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A CIÊNCIA DO ERRO | Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva - Parte 1: Uma resposta a Marcelo Gleiser

A CIÊNCIA DO ERRO Sobre Verdades, Veracidade e Realidade Objetiva Parte 1:   Uma resposta a Marcelo Gleiser Dedicado ao me...

segunda-feira, 1 de julho de 2019

O QUE NOS TORNA HUMANOS - As vicejantes fronteiras da Neuroplasticidade



As vicejantes fronteiras da Neuroplasticidade
Por Carlos Sherman

A plasticidade neural é um fato; não obstante, muita besteira tem sido dita sobre o tema. Existem limites para o fenômeno, assim como como períodos críticos e “janelas” nas quais as conexões neurais se reorganização, complementam ligações, e até mesmo encontram novos caminhos. As janelas de tempo mais sensíveis à dita plasticidade neural são também conhecidas por imprintings... uma alusão à uma espécie de marca que funcionará como uma conexão neural estável, muitas vezes irreversível.
Tomemos a visão; nascemos com o aparato ótico bem formado, o globo ocular, o cristalino, a retina, e lá estarão os cones e bastonetes, o nervo ótico... mas a circuitaria final no Lobo Occipital ainda precisará terminar o seu trabalho, e não bastarão os marcadores de desenvolvimento neural; serão necessários fótons, luz, excitação dos cones e bastonetes, para que as terminações que decodificam a visão terminarem o seu papel no Córtex.
Em 1990, nos pântanos do Danúbio, um garoto de seis anos, e sua amiguinha de infância, ganharam um patinho - cada. Os patinhos os seguiam a toda parte, relacionando as crianças a seus pais. Essas crianças cresceram e se casaram. Estamos falando de Konrad Lorenz - casado com Gretl. Lorenz foi um renomado zoólogo, etólogo e ornitólogo austríaco, e ganhou o Nobel de Fisiologia/Medicina de 1973 por seus estudos sobre o comportamento animal. Mas o seu maior feito, no entanto, foi a observação do fenômeno batizado de imprinting. O imprinting pode ser descrito como uma espécie de marca - irreversível - deixada sobre o cimento fresco do desenvolvimento ontogenético. Observamos imprintings sobre a finalização do sistema visual, sobre a fala, sotaques, e até mesmo em laços afetivos - como o reconhecimento do rosto da mãe, que no caso dos patinhos começou com um menino, de terminou como um cientista de cavanhaque.
Lorenz trabalhou com gansos, e descobriu que se o filhote ganso tivesse menos de 15 horas, ou mais de 3 dias, não sofreria imprinting - neste caso, em relação ao rosto materno. Neste período, o primeiro candidato, e que passasse algum tempo com o gansinho, seria adotado como pai - irreversivelmente. Isso não quer dizer que não tenhamos outras formas de adotar pais, mães, avós, tios, etc. Mas o imprinting é uma experiência diferente, e tem o status de uma marca natural, inata, de uma impressão física sobre o comportamento - quase um desdobramento da genética.
Voltando ao imprinting, e por exemplo no caso da audição, o rei mongol Akbar, o Grande, no século XVI, isolou várias crianças ao nascer, e que eram cuidadas por mulheres impedidas de falar com elas até os 13 anos - idade em que ele ascendeu ao trono. O objetivo era verificar se tais crianças apresentariam uma tendência inata a tornarem-se hindus, muçulmanas ou cristãs. Na verdade, o Akbar conseguiu foi demonstrar que sofremos imprinting também em nosso sistema auditivo ao nascer. Todas as crianças se tornaram irreversivelmente surdos-mudas; mas nenhuma delas apresentou qualquer inclinação religiosa.
Temos os casos dos meninos selvagens - além de Mogli - Victor, Kaspar Hauser, e o grotesco caso de Genie. Genie foi confinada, amarrada, torturada, por uma mãe cega e abusiva, e um pai paranoico, que costumava latir e rosnar na porta de seu quarto escuro enquanto ela chorava. Ela passava todo o tempo enjaulada sobre a cama. Genie, depois de resgatada de seu suplício, nunca conseguiria aprender a falar, concatenar expressões, e organizar frases. Ela só conseguia balbuciar duas palavras quando foi encontrada: "stopit", "nomore". Genie aprendeu outras palavras, mas nunca foi capaz de estruturar uma frase. Genie se tornou obcecada por colecionar objetos plásticos, entre muitas outras obsessões.
Sua recuperação foi tão terrível quanto sua vida. O pai se suicidou. Houve certo progresso no início dos tratamentos, mas as equipes que assistiram Genie finalmente jogaram a toalha. Ela ainda está viva, internada em um lar para retardados mentais, sob severa vigilância.
