Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Milagre, um Delírio



Durante o último terremoto no Haiti – 7.3 graus na escala Richter - em 2010, profundos desvios cognitivos de confirmação também sacudiram a região. O terremoto de grandes proporções causou enormes danos ao pobre país. Milhares de edifícios, incluindo os as edificações mais significativas ao patrimônio e à vida da capital - como o Palácio Presidencial, o edifício do Parlamento, a Catedral de Notre-Dame, entre outras igrejas, a principal prisão do país, e todos os hospitais e maternidades - foram indiscriminadamente devastadas. A tragédia contou 316 mil mortos, 350 mil feridos e mais de 1,5 milhão de flagelados, com 2.400 amputações.
O pastor cristão americano Pat Robertson declarou em seu canal televisivo Christian Broadcasting Network que o terremoto era “uma maldição de deus, uma vingança, um castigo”, em função de um suposto “pacto com o diabo”, orquestrado – pasmem – na época da independência do Haiti – em relação à França – em 1804:

Algo aconteceu há muito tempo no Haiti e as pessoas, talvez, não quisessem falar sobre isso. Estavam sob domínio francês… vocês sabem, Napoleão III ou qualquer coisa assim, juntaram-se e fizeram um pacto com o diabo. Disseram: "Vamos servi-lo se nos libertar do Príncipe". É uma história verdadeira. E o diabo disse: "Tudo bem, está combinado". E os franceses foram expulsos. Os haitianos revoltaram-se e conseguiram libertar-se. Mas, desde então, foram amaldiçoados com coisas atrás de coisas. - Pastor Pat Robertson

Além do ocorrido, e do fato de que a suposta “vingança de deus” tardou mais de 200 anos, desde o “pecado cometido”, vale lembrar também que o Haiti foi primeiro país do mundo a abolir a escravidão – amplamente endossada pela bíblia. Terá sido a abolição da escravatura também resultado de algum pacto demoníaco; e eventualmente está sendo punido por deus com estes sacrifícios humanos em 2010? Pat Robertson é um tremendo picareta, um golpista astuto, mas os desvios de confirmação estão amplamente configurados nos cérebros de seus devotos fiéis, e assim o mago contará com uma plateia crédula a ser facilmente enganada.
Antes de uma entrevista ao telejornal do SBT em cadeia nacional, em 14 de janeiro de 2010, sem saber que estava sendo filmado e gravado, o cônsul honorário do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, proferiu as seguintes frases:

A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui ficar conhecido. […] Acho que, de tanto mexer com macumba, não sei o que que é aquilo. […] O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano, tá foda! - George Samuel Antoine (Cônsul Honorário do Haiti)

Samuel, com um terço do Santo Rosário nas mãos, exprimiu sua fé cristã:

Esse terço nós usamos porque dá energia positiva; acalma as pessoas. Como estou muito tenso, deprimido com o negócio do Haiti, a gente fica mexendo com várias [coisas] para se acalmar. - George Samuel Antoine (Cônsul Honorário do Haiti)

Um dia após suas declarações cristãs, Samuel pediu desculpas em entrevista coletiva, esclarecendo que fala diversos idiomas mas que, mesmo há mais de 30 anos no Brasil, “não domina a língua portuguesa”. Disse também, por meio de nota do consulado, que “teve seus dizeres interpretados de maneira deturpada".
Antoine é um escroque, e suas explicações só acentuam a baixeza de seu caráter; mas muitos pensam como ele, pessoas de bem, como alguns dos meus leitores. Parte de toda esta fantasia sobre a realidade pode ser explicada pelos fenômenos psicológicos conhecidos por (1) Desvios Cognitivos de Confirmação, (2) ToM - Teorias da Mente, (3) e a adesão do cérebro humano a Falsos Positivos – resultantes de aspectos neurais potencializados pela ignorância sobre o comportamento humano, sobre a aleatoriedade, além de disciplinas do ensino fundamental e avançado.
Ainda no Haiti, Hoteline Losama, entre outras pessoas, foi resgata com vida quase uma semana após o sismo. Durante este tempo ela esteve protegida por um espaço aleatoriamente formado por forros, pedras, e uma geladeira, e perto de muitos mais cadáveres que não gozaram da mesma sorte; mas ainda assim um dos membros do grupo de resgate afirmou ter sido “uma bênção”. A jovem resgatada considerou o seu destino como “um milagre”.
Desviar os olhos dos 316 mil mortos, entre eles muitas crianças, e celebrar como “benção” o resgate de uma única pessoa, e corroborando assim uma crença prévia em bênçãos e milagres, constitui um clássico exemplo dos Desvios Cognitivos de Confirmação – e uma atitude execrável...
Quinze dias após o terremoto, um homem ligou para os seus familiares e amigos, e uma mulher ainda soterrada atendeu. Ela estava viva, e houve comoção e clamor: “Milagre!”. Ela tentou orientar as buscas, e uma equipe da Cruz Vermelha Internacional foi até o local com cães farejadores, mas o esforço foi em vão. A bateria acabou, e as equipes de resgate não puderam encontrá-la com vidaSe deus pretendia tal destino, por que permitiu a ligação telefônica? Onde está a “força superior”, senão em nossa formação inferior, além de tendências ilusórias, e propensão ao autoengano?
E peço aqui que outra mulher, também excepcional, dê o seu recado:

