entrevista para uma rádio AM, diante de uma plateia composta por pessoas simples – “operários e diaristas”; ao final, conta ele, foi interpelado por um senhor “com rugas precoces no rosto sujo de graxa”:
Quer dizer que o senhor quer tirar até Deus da gente?
Conheci muitos senhores com rugas prematuras mundo afora; e bem sei que o fenômeno da biologia da crença e o efeito rebanho não escolhem classes sociais. Mas a crença em deuses, a tendência a crendices sobrenaturais pode ser indutiva de piores condições sociais. De qualquer forma, uma boa instrução definitivamente pode ser um fator limitante no caso da tendência crente inata, e induzindo certa noção de lucidez e liberdade; e um fator estimulante quando a neuropsicologia é fértil para o convívio com a realidade. Mas vamos responder a Gleiser sobre a questão do senhor com “rugas prematuras”:


Não será mentindo sobre deuses forjados pelo historicismo para o mero controle político que o você aliviará o sofrimento deste senhor!

Por que Gleiser não lhes falou sobre os avanços em termos de Ciência Médica, com a redução da mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida - conforme supracitados? Gleiser não pensou que este senhor de rugas, por sua hesitação, e nesta mesma noite, vai pagar o dízimo a algum estelionatário? Este humilde senhor, além de estar livre da poliomielite, da varíola, do tifo, do sarampo, da morte prematura – com o sem rugas -, poderia estar livre também de ser sumariamente roubado! Aliás, este senhor tem a idade que tem, e pode orgulhar-se das rugas em seu rosto porque confrontamos as superstições em favor da VIDA!
A ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento: são aqueles que sabem pouco e não aqueles que sabem muito que tão positivamente afirmam que esse ou aquele problema jamais será resolvido pela ciência. - Charles Darwin
No século XVIII, as velhas crenças teológicas estavam sob fogo cruzado do livre-pensamento. Não obstante, a vontade de crer era reativada, reaparecendo de forma delirante, sempre que uma nova moda sobrenatural era encenada. A varíola foi uma destas oportunidades para a ignorância religiosa desfilar o círio, e desatando uma tempestade de protestos teológicos contra a razão... Um clérigo anglicano chegou ao cúmulo de publicar  um sermão onde afirmava que:
[Assim como] as pústulas de Jó eram devidas à inoculação do diabo, assim havia sucedido com a crescente epidemia de varíola.
Vários "ministros" eclesiásticos escoceses escreveram manifestos contra a Ciência Médica e em especial contra a recente descoberta da circulação sanguínea, os estudos de anatomia, fisiologia, etc. – assim como o estudo de células-tronco em nossos dias; afirmando que estávamos “tratando de desafiar o julgamento de deus” – sobre quem deve ou não deve morrer, e quando... Mas a varíola responderia à toda esta carolice com mais e mais mortes; quanto mais oravam e praguejavam contra a Ciência, mais mortos. Os terrores teológicos foram acalmados pelo terror imposto pela realidade da morte!

A controvérsia parecia declinar, quando foi descoberta a VACINA. Os "clérigos" de todas as facções da cristandade afirmaram em uníssono que:
[A vacina era um] insolente desafio aos céus, e à VONTADE DE DEUS.
Em Cambridge e na Sorbonne universitários cristãos unidos pronunciaram sermões opondo-se à VACINA. O mais grave sucedeu quando em 1885 e já no século XIX houve um disparo no número de casos da doença em Montreal, Canadá; e a parte católica da população repudiou a vacinação. Um sacerdote católico declarou que:
Se estamos afligidos pela varíola é porque comemoramos o carnaval no último inverno, festejando a carne e ofendendo ao Senhor.
As mortes vieram sem trégua sobre os católicos; "deus", por alguma misteriosa razão, pouparia apenas àqueles que foram vacinados...
Os Padres Oblatos, cuja igreja estava situada no coração do distrito infestado, seguiram denunciando a vacina; foi exortado aos fiéis para que se dedicassem a diversos tipos de devoção; com a permissão das autoridades eclesiásticas, foi ordenada uma grande procissão com um solene chamamento à Virgem, e foi cuidadosamente especificado o uso do rosário. (White; op. cit., v.II, p.60)
Pobres fiéis, aniquilados pela varíola! Esta seria uma excelente estória para Gleiser contar ao “senhor de rugas”; e sobre os mal entendidos envolvendo a nobre atitude científica – esta sim, uma verdadeira "benção", se preferirem... E existem outros tantos exemplos. O mesmo sucederia com o advento da descoberta dos efeitos anestésicos do clorofórmio, pelo médico escocês Sir James Young Simpson (1811—1870). Simpson, em 1847, recomendou o uso do clorofórmio para alívio das dores no parto, ao que o clero lhe respondeu com Gênesis [3:16]:
E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. - Gênesis [3:16]
Simpson, no entanto, logrou aprovar os anestésicos para os homens, salientando que:
Deus anestesiou Adão, adormecendo-o, antes de extrair sua costela.
Terrível! Sim, precisamos abolir tudo isso, o Corão, a Torá, o Velho e o Novo Testamento, a RELIGIÃO; para vivermos melhor, com mais saúde, paz, e em verdadeira harmonia. E não seremos capazes da fazê-lo se não pudermos entender e combater o primeiro fundamento contido em tais livros; i.e., o enaltecimento da ignorância pelo repúdio à razão e ao entendimento, ao conhecimento REAL, factual, científico... E a subsequente glorificação da submissão, da servidão e do conceito de manada.

