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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sobre a Falácia da Tábula Rasa e o Mito do Automatismo



Sobre a Falácia da Tábula Rasa e o Mito do Automatismo

Auto-ajude-se!!!

Diante de uma enxurrada diária de mensagens de auto-ajuda, decidi objetar:

(..) você e o autor da frase só esqueceram de considerar a Genética e a Neurociência Cognitiva, base para tudo em nossas vidas, inclusive para a nossa capacidade de aprender, lutar, querer... Sempre recomendo menos auto-ajuda e mais estudo, se pretendemos entender alguma coisa sobre o comportamento humano, e sobre o nosso comportamento... 

As pessoas são diferentes, e sendo diferentes podem ser pacatas, guerreiras, tementes em relação ao risco, ou sedentas pelo risco... e não serão bordões de "vamos lá, você pode", que mudarão estas características inerentes à nossa natureza... Muito pelo contrário, falar em sucesso e derrota, como vejo por aí, só acentua a frustração... Somos diferentes... E somos quem somos sem intencionar ser... Mas somos, e somos único... E respondemos por nossos atos, mas o livre-arbítrio é uma falácia... Puro desconhecimento sobre tudo o que já entendemos sobre o comportamento humano... E pura crença na falácia rousseauliana da 'Tábula Rasa'... Não somos uma folha em branco onde escrevemos o nosso destino, ou "o que você decide se tornar"... 

E este não é, como profetizam, "o maior valor da vida", "escolher quem seremos, vencedores ou perdedores"... O maior valor da vida é antes de tudo entender o que ela significa... Para que sejamos quem somos, de propósito, conscientes, e felizes... O meio, a família, o aprendizado, e os desafios, podem estimular a realização de nossas potencialidades, ou tratar de calá-las, mas nunca inventá-las... jamais... E somente hoje sabemos disso... Pergunte a Judith Harris... 

Sei que pode parecer chocante, afinal subtrai, de uns, o orgulho de serem eles "vitoriosos", mas também subtrai, de outros, o estigma do "fracassos"... E questionar o dogma da "folha em branco" que será preenchida somente pela experiência, deixa a impressão equivocada do mito do 'autômato'... Mas não funciona assim... Simplesmente, a nossa natureza individual, única, tem as suas características, e o meio só poderá estimulá-las ou bloqueá-las, mas não mudará efetivamente quem somos ou seremos... Se somos girassol seremos girassol, se somos cactus, seremos cactus... Mas o meio, a exposição ao Sol, a disponibilidade de água, os nutrientes que recebemos, as folhas que são arrancadas pelo vento, nos tornarão mais ou menos exuberantes, murchos,  maiores ou menores, e viveremos mais ou menos - como girassóis, cactus, rosas -, de acordo com a nossa natureza... 

Evidentemente, trata-se de uma analogia muito simplificada, afinal somos o Homo sapiens - 100 bilhões de neurônios conectados por 100 trilhões de sinapses, modelados por 30.000 genes, e um infindável número de combinações, resultando na complexidade e na beleza da experiência humana... Mas, durma com esse barulho: a personalidade é quase tão herdável quando o peso corporal !!! 

Complexidade tal que Alfred Russel Wallace, co-desenvolvedor - ao lado de Charles Darwin - da Teoria da Evolução,  familiarizado com a diversidade 'não intencional ou moral' da vida, não foi capaz de aceitar... Wallace não pôde aceitar que a mente humana, ou sistema neural, diferia dos demais animais apenas em grau e não em tipo... De forma que infelizmente Wallace não pôde livrar-se do 'fantasma na máquina', o que de certa forma ofuscou o brilho e a importância de sua obra ao lado de Darwin... Wallace terminou a vida tentando se comunicar com os mortos, e procurando um lugar para a 'alma' humana, que nunca pôde encontrar... 

Em tempos vitorianos, antes da descoberta do DNA por Watson e Crick, antes das maravilhas de Santiago Ramón y Cajal - que intuitivamente postulou a doutrina do neurônio, que tempos depois foi comprovada -, e de outras descobertas genéticas e neurofisiológicas, não podemos condenar Wallace por sua hesitação... Eric Kandel quando inciou a aventura que o levaria a entender os meandros da do cérebro humano, desvendando a memória - para receber o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina -, trabalhou com neurônios de camarões de água doce, similares ao nossos, só que maiores, e em muito menor número...Mais uma vez, o que nos diferencia de qualquer outra inteligência no reino animal é uma questão de garu, e não de tipo... 