Eu não acredito nestas pessoas que sabem tão bem o que deus quer que elas façam; por perceber que isso sempre coincide com seus próprios desejos. – Susan Anthony

Durante um desmoronamento em uma mina no Chile, 13 homens foram soterrados. Vozes foram detectadas, e saíram as manchetes nos jornais: “13 hombres y un MILAGRO!”. Depois se descobriu que apenas um homem, dentre os treze soterrados, havia sobrevivido: “milagro”.
Mas como o nosso cérebro nos convence de que estamos sempre certos? Michael Shermer nos mostra o caminho:

Uma vez que criamos uma crença, e nos comprometemos com ela, nós a mantemos e reforçamos com fortes heurísticas cognitivas, que garantem que ela esteja correta. Uma heurística é um método mental para resolver problemas pela intuição, pela tentativa e erro [...]. – Michael Shermer (Cérebro e Crença; 2012)

Essas heurísticas podem no entanto falhar, e falham com muito mais frequência do que imaginamos, distorcendo a nossa percepção da realidade, e encaixando conceitos pré-concebidos, conhecidos como Desvios Cognitivos de Confirmação.

Crenças configuram percepções. Não importa que sistema de crenças esteja funcionando — religiosas, políticas, econômicas ou sociais —, esses desvios cognitivos moldam a maneira como interpretamos a informação que chega por intermédio de nossos sentidos e dão uma forma adequada à maneira como queremos que o mundo seja, e não necessariamente como ele realmente é. Chamo esse processo de confirmação de crença. – Ibidem

 Existem heurísticas cognitivas ou desvios específicos, que operam para confirmar as nossas crenças, atuando em conjuntamente como outros distúrbios, como a tendência à busca e reconhecimento de padrões; um recurso evolutivo essencial, mas que pode falhar, detectando falsos padrões, além da tendência ao animismo e ao intencionalimo.
Vejam o poder da crença, conduzidos pelo autor da área científica, roteirista – MacGyver e Star Trek - e físico, Leonard Mlodinow:

Alguns anos atrás, um homem ganhou na loteria nacional espanhola com um bilhete que terminava com o número 48. Orgulhoso por seu ‘feito’, ele revelou a teoria que o levou à fortuna. “Sonhei com o número 7 por 7 noites consecutivas”, disse, “e 7 vezes 7 é 48”. Quem tiver melhor domínio da tabuada talvez ache graça do erro, mas todos nós criamos um olhar próprio sobre o próprio e o empregamos para filtrar e processar nossas percepções, extraindo significados do oceano de dados que nos inunda diariamente. E cometemos erros que, ainda que menos óbvios, são tão significativos quanto esse. – Leonard Mlodinow (Subliminar; 2013)

Estes erros fazem parte do corpus de estudo da Neuropsicologia. No caso acima, o felizardo ganhador e crente no sobrenatural, incorreu em pelo menos um Desvio Cognitivo de Confirmação: a Tendência Retrospectiva; além do singelo desvio intelectivo, afinal “7x7” é matéria do ensino básico, e o resultado é “49”, e não “48”. Shermer nos esclarece a questão em Por que acreditamos em coisas estranhas (2011) e Cérebro e Crença (2012):

Construímos nossas crenças por várias e diferentes razões subjetivas, pessoais, emocionais e psicológicas, em contextos criados pela família, por amigos, colegas, pela cultura e a sociedade. Uma vez consolidadas essas crenças, nós as defendemos, justificamos com uma profusão de razões intelectuais, argumentos convincentes e explicações racionais; Primeiro surgem as crenças e depois as explicações. - Michael Shermer (Cérebro e Crença; 2012)

Primeiro aderimos às crenças, para só então tratar de justificá-las por meio de argumentos supostamente racionais. E por esta razão, pessoas inteligentes e cultas também podem acreditar em coisas absurdas.
Hume, indelével:

Os homens não ousam confessar, nem mesmo a seus corações, as dúvidas que têm a respeito desses assuntos. Eles valorizam a fé implícita; e disfarçam para si mesmos a sua real descrença, por meio das afirmações mais convictas e do fanatismo mais positivo. - David Hume

James, impecável:

Alucinação é uma forma estritamente sensacional de consciência, uma sensação tão boa e verdadeira quanto se estivesse ali um objeto verdadeiro. Acontece, simplesmente, que o objeto não está ali. - William James (Princípios de Psicologia; 1890)

Q.E.D.