Não seremos capazes de abolir tais livros se não pudermos entender antes a clara sentença de morte à consciência e àqueles que a conservam: os "hereges"... E não poderemos dar este passo se não pudermos constatar também o preconceito, o sectarismo, o racismo, a pulsão de MORTE, e o regozijo pela morte, contido em tais mensagens apologéticas.

Precisaremos confrontar os dogmas de tais sociedades extremamente preconceituosas, estratificadas, eliminando o aspecto "pecaminoso" de escolher com quem se casar, ou não se casar, e de viver como pretendemos; eliminando a figura absurda do dote, e enaltecendo a figura do afeto entre parceiros, entre casais. Esta não é a supremacia de uma cultura sobre a outra, senão a supremacia da liberdade sobre a opressão. Precisamos enaltecer o valor PENSAMENTO repudiando o culto à SUBMISSÃO...

Se eu pudesse impedir o sofrimento, eu o faria; se pudesse impedir o estupro, a violência contra crianças, a opressão de indefesos, a injustiça, eu o faria. E isso, além da coragem da verdade, me separa dos deuses... e os reduz a um pálido e doentio facho de terror, medo, e covardia - que a Neurociência pode explicar.


Se os deuses não se saíram bem com este mundo,
por que se sairiam melhor em outro?
O problema com as utopias é que nunca serão postas à prova.


E neste ponto devolvo a citação apelativa de O Pequeno Príncipe a Gleiser - porque este gesto de coragem é o verdadeiro gesto de amor:
Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. – Antoine de Saint-Exupéry (O Pequeno Príncipe)
Um homem de bem poder até seguir em frente com sua preferência devota, mas não pode esconder a VERDADE alegando que não existem verdades... E escutem a Galileu quando sabiamente adverte que a melhor forma de endereçar a verdade é propor proposições bem demarcadas e objetivas; questões genéricas e o truque da VERDADE ABSOLUTA só serve ao propósito de destruir proposições claras e objetivas, e benéficas à VIDA. Sim, porque diminuímos a mortalidade, a violência, e aumentamos a expectativa de vida porque existem verdades... Mas subimos uma rampa em forma de serra, com vieses locais de alta e baixa... mas avançando de forma contingente, convergente e cega... E fascismos do tipo Lula-land, como presenciamos em nosso país, destroem os sonhos de algumas gerações. Destacando mais uma vez que existem gradações de erro, existem verdades, existem mentiras!
[...] não há testemunho suficiente para fundamentar um milagre, a menos que o testemunho seja tal que sua falsidade seria ainda mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer [...]. Peso um milagre contra o outro e, de acordo com a superioridade que descubro, pronuncio minha decisão e rejeito sempre o milagre maior. – David Hume
 Dito de outra forma, quando a resposta para uma dada questão pretende ser definitiva, mas termina por abrir mais perguntas do que elucidações, então estamos divergindo, e não nos aproximando do entendimento, de forma que não existe de fato nada a ser celebrado como “definitivo” – e ao contrário.

Outro tipo de desserviço intelectual é o deboche... por vezes cínico... Charles Bukowski arrastou um rebanho de tolos, pela vã idolatria, enquanto se autodestruía pública e narcisisticamente. O mesmo fenômeno, com severos agravantes, pode ser dito do mito de Che Guevara, um psicótico covarde e assassino. Sendo estas proposições amplamente comprovadas - embora de outra classe de verificação: a documental.
Lutamos por essa indelével nuance que distingue o sacrifício do misticismo, a energia da violência, a força da crueldade, por essa nuance ainda mais sutil que separa o falso do verdadeiro, e o homem que almejamos nos tornar dos deuses frágeis que vocês reverenciam. - Albert Camus (Carta a um Amigo Alemão - I; 1943) 
MAS SIM, EXISTEM VERDADES - mesmo que não as queiram encarar... E relativizar a existência de proposições verdadeiras tem sido o primeiro ato daqueles que logo em seguida passarão a reclamar autoridade sobre a realidade - e sem apresentar qualquer tipo de prova, senão o CINISMO e não raro o DEBOCHE... Mas estarei aqui para denunciar!
A Filosofia não consistiria afinal em fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora? Ela duvida da existência, mas fala seriamente do "Universo". - Paul Valéry (O Homem e a Concha)
Homens “tementes a deuses” realizaram proezas intelectuais e científicas; sempre e quando atuaram como cientistas, como homens livres, e avessos à necessária submissão dogmática religiosa – exercida pelo temor... Homens religiosos emularam comportamentos científicos, e vice-versa. Então, separem conceitos e ideias de homens, e credos ou temores de atitudes...
O que é necessário não é a vontade de acreditar, mas o desejo de descobrir, que é justamente o oposto. - Bertrand Russell
Sob o obscuro pretexto de não atingir a perfeição muitos deixam de fazer a sua parte, capengando, e impedidos de culminar naquilo que realmente importa: PROGRESSAR!


Algumas pedras da tradição devem ser preservadas - poucas; 
mas não por respeito às pedras, mas por amor aos homens...


FELIZ DO HOMEM QUE PODE OPTAR PELA VERDADE!

Q.E.D.

Carlos Sherman