O rei Psamético do Egito, Frederico II - imperador do Sacro Império Romano - e o rei Jaime IV da Escócia fizeram experiências de isolamento com crianças. No caso de Frederico, para saber sobre a nossa tendência linguística inata: hebraico, árabe, latim ou grego? O resultado foi a morte de todas as crianças.
Sessenta anos antes de Lorenz, o naturalista Spalding havia descrito o imprinting em animais. Lorenz e Spalding estavam conectados pelo estudo do imprinting. Spalding antecipou muitas descobertas neurocientíficas; descrevendo, e.g., como um pintinho recém-nascido “seguirá qualquer objeto em movimento. E, quando guiado apenas pela visão, ele não parecerá ter uma disposição maior para seguir um pato do que um porco ou um ser humano [...]. Há o instinto a ser seguido, e a audição, anterior à experiência [que começa no útero - grifo meu], trata de ligá-lo ao objeto certo [a galinha - grifo meu]".
Spalding descreveu extraordinariamente como um pintinho encapuçado “foge dele” quando descoberto; mas, se descoberto um dia antes, “correria para ele”, seguindo-o por toda parte. Lorenz, resgatou tais ideias e cunhou o termo imprinting - esse “lapso de tempo em que a experiência age irreversivelmente sobre o comportamento”. Como marcas no cimento fresco, e muitas vezes, finalizando sistemas neurais, como a visão e a audição, e atuando também sobre referências afetivas. Considerem a força do imprinting, considerem a força da educação, na tenra infância.
Filhotes de ganso seguem qualquer coisa que se mova na infância, como descobriu Lorenz. E apesar do seu sucesso com patos, ele não pôde repetir sua experiência com patos selvagens. Ele até imitou o som deles, mas não deu certo... Em 1960, Gilbert Gottlieb estudou patos selvagens percebendo que estavam fadados aos chamados de sua própria espécie. Mas Gottlieb fez algo interessante e terrível: ele emudeceu os patinhos ainda no ovo, cortando suas cordas vocais, e adivinhem? Eles passaram a ignorar os sons de sua própria espécie.
Considerem a seguinte questão: Em 1989, David Barker analisou o destino de mais de 5.600 jovens, nascidos entre 1911 e 1930 em uma cidade no sul da Inglaterra. Aqueles que tiveram menor peso ao nascer vieram a apresentar mais altas taxas de mortalidade por doenças cardíacas isquêmicas. O risco era de quase 03 vezes em relação às crianças mais pesadas. Essa é uma das provas de que os problemas cardíacos são menos dependentes do que você come.
Barker estendeu a pesquisa para outros países com os mesmo resultados, de forma que, concluiu ele: "se nenhuma destas crianças tivesse sido magra ao nascer, o índice da doença coronariana cairia pela metade mais tarde”. Isso também pode ser considerado um imprinting – um papel da dita plasticidade neural. Barker descobriu que comutadores genéticos consideram que o corpo do bebê mal nutrido será mal nutrido por toda a vida.
Lorenz ganhou o Prêmio Nobel com Niko Tinbergen, e eles fundaram a Etologia. Mas na época da guerra, e graças a Hitler, eles foram presos. Lorenz, na verdade, foi preso pelos russos; Tinberger foi preso pelos alemães. Tinberger lutou na resistência holandesa; mas não foram felizes em seu intento, e os alemães mantiveram o controle de boa parte da Holanda. Neste período, exatamente em função da resistência, além das greves de trabalhadores holandeses, o comando alemão na Holanda ordenou um corte de suprimentos e alimentos. Mais de 10.000 pessoas definharam até a morte neste período de fome. Neste mesmo período havia cerca de 40.000 gestações em curso; e resultado de tais gestações, sob efeito da fome, seria registrado cientificamente, assim como o peso dos recém nascidos, sem deixar dúvidas. Na década de 60, pesquisadores da Universidade de Colúmbia estudaram os dados e descobriram bebês malformados, altas taxas de mortalidade infantil, e altas taxas de natimortos. Mas o mais importante foi que eles descobriram algo notável: somente os bebês que estavam no último trimestre de gestação, neste período de penúria, sofreram com o baixo peso. Estes bebês apresentaram mais tarde problemas como diabetes, como resultado - pasmem - do conflito entre o seu fenótipo econômico em contraste com a nova abundância de alimentos. Os bebês que viveram o período de penúria no início de gestação nasceram com bom peso, mas quando atingiram a vida adulta, surpreendentemente, deram a luz a bebês incomumente pequenos.

