Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Genética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Genética. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

COMUNICAÇÃO, LIDERANÇA, EMPREENDEDORISMO... e alguns VESPEIROS



CARLOS LEGER SHERMAN PALMER JUNIOR

Por ocasião de um trabalho de pós-graduação, respondi às seguintes questões:


Comunicação e liderança: por que elas devem caminhar juntas?

Antes de encarar a questão, devo pontuar que considero o conteúdo das unidades 1 e 2, versando respectivamente sobre Liderança e Comunicação, superficial e carente do necessário embasamento neuropsicológico. A liderança é tratada com base senso comum, e no lugar comum dos discursos da autoajuda - hoje rebatizados por “coaching” e “mentoring”; onde qualquer um pode se tornar um líder, ou um orador “inato”. Podemos ensinar técnica de liderança, mas não poderemos forjar um líder... ou “o líder do bando”.

ALGUNS VESPEIROS

A Neuropsicologia, ou Ciência Psicológica (Gazzaniga & Heatherton; 2007), é fundada precisamente para alçar o estudo do comportamento humano à condição de Ciência; cuja abordagem cumulativa de conhecimento dependerá de metodologia clara, com teorias devidamente comprovadas – ou “Método Dedutivo Baseado em Prova” (Popper; 2008). Este era o sonho de William James – há quase um século:
"Ao tratar a psicologia como uma ciência natural, quis ajuda-la a se tornar uma delas."
Mas isso nunca aconteceu... até agora, até o surgimento da Neuropsicologia. A Ciência Psicológica, portanto, não deriva da Psicologia (Pinker; 2007) (Gazzaniga & Heatherton; 2007) (Damásio; 2011), assim como a Química não deriva da Alquimia – sendo ainda, não raro, matérias antagonistas.

O eminente psicólogo Michael Gazzaniga, um dos fundadores da Neurociência, trabalhou diretamente com eminente “biólogo" Roger Sperry, ganhador do Nobel de Fisiologia e Medicina em 1981 por suas descobertas sobre a especialização funcional dos hemisférios cerebrais – especialmente no lobo frontal. Gazzaniga declarou peremptoriamente:
"A psicologia propriamente dita está morta. Ou, dito de outro modo, a psicologia vive uma situação curiosa. A minha universidade, Dartmouth, está construindo um magnífico edifício para a psicologia. Contudo, os seus cinco pisos repartem-se da seguinte forma: a cave destina-se por inteiro à neurociência, o piso térreo alberga as salas de aula e os gabinetes administrativos, o primeiro andar dedica-se à psicologia social, o segundo à ciência cognitiva e o terceiro à neurociência cognitiva. Vai lá saber porque é que lhe chamam de edifício da psicologia."
A resposta à esta intrigante questão seria dada por ele mesmo, no fabuloso marco da Neuropsicologia, que ajudou a escrever: CIÊNCIA PSICOLÓGICA – Mente, Cérebro e Comportamento (2007). Mundo afora, e principalmente nas melhores universidades americanas de Psicologia, como Harvard, Yale, Universidade da Califórnia em Davis, no SAGE em Santa Bárbara, Darthmouth, no Instituto de Neurociência do MIT etc., as grades curriculares do entendimento sobre a condição humana destacam palavras como “cérebro”, “genética”, “biologia social”, “evolução”, “cognição”... totalmente ausentes em qualquer curso de Psicologia brasileiro. Então, quando nos referimos à psicologia nos Estados Unidos ou na Europa – à exceção da França, “catequizada” pela “freudista” Elisabeth Roudinesco -, estamos na verdade endereçando a Neuropsicologia; fundamentada principalmente na Neurociência Cognitiva, Genética Comportamental, Biologia e/ou Psicologia Social e Evolucionária.

Na aula inaugural de Introdução à Psicologia em Yale, Paul Bloom esclarece – quando interpelado sobre “Freud” – um perigoso embusteiro:
"Vocês não encontrarão Freud no curso de Psicologia desta universidade, e já faz algum tempo. Talvez encontrem Freud na Sociologia, Filosofia ou Literatura."
Áreas correlatas, e dedicadas à ficção...

“ZIP Code or Genetic Code?” (“CEP - Código Postal ou Código Genético?”); esse é o provocador título da matéria da Harvard Gazette, mídia oficial de notícias da Universidade de Harvard, sobre o mais extenso e preciso estudo já realizado envolvendo gêmeos... Steven Pinker, professor emérito de Psicologia na mesma universidade, nos conta o resultado:
"[...] revela que as funções cognitivas são as que têm maior probabilidade de sofrerem influências genéticas (4/5) e as menos prováveis de sofrerem influência ambiental compartilhada (2/5)."
Por exemplo, a hierarquia ou “pirâmide” de Maslow é algo inteiramente ultrapassado, e sem qualquer fundamentação, senão pelo arbítrio de seu criador. Notem, por exemplo, a sua completa inutilidade quando conceituamos a importante e predominante herança genética. Falta também a perspectiva evolutiva; já que a hierarquia de “necessidades” parece inteiramente desconectada do processo evolutivo que a produziu. Depois, o conceito de hierarquia não foi totalmente desenvolvido, não explicando a interação entre os “níveis”, e sem levar em conta os flagrantes exemplos que violam de seu sistema “hidráulico” de classificação de “necessidades” (Cory; 1974) (Coming; 1983) (Maddi; 1989) (Smith; 1991).

Maslow e sua “pirâmide colorida” também receberam pesadas críticas por sugerir que a conquista material e sucesso são resultado inconteste do desenvolvimento humano (Yankelovich; 1981); com isso, tende a ignorar ou diminuir as grandes realizações intelectuais, morais e de serviço à humanidade, e que não estiveram centradas em resultados materiais ou exposição midiática à fama (Maddi; 1989). A hierarquia de Maslow, com seu foco quase exclusivo no indivíduo, denota pouca ou nenhuma percepção sobre a dinâmica da interação social – que nos caracteriza como humanos, troppo umanos. Este tipo de abordagem e suas emendas, nunca se tornaram de fato uma importante referência para o estudo da socialização humana, ou no campo das teorias políticas (Zigler & Child; 1973) (Knutson; 1972) (Davies; 1963), o que dirá uma abordagem séria sobre o comportamento.

Estamos aqui falando em Maslow em 2019, enquanto um editorial do New York Times publica o obituário Judith Harris – que se despediu de nós em 30 de Dezembro de 2018, aos 80 anos. Estudem Harris, estudem The Nurture Assumption, o livro que mudaria o entendimento sobre a personalidade e a relação entre pais e filhos – base para a Neuropsicologia... esqueçam Maslow et alia.

Harris foi dispensada do doutorado de Harvard pelo “famoso psicólogo” George Miller, então diretor do departamento, e tratada como uma reles “dona de casa”; para depois sacudir para sempre os dogmas do psicologismo. Harris deu a volta por cima, trabalhou como investigadora independente, e enfrentou uma grave doença degenerativa, para receber das mãos de Steven Pinker a maior honraria na psicologia: o prêmio – pasmem vocês – George Miller.


LIDERANÇA e COMUNICAÇÃO

Uma abordagem Neuropsicológica da Comunicação precisa levar em conta os aspectos neurais da fala e da linguagem, a natureza evolutiva da das expressões corporais e de dominância, o ToM – ou Theory of Mind -, a capacidade humana de imaginar o que o outro está pensando sobre o que estamos dizendo, além de muitas multiplicações deste tipo de interação... ou: “o que será que ela acha que eu acho, sobre o que ele disse?”...

Além das questões básicas de comunicação, emissor, receptor, envelopamento, mensagem, meio... é fundamental aprofundar a questão na semântica, gramática, construção lógica e conteúdo – ou CONHECIMENTO. Sobretudo quando o assunto é liderança, e aqui centrado na liderança profissional.

Steven Pinker adverte sobre o que considera o principal problema na comunicação em um ambiente profissional – mas que pode ser estendido para a vida:
"Quando você [realmente – grifo meu] sabe alguma coisa, é muito difícil saber como é não saber."
Um problema ordinário de empatia, ou a qualidade de colocar-se no lugar do outro... mas existe um degrau a mais: a capacidade de se colocar no lugar do outro pensando como o outro! E esse é o maior problema da comunicação relacionada à liderança, já que, por um lado, e supostamente, um líder deve possuir mais conhecimento em diferentes abordagens da realidade; enquanto, por outro, e quando nos referimos à questões muito específicas ou detalhadas, e ninguém sabe tudo sobre tudo, o líder precisará promover uma comunicação reversa, ou seja, ajudar o interlocutor a comunicar-se adequadamente.

Nas Unidades 1 e 2 não estamos abordando a questão mais importante – profundamente desprezada por Rogers - por exemplo: o CONHECIMENTO sobre o que pretendemos comunicar, a construção LÓGICA e GRAMATICAL da sentença, suas PREMISSAS, além da PERTINÊNCIA e UTILIDADE de sua conclusão.

A comunicação verbal é fundamentalmente uma ação, e toda ação nos leva a algum objetivo. Mesmo a introspecção, o pensamento, é – lato sensu - uma espécie de comunicação interior (Pinker; 2007). Elkhonon Goldberg, que estudou com o eminente psicólogo soviético Luria, divide o seu tempo entre as atividades de neuropsicologia clínica, docência, e pesquisas de ponta sobre as atividades do que batizou como “cérebro executivo” (Goldberg; 2002) - ou “interprete” (Gazzaniga; 2000); este é o sujeito dentro de nós... e vive no córtex frontal, normalmente do lado esquerdo. Aí também reside o líder em nós, o Diretor Executivo em nós...

Mas para exercer a liderança exterior será necessário muito mais do que isso, muito embora as respostas ainda estejam no cérebro, resultado da Genética Comportamental, e suas artimanhas Evolutivas... Talvez devêssemos chamar o “líder do bando” de “chefe do bando”, em função de sua insuspeita tirania. Estima-se que 25% dos CEOs estejam dentro do espectro de caraterização do psicopata, e esse número pode chegar a mais de 70% nos círculos políticos. Sendo assim, a tradução de Chief estaria então muito adequada em ¼ dos casos...

Finalmente, o psicopata, ou sua designação corporativa de sociopata, segue a máxima popular de “manter a cabeça fria” – ipisis litteris. O sociopata evolutivo (Goldberg; 2002) adapta o seu aparato comportamental para o poder - egocentrado, implacável, sem remorsos, nem escrúpulos, escalando com vantagens insuspeitas o cume das esferas públicas e privadas.