Carlos Sherman

segunda-feira, 27 de maio de 2019

DISLEXIA

Imagem relacionada


DISLEXIA
Por Carlos Leger Sherman Palmer Junior

Introdução
Sigmund Freud, responsável pelos dogmas sacralizados pela Psicanálise, escreveria em 1900 que experiências dolorosas na infância ou maus tratos por parte do pai, da mãe, ou de ambos, era a causa para a dislexia. Ele postulou que crianças incapazes de se rebelar abertamente contra seus pais abusivos, passavam a desafiá-los e recusando o aprendizado da leitura. Uma explicação simplista e infantil demais, e apoiada em ZERO experimentos, evidências, provas científicas – como tudo no freudismo. Freud recomendava ainda que o único caminho seguro para a salvação dessas crianças era a Psicanálise... Na verdade seus métodos terapêuticos nunca surtiram efeito algum, e ao contrário, agravando e muito o equilíbrio emocional e psicológico de seus infelizes pacientes – ou vítimas.
Freud não entendeu nada sobre esse ou qualquer outro transtorno notadamente psicológico. Mas, financeiramente, e considerando a devida atualização monetária aos nossos dias, a Psicanálise rendia bons frutos aos seu séquito de adeptos, cobrando a bagatela de 300 a 400 Euros por sessão; isso sem contar o famoso jargão, que garantia receita estável durante o interminável tratamento: “te vejo na próxima consulta”. E assim foi... mas não é mais. Hoje a Psicanálise está completamente desacreditada por verdadeiros especialistas no comportamento humano, real... longe das páginas ficcionais do grande escritor de contos e pai de dita doutrina. Na verdade, seria um manancial para boas piadas, se não fosse um assunto tão sério, e causa de tantos males. Não, Freud nunca explicou nada, mas complicou muito.
Sofisticadas tecnologias de imageamento cerebral ou fMRI (Functional Magnetic Resonance Imaging), e cujo desenvolvimento foi regiamente guiado pela ciência nascente e responsável por estudar e entender os fenômenos relacionados com o comportamento humano, ou Neurociência Cognitiva; nos revelariam - clara e vividamente – certa inatividade em uma grande área inatividade que conecta o Giro Angular ao Córtex visual e outras áreas de associação visual, onde os signos da escrita são interpretados, e áreas no Giro Temporal Superior, ou área de Wernicke, onde a linguagem e a fonética são interpretadas. Além disso, durante as tarefas de leitura fonológica, a área associada à linguagem falada, ou área de Broca, mostrou ativação nos leitores disléxicos, e não ocorrendo o mesmo nos leitores normais. Os pesquisadores acreditam que esta área tenta compensar as deficiências na área de Wernicke.
Investigadores estudaram pacientes com lesões cerebrais, principalmente ocasionadas por tumores na área de Wernike. Embora não tivessem dificuldades de leitura antes que a lesão fosse grande o suficiente para ser detectada, estes pacientes desenvolveram problemas de leitura idênticos aos associados com a dislexia. Aqueles com dislexia também tendem a ter movimentos oculares rápidos, bruscos, e difíceis de controlar enquanto leem - outra indicação de falha no sistema neural, relacionado ao Giro Angular.
Trata-se, inequivocamente, de um problema fisiológico, e cujas raízes podem estar nos genes, na vida gestacional, nos primeiros anos de vida – imprintings – ou em patologias com o comprometimento de tecidos e/ou da morfologia cerebral em regiões muito específicas, e vão sendo mapeadas por estudos científicos cumulativos.


Definição
Consultando o acervo de informações sobre a dislexia no NINDS (National Institute of Neurological Disorders and Stroke), o instituto americano para estudos de transtornos psicológicos, concluo que:

A dislexia é um tipo de incapacidade de aprendizagem relacionada à atividade cerebral que, especificamente, prejudica a capacidade de leitura de um indivíduo. Tais indivíduos geralmente leem em níveis significativamente mais baixos do que o esperado, apesar de possuírem índices normais de inteligência. Embora o distúrbio varie de pessoa para pessoa, as características mais comuns entre pessoas com dislexia são a dificuldade com o processamento fonológico (a produção de sons), ortografia e/ou resposta verbal-visual rápida. Em indivíduos cujo distúrbio se manifeste na idade adulta, geralmente está diretamente associado com lesões cerebrais ou dentro do contexto dos diferentes tipos de demência; isso difere de indivíduos com dislexia congênita ou desenvolvida na infância, mas que simplesmente nunca foram identificados como tal enquanto ainda eram crianças ou na adolescência. A dislexia normalmente é herdada, direta ou indiretamente, e estudos recentes identificaram vários genes que podem predispor um indivíduo a desenvolver o distúrbio.

Possíveis Causas
A dislexia é um distúrbio de fundo fisiológico – como todos os distúrbios de comportamento, diga-se de passagem. As causas raízes da dislexia estão relacionadas com a herança genética ou com problemas de má formação na vida gestacional; ou durante os primeiros anos de vida, quando o córtex assemelha-se a uma massa de “cimento fresco”, com as conexões neurais sendo consolidadas; e.g., como na região ventral medial do lobo pré-frontal para a socialização, no lobo occipital para a visão, na fala com as áreas de Wernicke y Brocca, em janelas de tempo conhecidas por “imprinting”.
Existe comorbidade entre a dislexia e o Déficit de Atenção – ou TDAH, que por sua vez também está associado com a Discalculia. Quando a dislexia se manifesta na vida adulta, sempre está associada com traumatismos cranioencefálicos, acidentes vasculares cerebrais, tumores ou transtornos relacionados com os quadros de demência.

Sintomatologia
De maneira subjacente, podemos dizer que a dislexia envolve problemas com o processamento da linguagem pelo cérebro, mas também de imagem e reconhecimento dos signos que compõe a língua escrita.
O distúrbio por sua vez se manifesta em diferentes graus. Os principais sintomas são a dificuldade para pronunciar corretamente as palavras, limitações na leitura fluente, ao subvocalizar palavras, na leitura em voz alta, na compreensão concomitante da leitura, assim como na escrita à mão livre. Estas dificuldades são percebidas normalmente com a alfabetização, ou nos primeiros anos do ensino básico.
A dislexia está é o distúrbio de aprendizagem mais comum que existe, e está distribuída por todo o globo. Não existe estudos rastreando sua prevalência geográfica ou genética; é diagnosticada com maior frequência em homens, por pressão dos mercados de trabalho, mas estima-se que afete em igual proporção a homens e mulheres. Sabemos que atinge entre 3% e 7% da população mundial; embora existam registros de sintomas parciais em ao menos 20%. E que pese: LER NÃO É INATO... O cérebro humano adaptado à savana africana não estava preparado para a escrita, a leitura, e muito mais...