Pat Bateson observa que gafanhotos levam várias gerações para passar de uma conduta social solitária para a um comportamento social gregário, e depois começam de novo. São necessárias várias gerações para o ser humano oscilar entre os fenótipos econômicos e esbanjadores - de calorias. Isso explica, por exemplo, porque a Finlândia tem uma taxa de mortalidade por problemas cardíacos 04 vezes maior que a França.
O governo da França começou a suplementar rações para mães grávidas depois da guerra franco-prussiana na década de 1870. E a Finlândia vivia em relativa pobreza até 50 anos atrás. Sendo estas as primeiras gerações a experimentarem abundância de recursos e calorias, e consequentemente a sofrerem mais problemas coronarianos. Um evento pré-natal pode ter longo alcance, impossível de neutralizar ao longo da vida. Mesmo algumas sutis diferenças podem ser atribuídas a imprintings pré-natais. Lembrando que o ambiente pré-natal não pode ser compartilhado exceto por gêmeos. Sendo assim, as injúrias sofridas neste período como a desnutrição, uma gripe, ou a excessiva exposição à testosterona, serão notadas por todo a vida, como uma instrução genética.
Não é por acaso que a fraudulenta Psicanálise se mostrou tão inepta em mudar pessoas, afinal o infindável processo sempre foi bem lucrativo: “te vejo na semana que vem”...
Uma série de experimentos foram conduzidos para ilustrar o poder do imprinting. Em muitas espécies de aves, observou-se que um filhote macho criado por uma mãe adotiva de outra espécie sofre imprinting sexual pela espécie da mãe adotiva. E existe sempre um período crítico para isso, que varia de espécie para espécie, entre algumas horas, a no máximo alguns dias. Entre 05 e 15 horas, e 02 e 03 dias.
A exposição à testosterona exerce imprinting na gestação, afetando o gene HOX que controla o tamanho dos órgãos genitais, assim como o tamanho dos dedos. O imprinting sofrido fica então registrado nos dedos – bem-dotados... Por exemplo, na maioria dos homens, o tamanho do dedo anular é maior do que o indicador. Nas mulheres, os dois dedos são em geral do mesmo tamanho. Uma mulher exposta excessivamente à testosterona, no útero, apresentará maiores dedos anulares. Os homens com dedos anulares incomumente longos - e veja a importância das correlações estatísticas - apresenta muito mais risco de estar associado ao autismo, dislexia, gagueira, disfunção imune, mas estranhamente geram mais filhos. Homens com dedos anulares extremamente curtos, apresentam elevado risco de doenças cardíacas e infertilidade.
Voltando aos gansos, Lorenz sacou que filhotes de ganso, além de outras aves, marcados por imprinting em relação a ele, não só o tratavam como pai, mas pareciam sexualmente fixados nele.