A evolução está documentada em nossos cérebros e em nosso DNA... De forma que, e com tudo isso exposto, podemos contestar o rentável negócio das máximas da auto-ajuda, do lance do "você pode, vamos, só depende de você", ou da "lei do retorno", ou da "lei da atração", ou do mito de que poderemos transformar qualquer um em um "líder", ou no "melhor vendedor do mundo", ou podemos ajudar a qualquer um que deseje "fazer amigos e influenciar pessoas"... Não, não funciona desta forma, e tais falácias ou mitos, só conduzirão à muita dor e frustração... Onde frustração, e o gradiente entre 'onde você está', e 'onde gostaria de estar', principalmente quando a mídia diz que 'você pode', e que só existe um paraíso possível... A frustração vem de nunca alcançar este podium de chegada, que na realidade não existe... Porque uns, ou muitos, nunca serão líderes, nem farão tantos amigos, e não influenciarão pessoas - se é que isso pode ser considerado ético, e admirável, e pessoalmente suspeito que não.. 

E o estratagema da auto-ajuda segue o esquema da fé... Se você não alcançou a sua graça, não culpe o santo - jamais -, isso significa que você não teve fé suficiente... Se não encontrou o sucesso prometido pelos magos da auto-ajuda, significa que você não quis o suficiente... Afinal, só depende de você... O nome teste jogo de 'engana-engana', se chama 'tênis sem rede'... Sim, é isso mesmo, um jogo onde somente o 'pastor' ou o seu 'guru' da auto-ajuda vêem a rede, e marcam os pontos... Você sempre perde... Embora a esmagadora maioria, estarão hipnotizados pelas técnicas da auto-sugestão... Um triste destino...

Para realmente ajudar alguém, ou ajudar a nós mesmo, mas vale entender quem somos, encarar a diversidade, e realizar a nossa natureza em nossa vida, plenos, reais, com expectativas ajustadas... Existe um padrão para 'vencedores' e 'ganhadores', que não leva em conta as expectativas naturais de cada um... E existem pessoas ganhando dinheiro, e sem nenhum conhecimento sobre a natureza humana, usando truques para que você acredite que existem padrões de realização, e depois enganando você em relação ao seu verdadeiro sucesso em atingir tais padrões... Isso é feito todos os dias em igrejas, e também pelos magos da auto-ajuda em seus 'seminários'... 

Devemos ajudar as pessoas a aceitarem quem são, e assim viverão melhor... Não existem tantos líderes inatos, nem vendedores, nem 'vencedores', se é que existe algum parâmetro sobre vencer... Ter grana é vencer??? Muita grana? A falta de dinheiro, para suprir necessidades básicas, é sem sombra de dúvidas um suplício em nosso mundo dependente de comodidades, mas contar à todos que precisam ser ricos, é outra coisa... Enquanto alguns precisam 'ter coisas', outros precisam 'ter experiências', e outros - ainda - só querem estar quietos, calmos, em seu cantinho... 

Mas este papo vai longe... Mensagens que parecem inofensivas, na verdade ensejam falácias e mitos, vendem livros e frustram pessoas, em função da ambição de uns e da vulnerabilidade de outros... 

Carlos Sherman

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Gêmeos, intrigante semelhança...