Diagnóstico
O diagnóstico clínico da dislexia consiste na realização de exames para avaliar a capacidade e o grau de memorização, dicção, visão e leitura. Os exames modernos são capazes de distinguir entre dificuldades relacionadas com deficiências no ensino ou causadas por problemas fisiológicos, como no caso da Dislexia.
A tecnologia associada à Neurociência Cognitiva, nos brindou com recursos muito mais precisos para o diagnóstico da dislexia, como: Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) e a Tomografia por Emissão de Fótons (SPECT) – para o diagnóstico de distúrbios neuroauditivos, presentes na dislexia; a Ressonância Magnética Funcional (fMIR) – para o diagnóstico da “integridade funcional do circuito dorsal parietotemporal e do circuito ventral occipitotemporal”, corrompidos na dislexia; a Tractografia e o Tensor de Difusão (DIT) – que fornece informações especificas sobre a integridade estrutural e orientação direcional dos tratos de substancia branca encefálica, demonstrando “anisotropia diminuída na região temporal esquerda” (áreas de Wernicke e Broca) em indivíduos disléxicos.

Tratamento
O tratamento está orientado à adequação da metodologia de ensino em relação às necessidades especiais do indivíduo. consiste em ajustar os métodos de ensino de forma a corresponder às necessidades da pessoa. Métodos audiovisuais têm obtido grande sucesso.
É exatamente aí que nós entramos, profissionais da área Neurocientífica, da Neuropsicologia, Educação, Biologia... Precisamos, a partir do bom entendimento do homem, da Genética Comportamental, da Biologia Social e Evolucionária, que culminam em nossa Neuropsicologia, encontrar melhores e mais eficientes métodos de ensino, e talvez a dislexia simplesmente desapareça no ar... como distúrbio. A fala é inata, mas a leitura, a escrita, e um monte de funcionalidades do mundo moderno, como digitar em computadores e operar mouses, mouse-pads, track-balls, etc... não são.

Carlos Leger Sherman Palmer Junior


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

COMUNICAÇÃO, LIDERANÇA, EMPREENDEDORISMO... e alguns VESPEIROS



CARLOS LEGER SHERMAN PALMER JUNIOR

Por ocasião de um trabalho de pós-graduação, respondi às seguintes questões:


Comunicação e liderança: por que elas devem caminhar juntas?

Antes de encarar a questão, devo pontuar que considero o conteúdo das unidades 1 e 2, versando respectivamente sobre Liderança e Comunicação, superficial e carente do necessário embasamento neuropsicológico. A liderança é tratada com base senso comum, e no lugar comum dos discursos da autoajuda - hoje rebatizados por “coaching” e “mentoring”; onde qualquer um pode se tornar um líder, ou um orador “inato”. Podemos ensinar técnica de liderança, mas não poderemos forjar um líder... ou “o líder do bando”.

ALGUNS VESPEIROS

A Neuropsicologia, ou Ciência Psicológica (Gazzaniga & Heatherton; 2007), é fundada precisamente para alçar o estudo do comportamento humano à condição de Ciência; cuja abordagem cumulativa de conhecimento dependerá de metodologia clara, com teorias devidamente comprovadas – ou “Método Dedutivo Baseado em Prova” (Popper; 2008). Este era o sonho de William James – há quase um século:
"Ao tratar a psicologia como uma ciência natural, quis ajuda-la a se tornar uma delas."
Mas isso nunca aconteceu... até agora, até o surgimento da Neuropsicologia. A Ciência Psicológica, portanto, não deriva da Psicologia (Pinker; 2007) (Gazzaniga & Heatherton; 2007) (Damásio; 2011), assim como a Química não deriva da Alquimia – sendo ainda, não raro, matérias antagonistas.

O eminente psicólogo Michael Gazzaniga, um dos fundadores da Neurociência, trabalhou diretamente com eminente “biólogo" Roger Sperry, ganhador do Nobel de Fisiologia e Medicina em 1981 por suas descobertas sobre a especialização funcional dos hemisférios cerebrais – especialmente no lobo frontal. Gazzaniga declarou peremptoriamente:
"A psicologia propriamente dita está morta. Ou, dito de outro modo, a psicologia vive uma situação curiosa. A minha universidade, Dartmouth, está construindo um magnífico edifício para a psicologia. Contudo, os seus cinco pisos repartem-se da seguinte forma: a cave destina-se por inteiro à neurociência, o piso térreo alberga as salas de aula e os gabinetes administrativos, o primeiro andar dedica-se à psicologia social, o segundo à ciência cognitiva e o terceiro à neurociência cognitiva. Vai lá saber porque é que lhe chamam de edifício da psicologia."
A resposta à esta intrigante questão seria dada por ele mesmo, no fabuloso marco da Neuropsicologia, que ajudou a escrever: CIÊNCIA PSICOLÓGICA – Mente, Cérebro e Comportamento (2007). Mundo afora, e principalmente nas melhores universidades americanas de Psicologia, como Harvard, Yale, Universidade da Califórnia em Davis, no SAGE em Santa Bárbara, Darthmouth, no Instituto de Neurociência do MIT etc., as grades curriculares do entendimento sobre a condição humana destacam palavras como “cérebro”, “genética”, “biologia social”, “evolução”, “cognição”... totalmente ausentes em qualquer curso de Psicologia brasileiro. Então, quando nos referimos à psicologia nos Estados Unidos ou na Europa – à exceção da França, “catequizada” pela “freudista” Elisabeth Roudinesco -, estamos na verdade endereçando a Neuropsicologia; fundamentada principalmente na Neurociência Cognitiva, Genética Comportamental, Biologia e/ou Psicologia Social e Evolucionária.