Matt Riddley conta que ele e a irmã descobriram na infância que uma rola-de-coleira, uma pequena ave, apaixonou-se pelos dedos das mãos e dos pés da irmã dele; provavelmente porque foram alimentados por eles desde o nascimento. Mas a “paixão” de uma rola, neste caso uma pequena rolinha, não pode ser parametrizada com tanta segurança.
Está claro há muito tempo que as preferências sexuais são fixadas no início da vida, senão no útero; e serão muito difíceis de mudar ao longo da experiência. Não existem cientistas sérios que realmente considerem que a sexualidade seja definida na adolescência. “A adolescência meramente revela o negativo da película.” (Riddley; 2008).
Blanchad aposta na ordem dos nascimentos cruzada com o peso, e o sexo dos irmãos antecessores, para justificar um dos fatores que aumentam dramaticamente a incidência do homossexualismo. No caso do homossexualismo masculino, é necessário que existam pelo menos um dois ou três irmãos antecessores do sexo masculino. Irmãs predecessoras não afetam a estatística. Isso, cruzado com o peso do bebê. Isso porque a mãe produz anticorpos contra a testosterona – um importante marcador no desenvolvimento fetal no caso dos machinhos... e a mãe se torna cada vez mais eficiente nesse processo, filho após filho, se machos em sequência.
Normalmente um segundo bebê é mais pesado que o primeiro do mesmo sexo. Os meninos são especialmente mais pesados se nascem após uma ou mais irmãs. Mas embora o segundo menino seja mais pesado que o primeiro menino, o terceiro tende a ser menor, e menor que o primeiro - inclusive. Blanchard demonstrou que meninos nascidos após um ou mais irmãos são em geral pelo menos 170 gramas menores ao nascer quando se tornam gays. Assim como Barker, Blanchard acredita que a genética e a vida uterina formam o bebê para a vida.
As paróquias luteranas registravam todos os marcos das vidas de seus fiéis, e seus arquivos foram de grande valia para o estudo do imprinting no útero - uma verdadeira mina de ouro para a Ciência. Eram registros que remontam do século XVI, mas que a partir de 1749, passaram a cobrir toda a população finlandesa.
Ao comparar, e.g., a história de vida de pares de gêmeos do mesmo sexo com pares de gêmeos de sexos dispares, notou-se que as meninas que dividiam o útero com um irmão - um gêmeo fraterno - apresentavam um sucesso reprodutivo muito menor. Meninas gestadas na companhia de outra menina tiveram destino idêntico ao dos meninos, 95% se casaram e 90% tiveram filhos. Em média essas meninas tiveram 05 filhos - uau, luteranas não tomam pílula, rsrsrs... dos quais 03 sobreviveram após os 15 anos. Meninos que dividiram o útero com meninas apresentaram o mesmo destino.
Mas o impressionante aconteceu com as meninas que dividiram o útero com um irmão; apenas 80% se casaram, mas só 65% tiveram filhos. Em média 03 filhos, e somente dois alcançaram os 15 anos. O estudo mostrou também que o resultado não era devido à convivência com outro irmão, afinal mesmo quando o gêmeo masculino morria ao nascer, e a menina era educada na companhia de outra irmã, ou mesmo analisando meninas que não foram gêmeas fraternas em convívio com irmãos, a estatística se mantinha inabalável.
Apesar do sexo feminino ser o default nos mamíferos, a explicação mais provável decorre da produção de testosterona pela gestação dos meninos, que atravessa a placenta e afetam as meninas. O mesmo fenômeno pode ser observado em inúmeras espécies. A testosterona bagunça o sistema de marcadores neurais da menina, de forma que sua funcionalidade feminina se vez grandemente afetada.
É até fácil inferir a existência de períodos críticos durante os quais o cimento fresco neurofisiologia, da formação da personalidade ou mesmo do caráter pode ser marcado pelo imprinting. Mas não é tão simples compreender como isso funciona. O que ocorre no cérebro para que um filhote de ganso sofra imprinting de um professor? Os experimentos mostram, e.g., que quando um filhote recebe imprinting de seus pais estas lembranças são estabelecidas em uma parte do hemisfério esquerdo do cérebro, chamado IMHV (intermediate and medial hyperstriatum ventral). Um surto de mudanças acompanha o imprinting, e os neurônios alteram sua forma; as são estabelecidas, e alguns genes e comutadores são ativados. Sabemos disso, em parte, porque se o IMHV for danificado o filhote não sofrerá imprinting dos pais.