Manchetes sensacionalistas como 'o gene para isso, o gene para aquilo', são particularmente um desserviço à Ciência... No entanto o estudo dos gêmeos idênticos criados separadamente, em comparação à gêmeos fraternos criados juntos não deixa dúvida, a personalidade de um ser humano está mais relacionada a seus genes do que ao meio... Modernamente, e entre vários sistemas de classificação, os psicólogos tendem a definir a personalidade em 'cinco dimensões', ou 'cinco grandes fatores', ou ainda ACEAN - (A)bertura, (C)onsciência, (E)xtroversão, (A)gradabilidade, (N)eurose... Obviamente é um resumo grosseiro, e temos classificações que chegam a elencar até 2.000 aspectos da personalidade, mas a ACEAN pode se tornar uma ferramenta classificatória interessante para os fins e limites deste post... A dimensão 'abertura' define a disponibilidade para o aprendizado, a abertura para testar novos caminhos, explorar novas fronteiras, sair do bando e dar uma voltinha pela floresta, rsrsrs, ou aferrar-se ao grupo, apegado à bandeiras, e preso em devoções... A 'consciência' mede o grau de reflexão, o racionalismo, moderação de conduta... A 'extroversão' define a nossa capacidade de exposição, a nossa reação à opinião dos demais, a auto-confiança... A 'agradabilidade' sugere o grau de cordialidade, empatia, a tendência ao altruísmo ou ao egoísmo, ou mesmos à relação simbiótica... Preferiria chamar esta componente de (S)ociabilidade, mas... E a dimensão da 'neurose' mede a nossa tendência à obsessão, manias, sistematismos... Em maior ou menor grau, todos temos as nossas neuroses... O termo tem sido associado à transtornos mentais, mas não é o caso aqui... Aqui, a dimensão da 'neurose' mediria o nosso grau de tensão orientada a algum fim; o fervor, mania, obsessão... Comportamentos sistemáticos ou irracionais, e que provocam tensão, estariam elencados nesta dimensão - mas sem o caráter patológico... As psicoses seriam então a face patológica das neuroses extremas, e receberiam outro tipo de atenção, uma vez que estão associadas a delírios, alucinações e crises... Quadros neuróticos extremos invadem o espectro das psicoses...

Por exemplo, você poderá ter a mente moderadamente aberta (A), ser um cara muto meticuloso (C), e no entanto medianamente extrovertido (E), individualista (S/A), e calmo ou neutro em termos de neuroses (N)... Ou pode ter a mente bem aberta, sem um cara desorganizado, muito introvertido, altruísta, e muito polêmico, do contra ou reativo... Pode ter a mente fechada, ser organizado, extrovertido, ambicioso e egoísta, e um religioso fervoroso, sendo que este seria um excelente perfil para um pastor da Igreja Universal, srsrs... Se fosse mais introvertido e afetuoso, quem sabe o Vaticano? Mas gracinhas à parte, o assunto é sério e o jogo é de campeonato...

Um pouco mais do que 40% da variabilidade em nossa personalidade depende diretamente de fatores genéticos, menos de 10% de experiências ambientas compartilhadas - família -, e 25% decorrem das experiência únicas - ou da cadeia de eventos de nossas vidas -, sendo os 25% restantes relativos à erros e imprecisão, até porque não existem fronteiras tangíveis e determinadas, demarcando a força de cada fator sobre a resultante do comportamento humano... Mas estes são bons parâmetros... 

Ou seja - e durma com esse barulho: a personalidade é quase tão herdável quando o peso corporal !!!

A correlação média para o peso entre dos irmãos quaisquer é de 34%, e entre pais e filhos é ainda mais baixa 26%... Quanto desta correlação esta relacionada com o meio compartilhado - alimentação, sedentariedade, cultura - e quanto está relacionada com a genética? Gêmeos idênticos compartilhando o mesmo meio tem correlação para o peso de 80%, enquanto gêmeos fraternos criados juntos tem somente 43%, o que responde a questão... Observem que os gêmeos idênticos tem quase o dobro de correlação em relação aos gêmeos fraternos, mas os gêmeos fraternos tem uma correlação muito similar a irmãos não-gêmeos... Mas observe que gêmeos fraternos decorrem de genética inteiramente diferente, são dois óvulos distintos e dois espermatozoides distintos, assim como irmãos não-gêmeos... Pero, esta pequena melhora na correlação de 34% para 43% pode ser explicada por três importantes variáveis: primeiramente os óvulos e espermatozoides, no caso dos gêmeos fraternos, vem do mesmo 'lote', rrsrsrsrs... Ou seja, óvulos e espermatozoides que decorre do mesmo 'padrão de qualidade' - saúde... Diferentemente dos irmãos não-gêmeos, que decorrem de diferentes 'lotes', em diferentes momentos da vida do casal, o que pode redundar em diferenças sobre a qualidade ou saúde dos mesmos... A qualidade de óvulos e espermatozoide poderia então ser afetada pela ação do tempo - e do meio - sobre o organismo... Pelo mesmo motivo, e seguindo a linha do tempo do casal, os gêmeos fraternos compartilharão o mesmo 'meio' gestacional, exposição bioquímica no útero através da placenta et cetera... 