Na aula inaugural de Introdução à Psicologia em Yale, Paul Bloom esclarece – quando interpelado sobre “Freud” – um perigoso embusteiro:
"Vocês não encontrarão Freud no curso de Psicologia desta universidade, e já faz algum tempo. Talvez encontrem Freud na Sociologia, Filosofia ou Literatura."
Áreas correlatas, e dedicadas à ficção...

“ZIP Code or Genetic Code?” (“CEP - Código Postal ou Código Genético?”); esse é o provocador título da matéria da Harvard Gazette, mídia oficial de notícias da Universidade de Harvard, sobre o mais extenso e preciso estudo já realizado envolvendo gêmeos... Steven Pinker, professor emérito de Psicologia na mesma universidade, nos conta o resultado:
"[...] revela que as funções cognitivas são as que têm maior probabilidade de sofrerem influências genéticas (4/5) e as menos prováveis de sofrerem influência ambiental compartilhada (2/5)."
Por exemplo, a hierarquia ou “pirâmide” de Maslow é algo inteiramente ultrapassado, e sem qualquer fundamentação, senão pelo arbítrio de seu criador. Notem, por exemplo, a sua completa inutilidade quando conceituamos a importante e predominante herança genética. Falta também a perspectiva evolutiva; já que a hierarquia de “necessidades” parece inteiramente desconectada do processo evolutivo que a produziu. Depois, o conceito de hierarquia não foi totalmente desenvolvido, não explicando a interação entre os “níveis”, e sem levar em conta os flagrantes exemplos que violam de seu sistema “hidráulico” de classificação de “necessidades” (Cory; 1974) (Coming; 1983) (Maddi; 1989) (Smith; 1991).

Maslow e sua “pirâmide colorida” também receberam pesadas críticas por sugerir que a conquista material e sucesso são resultado inconteste do desenvolvimento humano (Yankelovich; 1981); com isso, tende a ignorar ou diminuir as grandes realizações intelectuais, morais e de serviço à humanidade, e que não estiveram centradas em resultados materiais ou exposição midiática à fama (Maddi; 1989). A hierarquia de Maslow, com seu foco quase exclusivo no indivíduo, denota pouca ou nenhuma percepção sobre a dinâmica da interação social – que nos caracteriza como humanos, troppo umanos. Este tipo de abordagem e suas emendas, nunca se tornaram de fato uma importante referência para o estudo da socialização humana, ou no campo das teorias políticas (Zigler & Child; 1973) (Knutson; 1972) (Davies; 1963), o que dirá uma abordagem séria sobre o comportamento.

Estamos aqui falando em Maslow em 2019, enquanto um editorial do New York Times publica o obituário Judith Harris – que se despediu de nós em 30 de Dezembro de 2018, aos 80 anos. Estudem Harris, estudem The Nurture Assumption, o livro que mudaria o entendimento sobre a personalidade e a relação entre pais e filhos – base para a Neuropsicologia... esqueçam Maslow et alia.

Harris foi dispensada do doutorado de Harvard pelo “famoso psicólogo” George Miller, então diretor do departamento, e tratada como uma reles “dona de casa”; para depois sacudir para sempre os dogmas do psicologismo. Harris deu a volta por cima, trabalhou como investigadora independente, e enfrentou uma grave doença degenerativa, para receber das mãos de Steven Pinker a maior honraria na psicologia: o prêmio – pasmem vocês – George Miller.


LIDERANÇA e COMUNICAÇÃO

Uma abordagem Neuropsicológica da Comunicação precisa levar em conta os aspectos neurais da fala e da linguagem, a natureza evolutiva da das expressões corporais e de dominância, o ToM – ou Theory of Mind -, a capacidade humana de imaginar o que o outro está pensando sobre o que estamos dizendo, além de muitas multiplicações deste tipo de interação... ou: “o que será que ela acha que eu acho, sobre o que ele disse?”...

Além das questões básicas de comunicação, emissor, receptor, envelopamento, mensagem, meio... é fundamental aprofundar a questão na semântica, gramática, construção lógica e conteúdo – ou CONHECIMENTO. Sobretudo quando o assunto é liderança, e aqui centrado na liderança profissional.