Suspeito que o aparente sucesso dos psicopatas se deve a um ajuste evolutivo em direção ao egoísmo, e em função de deficiências em termos de sensibilidade emocional ou empatia. O altruísmo heroico se opõe ao psicopata pela mesma linha de raciocínio, e provavelmente em função da elevada sensibilidade ao sofrimento alheio. Neste sentido, o equilíbrio natural, ou homeostase, seria obtido pela adoção de medidas que culminem com o bem comum... O neurocientista António Damásio tem as mesmas preocupações em mente em A Estranha Ordem das Coisas:
"A cooperação evolui como gêmea da competição, e isso ajudou a selecionar os organismos que mostraram as estrategias mais produtivas."
Mas existem impeditivos igualmente evolutivos para esta linha de análise, já que evoluímos para viver em clãs de 150 ou 200 pessoas, e não em megalópolis de 200.000, 2.000.0000, 20.000.000... Não seria o sucesso evolutivo dos psicopatas uma resposta à superpopulação? Ou seria exatamente o contrário? O altruísmo é jovem, e vem no encalço da densidade demográfica? Sustento que sim, e apesar de nos tornarmos mais agressivos com a densidade, também passamos a desenvolver estratégias mais bem sucedidas para a mitigação da violência.

O Batman, do imaginário popular, pratica o altruísmo, em busca do bem comum... apesar de milionário. Enquanto seus algozes, Coringa, Charada, Pinguim, almejam apenas poder, e bonança pessoal... apesar de miseráveis. Esses contos substituem as tragédias gregas... São dramas heroicos, onde acreditamos possuir mais controle sobre o destino de tudo... Sem notar, no entanto, que o supremo poder, ainda sim desprezível diante da Entropia, é o CONHECIMENTO.

E o altruísmo pode ser ensinado... Muito embora não possamos garantir que será aprendido ou praticado. E uma questão salta diante de todas: Por quê desejamos liderar? Pelo bem individual? Então seria chefia, e não liderança... Pelo bem comum? Então precisamos saber se estamos em condições de receber a tarefa. Por que empreender? Como viver melhor? Como ajudar a diminuir o sofrimento humano? Pensem nisso...

Retomando o ponto, a liderança, ortogonal à chefia, declara que “nós vamos”, ao invés de “você vai”; para finalmente elogiar que “nós conseguimos”, em lugar de “eu consegui”. O líder nato ou inato percebe que o sucesso do grupo é benéfico a ele também, e entende que chefiar um bando, ao invés de liderar, pode ser bem perigoso. Mas existem cenários onde a necessidade de chefia pelo medo se impõe à qualquer argumento em favor do idealismo de liderar... Isso diferencia ambientes pacificados e judicializados, da selva, ou da periferia, e daqueles cenários à margem da Justiça.

A Unidade 1 induz exercícios agradáveis e que revelam um pouco sobre as nossas tendências de personalidade. Também aponta – de forma leve – para uma série de boas práticas em liderança, e que naturalmente podem ser ensinadas e exemplificadas. Mas não podemos forjar um líder. Podemos melhorar um líder, ou ajudar aquele que não nasceu líder a liderar... sendo essas, sutis, mas fulcrais diferenças.

Por exemplo, uma personalidade dependente (DPD - Dependent Personality Disorder) NÃO PODE decidir. Existem personalidade neuróticas, narcisistas, autodestrutivas, sádicas, masoquistas, inseguras - patologicamente... e que jamais serão líderes... e não devem ser estimuladas a liderar. Aliás, a natureza parece subtrair os traits de liderança nestes casos... em função do risco... à exceção dos psicopatas, que ainda assim não lideram, mas chefiam.

Damásio, em a Estranha Ordem das Coisas,

Nas palavras de Jacqueline Du Pré:
"A primeira responsabilidade de um líder é definir a realidade. A última é agradecer. Entre esses dois extremos o líder deve servir."
Se este aforismo lhe diz alguma coisa, note quantos traços marcantes de personalidade serão necessários para desempenhar bem esse papel de regente de um grupo harmonioso - homeostático... aqui descrito de forma tão genial e singela.

[Escrevi um importante trabalho sobre liderança e regência... mas seria muito longo para este espaço. Desde já, ficarei feliz em enviar a quem possa interessar.]

Kaoru Ishikawa fez parte de uma verdadeira revolução no Japão pós-guerra, e influenciou mais de uma geração de empreendedores... Kaoru bem definiu o conceito de Círculo de Qualidade, e mais tarde esquadrinhou o engenhoso e simples Diagrama de Causa-e-Efeito - também conhecido como Diagrama de Ishikawa ou Diagrama de Peixe. Essa foi, sem dúvida, a maior contribuição desse mestre, fornecendo uma metodologia poderosa e segura, usada também por pessoas não-especializadas, para analisar e resolver todo tipo de problema. Sobre liderança e empreendedorismo, ele declarou:
"Na gestão, a primeira preocupação da empresa deve ser a felicidade das pessoas que estão ligadas a ela. Se as pessoas não se sentem felizes e não podem ser felizes, essa empresa não merece existir." 
Existem muitos testes para avaliar o espectro da psicopatologia – e.g., Psychopathy Checklistrevised (PCL-R) -, mas não existem dúvidas sobre a natureza genética do transtorno, nem sobre o fato que que não haverá cura. Por outro lado, não seria o psicopata um tremendo sobrevivente? Alguém que mantém a frieza diante do caos... narcisista, egoísta, calculista... dominante?

O paradoxo, afinal, sendo essa a proposta do meu trabalho na área de GRC, decorre do fato de que: (P1) os psicopatas focam em grandes organizações, (P2) e sabemos que de fato os mega-CEOs, ou super-treinadores esportivos em equipes repletas de talentos, não têm influência significativa no resultado do “jogo” (Mlodinow; 2008) (Lewis; 2013)... CEOs muito bem pagos por mega-organizações não serão capazes de influir no resultado de suas empresas - mas podem detoná-las... Grandes estruturas administrativas, com dezenas de milhares de empregados, têm os seus resultados definidos pelo convívio com a entropia, como o caminhar de um trôpego, e que não pode ser de forma alguma ordenado por um superman... Então, (S) o paradoxal é que a liderança tem muito mais impacto em grupos ou empresas pequenas, como pequenos clãs, e onde um homem ainda pode fazer a diferença. E essas empresas não precisam de fato de grandes heróis. Neste sentido sim podemos ensinar a liderança a pequenos empreendedores, que um dia poderão evoluir a médios e grandes negócios.

Vivemos a Era da Transparência, como destaca Daniel C. Dennett, Professor Emérito de Filosofia e Codiretor do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Tufts, durante um famoso discurso para calouros da turma de 2017. Precisamos sim de transparência e conformidade com as regras do jogo, e daí decorre todo o debate sobre Compliance, Risk and Governance. Afinal, hoje sabemos, convivemos com psicopatas e afins...

Este é um excelente ponto final em minha contribuição ao tema, mas preciso deixar mais algumas ressalvas para o que virá – Tarefas 3, Unidades 3 e 4: (P1) nem todos devem se aventurar na sina dos empreendimentos, e ao contrário. Muitos de nós, a esmagadora maioria de nós, será muito mais feliz sendo conduzida, guiada, liderada, de forma segura e protegida, do que encarando as vicissitudes de empreender, lutar por um lugar ao Sol, e liderar... Não é correto dizer às pessoas que podem empreender e liderar, sem maiores ressalvas; (P2) Sobre Ética, precisaremos encarar o Dilema do Pacifista – suas rubricas evolutiva, genética e neurocientífica.

P.S.: Finalmente, com tantos pensadores ilustres, com tanto conhecimento disponível, consagrado, é muito difícil "aprender" alguma coisa com opinólogos profissionais como Clovis de Barros, Cortella e Karnal... Decepcionante!!! Tenho denunciado a baixa qualidade do debate promovido por esse senhores, e seguirei denunciando.



Como você vivencia essa experiência integrativa no seu ambiente de trabalho?

 Fundei e dirigi empresas, gerenciei grandes projetos, trabalhei em 23 países, dirigindo pessoas muito diferentes em termos culturais, mas troppo umanos. Atuo como investigador acadêmico independente na área Neurocientífica, e com profundo interesse em traits de personalidade e transtornos. Escrevi livros sobre Ética, Comunicação, Liderança, e hoje estou preparando um curso sobre o assunto, envolvendo ainda GRC – Compliance, Risk, Governance. Considero a abordagem escolhida revolucionária e consciliente.

A abordagem do assunto é inteiramente nova para os padrões brasileiros, mas está consonante com o conhecimento disponível no exterior, e nos grandes centros de investigação, como Harvard, MIT, sobre “o que nos torna humanos” (Ridley; 2008). Trabalho com a Neurociência Cognitiva, Genética Comportamental, Biologia Social e Evolutiva... e não vendo ilusões. Assim que esse debate tem tudo a ver com minha vida em muitos sentidos, como empresário, consultor, pensador, investigador acadêmico, escritor e palestrante.



A comunicação tem sido efetiva - transmissão <-> compreensão?

Acredito que sim. E o “x” da questão, como ressaltei antes, é o entendimento sobre a necessidade de clareza na “construção” da mensagem, parte gramatical, lógica e conteúdo. E a integridade intelectual... E falta abordar prioritariamente essa questão: A utilidade da mensagem e da comunicação é essencial. As premissas, sentenças, e respectivas conclusões, devem “endereçar a verdade” (Sherman; 2015). Além do protocolo, a mensagem deve estar bem construída e o tema deve ser bem conhecido. Para finalmente encarar o “problema do conhecimento” – ou “da falta de”... Onde um dos interlocutores não dispõe de estrutura prévia capaz de aproveitar a mensagem que está sendo transmitida. Esse também é um problema do Hipocampo, já que o registro de todo aprendizado, sabemos, depende da atividade desta área do sistema límbico, e que opera sob estimulo de neurotransmissores. Ou seja, registramos mais quando estamos excitados, e nos excitamos mais quando estamos familiarizados com o assunto, ou “impressionados”...

Em sentido muito amplo, defendo que vivemos contra a Entropia – Segunda Lei da Termodinâmica, e Primeira Lei da Neurociência. (Pinker; 2018) Jogamos contra uma sorte deletéria, mecânica e biológica, implacável em termos probabilísticos, de forma que tratamos de aprimorar a previsibilidade pelo conhecimento. Daí o comportamento, daí nosso destino... daí a comunicação, liderança, e todo o resto. Portanto... Entendamos a Entropia, a Genética e a Informação. Esse é o Jogo da Vida.



Carlos Leger Sherman Palmer Jr

sábado, 31 de março de 2018

Sobre Joaquim Barbosa, Pretos e Negros

Resultado de imagem para negra rosto folha de são paulo

Sobre Joaquim Barbosa, Pretos e Negros
Por Carlos Sherman

[Na foto, publicada em matéria da Folha de São Paulo, uma belíssima mulher que se declara "preta", onde podemos denotar de forma insuspeita a pigmentação rica em melanina que a Evolução selecionou para a proteção contra os perigosos raios UV... além da marcante miscigenação em seus traços africanos, europeus e asiáticos...]


Um amigo publicou um panfleto em apoio à candidatura de Joaquim Barbosa, um verdadeiro "herói nacional"... O meu apoio a dita candidatura é total e irrestrito, já que o tom desta eleição será a "honestidade" - e muito me preocupa, já que este deveria ser apenas um pré-requisito. Não obstante, e sem maiores delongas, voto em Joaquim, não havendo outro candidato à altura em termos de atitude ética, coerência, integridade intelectual etc... Pero, o primeiro desafio será o partido, já que o PSB foi aliado de Lula, Dilma, Garotinho, entre outros picaretas... e segue na contravenção com Alckmin, Márcio França, Temer etc... E o Joca precisará subir no palanque com muitos investigados da Lava-Jato, assim como muitos participantes diretos e indiretos do vergonhoso escândalo do Mensalão - onde "nosso herói" serviria à nação como um feroz algoz, e guardião da Justiça. E aí, Joquinha Barbosa, vai ficar e enfrentar, ou correr muito - como o Zequinha?