Assim como gêmeos idênticos apresentam sempre correlações superiores entre si em relação aos gêmeos fraternos, os gêmeos fraternos por sua vez estarão sempre mais correlacionados entre si - embora de forma menos gritante - quando comprados com irmãos não gêmeos... Ou seja, temos o fator tempo atuando sobre a saúde de óvulos e espermatozoides, mas sobretudo o impacto da vida e do desenvolvimento gestacional, ou ontogenia... Finalmente, o terceiro fator, também associado ao tempo, que contribui na diferença entre gêmeos fraternos e não-gêmeos, em relação ao peso, está relacionado ao meio compartilhado, ou seja, os hábitos familiares podem variar no tempo, em função da cultura, da mudança do padrão de vida et cetera... 

Mas e quantos aos irmãos adotivos? Qual seria a correlação média esperada no caso do peso?  A-haaa... Apenas 4%... Ou seja, irmãos adotivos não compartilham nada mais do que o meio, e por isso apresentam as diferenças esperadas... Mas gêmeos idênticos criados por famílias inteiramente diferentes, tendo sido separados na maternidade, educados em culturas, países e continentes diferentes, ainda assim, apresentam 72% de correlação em relação ao peso... Isso solapa de vez a ideia de que o homem é produto do meio... A genética é bem mais influente em nossas vida do que o meio, que por suas vez não deixa de representar um importante fator...

Portanto, queridos amigos, entendo como é chocante - depois de um século de 'certezas e sandices freudianas' e seus derivativos (Lacan e Jung), além dos dogmas behaviorianos -, descobrir que o comportamento humano e a personalidade são tão  pouco influenciados pela família em que fomos criados...

Sigmund Freud - corretamente - escreveu: "a humanidade ao longo do tempo teve que sofrer nas mãos da ciência três grandes ultrajes a seu amor-próprio"... Os referidos ultrajes são: 1) A descoberta de que o nosso 'mundo' - ou mundinho - não está no centro de um fantasioso sistema composto por 'perfeitas esferas cristalinas', criadas decorativamente por um deus mágico, somente para iluminar a noite; e que na verdade o nosso 'mudinho' é muito menos do que um grão cósmico, perdido em meio a três sextilhões (3x10^23) de outras 'esferas' - nem tão esféricas - de plasma, onde o Hidrogênio é fusionando para produzir toda a Tabela Periódica; 2) A descoberta de que não somos as criaturas especiais e diletas daquele deus 'decorativo', e que na verdade descendemos de animais, e somos resultado de um processo evolutivos, de onde compartilhamos com eles - animais - as mesmas unidades elementares da vida e pera o pensamento e consciência; 3) A descoberta de que a nossa mente 'consciente' não 'livre-arbitra' e nem controla o modo como agimos, mas na verdade a nossa mente apenas nos conta uma estória 'remontada e continua' sobre nossas vidas; uma estória por vezes fantasiosa, mas sempre pessoal e subjetiva...

Freud estava certo quanto ao impacto cumulativos de tais descobertas sobre a humanidade, mas foi a associação entre a Psicologia Cognitiva, a Neurociência Cognitiva e a Genética Comportamental, que desferiu o terceiro golpe, e não dogmática e bizarra Psicanálise...

Mas esta tríade - Psicologia Cognitiva, Neurociência e Genética - está promovendo alguns ultrajes mais: 4) A descoberta de que não somos uma 'tábula rasa', nem uma folha em branco preenchida apenas pela experiência, e muito menos pela engenharia social, e que não somos um mero produto do meio; 5) A descoberta de que a doutrina sociológica do 'bom selvagem' é uma falácia, e que podemos viver de forma civilizada construindo uma sociedade mais inclusiva, justa, fraterna, e ainda assim livre; operando a partir da tomada de ComCIÊNCIA sobre a 'real condição humana'; 6) A descoberta de que o fantasma da máquina não existe, consequentemente dualidade entre corpo em alma - ou mente - também cai por terra... Só o que existe é a Physis, em última análise, e pensamento decorre de nossas células neurais, e não de um comando central - ou alma - desconectado do corpo, e portanto resistente à morte; 7) A descoberta de que somos mortais, finitos mas maravilhosos; e que o tempo urge...