McCabe observou que o GABA - um neurotransmissor - é liberado pelas células cerebrais no IMHV – lado esquerdo - durante o imprinting.  No final do período crítico, a liberação do GABA é reduzida.
Até a década de 1930 crianças que nasciam com catarata e estavam cegas somente sofriam intervenção cirúrgica após os dez anos de idade, e quando já era muito tarde. Era simplesmente muito tarde para que o Sistema Visual pudesse aprender a ver, mesmo depois da remoção da catarata. Hoje o problema é solucionado mais cedo e a criança pode aprender a ver, distinguindo profundidade e forma adequadamente.
Macacos criados na mais completa escuridão durante os primeiros seis meses de suas vidas, levam meses para distinguir círculos de quadrados; algo que seria naturalmente aprendido em dias. Durante os primeiros meses de escuridão o cérebro não consegue decodificar o que os olhos veem, e importantes conexões neurais serão bloqueadas ou perdidas para sempre.
Mas existe um senão, o imprinting mostra que nem a imagem da mãe e nem a cultura infantil são inatas, stricto sensu; mas a sua capacidade de receber tais marcas sim. A Genética controla o gap, a janela de tempo, para os diferentes tipos de imprinting. Desde as glândulas sudoríparas, a visão, a audição, a preferência por alimentos, rituais etc... uma criança é rigorosamente marcada em todos os sentidos. Os imprintings selam o processo de desenvolvimento de nossa natureza, em interação com o meio.
Vejamos o sotaque: mudamos o nosso sotaque facilmente na infância e na juventude. Mas entre os 15 e 25 anos, variando de pessoa para pessoa, esta capacidade simplesmente desaparece. A partir de então, já não será possível absorver alguns inflexões e hábitos do novo ambiente linguístico. Isso vale também para sotaques regionais. Os adultos retêm o sotaque de sua juventude, e os jovens adotam o sotaque que os rodeia. Lenneberg afirmou que a capacidade de aprender a linguagem termina abruptamente na puberdade.
Um bebê humano nasce prematuramente... podemos afirmar. Um cavalinho nasce e cavalga, enxerga e come sozinho. Um bebê humano é totalmente dependente da ajuda de seus pais ou pares adultos. E a força física, ao longo da evolução, cedeu lugar à força estratégica de nossos lações sociais. De forma que um bebê humano estará pronto quando a socialização cumpre o seu papel, e este período crítico no desenvolvimento tem as suas janelas abertas até os 05, 06 anos de idades, e principalmente quando a região Ventral Medial do Lobo Pré-Frontal, sela o seu destino. Que só poderá ser reordenado ou destruído, em caso de severo traumatismo, ou tumores – vide caso Phineas Cage.
Despois deste período, boa parte de nosso destino em termos de personalidade social estará selado. Diferentemente de outras regiões do cérebro, principalmente na parte sensorial e motora, a personalidade não é facilmente moldada. Vale considerar que em nossa vida como caçadores-coletores, em clãs de 100 a 300 pessoas, as crianças só acompanham seus progenitores, principalmente a mãe, até esta idade... 05 e 06 anos. É neste período que a empatia mostra seus limites, e crianças autistas e não autistas se diferenciam – vide teste Sally-Ann. Também nessa fase termina o desenvolvimento do ToM, ou Theory of Mind, responsável por boa parte de nossas estratégias em comunicação: (1) O que será que ele achou do que eu disse? (2) O que será que ele pensou sobre o que eu disse sobre ela? Etc...
Finalmente uma anedota, um caso real, para exemplificar a plasticidade em caso de traumatismos ou danos às conexões neurais... Tenham em mente o engenhoso Mapa de Penfield, onde o pé está contíguo aos órgãos genitais. Portanto, se uma pessoa perde a perna e é estimulada nos órgãos genitais, experimentará sensações na perna fantasma, já que existirá confusão sensorial, irradiando informação procedente da genitália para a perna... e vice-versa. Veja o diálogo de V.S. Ramachandran com um de seus pacientes a respeito (Ramachandran; 2010):