Mas, uma apologia fora de lugar me chamou a atenção no panfleto,  a falsa alegação de que "isso é importante, já que 54% da população do Brasil é preta". Não é verdade, e mesmo que fosse trataria-se de um claro non sequitur, já que estamos falando em presidência do Brasil e não sobre racismo. E se o tema for o racismo, então muito mais precisará ser dito sobre a candidatura de Joaquim e a falsa afirmação do panfleto; afinal, e segundo o IBGE/Pnad (2017):
A população que se declara preta no pais cresceu 14,9% de 2012 a 2016, mostrou a Pnad em pesquisa domiciliar de abrangência nacional do IBGE, divulgada nesta sexta-feira. O levantamento é feito por meio de autodeclaração, e o IBGE utiliza o termo preta para se referir a raça negra. 
Desta forma, a população negra no Brasil está assim distribuída em termos de melanina e preferência pessoal:
Do total da população, 46,7% se declararam pardos, alta de o,6 ponto percentual em relação ao ano anterior. Os autodeclarados pretos corresponderam a 8,2% da população, alta de 0,5 ponto percentual. Na outra ponta, brancos somaram 44,2% em 2016, queda de 1,3 ponto percentual em relação a 2015. (IBGE/Pnad; 2017)
Se observarmos que pardos englobam diferentes etnias, características, e variantes fenotípicas, podemos afirmar que a declaração de "54% de negros" - somando especiosamente pardos e pretos - é falsa e viciada, não correspondendo minimamente à realidade. Sem considerar que toda a apologia à dita "Consciência Negra" tem produzido adesões ideológicas, mas sem qualquer correspondência biológica, genética, antropológica ou étnica. Somos, na verdade, 8,2% de pretos!
Segundo a gerente da Pnad, Maria Lucia Vieira, a queda dos pardos no Nordeste e Norte pode estar ligada aos movimento de reafirmação racial no pais. Mais negros estariam se declarando como tal, reduzindo, então, a quantidade de pardos. 
Mas, a quem interessa toda essa ladainha racial, e toda esta estória muito mal contada? A concentração de melanina em nossa pele serve tão e somente à proteção contra raios UV... Donde presumo que todo o debate em torno deste particular deveria focar em problemas como a carência de vitamina D, lúpus, câncer de pele etc... Em um recente e curioso estou o de DNA dos cantores Seu Jorge e Neguinho da Beija Flor foram rastreados até a Europa, enquanto Alcione é inexoravelmente africana. E daí? O que isso nos diz sobre a INDIVIDUALIDADE, sobre o caráter, personalidade? Sobre a Escravidão? E respondo à pergunta retórica  com um retumbante NADA!

Centenas de ONGs estabelecidas na África tratam de conter o comércio de membros amputados de crianças albinas, e vendidos como amuleto da sorte por um punhado de dólares. Isso, enquanto celebramos o Dia da Consciência Negra no Brasil na data de morte do maior proprietário de escravos em seu tempo - cerca de 400. Longe de fundar um movimento libertário, Zumbi dos Palmares tratava de estabelecer um reino em formato africano de época, e com direito a escravos... muitos!!!

A primeira medida de um negro alforriado no Brasil, no tempo de Zumbi, era possuir escravos, ou possuir "gente". Nos censos à época, mulheres negras eram muito mais numerosas do que as brancas em termos de declaração de propriedade de escravos para o serviço doméstico, embora possuíssem normalmente menos escravos. Em um caso muito bem documentado, Zé Alfaiate, capturado por seus conterrâneos africanos no reino de Angola, seria negociado com traficantes iberos, levado como mercadoria ao Brasil, vendido e alforriado prematuramente... Então, ainda jovem, Zé decide voltar à "Mãe África" para tentar a sorte, e casando-se com a filha de Chachá, o maior negociante de escravos da África Atlântica.

Em um documento particularmente odioso, Zé assina uma "fatura" dando fé de que os escravos de um determinado cliente, e que deveriam ser marcados com o número 5 - conforme o pedido de compra -, em função da quebra do ferro em brasa, foram marcados com a letra V; e demonstrando com certo orgulho o seu conhecimento sobre os Algarismos Romanos, além do seu franco desprezo por seus conterrâneos, humanos como ele, e que começavam uma jornada aterrorizante, e onde ele também havia sido um passageiro da agonia...

Lembro-me agora, com orgulho, de quando fui ovacionado em um debate por declarar que TODOS NÓS VIEMOS DE UMA MESMA MÃE NASCIDA NA ÁFRICA SUL-ORIENTAL HÁ CERCA DE 200.000 ANOS... E lembro-me, de forma ainda mais vívida e enaltecida, do silêncio incômodo que se seguiu quando continuei: E NESTA ÉPOCA, A NOSSA PELE ERA BRANCA, CLARA, ROSADA, ABAIXO DA PELAGEM AINDA ESPESSA, COMO EM NOSSOS PARENTES CHIMPANZÉS.

Em uma única sentença o dilema racial é reduzido a pó, e a cor volta ao seu lugar bioquímico - de origem. Entendo o dilema racial, mas qual é a cor do poder? Negros submeteram brancos, assim como brancos submeteram negros, amarelos... Pardos, cafuzos, caboclos, e o que mais? Mas  afirmo que a luta contra esta pendenga e sofrimento não partiu - jamais - da África, senão da Inglaterra e do Iluminismo Francês. Qual foi a "consciência negra"? Luther King lutou contra o preconceito nos Estados Unidos, mas não ousou questionar as raízes deste flagelo humano na "Mãe África", enquanto incrementava a audiência (e.g.) de seu programa de rádio pregando a "Cura Gay"...

Em 1958, enquanto escrevia uma coluna de conselhos para a 'Ebony Magazine', 'Dr. King' foi interpelado por um leitor que se declarava "gay":
O seu problema não é totalmente incomum. No entanto, ele requer muita atenção. O tipo de sentimento que você tem para com os meninos provavelmente não é uma tendência inata, mas algo que foi culturalmente adquirido. Suas razões para adotar esse hábito já foram conscientemente suprimidas ou inconscientemente reprimidas. Portanto, é necessário lidar com este problema voltando a algumas das experiências e circunstâncias que o levaram a este hábito. A fim de solucionar a questão, eu sugiro que você consulte um bom psiquiatra que possa ajudá-lo a trazer para o primeiro plano da consciência todas essas experiências e circunstâncias que levaram ao hábito. Você já está no caminho certo em direção à uma solução, desde que você honestamente reconheça o PROBLEMA - grifo meu - e tenha o desejo de RESOLVÊ-LO.
A filha mais jovem de King declarou durante uma conferência em Auckland, Nova Zelândia:
Eu sei do fundo do meu coração que meu pai não levou um tiro em prol de uniões homossexuais.
Ela só faltou agregar "nojentos", ou coisa pior... Mas o 'Fé em Contexto' não perdeu a oportunidade:
Obama em seu pronunciamento gayzista usou as palavras de Jesus para justificar seu apoio ao casamento gay. [...] Mas há uma falha na compreensão do Teólogo-Presidente. Citando o Velho Testamento, Jesus disse: 'Por esta razão, o homem deixará seu pai e mãe e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma só carne' (Marcos 10:7-8). Um homem, uma mulher.

Ele esqueceu de dizer que esta mulher poderia ser negociada e comparada a jumentos... Mas todos eles estão certos sobre as convicções de King... 

Lato sensu, a realidade e a verdade não pode ser sexista nem racial! E muito me preocupa o recrudescimento deste debate racial repletos de vícios de consentimento, ideologia, e desprezo pela verdade; quando poderíamos estar trabalhando exatamente para superar este triste capítulo da história humana - troppo umana. A escravidão nunca foi um problema racial, sendo a África - ontem e hoje - o continente que mais escraviza e atenta contra os Direitos Humanos, Civis e Individuais. Iguais sim, igualdade não... Somos diferentes, e o direito ao empenho humano nos trouxe até aqui, e com profundas vantagens... diminuindo a mortalidade infantil em 40 vezes, a violência em mais de 100 vezes, e aumentando a expectativa de vida em três vezes - adormecida desde o Homem de CroMagnon, e até o fim da Idade Média, até o inevitável confronto com a Ciência Médica. 

A solidariedade deve ser buscada e estimulada, e assim tem sido, e assim seguirá, de forma contingente, convergente e cega! Pois, abramos os olhos para ajudar, servir, e catalizar este processo de melhoramento contínuo. E observe que, em relação à esse assunto, tudo o que você pensava saber estava inescapavelmente equivocado... E o que mais você pode estar perdendo? O que mais estará mal entendendo? Voto em Joaquim, torço que sua dignidade seja maciça, contínua, duradoura... e jamais me importei com o seu filtro solar inato.

Q.E.D.

Carlos Sherman







sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Arbitrium



Não escolhemos a nossa configuração neural e bioquímica, e nem o que seremos capazes ou não de captar... Não podemos mudar quem somos, mas podemos mudar o nosso comportamento a partir de novas referências... Captamos a cena, comparamos com os nossos registros episódicos, referenciais, e conceituais, processamos e devolvemos como resposta... Mas não escolhemos de fato nada disso... Somos quem somos sem intencionar sê-lo... Mas somos, e responderemos por nossos atos... RESPONSÁVEIS SIM, CULPADOS NÃO... Se pretende ajudar alguém, ajude esta pessoa a obter novas referências; ou referências mais ajustadas à REALIDADE... E finalmente: "Você pode escolher, é certo. Mas não pode escolher o que vai escolher" - Schopenhauer - esclarecedor...

Carlos Sherman

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Sobre ambição desmedida, revoluções, formigas, e homens...





O que é UTOPIA?

Segundo a enciclopédia Britannica...


(...) Utopia, é uma comunidade ideal, cujos habitantes vivem em condições 'aparentemente' [grifo meu] perfeitas. Disso, advém o conceito de utópico, utilizado para designar visionário, ou queque tende a ser impossivelmente idealista.

A palavra 'utopia' foi criada por 'São Sir Thomas More', e foi cunhada em 1516 já no título de sua publicação, em Latim, "Libellus... de optimo reipublicae statu, deque nova insula Utopia" - cuja tradução seria algo como "Ponderando sobre o mais elevado estado da república e a nova ilha Utopia"... A palavra 'utopia' é uma composição de palavras gregas para "não" (ou) e "lugar" (topos), significando assim "lugar nenhum"... Veremos a seguir, que o neologismo não poderia ser mais apropriado para designar o fantasioso 'estado' idealizado por More, e que segue o modelo de outra célebre fantasia pueril, a 'República' de Platão... Tais pérolas da ficção - seção 'Contos de Fadas' - viriam a ser convertidas, em sua versão gótica, siderúrgica e fanfarrônica, no terrível tropeço 'marxista' - que melhor seria descrito, pelo grau de irrealidade, pelo neologismo 'marxiano'...