Lesões nos Lobos Frontais podem deixar a pessoa embotada ou modificar - moderada ou completamente - o seu repertório comportamental, uma vez que esta região do cérebro esta relacionada com os freios ou inibidores de nossos impulsos emocionais, atuando sobre o Sistema Límbico - particularmente em um circuito que liga a amígdala ao hipotálamo pela via conhecida como Stria terminalis... Os Lobos Frontais atuam sobre cada hemisférico, garantindo que as nossas estratégias e objetivos predominem sobre os impulsos deflagrados pelo Sistema Límbico... É por isso que cedemos lugar à uma pessoa idosa, ou respeitamos filas, ou pedimos as coisas ao invés de tomá-las... O nosso desejo e o nosso instinto de sobrevivência e defesa é então moderado, resultando em um comportamento dito sociável...

100 bilhões de neurônios conectados por 100 trilhões de sinapses, modelados por 30.000 genes, e um infindável número de combinações, resultando na complexidade e beleza da experiência  humana... Complexidade tal que Alfred Russel Wallace, co-desenvolvedor - ao lado de Charles Darwin - da Teoria da Evolução,  familiarizado com a diversidade 'não intencional ou moral' da vida, não foi capaz de aceitar... Wallace não pôde aceitar que a mente humana, ou sistema neural, diferia dos demais animais apenas em grau e não em tipo... De forma que infelizmente Wallace não pôde livrar-se do 'fantasma na máquina', o que de certa forma ofuscou o brilho e a importância de sua obra... Wallace terminou a vida tentando se comunicar com os mortos e procurando um lugar para a 'alma' humana... Em tempos vitorianos, antes da descoberta do DNA por Watson e Crick, antes das maravilhas de Santiago Ramón y Cajal - que intuitivamente postulou a doutrina do neurônio, que tempos depois foi comprovada -, e de outras descobertas genéticas e neurofisiológicas, não podemos condenar Wallace por sua hesitação... 

Apesar de toda a timidez (E), Darwin tinha uma mente incomum e aberta (A) para sua época; era meticuloso (C), generoso (S), e talvez uma de suas neurose tenha sido o detalhismo, que caiu como uma luva no desenvolvimento da Teoria da Evolução... Outra neurose de Darwin talvez tenha sido o medo do moralismo religioso de sua época... E Darwin, embora não tenha impetrado nenhum sendeiro místico - no estilo espírita de Wallace -, terminou a vida declarando-se um deísta quase agnóstico, mas sem permitir que isso interferisse em sua integridade intelectual... Mas para a nossa sorte, Thomas Huxley estava em seu caminho: aberto (A), consciente, intenso e disposto a correr riscos (C), extremamente extrovertido, eloquente e carismático (E); agressivo, combativo e sem medos - e muito temido - (S); e talvez a sua neurose mais tangível advenha do orgulho e de não levar desaforo para casa (N)... Estas explosivas e brilhantes características nunca estiveram tão claramente a serviço da humanidade como no célebre debate com o Bispo de Oxford Samuel Wilbeforce:

"(...) o Bispo de Oxford, Samuel Wilbeforce, de dedos enfiados na lapela volta-se ostensivamente para Huxley e, com maliciosa cortesia, insiste em saber se 'é por parte do avô ou da avó que o senhor afirma descender de um macaco?' Ao detectar a entonação bajuladora dada à palavra 'avô', a assistência solta alguns 'oohhs' em voz baixa e concentra a atenção em Huxley. Ainda sentado, Huxley vira-se para o indivíduo que está ao lado dele e, quase sonolentamente, murmura 'o senhor entregou-o em minhas mãos.' Pondo-se de pé e fitando Wilbeforce nos olhos responde: 'Prefiro ser descendente de dois símios a ser um homem que tem medo de enfrentar a verdade.' (...)" (Sagan, 2009 - Sombras de Antepassado Esquecidos)

Carlos Sherman