Steven Pinker adverte sobre o que considera o principal problema na comunicação em um ambiente profissional – mas que pode ser estendido para a vida:
"Quando você [realmente – grifo meu] sabe alguma coisa, é muito difícil saber como é não saber."
Um problema ordinário de empatia, ou a qualidade de colocar-se no lugar do outro... mas existe um degrau a mais: a capacidade de se colocar no lugar do outro pensando como o outro! E esse é o maior problema da comunicação relacionada à liderança, já que, por um lado, e supostamente, um líder deve possuir mais conhecimento em diferentes abordagens da realidade; enquanto, por outro, e quando nos referimos à questões muito específicas ou detalhadas, e ninguém sabe tudo sobre tudo, o líder precisará promover uma comunicação reversa, ou seja, ajudar o interlocutor a comunicar-se adequadamente.

Nas Unidades 1 e 2 não estamos abordando a questão mais importante – profundamente desprezada por Rogers - por exemplo: o CONHECIMENTO sobre o que pretendemos comunicar, a construção LÓGICA e GRAMATICAL da sentença, suas PREMISSAS, além da PERTINÊNCIA e UTILIDADE de sua conclusão.

A comunicação verbal é fundamentalmente uma ação, e toda ação nos leva a algum objetivo. Mesmo a introspecção, o pensamento, é – lato sensu - uma espécie de comunicação interior (Pinker; 2007). Elkhonon Goldberg, que estudou com o eminente psicólogo soviético Luria, divide o seu tempo entre as atividades de neuropsicologia clínica, docência, e pesquisas de ponta sobre as atividades do que batizou como “cérebro executivo” (Goldberg; 2002) - ou “interprete” (Gazzaniga; 2000); este é o sujeito dentro de nós... e vive no córtex frontal, normalmente do lado esquerdo. Aí também reside o líder em nós, o Diretor Executivo em nós...

Mas para exercer a liderança exterior será necessário muito mais do que isso, muito embora as respostas ainda estejam no cérebro, resultado da Genética Comportamental, e suas artimanhas Evolutivas... Talvez devêssemos chamar o “líder do bando” de “chefe do bando”, em função de sua insuspeita tirania. Estima-se que 25% dos CEOs estejam dentro do espectro de caraterização do psicopata, e esse número pode chegar a mais de 70% nos círculos políticos. Sendo assim, a tradução de Chief estaria então muito adequada em ¼ dos casos...

Finalmente, o psicopata, ou sua designação corporativa de sociopata, segue a máxima popular de “manter a cabeça fria” – ipisis litteris. O sociopata evolutivo (Goldberg; 2002) adapta o seu aparato comportamental para o poder - egocentrado, implacável, sem remorsos, nem escrúpulos, escalando com vantagens insuspeitas o cume das esferas públicas e privadas.

Suspeito que o aparente sucesso dos psicopatas se deve a um ajuste evolutivo em direção ao egoísmo, e em função de deficiências em termos de sensibilidade emocional ou empatia. O altruísmo heroico se opõe ao psicopata pela mesma linha de raciocínio, e provavelmente em função da elevada sensibilidade ao sofrimento alheio. Neste sentido, o equilíbrio natural, ou homeostase, seria obtido pela adoção de medidas que culminem com o bem comum... O neurocientista António Damásio tem as mesmas preocupações em mente em A Estranha Ordem das Coisas:
"A cooperação evolui como gêmea da competição, e isso ajudou a selecionar os organismos que mostraram as estrategias mais produtivas."
Mas existem impeditivos igualmente evolutivos para esta linha de análise, já que evoluímos para viver em clãs de 150 ou 200 pessoas, e não em megalópolis de 200.000, 2.000.0000, 20.000.000... Não seria o sucesso evolutivo dos psicopatas uma resposta à superpopulação? Ou seria exatamente o contrário? O altruísmo é jovem, e vem no encalço da densidade demográfica? Sustento que sim, e apesar de nos tornarmos mais agressivos com a densidade, também passamos a desenvolver estratégias mais bem sucedidas para a mitigação da violência.

O Batman, do imaginário popular, pratica o altruísmo, em busca do bem comum... apesar de milionário. Enquanto seus algozes, Coringa, Charada, Pinguim, almejam apenas poder, e bonança pessoal... apesar de miseráveis. Esses contos substituem as tragédias gregas... São dramas heroicos, onde acreditamos possuir mais controle sobre o destino de tudo... Sem notar, no entanto, que o supremo poder, ainda sim desprezível diante da Entropia, é o CONHECIMENTO.

E o altruísmo pode ser ensinado... Muito embora não possamos garantir que será aprendido ou praticado. E uma questão salta diante de todas: Por quê desejamos liderar? Pelo bem individual? Então seria chefia, e não liderança... Pelo bem comum? Então precisamos saber se estamos em condições de receber a tarefa. Por que empreender? Como viver melhor? Como ajudar a diminuir o sofrimento humano? Pensem nisso...

Retomando o ponto, a liderança, ortogonal à chefia, declara que “nós vamos”, ao invés de “você vai”; para finalmente elogiar que “nós conseguimos”, em lugar de “eu consegui”. O líder nato ou inato percebe que o sucesso do grupo é benéfico a ele também, e entende que chefiar um bando, ao invés de liderar, pode ser bem perigoso. Mas existem cenários onde a necessidade de chefia pelo medo se impõe à qualquer argumento em favor do idealismo de liderar... Isso diferencia ambientes pacificados e judicializados, da selva, ou da periferia, e daqueles cenários à margem da Justiça.