'São Sir Thomas More' (1478-1535) foi um homem de estado, diplomata, escritor, advogado e ocupou vários cargos públicos, e em especial, de 1529 a 1532, o cargo de "Lord Chancellor" (Chanceler do Reino - o primeiro leigo em vários séculos) de Henrique VIII da Inglaterra... More descreveu a si mesmo como um homem "de família honrada, sem ser célebre, e um tanto entendido em letras"... Era filho do juiz Sir John More, e foi investido cavaleiro por Eduardo IV - daí o Sir... Apesar de ser considerado um dos grandes humanistas do Renascimento, foi canonizado como 'santo' pela 'Santa' Igreja Católica em 9 de Maio de 1935, e sua 'festa litúrgica' é celebrada em 22 de Junho - daí o São... É mole? 


More, teve profunda influência sobre Montaigne, que por sua vez foi devorado por Rousseau e que finalmente foi canibalizado por Marx; em outra vertente pode ter sido absorvido pelo freudismo - mas esta é outra estória dentro da História... Mas o conceito de 'utopia' foi idealizado e encenado por 'São Sir Thomas More' em sua obra magna, hoje conhecida singelamente como 'Utopia'... Segundo vários historiadores, More ficou fascinado pelas extraordinárias narrativas de Américo Vespúcio sobre a recém avistada ilha de Fernando de Noronha, em 1503... More então idealizou um lugar novo e puro onde residiria uma sociedade perfeita... O termo passou então a designar a ideia de uma civilização perfeita, imaginária, fictícia... Um "lugar que não existe", e que teimo em insistir, um lugar que não seria bom para viver...

A utopia de More descreve uma sociedade organizada 'racionalmente', que estabelece - impõe - a propriedade comum dos bens... Não enviam seus cidadãos à guerra - salvo em casos extremos -, mas contrata mercenários entre seus vizinhos mais belicosos - ops!!!...  Todos os cidadãos da ilha vivem em casas iguais, a diferença interpessoal - e natural - não é considerada... Trabalham por períodos no campo e em seu tempo livre se dedicam a leitura e a arte... Mas quem proverá a leitura e a arte, e de onde virão as diferenças artísticas, diante de tal modelo 'uniformista'? Toda a organização social da ilha conduz à completa dissolução das diferenças e a fomentar a igualdade... Não apenas condições iguais, mas pessoas moldadas como iguais, com rotinas iguais... E este é o problema... Por exemplo, todas as cidades são geograficamente iguais, e na "ilha" impera uma "paz total" e uma "harmonia de interesses resultante de sua organização social", utópica... O homem e sua variantes genéticas, neurofisiológicas, bioquímicas, não tem lugar... Na ilha todo conflito foi eliminado, assim como suas potenciais possibilidades de materialização... Tudo isso é verdadeiramente assustador, além de completamente irreal, infantil e pueril... 

Em geral se concebe como comunidade utópica uma sociedade 'perfeita', embora 'inexistente', nos moldes paradisíacos, mas sem explicar claramente como tal 'milagre' será obtido, e sempre partindo da falsa premissa de que 'somos todos iguais', e desprezando a força imperativa da genética, acentuando as nossas salutares e necessárias diferenças... Exacerba-se a figura de um organização completamente equitativa na distribuição dos recursos, a partir da eliminação de nossa impulsão natural ao empreendimento, em diferentes medidas... Queremos coisas diferentes entre nós, e entre nós e o conceito de 'perfeição messiânica' de More... O que é perfeição para More pode ser o inferno para outros...

Na Utopia de More todos os suprimentos necessários à sobrevivência são oferecidos gratuitamente, e ninguém retira mais do que necessita, e não há necessidade de estocar alimento, já que é oferecido em abundância - rsrsrsr, ai ai... Apesar do dinheiro não ser necessário, este é acumulado pela república utópica pela venda de matéria-prima para outras nações e às vezes é usado para financiar guerras no exterior - rsrsrsrs, infantil e realmente 'utópico', posto que tal sistema, se completamente isolado e diminuto em população, e contando com a sorte de suprimentos 'infinitos' em termos de alimento e energia, poderia até merecer alguns minutos de atenção, mas considerando o seu convívio com outras repúblicas não utópicas, fatalmente seria contaminado pela LIBERDADE...

More no entanto foi um homem coerente, e cuja retidão não pode ser retocada... Recebeu uma tremenda batata quente ao substituir o Arcebispo de York como chanceler no histórico divórcio e seguido de anulação de casamento de Henrique VIII... Na queda de braço entre o Vaticano e o rei inglês, foi a cabeça de More que rolou... Henrique VIII rompeu com a Santa Sé, sagrando-se líder espiritual da Igreja Anglicana... More recusou-se a prestar juramento ao rei na figura de líder da Igreja da Inglaterra naquele que ficou conhecido como o Ato de Supremacia... Pelo atrevimento  de More, em toda a exuberância de sua Integridade Intelectual - divergências conceituais à parte - o réu foi condenado "a ser suspenso pelo pescoço e cair em terra ainda vivo, para depois ser esquartejado, e finalmente decapitado"... Mas, em "consideração" à importância do condenado, o rei, "por clemência", reduziu a pena à "simples decapitação"... More foi decapitado e teve a sua cabeça exposta durante um mês na Torre de Londres... 

Morreu um homem digno, íntegro até o fim - embora o seu pensamento sob muitos aspectos não tenha passado de 'utopia' e moralismo eclesiástico... More foi então considerado pela Santa Sé como um modelo de fidelidade e martírio em nome da Igreja, tendo sido, portanto, canonizado por decreto papal em 1935 por Pio XI... Mas sua atitude representou muito mais do isso, More foi fiel à sua consciência enfrentado a arbitrariedade, o que merece o mais profundo respeito humano...

A 'república' utópica de More, no entanto, já havia sido preconizada e encenada por Platão (427-347 AEC), em seu programa estatal impraticável, onde a justiça seria encontrada se - de forma um tanto simplista - "todos fizerem seu trabalho e cuidarem dos próprios assuntos"... Mas se não der certo pouca importância terá pois Platão profetiza de maneira incrivelmente vaga:

"(...) talvez no outro mundo ela esteja assentada como um modelo, um modelo que aqueles que o desejarem poderão contemplar e, assim, conseguir pôr em ordem as próprias cidades. Se tal cidade existe - ou se de fato existirá - não importa, pois tais pessoas viverão à maneira da cidade ideal e nada terão a ver com qualquer outro modelo"

Isso é ridículo... Leia mais uma vez, sem esquecer que este é o idolatrado e endeusado Platão... Sim... Foi ele mesmo quem escreveu está imbecilidade, esta pérola do non sense, esta verborragia vaga e vazia, que vai do nada ao lugar algum, em um parágrafo longo... Mas vamos adiante na República utópica de Platão, inspiração para More, e berço para viagem marxista... Veja como Platão começa sua República anedótica:

- Sócrates: Vamos considerar, antes de mais nada, como o modo de vida dos cidadãos, agora que assim os estabelecemos. Não produziram cereais, e vinho, e roupas, e calçados, e construirão casas para si? E quando estiverem abrigados, trabalharão, no verão, comumente, despidos e descalços, mas no inverno substancialmente vestidos e calçados. Eles se alimentarão de farinha de cevada e de trigo, assando-as e sovando-as, preparando bolos nobres e pães; eles os servirão sobre esteiras de junco ou folhas limpas, deitando-se enquanto comem sobre leitos espargidos com teixo e murta. E se regalarão com os filhos, bebendo vinho que fermentaram, com grinaldas na cabeça e cantando hinos em louvor aos deuses, em alegre conversação uns com os outros. E tomarão cuidado para que o tamanho das famílias não extrapole seus recursos/ prevendo a pobreza ou a guerra.

Rsrsrssrs, e então Glauco - adoro este cara - interpela:

- Glauco: Mas você não lhes deu qualquer condimento para as refeições.

Rsrsrsrs, estou transcrevendo a 'famosa' República de Platão, não é uma redação do meu sobrinho na quarta série, nem um papo gourmet entre Palmirinha e Ana Maria Braga... Mas Sócrates leva a sério, afinal isto é uma República - cuidemos do cardápio gastronômico de TODOS OS DIA ora bolas!!! -, e anui ao pedido de Glauco:

- Sócrates: É verdade, havia esquecido. É claro que devem ter condimentos - sal, olivas e queijo, e cozinharão raízes e ervas, dessas que costumam preparar as pessoas do campo. Para sobremesa lhes daremos figos, ervilhas e feijões; e assarão bagas de murta e bolotas de carvalho na fogueira, bebendo com moderação. E com tal dieta podem esperar viver em paz e saúde até idade avançada e legar uma vida semelhante aos seus filhos após a morte.

A expectativa de vida média em na Grécia de Platão - e Sócrates - girava torno dos 40 anos de idade - similar ao Homem de Cro-magnon no Paleolítico Superior - há 40.000 anos... O sentido da República de Platão parece escapar completamente a Sócrates - este Sócrates platônico -, a menos que seja só isso, uma discussão superficial e mega-utópica sobre "figos, ervilhas e feijões"... Este é o 'estadozinho frugal minimalista e vegetariano', pra lá de utópico, deste 'Sócrates platônico'; e vejam, estão discorrendo sobre a formação de um estado, e começando por definir o seu cardápio gastronômico... Estas são transcrições da República de Platão:

A exegese de tais obras não deixa dúvida sobre a força da velha crença dominante de que a natureza humana não passa de uma 'tábula rasa' - termo cunhado por John Locke (1632-1704) -, uma folha em branco no qual a personalidade e o caráter, são impressos por meio da cultura e do processo de socialização; desprezando inteiramente a condição natural do ser humano, em favor de uma 'sociologização' do comportamento... 

Tal premissa equivocada, nortearia o pensamento ocidental, de Platão a Marx, passando por More, Montaigne e Rousseau, para citar apenas uma das inúmeras ramificações que tal doutrina - a tábula rasa - produziu... O freudismo e as próprias tradições espirituais, navegaram a mesma nau... Não somos produtos do meio, com Marx 'reafirmou'... O aprendizado do meio, possibilitado e dirigido por nossa genética, operando a partir de nosso bioquímica e neurofisiologia, constitui o nosso complexo comportamento... Conceitos utópicos, como a "construção do novo homem" de Lenin, não só são uma caricatura falaciosa da realidade, como não passam de um "novo homem" 'segundo a visão leninista-marxista', utópico, irreal, e surreal... 

Os séculos vindouros tratariam de cristalizar o conceito de utopia como uma saída crítica - e possível (será?) - para escapar de regimes perversos e arbitrários, como a Inglaterra de Henrique VIII, a partir da elucubração de um estado ideal, mas 'atingível pela ação racional do homem social', e a partir de sua luta para converter-se em seu contrário, 'o bom selvagem', o puro ser primitivo, preenchendo a tábula rasa, a partir da correta doutrina sociológica... Mas se a própria sociologia depende da complexidade e da evolução do homem primitivo, como ficamos? Um Reductio ad absurdum parece inevitável, não acham? Claro que sim... 