- É o Dr. Ramachandran?
- Sim.
- Sabe, doutor, li algo sobre seu trabalho no jornal, e é realmente empolgante. Perdi minha perna abaixo do joelho há dois meses, mas ainda há alguma coisa que não entendo. Gostaria da sua opinião. De que se trata? Bem, sinto-me um pouco embaraçado em contar isso.
Eu sabia o que ele ia dizer.
- Doutor, toda vez que tenho relações sexuais, tenho sensações em meu pé fantasma. Como o senhor explica isso? Meu médico diz que não faz sentido.
- Veja uma das possibilidades é que os órgãos genitais estão bem perto do pé nos mapas do cérebro. Não se preocupe.
Ele riu nervosamente.
- Tudo isso é perfeito, doutor. Mas o senhor ainda não está entendendo. Veja, sinto realmente o orgasmo no meu pé. E, portanto, é muito mais intenso e maior do que costumava ser, porque não está mais confinado aos meus órgãos genitais.

Os pacientes não inventam essas histórias. Fazendo um trocadilho com o famoso livro de Sacks, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, Ramachandran bem poderia publicar O homem que confundiu o seu pé com o pênis. Daí podem decorrer parte dos fetiches sexuais envolvendo os pés... A explicação freudiana não poderia ser mais ridícula e forçada, como tudo em Freud: “o pênis se assemelha ao pé”. Ao pé? Não mesmo... talvez o nariz... Mas o pé não tem nada a ver com pênis, a começar que são dois pés, e terminam em dedos.
Mas o que acontece quando o pênis é amputado? O carcinoma do pênis às vezes é tratado com amputação, e muitos desses pacientes sentem um pénis fantasma, e até ereções fantasmas! Nesse caso, seria de esperar que uma estimulação dos pés fosse sentida no pênis fantasma. Um paciente assim acharia especialmente delicioso dançar sapateado!!!
E o caso da mastectomia? Um neurologista italiano, Dr. Salvatore Aglioti, descobriu recentemente que certa proporção de mulheres submetidas a mastectomia radical sentem nítidos seios fantasmas. Mas, que partes do corpo estão mapeadas perto dos seios? Verificou-se que quando estimulamos regiões perto da clavícula, adjacentes ao tórax, ou partes do esterno, as sensações são sentidas no mamilo do seio fantasma. E  o respectivo mapeamento ocorreu apenas dois dias depois da cirurgia.
Aglioti descobriu ainda que um terço das mulheres com mastectomia radical relatavam formigamento, sensações eróticas em seus mamilos fantasmas, precisamente quando os lóbulos das orelhas eram estimulados. Mas Isto só acontecia no seio fantasma, não no real. Aglioti concluiu que no mapeamento sensorial os lóbulos das orelhas também estão próximos ao mamilo, assim como a áreas sensíveis na vagina. Isso explica por que mordiscadas na orelha fazem parte das preliminares sexuais. Por outro lado, no caso de mamilos fantasmas existe um caminho preferencial irrigando área que já não traz estímulos sensoriais.
A personalidade, e.g., está encravada em nossa fisiologia; e mesmo a aprendizagem está limitada pelo desenvolvimento fisiológico de nossas estruturas neurais. Nos Estados Unidos, nos últimos 25 anos, muitos psicólogos do desenvolvimento se transformaram em cientistas cognitivos, passando a estudar o cérebro em busca da compreensão sobre o desenvolvimento. Uma pergunta crítica para os cientistas cognitivos é: existe correlação entre os estágios comportamentais universais do desenvolvimento e os estágios fisiológicos e de transformação neural. Por exemplo, se o aprendizado da matemática começa a acontecer em certa idade, será que existe uma estrutura cerebral específica ou um conjunto específico de neurónios que se desenvolvem ao mesmo tempo para tomar conta da aprendizagem de matemática? A resposta parece ser sim: existe uma correlação entre mudanças neurais e desenvolvimento cognitivo.
Correlatos neurais de mudanças cognitivas foram investigados na percepção, na atenção, na memória, na linguagem, nas habilidades motoras e em processos mentais como o raciocínio. Mas é importante lembrar que simplesmente observar uma correlação entre desenvolvimento neural e cognitivo não significa necessariamente que as mudanças cerebrais causaram as mudanças comportamentais. Afinal de contas, também existe uma correlação entre a altura e o comportamento da criança, mas é improvável que o tamanho físico seja responsável pelo desenvolvimento cognitivo. No entanto, esses experimentos fornecem evidências convergentes que são consistentes com um vínculo causal.
Existem ao menos dois importantes motivos para o desenvolvimento cerebral: (1) o amadurecimento funcional de estruturas; (2) a conexão com outras estruturas. No processo de poda sináptica, por exemplo, conexões sinápticas frequentemente utilizadas são preservadas, enquanto caminhos pouco utilizados serão abandonados pelo cérebro.
As conexões neurais se assemelham a uma intrincada rede de possibilidades, enquanto as sinapses são bioquímicas. O cérebro do bebê desenvolve muitos mais caminhos e conexões do que o necessário. E depois, na poda, uma política rígida entrará em cena: “use ou perca”...
Uma vez que essas conexões estejam estabelecidas, o cérebro trata de torná-las permanentes pelo reforço. E um dos processos envolvidos nesta sedimentação é a mielinização, que consiste em envolver o neurônio (axônio) em uma bainha de mielina, e garantindo assim que a velocidade neste neurônio seja maior. Só depois que certas conexões cerebrais estejam estabelecidas é que os bebês estarão aptos para desenvolverem determinadas habilidades cognitivas. A ideia de que a aprendizagem é limitada pelo desenvolvimento do cérebro, ou pelo menos estreitamente ligada a ele, é um conceito novo e estimulante, energizado pela revolução biológica na ciência psicológica.
Finalmente, a plasticidade deve ser olhada com critério e reserva, já que o conceito é muito amplo, e já que existem limites para esse expediente fisiológico. E é exatamente essa a fronteira para o desenvolvimento: a fisiologia. Mas parte desse processo decorre da Genética, da Gestação, da Finalização do Desenvolvimento Fetal... e parte é regenerativa. Não podemos confundir todos esses papéis com apenas um conceito que sai de uma nuvem, criando um sem número de possibilidades quase mágicas. Porque não é assim que funciona a plasticidades... e ela tem limites.


Carlos Sherman

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