A Unidade 1 induz exercícios agradáveis e que revelam um pouco sobre as nossas tendências de personalidade. Também aponta – de forma leve – para uma série de boas práticas em liderança, e que naturalmente podem ser ensinadas e exemplificadas. Mas não podemos forjar um líder. Podemos melhorar um líder, ou ajudar aquele que não nasceu líder a liderar... sendo essas, sutis, mas fulcrais diferenças.

Por exemplo, uma personalidade dependente (DPD - Dependent Personality Disorder) NÃO PODE decidir. Existem personalidade neuróticas, narcisistas, autodestrutivas, sádicas, masoquistas, inseguras - patologicamente... e que jamais serão líderes... e não devem ser estimuladas a liderar. Aliás, a natureza parece subtrair os traits de liderança nestes casos... em função do risco... à exceção dos psicopatas, que ainda assim não lideram, mas chefiam.

Damásio, em a Estranha Ordem das Coisas,

Nas palavras de Jacqueline Du Pré:
"A primeira responsabilidade de um líder é definir a realidade. A última é agradecer. Entre esses dois extremos o líder deve servir."
Se este aforismo lhe diz alguma coisa, note quantos traços marcantes de personalidade serão necessários para desempenhar bem esse papel de regente de um grupo harmonioso - homeostático... aqui descrito de forma tão genial e singela.

[Escrevi um importante trabalho sobre liderança e regência... mas seria muito longo para este espaço. Desde já, ficarei feliz em enviar a quem possa interessar.]

Kaoru Ishikawa fez parte de uma verdadeira revolução no Japão pós-guerra, e influenciou mais de uma geração de empreendedores... Kaoru bem definiu o conceito de Círculo de Qualidade, e mais tarde esquadrinhou o engenhoso e simples Diagrama de Causa-e-Efeito - também conhecido como Diagrama de Ishikawa ou Diagrama de Peixe. Essa foi, sem dúvida, a maior contribuição desse mestre, fornecendo uma metodologia poderosa e segura, usada também por pessoas não-especializadas, para analisar e resolver todo tipo de problema. Sobre liderança e empreendedorismo, ele declarou:
"Na gestão, a primeira preocupação da empresa deve ser a felicidade das pessoas que estão ligadas a ela. Se as pessoas não se sentem felizes e não podem ser felizes, essa empresa não merece existir." 
Existem muitos testes para avaliar o espectro da psicopatologia – e.g., Psychopathy Checklistrevised (PCL-R) -, mas não existem dúvidas sobre a natureza genética do transtorno, nem sobre o fato que que não haverá cura. Por outro lado, não seria o psicopata um tremendo sobrevivente? Alguém que mantém a frieza diante do caos... narcisista, egoísta, calculista... dominante?

O paradoxo, afinal, sendo essa a proposta do meu trabalho na área de GRC, decorre do fato de que: (P1) os psicopatas focam em grandes organizações, (P2) e sabemos que de fato os mega-CEOs, ou super-treinadores esportivos em equipes repletas de talentos, não têm influência significativa no resultado do “jogo” (Mlodinow; 2008) (Lewis; 2013)... CEOs muito bem pagos por mega-organizações não serão capazes de influir no resultado de suas empresas - mas podem detoná-las... Grandes estruturas administrativas, com dezenas de milhares de empregados, têm os seus resultados definidos pelo convívio com a entropia, como o caminhar de um trôpego, e que não pode ser de forma alguma ordenado por um superman... Então, (S) o paradoxal é que a liderança tem muito mais impacto em grupos ou empresas pequenas, como pequenos clãs, e onde um homem ainda pode fazer a diferença. E essas empresas não precisam de fato de grandes heróis. Neste sentido sim podemos ensinar a liderança a pequenos empreendedores, que um dia poderão evoluir a médios e grandes negócios.

Vivemos a Era da Transparência, como destaca Daniel C. Dennett, Professor Emérito de Filosofia e Codiretor do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Tufts, durante um famoso discurso para calouros da turma de 2017. Precisamos sim de transparência e conformidade com as regras do jogo, e daí decorre todo o debate sobre Compliance, Risk and Governance. Afinal, hoje sabemos, convivemos com psicopatas e afins...

Este é um excelente ponto final em minha contribuição ao tema, mas preciso deixar mais algumas ressalvas para o que virá – Tarefas 3, Unidades 3 e 4: (P1) nem todos devem se aventurar na sina dos empreendimentos, e ao contrário. Muitos de nós, a esmagadora maioria de nós, será muito mais feliz sendo conduzida, guiada, liderada, de forma segura e protegida, do que encarando as vicissitudes de empreender, lutar por um lugar ao Sol, e liderar... Não é correto dizer às pessoas que podem empreender e liderar, sem maiores ressalvas; (P2) Sobre Ética, precisaremos encarar o Dilema do Pacifista – suas rubricas evolutiva, genética e neurocientífica.

P.S.: Finalmente, com tantos pensadores ilustres, com tanto conhecimento disponível, consagrado, é muito difícil "aprender" alguma coisa com opinólogos profissionais como Clovis de Barros, Cortella e Karnal... Decepcionante!!! Tenho denunciado a baixa qualidade do debate promovido por esse senhores, e seguirei denunciando.



Como você vivencia essa experiência integrativa no seu ambiente de trabalho?