Ou seja, utopia passou a designar a idealização de nosso desígnio mais nobre, repletos de ingenuidade, justiça e otimismo - ou ilusionismo... Ou talvez, a promessa vazia, e não testada, de uma organização impossível de ser realizada, posto que está fundamentada em falácias, remetendo à pura fantasia ou ficção filosófica... 

O grande problema do marxismo, reside no fato de que Marx -  administrado e financiado por Engels - decidiu deixar o mundinho utópico da especulação filosófica, e partir para a ação... E este movimento derramou muito sangue, e atrasou a saga humana... Pelo menos hoje sabemos 'o que não funciona'... Impor, arbitrar, sob pretexto de romper o estado de imposição e arbítrio, é apenas trocar seis por meia dúzia... Mas muto pagaram com a vida, na Era da Utopias, nas mãos do fanatismo marxista, de viés leninista-stalinista, maoísta, ou sistemas análogos, como o hitlerismo e o fascismo em todas as suas modalidades...

O "Socialismo Utópico” tornou-se assim, a encarnação da ingenuidade do retorno ao 'bom selvagem' de Rousseau, a partir do idealismo possível da 'tábula rasa' de Locke, e tudo isso envolto em cinismo e ilusão fervorosa... Este manancial de bondades, deveria ser convertido em ação, e foi, a partir do Manifesto de Marx, em benefício de uma versão atuante da organização socialista, apresentada como única solução possível, e salvação messiânica, para romper séculos de miséria e sofrimento, o Samsara civilizatório, encerrando, portanto, um ciclo de 'vidas sociais', em reencarnações históricas, em favor da LUX MARXIANA... A assim foi, movido por tais desígnios 'religiosos', que as bandeiras foram 'içadas', assim como os fuzis, em nome do amor, no melhor estilo bíblico, e mais uma Cruzada varreu a Terra... Triste destino...

Marx e Engels argumentavam que não partiam de meras fantasias 'platônico-moreanas-rousseaulianas' - entre outros teóricos como Tomaso Campanella, de Charles Fourier, de Robert Owen ou de Pierre-Joseph Proudhon -, mas sim de um modelo real, baseado apenas na crítica radical da situação existente, com base em sua visão do Leviatã Capitalista... Se a situação pode ser concebida ideologicamente, logo ela é real, rsrsrsr.. Será??? E então podemos prever mecanismos para modificá-la, e então a modificação de algo 'real' deverá ser 'real'... Certo???? Depende... 

Partindo das doutrinas da 'tábula rasa' e do 'bom selvagem', estaremos tentando modificar a realidade com varinhas de condão... Achando que podemos dizer à 'humanidade' o que eles devem querer, e com que deverão se contentar, estaremos confrontando a realidade com irrealidade... Mas, a partir da 'constatação óbvia', ao menos para Marx e Enegls, de que o capitalismo encerrava uma contradição em si, explicada pelo dogma do "caráter social da produção", e de sua consequente "apropriação privada", nefasta, indevida, através das hábeis maracutaias capitalistas, e munidos do chavão da "luta de classes", o povo foi conclamado a governar, em um colossal gesto de populismo utópico...

O caráter “científico” do socialismo marxista foi consagrado na "Introdução à Crítica da Economia Política" - também de Marx -, onde, resumidamente, é afirmado que em algum ponto do processo de desenvolvimento - capitalista -, as forças produtivas da sociedade - trabalhadores - entraram em choque com as relações de produção existentes - relações de empregatícias e de trabalho, iniciativa privadas -, e tal conflito deflagra a ruptura entre a "superestrutura" da sociedade, relativa ao caráter social das relações de produção, e a sua base, dominada pela apropriação privada dos meios de produção - pelos capitalistas malvadões - claro... 

Uma era revolucionária então abre caminho, com foice e martelo, e muita violência... E a "nova sociedade emerge da velha para realizar a reconciliação entre forças produtivas", ou 'o juízo final'... pomposas palavras, e uma respeitável inteligência à serviço de uma falácia utópica baseada em falsas premissas... Então, as relações de produção, sem os grilhões da propriedade privada e da opressão política das classes dominantes sobre a maioria da população, avançaram em direção à vida eterna... E provavelmente em direção à um novo ciclo, de conflito e ruptura - a reencarnação... Marx agrada a gregos, 'goianos', cristãos e budistas, com uma s´´o 'escritura sagrada'... 

Foi o que se viu... O marxismo e seus ritos sagrados, por mais que sejam negados, provaram na prática, a infantilidade de seus postulados... Não significa que o Socialismo/Comunismo verdadeiro ou puro, não foi 'ainda' tentado, significa que esta ilusão é deveras irreal, inverossímil, piegas, populista, e, portanto, impraticável; i.e., UTÓPICA...

Segundo a fábula anedótica, no melhor estilo bíblico, o socialismo seria uma espécie de purgatório, a partir do qual atingiríamos o nirvana comunista... Uma espécie de ilha de Lesbos, o Eldorado, a Ilhota de More ou a república platônica... A verdade inequívoca, é que o 'MUNDO MARXIANO' trata messianicamente de "figos, ervilhas e feijões", enquanto dá volta e voltas, em linguagem empolada e circular, baseando-se nas doutrinas superadas da 'tábula rasa' e 'do bom selvagem'... 

O 'bom selvagem' evoluiu para a realidade, na organização social a partir de anseios de decorrência genética, que culminam em comportamentos culturais - e sociais - e não o contrário... Empreendemos porque somos impelidos a isso, porque advém da natureza humana... A 'tábula rasa' de Locke, está sendo preenchida pela Genética e pela Neurociência, e o panorama é bem distinto da doutrina do homem como produto do meio...

Finalmente, a própria sociologia, que é parida neste estado de coisas, pelas ideologias do final do século XIX, está assentada sobre falácias... Durkheim promulga que "omnia cultura ex cultura", ou que o fenômeno cultural - ou social - só pode ser explicado pelo fato cultural - ou social... Ledo engano... 

OMNIA CULTURA EX HOMINEM

Não são apenas infindáveis dados estatísticos e científicos, mas também um sem número de experimentos que 'comprovam' que a mente humana não está sujeita à este nível de maleabilidade, da construção leninista do "homem novo", nem por meio da mal entendida 'plasticidade neural'... Não é por acaso que tal estado hipnótico, utópico, que irrompeu com a foice sangrenta e o martelo aterrador, no século XIX, alardeando profeticamente sobre 'a obsolescência das democracias', 'o ideal revolucionário', 'abolindo toda forma de policiamento interno e defesa armada de territórios', e apregoando a boa nova de que 'a sociedade pode e deve ser organizada de cima para baixo', tenham freado o seus ímpetos com o fim da década de 1960... Tudo isso era e é falso... Parafraseando Pinker, a visão trágica e a visão utópica inspiraram bizarras manifestações históricas, que só podemos perceber com clareza, depois que a poeria baixou - e os corpos foram sepultados... Podemos hoje contabilizar esta experiência na Psicologia Evolutiva e Comportamental, enquanto a Sociologia deve calar e aprender...  

Foi neste campo de batalha, que E. O. Wilson estréia o seu conceito de Biologia Evolucionista e Genética Comportamental, na década de 1970, quando o balanço está sendo feito... O ideário 'revolucionário' está 'morto' - assim como deus -, a tábula rasa - e sua negação da natureza humana, e da potência daquilo que é inato -, a falácia do bom selvagem - que repudia os nossos instintos e diferenças, em favor de um 'santidade' ou pureza original -, e o fantasma da máquina - uma alma imaterial, uma mente que pode escolher melhores arranjos sociais... Os pedaços de tais falácias estão atirados ao chão... E ali estavam cientistas falando em 'genes egoístas', falando no impulso pessoal para a auto-preservação e de seus parentes genéticos, falando sobre a impulsão na defesa do 'nós', que questiona e se confronta com são 'eles'... Analisando de perto o altruísmo, pertinência ou não, e causas, assim como o racismo, o sentimento nacional, a adesão política e religiosa... Analisando as diferenças entre a genética e o comportamento de gênero, analisando a pertinência do senso moral, do interesse pessoal e de grupo, e analisando sobretudo a nosso tendência ao auto-engano... Cientistas analisavam os conflitos em função do interesse genético, dependentes de nosso comportamento social como animais, e não como seres superiores... A máxima darwiniana alcança o status de profecia - cumprida -, eramos finalmente descritos como animais, e diferenciados em nossa atividade 'mental' - cerebral -, apenas por uma questão de GRAU, de grau de complexidade, e não de TIPO, de tipo de sistema neural... E asseguravam aos proponentes da visão trágica, de que a 'tragédia', a luta, a "luta de classes", a disputa, eram consequências naturais de nossa condição HUMANA - troppo umana...

A visão utópica é solapada, e esquecida no horizonte... Parafraseando Pinker, seguem alguns bons motivos para confrontar falsas ideologias - fantasiadas ora de esquerda ora de direita, conservadores ou liberais, mas embaladas por ôba-ôbas utópicos e falaciosos:

1. A primazia dos laços familiares em todas as sociedades humanas e em todos os tempos, e a consequente demarcação entre 'nós' e 'eles', assim como a atração pelo nepotismo e pela conceito de herança patrimonial e de privilégios sociais;

2. A universalidade do etnocentrismo, da hostilidade entre grupos em todas as sociedades conhecidas, bem como esta hostilidade pode irromper entre diferentes grupos dentro de uma mesma sociedade ou cultura;

3. As limitações reais da partilha comunitária de bens de consumo;

4. O etos humano da reciprocidade - payback -, e o colapso de contribuição para bens públicos quando a reciprocidade não pode ser implementada;

5. O fenômeno do Social Loafing: em Psicologia social, o social loafing caracteriza-se pelo fato de que muitas pessoas exercem menos esforço para alcançar um objetivo, quando trabalham em um grupo, do que o esforço que poderiam produzir se trabalhassem sozinhas... Este fenômeno é visto como um dos principais fatores para a improdutividade, considerando o desempenho combinado entre os membros de um grupo... As soluções estão relacionadas com modelos de gestão, controle e estímulo... O social loafing também está associado a dos outros fenômenos: a Teoria do "Free-Rider" e o "Efeito Aproveitador";

6. Teoria do Free-Rider: em Economia, Psicologia e Ciência Política, e negociação coletiva, o problema do free rider é descrito como uma situação em que os indivíduos ou organizações consumem mais do que deveriam, ou representando 'um ombro a menos' para dividir o peso equitativo dos custos de produção... O extremo deste comportamento seria o 'parasitismo', considerado como um severo problema econômico, quando leva à não-produção ou sub-produção de um bem público ou privado, mas eminentemente relacionado ao uso excessivo de um bem comum - i.e., à ineficiência de Pareto. O problema do free rider tem raízes profundas em negociações de forma geral, e em questões relativas à compatibilidade de incentivos... Em uma dada negociação, seja ela contratual, laboral, os participantes muitas vezes podem oferecer menos do que eles estão dispostos a pagar na esperança de melhorar a sua própria posição... Isso cria problemas, porque desconhecemos as curvas de desempenho dos competidores, e a mais valia poderá ficar comprometida, mas cabe ao gestor, corrigir desvios iniciais, provenientes da barganha, analisando a curva de desempenho;

7. O Efeito Aproveitador: considera a diferença inerente a cada ser humano, e trata da resultante exercida por um grupo, para compensar o peso de indivíduos ineptos ou ineficientes - geneticamente... Ringelmann, precursor dos estudos nesta área, descobriu que, em geral, membros de um grupo tendem a exercer menos esforço para puxar uma corda do que indivíduos sozinhos - isso também repercute quando envolvemos a tecnologia, grupos online, etc... Além de características genéticas e neurofisiológicas, e culturais, observa-se que o fenômeno está relacionado com a percepção individual, de que o seu esforço não será repercutir como um problema para o grupo;

8. A universalidade de conceitos como a dominância de uns sobre outros, liderança versus anuência, assim como a universalidade da violência - assim como a solidariedade -, mesmo entre os caçadores coletores, considerados falaciosamente como pacíficos... E o respectivo conhecimento atual, sobre os mecanismos genéticos e comportamentais que fundamento tal distribuição de conduta;

9. A importância da hereditariedade sobre o comportamento, e sobretudo sobre a inteligência, a conscienciosidade, as atitudes sociais e anti-sociais, assim como a tendência a refletir a violência, e a tendência a aprender com os seus próprios erros... O que implica sempre, que algum tipo de desigualdade será esperada sobre o resultado, mesmo vivendo em situação igualitária, e partindo dos mesmos recursos... Devemos almejar sociedade igualitárias em suas regras, mas precisaremos entender que o resultado será individual, e dependerá de questões involuntárias como a genética... Este é o conflito entre igualdade e liberdade;

10. Certa predominância dos mecanismos de auto-defesa, de parcialidade em defesa do interesse próprio, acompanhado dos respectivos desvios de confirmação e da redução da dissonância cognitiva - caminho pelo qual as pessoas iludem a si mesmas em relação às sua autonomia, integridade e sabedoria;

11. A parcialidade do senso moral humano, o nepotismo, o corporativismo, em função do interesse próprio;

12. A suscetibilidade ao comportamento pautado por tabus, falso moralismo, e a subsequente tendência a confundir moralidade com conformidade e alinhamento ideológico, hierarquia;

A primeira revolução deflagrada com uma visão nitidamente utópica, foi a Revolução Francesa... Na visão 'poética' - quase apologeta - do poeta William Wordsworth, a natureza humana "parecia renascida"... Era somente um desvio de confirmação, uma dissonância cognitiva, parecia mas não estava renascida, e o tempo testemunharia esta realidade... A nobre revolução pretendia derrubar o "ancien régime" - como aliás prescrevem os ritos de todas as revoluções -, para dar lugar ao "nouveau régime"... E a História viria a registrar 'um pouco mais do mesmo', nas 'revoluções' que se seguiram...

A 'salvação' viria pelas cabeças da autoridade empossada, composta por uma estirpe de líderes moralmente superiores, e claramente lembro de ter lido sobre isso, na figura do personagem platônico 'Sócrates', e lembro-em ainda de haver indagado: 'mas quem escolherá os líderes, sábios, e aqueles que são moralmente superior?'... E a santíssima trindade revolucionária, os nobres ideais de "Liberté, Egalité, Fraternité", entre um grito e outro, entre o som do cadafalso e da guilhotina... 

Robespierre, outrora fiel defensor dos direitos humanos e civis, firmava o destino de centenas, e depois milhares na engenhosa máquina de matar - sem dor - do Doutor Guillotin... Este mesmo 'líder', após abolir as religiões, trata de originar um outro culto, desta vez à Deusa da Razão, e de quebra a si mesmo... Mas em 6 de junho de 1794, o rolar das carroças silenciou e a guilhotina ficou imóvel... Robespierre promulgara um novo feriado religioso: o Festival do Ser Supremo... Ele queria substituir o antigo deus judaico-cristão-islâmico-espírita, por um novo, a Deusa da Razão... Mera falácia nomotética...

Ele patrocinou esse culto ao Ser Supremo em junho de 1794, com coros de gente vestida de branco e uma montanha de papel machê no centro de Paris. E num momento crítico da cerimônia, o próprio Robespierre emergiu do topo dessa montanha trajando uma toga, e descendo.” - David Bell

A 'Revolução' mandou um líder após o outro, do "ancien régime", para o para a guilhotina, mas depois os homens moralmente superiores começaram a discordar entre si sobre 'moralidade', e os líderes do "nouveau régime", foram convocados para perder suas cabeças... Um a um, conforme fracassavam os "humanos renascidos", foram sendo eliminados, até que já não era possível diferir os antigos usurpadores dos novos... A rotatividade de tais líderes, que não se mostravam à altura da missão moral, além de não denotarem suficiente sabedoria, produziu consternação, e um vácuo preenchido pela tirania napoleônica...


'Liberdade, Igualdade e Fraternidade', como princípios, devem ser pensados, proferidos, mas sobretudo praticados... Se o 'processo' revolucionário começa a não praticar as palavras que proferiu, alguma coisa está cheirando mal; e não é somente o queijo Roquefort...


A Revolução Russa encenou a mesma peça, revestida apenas por uma sombra gótica... O Comunismo trilhou caminho similar, mas bem piorado e macabro, na URSS e na China, assim como os seus regimes subsidiários no Vietnam, Korea, e Cuba... Trata-se de uma falácia nomotética, um novo nome para o mesmo fim, a crença na crença, mesmo recheada de algum racionalismo e intelectualismo, mas em flagrante atentado e contraste com os próprios fundamentos da lógica, do racionalismo e de COERÊNCIA - ou Ética, se preferirem -, mas sobretudo em contraste com a realidade humana, com a realidade sobre o comportamento humano... A ditadura, a supressão dos direitos individuais, através da prestidigitação pseudo-racional, pseudo-intelectual, não passou e não passa de falácia...


Nas sábias palavras de Camus - um homem livre e coerente:


"Contar-se-ão nos dedos da mão, os comunistas que chegaram à Revolução pelo estudo do marxismo... Convertem-se primeiro e só depois leem as Escrituras..."

Albert Camus
(O Homem Revoltado - L´homme révolté)


A Revolução Russa também veio embalada pela visão utópica, e também executou os seus líderes, até fixar-se no culto à personalidade de Lenin - o messias, o enviado, o beatificado -, para finalmente desembocar no açougue stalinista... A Revolução Chinesa 'pôs fé' na sabedoria, moralidade e benevolência de um homem, que finalmente demonstrou ser o exemplo perfeito para a antítese simultânea deste três conceitos... Mao superou-se em matéria de ambição, tirania, luxúria, crueldade, delírio e auto-engano...

Não existem dúvidas de que a natureza humana é a maior prova da futilidade das revoluções políticas, baseadas meramente na ambição, delírio, vontade, e conceitos 'morais' de um par de líderes revolucionários, carismáticos e irresponsáveis, quando não padecem de severas psicoses... Nas sábias palavras do grupo inglês The Who:

"Meet the new boss; same as the old boss" ("Apresento-lhes o novo chefe; igual ao velho chefe")

Este não é pois, uma ode à passividade, nem um ato derradeiro de conformismo... Ao contrário, trata-se da atitude corajosa de indispor-se com os velhos e novos líderes, para acentuar a necessidade de entender a natureza humana, para que possamos promover um melhoramento contínuo... A história das culturas não deixa dúvidas sobre o processo social humano, contínuo, dinâmico, convergente, contingente... Escrevi certa vez, na letra de uma de minhas canções: "a história não começa aqui, os ritos da guerra, e o poder como fim"...

Thomas Sowell - economista, crítico social, comentarista político e autor - salienta que o marxismo é um híbrido de duas visões, pois invoca uma descrição trágica do passado, criticando os modos de produção anteriores, com a falsa dicotomia da escolha entre somente duas formas de organização social, o feudalismo e o capitalismo 'selvagem'; enquanto invoca - por outro lado - uma visão utópica para o futuro, na qual poderemos moldar - sem maiores dificuldades - a nossa natureza, e toda a natureza humana, em plena interação dialética com um "Novo Mundo", seus meios materiais e sociais... As pessoas serão motivadas pela auto-realização, em vez do auto-interesse - "De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades" -, segundo a visão profética - e bíblica - de Marx:

"Na fase superior da sociedade comunista, quando houver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades." - Karl Marx

Marx buscou inspiração na Bíblia, mais especificamente no "Novo Testamento", e na parábola sobre o "Reino de Deus":

"E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe." - Mateus [25:15];


"Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade." - Atos [2:45];

"Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum. Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade." - Atos [4:32-35];

Marx tinha verdadeira obsessão por sagra-se um personagem histórico, e persegue este objetivo sem escrúpulos, sua 'revelação' tem similaridade com a iluminação messiânica budista, judaico-cristã-islâmica, e também com a auto-análise freudiana... E sua 'missão messiânica', histórica, pode ser melhor absorvida com a leitura do seguinte 'versículo marxiano':

"(..) a genuína resolução do antagonismo entre homem e natureza e entre homem e homem; é a verdadeira resolução do conflito entre existência e essência, objetificação e auto-afirmação, liberdade e necessidade, indivíduo e espécie. É o enigma da História resolvido"

O que não é capaz de fazer um bom contador de estórias, e uma boa estória... Ao mesmo tempo me sinto enternecido e aterrorizado com este pensamento... Bons contadores de estórias promoveram a morte, em larga escala... Belíssimas palavras, pomposas, magnânimas, mas inteiramente falsas, e baseadas em suposições equivocadas, que levariam assassinos a esconderem-se sob o manto de ideólogos... Tal mensagem resume a tragédia gótica e a utopia fútil da mensagem marxista, além da presunção de um homem... Marx imaginava que seriamos perfeitamente adestrados, assim, num átimo, desprezando pelo menos a História, já que pouco sabia sobre a Evolução, e nada sabia sobre a Genética e a Neurociência Cognitiva... Mas ainda assim, a desculpa da contextualização não soluciona o problema... Muitos dos seus contemporâneos poderiam ter originado as ideias marxista, e de certa forma o fizeram, mas a ambição obstinada de Marx, além da falta de escrúpulos, adicionou um ingrediente à mais, transformando Marx no efetivo profeto do marxismo...

Marx fez pouco caso do legítimo - e consagrado - temor de Bukinin - Mikhail Aleksandrovitch Bakunin -, sobre a escalada do despotismo e do autoritarismo em os trabalhadores 'apoderados' - os eleitos... Marx deu de ombros, em seu populismo barato, fútil, infantil, mas também irresponsável e inescrupuloso:

"Se o senhor Bakunin fosse conhecedor apenas da posição de um gerente de uma cooperativa de trabalhadores, poderia mandar para o diabo todos os seus pesadelos sobre autoridade."

Poderíamos rolar de rir, se a tragédia marxiana não houvesse destroçado com a sua estupidez um bom pedaço de nossa História... E o que Marx tinha em mente, quando se referia a 'trabalhadores'? Todos somos de alguma maneira trabalhadores... Todos... Seria apenas uma questão de transposição, e no lugar de trabalhadores poderíamos dizer 'uma cooperativa humana'... Ou o pulo do gato está na 'cooperativa'? Ou ser proprietário, gerente, de uma empresa faz de um homem menos 'trabalhador'? O ser proprietário, uma vez que de forma geral, trabalhadores costumam fundar seus próprios negócios, é uma 'maldição' - em si??? É tão absurdo, que poderia ser risível, se não fosse o que foi: trágico...

Na época de toda esta sandice hipnótica, qualquer debate científico sobre a natureza humana era imediatamente incendiado, e declarado 'errado'... Tudo pelo partido, tudo pelo partido único... De acéfalos em Cristo para acéfalos em Marx... E esta mácula subsiste até hoje... Mas a História é um tipo de registro 'científico', e os seus dados mostram quem estava errado, sendo o marxismo considerado hoje como um terrível experimento fracassado... Os países que adotaram esta visão distorcida, repleta de vícios de consentimento, desvios de confirmação e falácias, entraram em colapso, voltado atrás, ou vegetando em ditaduras arqueológicas - como a Korea do Norte e Cuba... A China é um exemplo de hipocrisia sórdida, ainda travestida de comunismo, mas amargando as piores condições laborais do planeta, enquanto pratica um 'capitalismo de mercado inescrupuloso', uma ditadura, sem eleições diretas, um partido único, sem liberdade de expressão, sem liberdades ou direitos individuais... A China é um comunismo de mentirinha...

A ambição de 'refazer' a natureza humana, pelo desejo doentio do controle das massas, produziu uma sucessão de líderes totalitários, assassinos em série... A suposição de que existem seres iluminados, planejadores de mundos, centralizadores, moralmente incorruptíveis, desinteressados, imparciais, semi-deuses, ou deuses, decorre também de nossa genética, comportamento e evolução... Existe uma Biologia para a Crença...

Mas Wilson, o especialista mundial em formigas, pode ter rido por último em seu veredicto sobre o marxismo: "teoria maravilhosa, espécie errada"... Muito bom, mas considero suave demais:

MARXISMO? TEORIA INFANTIL, ARROGANTE, COMPLETO DESCONHECIMENTO SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO, POPULISMO DESCARADO E AMBIÇÃO SEM LIMITES, RESULTADOS TRÁGICOS...

Carlos Sherman 



...








terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Obesidade




Drauzio Varella 

OBESIDADE

Bernardo Leo Wajchenberg é médico. Professor de endocrinologia, influenciou a formação de inúmeros profissionais dessa área em todo o Brasil.

A obesidade é um dos problemas mais importantes que a Saúde Pública enfrenta hoje no Brasil e em outros países do mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que, atualmente. nos países desenvolvidos, ela seja o principal problema de saúde a enfrentar.

Por que as pessoas estão engordando tanto? De onde vem esse desespero pela comida e a dificuldade para perder peso? A resposta, por certo, poderá ser encontrada nas raízes evolucionistas do homem. Há 50 mil anos, nossos antepassados tinham grande dificuldade para conseguir alimentos. A possibilidade de estocá-los é contemporânea ao advento da agricultura há dez mil anos, um segundo em termos evolucionistas. Essa carência alimentar moldou o cérebro humano de tal maneira, que ele busca obter o máximo de calorias possível para mobilizar energia acumulando-a sob a forma de gordura que, teoricamente, será usada nos períodos de fome provocados pela escassez de comida.

Entretanto, no mundo moderno, a realidade é bem diferente. A geladeira pode conservar alimentos variados por dias e semanas. Basta abri-la para saboreá-los. A propaganda nos incita a comer produtos altamente calóricos por preço razoável. Basta uma ligação telefônica para temos comida de diversos tipos e nacionalidades entregue, em poucos minutos, na porta das nossas casas.

Nosso cérebro condicionado em tempos de penúria agora encontra fartura e o mecanismo evolucionista que selecionou pessoas capazes de acumular gordura, decisão inteligente no passado, se volta contra elas. Reverter esse processo é tarefa árdua e muitas vezes inglória. No entanto, é preciso estar alerta. O excesso de peso está associado a uma série de doenças que comprometem a qualidade e a duração da vida.

DESEQUILÍBRIO ENTRE INGESTÃO E QUEIMA DE CALORIAS

Drauzio – Você, que tem grande vivência clínica e enfrentou pessoalmente o problema da obesidade, como enxerga a dificuldade de tantas pessoas para perder peso?

Bernardo Leo Wajchenberg – O homem moderno está pagando as contas pela facilidade de conseguir alimentos. Além disso, a tendência ao consumo do fast-food representa sério empecilho para resolver o problema. Na hora do almoço, em vez de sentar-se e comer arroz com feijão e salada como se fazia antigamente, a pessoa aproxima-se dos balcões das lanchonetes e se contenta com um hambúrguer e um milk-shake, alimentos de alto valor calórico que provocam sensação de saciedade. A gordura tem essa vantagem: comê-la garante sensação de bem-estar, de estômago cheio. Por outro lado, a vida moderna está marcada pela falta de atividade física e não há o gasto calórico suficiente. Ninguém anda mais. Todos se valem do transporte coletivo ou, o que é pior, do individual. Portanto, estamos comendo mais e gastando menos. Do ponto de vista termodinâmico, estamos armazenando calorias. É bem verdade que existem indivíduos, infelizmente a minoria, que comem muito e gastam muito também. A regra, porém, não é essa.

Já se procurou, por muitos anos, uma causa metabólica primária para a obesidade. Existem as formas ditas genéticas que são extremamente raras, raríssimas. Até hoje, encontrei apenas um indivíduo de cabelos vermelhos obeso (os ruivos podem ter um defeito na produção de melanocortina), mas esse achado tem valor apenas para o estudo da fisiopatologia da obesidade.

Então, a experiência que tenho é muito ruim. Eu e todo o mundo. O que costumo sugerir para os obesos é uma alimentação razoável, porque dietas muito restritivas não têm mais cabimento nos nossos dias. O indivíduo não deve perder muito peso. Em torno de 7kg a 10kg no prazo de alguns meses melhora as complicações que a obesidade traz consigo.

O problema é tão sério que o número de cirurgias da obesidade, ou bariáticas, aumenta a cada dia. Para muitos obesos mórbidos não existe outra solução apesar de estarmos substituindo uma doença por outra.

O procedimento cirúrgico mais frequente em nosso meio é a cirurgia de Capela em que se reduz o volume do estômago. Não se consegue interferir, porém, na vontade de comer. O paciente para de comer porque se o fizer vomita, não aguenta o mal-estar. Conheço um indivíduo que passou a tomar leite condensado, alimento de alto valor calórico, como se sabe, mas que é aceito pelo estômago cuja capacidade ficou reduzida a 20cm³ aproximadamente.

TENDÊNCIA AO SEDENTARISMO

Drauzio – Em geral, os obesos são vistos como pessoas desavergonhadas, de caráter fraco, o que injusto.

Bernardo Leo Wajchenberg – Isso é um absurdo. É inconcebível tal julgamento. Ninguém quer ser gordo. Eu, que sou um semigordo e fui um grande obeso tinha vergonha da minha condição e não ia à praia nem ao clube. O problema da obesidade está relacionado com o ambiente familiar, a genética e o sedentarismo. Decorre, em parte, como consequência da vida moderna e da falta de ensinamentos sobre a necessidade de praticar esportes. Só os adolescentes o fazem. A regra é que com o passar dos anos o indivíduo se mexa menos e coma mais. O rapaz se casa, por exemplo, as responsabilidades aumentam, ele come mais e engorda. Quando estudei nos Estados Unidos, reparei que eram gordos os diretores da instituição. A arraia-miúda, o pessoal de baixo, era toda magra.

A obesidade de per si não é um mal, se o obeso não apresentar outros fatores de risco, como colesterol elevado, hipertensão, diabetes. Não me lembro de nenhum paciente meu, um grande obeso, que tenha ultrapassado os 50 anos. Todos morreram antes de complicações cardiovasculares, de fraturas seguidas de embolia pulmonar, etc.

Em alguns países, há grupos populacionais em que a obesidade é mais frequente. Nos Estados Unidos, por exemplo, os índios que vivem no Arizona constituem um caso típico. Eles eram pobres, trabalhavam no campo e eram magros. Quando foi descoberto petróleo em seu território, as companhias petrolíferas lhes compraram as terras, deram-lhes royalties e eles pararam de dedicar-se à agricultura familiar. Como consequência, a obesidade tornou-se prevalente entre eles.

Drauzio – Quanto mais pobre a pessoa, maior é a tendência para comer mais gordura e mais carboidrato?

Bernardo Leo Wajchenberg – O problema está na comida com alto valor calórico. Em países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos, está caindo o número de obesos na classe A, ao passo que nas classes B e C esse número está subindo. Outra constatação triste é que o exercício físico não faz parte dos hábitos de vida dessa população. No meu ponto de vista, andar não ajuda a pessoa a perder peso. Já fiz um cálculo uma vez e cheguei à conclusão de que eu teria de caminhar 40km para perder um quilo. O exercício tem que ser aeróbico. Nas academias e clubes, só há jovens e umas poucas pessoas mais velhas que se acostumaram na juventude com a atividade física.

A obesidade é um problema muito sério e não há empenho por parte das autoridades governamentais para resolvê-lo de vez. Tenho uma triste opinião que compartilho com pesquisadores americanos a respeito desse assunto. Aos governos não interessa acabar com o problema. As indústrias envolvidas na fabricação de produtos para o controle da obesidade, as academias e outras instituições frequentadas por quem quer emagrecer rendem valores altos em impostos. Campanhas como “São Paulo, mexa-se!” são importantes, mas pouco eficientes e perdem para o apelo do interesse comercial.

TECIDO ADIPOSO: MAIOR GLÂNDULA ENDÓCRINA

Drauzio – Na época em que fui seu aluno na faculdade, o tecido adiposo era considerado um tecido inerte, mero depósito de células gordurosas que acumulavam energia para ser queimada num momento de necessidade. Esse conceito mudou completamente, não é mesmo?

Bernardo Leo Wajchenberg – Hoje está provado que o tecido adiposo é a maior glândula endócrina do organismo. Existem dezenas de hormônios produzidos por ele, hormônios ligados à hipertensão (angiotensinogênio) e ao apetite, como a lepitina, por exemplo. Quanto mais gordura, maior a produção desse hormônio que age no cérebro e faz diminuir o apetite. O obeso, porém, que tem muita lepitina, desenvolve resistência a ela. Se não fosse assim, ninguém seria gordo.

Drauzio – Quando a pessoa perde gordura, a lepitina cai. Nesse caso, o que acontece com a fome?  

Bernardo Leo Wajchenberg – A lepitina não tem muito a ver com a fome no grande obeso, como tem nos não obesos e nos animais experimentais. Por isso, é dificílimo tratar da obesidade. A experiência me mostra que deve ser dada uma orientação dietética aos pacientes. A dieta baseada em pontos atribuídos a cada alimento pode ajudar. Idealmente existe uma série de alimentos que devem ser evitados. Isso não quer dizer que nunca mais se possa comer pizza ou beber uma ou duas doses de uísque por semana, desde que alguma coisa de valor calórico equivalente seja retirada do cardápio daquele dia.

E aí fica evidente a necessidade do exercício físico, o verdadeiro nó da questão. O adulto de meia idade, a maioria em minha clínica, não faz. Já propus ir com eles para a academia, porque conheço as técnicas e posso orientá-los. Nenhum tem tempo. Nem mesmo depois de um infarto. No começo, adotam um programa de exercícios, mas logo voltam ao velho esquema sedentário.

No caso dos diabéticos, a obesidade é um fator de risco importante e reduzir o peso faz com que melhorem bastante. Eles conseguem perder peso por algum tempo, mas depois voltam a engordar. Manter o peso é um desafio muito complicado.

TRATAMENTO COM DROGAS CONTRA A OBESIDADE

Drauzio – Qual é sua impressão sobre as drogas usadas nos tratamentos contra a obesidade? Os médicos, em geral, defendem posições bastante contraditórias a respeito de seu uso.

Bernardo Leo Wajchenberg - A palavra droga define por si só as características dessas substâncias. Penso que usar drogas é uma droga. O bom seria poder evitá-las sempre. Mas qual é a alternativa que posso oferecer a meus pacientes? Experimento as mais variadas mudanças nos regimes alimentares. Nenhum resultado. Introduzo, então, as drogas mais leves, embora não haja estudos comparativos sobre a ação das mais potentes a longo prazo. É verdade que elas têm efeitos colaterais. Os psiquiatras me contam que vêem isso todos os dias. Eu não vejo nunca. Vez ou outra alguém se queixa de palpitação ou de insônia. Nesses casos, prescrevo um tranqüilizante.

O problema é que o uso dessas drogas precisa ser contínuo, o que as faz perder a eficácia, e é preciso mudá-las ou fazer combinações. É uma pena que isso não seja ensinado aos alunos de medicina na faculdade.

Drauzio – O fato é que o tempo de duração desses tratamentos tornou-se uma discussão importante para a ciência.

Bernardo Leo Wajchenberg – O tratamento deve ser mantido no mínimo por cinco anos. Estudos realizados pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos mostraram que, usando a droga por cinco anos, o paciente mantinha a perda de peso. Embora a tendência fosse perder e ganhar um pouco de peso ao longo do tratamento, o balanço era a favor da perda.

Tenho pacientes que estão tomando essas drogas por mais de oito anos e conseguem manter de 10kg a 15kg a menos com melhora significativa de todos os outros fatores de risco. Os residentes que trabalham comigo acham estranho que nunca tenham aprendido isso. Eu acho um absurdo.

Existem drogas modernas como a sibutramina, com menos efeitos colaterais, mas que não resolvem o caso dos grandes obesos. No começo é ótima, mas com o tempo perde o efeito. Existem outras que diminuem a absorção intestinal de gordura. Essas são menos eficientes, quando se suspende a ingestão de gorduras e têm efeitos adversos como a incontinência fecal. Contra as drogas antigas há o tabu de que fazem mal. Eu as uso e recomendo. Não como primeira opção.  A primeira opção é a dieta e a mudança de hábitos. Alguns raros indivíduos conseguem manter o peso depois que emagreceram. O grande gordo não. Toma a droga, emagrece dez quilos, acha horrível a dieta e volta a comer e a engordar. É o chamado efeito sanfona.

PERDA DE PESO NOS DOIS GÊNEROS

Drauzio – Quem engorda mais fácil e quem tem maior dificuldade para perder peso, os homens ou as mulheres?

Bernardo Leo Wajchenberg – Os homens perdem peso com mais dificuldade por causa da vida que levam. As mulheres perdem mais facilmente por interesse pela aparência do próprio corpo. A longo prazo, porém, ambos continuam gordos a não ser nos casos raros em que o individuo adere à medicação. Tenho alguns pacientes nessa situação. Eles me telefonam e dizem que o remédio deixou de funcionar e eu faço outra associação de drogas. Não é a conduta ideal. O ideal é a mudança de comportamento.

A propósito, gostaria de comentar que o governo americano patrocinou um programa chamado Diabetes Prevention Program (DPP), Programa de Prevenção ao Diabetes, que custou 150 milhões de dólares. Eles mostraram que os indivíduos que aderiram à mudança de estilo de vida e aos exercícios perdiam mais peso e reduziam o desencadeamento das complicações do diabetes em seis anos. Fiquei surpreso e fui conversar com quem apresentou esse trabalho num congresso em Glasgow, em 2001. Soube que o grupo de cinco mil pacientes que fazia parte do estudo foi selecionado por anúncio de jornal e cada um recebia uma ajuda de custo para não interromper a experiência. No dia a dia, os resultados não são os mesmos.

Os endocrinologistas não podem desprezar as características de comportamento do obeso. A Behavior Therapy (Terapia Comportamental), teoria desenvolvida por um cientista da Filadélfia, visa exatamente à mudança de comportamento desse paciente.

TERAPIA COMPORTAMENTAL E EMAGRECIMENTO

Drauzio – Em que consiste a terapia comportamental  utilizada nos casos de emagrecimento?

Bernardo Leo Wajchenberg -  Não conheço exatamente o processo, mas sei que o indivíduo conversa com o psicólogo ou com uma pessoa habilitada para o trabalho que faz sugestões para a mudança da dieta, do comportamento alimentar e cobra os resultados. No início, as sessões são semanais. Com o passar do tempo, sessões de reforço são realizadas pelo menos uma vez por mês. Infelizmente, isso consome tempo, custa caro e não é pago pelo governo.

Não tenho informação de nenhum centro no Brasil dedicado a esse tipo de serviço, mas sei de algumas pessoas que se beneficiaram com o tratamento. Em recente congresso, o grupo de Filadélfia da Sociedade Americana de Diabetes apresentou trabalhos com resultados encorajadores. O paciente perde de 7% a 10% do peso corpóreo e mantém esse valor por anos a fio.

Drauzio – Num estudo comparativo entre os diversos tipos de dieta para emagrecer, os institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos (NHI) concluíram recentemente que uma pessoa costuma perder com as dietas até 10% de seu peso corpóreo. Quando acompanhadas depois de um ano, 50% delas voltaram ao peso original e cinco anos depois praticamente todas readquiriram os quilos perdidos.

Bernardo Leo Wajchenberg – Qualquer regime pode ter esse resultado. Por isso, a importância da mudança de comportamento. Acompanhei no Hospital Sírio-Libanês um grupo de obesos e as psicólogas me disseram que estavam pensando em introduzir a Teoria Comportamental com reforço contínuo no tratamento da obesidade. Não sei se os planos foram concretizados, mas é fundamental que iniciativas como essa sejam postas em prática.

FALTA DE PREPARO ACADÊMICO

Drauzio – Você acha que nós médicos somos preparados nas faculdades de medicina para lidar com um problema tão sério quanto esse?

Bernardo Leo Wajchenberg – Acho que não. Aliás, de certa forma, os cursos das faculdades são irrelevantes. A formação médica vai se alicerçando depois da formatura com a aquisição de novos conhecimentos que surgem numa velocidade espantosa nos últimos tempos. Por exemplo: há 20 anos o diabetes constituía um ramo pequeno da endocrinologia. Hoje, é maior do que todos os outros assuntos somados. Nos congressos, as sessões sobre diabetes são as que têm maior número de ouvintes médicos. Eu me especializei em diabetes e obesidade, embora trate de outras doenças da mesma área. Todo diabético adulto é obeso até que provem o contrário. Quando não é obeso, é preciso investigar o que possa estar interferindo em seu emagrecimento.

PREVISÕES PARA OS PRÓXIMOS 50 ANOS

Drauzio – Como você acha que o problema da obesidade vai ser r4solvido no futuro?

Bernardo Leo Wajchenberg - Diz um ditado popular que o futuro a Deus pertence. Não posso fazer previsões. Quando vi o primeiro computador em 1964, enorme, achei que não teria muita utilidade. Hoje, ele está aí, em todo o canto, pequeno e popular.

Entretanto, posso imaginar que se as coisas continuarem do mesmo jeito, o número de obesos vai aumentar. Nós, que vivemos no hemisfério sul, podemos ter uma ideia do que pode nos acontecer, se olharmos para o número de casos de obesidade em nossos irmãos do hemisfério norte.

Vejo que a educação na infância é a única forma para tentar resolver o problema. Não se pode induzir a criança a comer batata frita como um prêmio nos finais de semana. Isso não é prêmio, é punição. Batata frita tem alto valor calórico e muita gordura saturada. A educação deve começar em casa. Agora, me pergunto como médico e como pai de família: desde quando temos tempo para almoçar ou jantar com nossos filhos? Refeições em família tornaram-se um evento raro em nossas vidas.  Com isso, não ajudamos a criar hábitos alimentares saudáveis nas crianças, que acabam engordando.

Quero frisar, também, que nos últimos anos me impressionaram os casos de obesidade na infância e na adolescência nos quais o fator desencadeante foi a separação dos pais. Se existe tendência na família, conflitos emocionais desse tipo podem ser a origem do problema.

Drauzio – Você disse que a genética é responsável apenas por pequeno número de casos de obesidade. O que me intriga é ver, muitas vezes, um casal obeso com filhos pequenos também obesos.

Bernardo Leo Wajchenberg – Isso me faz lembrar os quadros do pintor colombiano Botero, em que o pai e a mãe são gordos, o filho é gordo e o gato também é gordo. Trata-se, porém, de uma situação diferente da encontrada naqueles casos raros determinados pela genética, como os de obesidade mórbida em indivíduos com cabelos cor de fogo.

Na verdade, não se pode negar que exista um componente genético familiar que ainda não foi bem definido. Um dos mais famosos cientistas no estudo da obesidade no Canadá, publica todos os anos um relatório dos genes envolvidos nessa doença, mas até agora não foram definidos exatamente quais são eles. Sabe-se que se trata de uma doença em que estão envolvidos múltiplos genes. Somos capazes de entender as doenças monogênicas, isto é, aquelas que estão associadas a um único gene. Para as outras ainda não foi encontrada explicação. É o caso do diabetes e da hipertensão, patologias que estabelecem interações gênicas de altíssima complexidade.

Não acredito que se encontrem soluções para essas doenças num futuro imediato, mas espero que a cura para ela apareça nos próximos 50 anos.

Drauzio – Você espera viver para assistir a essa descoberta?

Bernardo Leo Wajchenberg – Não espero nem quero. Também não cabe a mim decidir isso. Sou apenas um joguete nessa história. No momento, doença poligênica é ainda um brinquedo nas mãos dos pesquisadores. Você encontra em todos os números da revista Diabetes trabalhos sobre genética. Um dia, alguém acaba acertando e descobre a solução para esse enigma.