 Fundei e dirigi empresas, gerenciei grandes projetos, trabalhei em 23 países, dirigindo pessoas muito diferentes em termos culturais, mas troppo umanos. Atuo como investigador acadêmico independente na área Neurocientífica, e com profundo interesse em traits de personalidade e transtornos. Escrevi livros sobre Ética, Comunicação, Liderança, e hoje estou preparando um curso sobre o assunto, envolvendo ainda GRC – Compliance, Risk, Governance. Considero a abordagem escolhida revolucionária e consciliente.

A abordagem do assunto é inteiramente nova para os padrões brasileiros, mas está consonante com o conhecimento disponível no exterior, e nos grandes centros de investigação, como Harvard, MIT, sobre “o que nos torna humanos” (Ridley; 2008). Trabalho com a Neurociência Cognitiva, Genética Comportamental, Biologia Social e Evolutiva... e não vendo ilusões. Assim que esse debate tem tudo a ver com minha vida em muitos sentidos, como empresário, consultor, pensador, investigador acadêmico, escritor e palestrante.



A comunicação tem sido efetiva - transmissão <-> compreensão?

Acredito que sim. E o “x” da questão, como ressaltei antes, é o entendimento sobre a necessidade de clareza na “construção” da mensagem, parte gramatical, lógica e conteúdo. E a integridade intelectual... E falta abordar prioritariamente essa questão: A utilidade da mensagem e da comunicação é essencial. As premissas, sentenças, e respectivas conclusões, devem “endereçar a verdade” (Sherman; 2015). Além do protocolo, a mensagem deve estar bem construída e o tema deve ser bem conhecido. Para finalmente encarar o “problema do conhecimento” – ou “da falta de”... Onde um dos interlocutores não dispõe de estrutura prévia capaz de aproveitar a mensagem que está sendo transmitida. Esse também é um problema do Hipocampo, já que o registro de todo aprendizado, sabemos, depende da atividade desta área do sistema límbico, e que opera sob estimulo de neurotransmissores. Ou seja, registramos mais quando estamos excitados, e nos excitamos mais quando estamos familiarizados com o assunto, ou “impressionados”...

Em sentido muito amplo, defendo que vivemos contra a Entropia – Segunda Lei da Termodinâmica, e Primeira Lei da Neurociência. (Pinker; 2018) Jogamos contra uma sorte deletéria, mecânica e biológica, implacável em termos probabilísticos, de forma que tratamos de aprimorar a previsibilidade pelo conhecimento. Daí o comportamento, daí nosso destino... daí a comunicação, liderança, e todo o resto. Portanto... Entendamos a Entropia, a Genética e a Informação. Esse é o Jogo da Vida.



Carlos Leger Sherman Palmer Jr

sábado, 31 de março de 2018

Sobre Joaquim Barbosa, Pretos e Negros

Resultado de imagem para negra rosto folha de são paulo

Sobre Joaquim Barbosa, Pretos e Negros
Por Carlos Sherman

[Na foto, publicada em matéria da Folha de São Paulo, uma belíssima mulher que se declara "preta", onde podemos denotar de forma insuspeita a pigmentação rica em melanina que a Evolução selecionou para a proteção contra os perigosos raios UV... além da marcante miscigenação em seus traços africanos, europeus e asiáticos...]


Um amigo publicou um panfleto em apoio à candidatura de Joaquim Barbosa, um verdadeiro "herói nacional"... O meu apoio a dita candidatura é total e irrestrito, já que o tom desta eleição será a "honestidade" - e muito me preocupa, já que este deveria ser apenas um pré-requisito. Não obstante, e sem maiores delongas, voto em Joaquim, não havendo outro candidato à altura em termos de atitude ética, coerência, integridade intelectual etc... Pero, o primeiro desafio será o partido, já que o PSB foi aliado de Lula, Dilma, Garotinho, entre outros picaretas... e segue na contravenção com Alckmin, Márcio França, Temer etc... E o Joca precisará subir no palanque com muitos investigados da Lava-Jato, assim como muitos participantes diretos e indiretos do vergonhoso escândalo do Mensalão - onde "nosso herói" serviria à nação como um feroz algoz, e guardião da Justiça. E aí, Joquinha Barbosa, vai ficar e enfrentar, ou correr muito - como o Zequinha?

Mas, uma apologia fora de lugar me chamou a atenção no panfleto,  a falsa alegação de que "isso é importante, já que 54% da população do Brasil é preta". Não é verdade, e mesmo que fosse trataria-se de um claro non sequitur, já que estamos falando em presidência do Brasil e não sobre racismo. E se o tema for o racismo, então muito mais precisará ser dito sobre a candidatura de Joaquim e a falsa afirmação do panfleto; afinal, e segundo o IBGE/Pnad (2017):
A população que se declara preta no pais cresceu 14,9% de 2012 a 2016, mostrou a Pnad em pesquisa domiciliar de abrangência nacional do IBGE, divulgada nesta sexta-feira. O levantamento é feito por meio de autodeclaração, e o IBGE utiliza o termo preta para se referir a raça negra. 
Desta forma, a população negra no Brasil está assim distribuída em termos de melanina e preferência pessoal:
Do total da população, 46,7% se declararam pardos, alta de o,6 ponto percentual em relação ao ano anterior. Os autodeclarados pretos corresponderam a 8,2% da população, alta de 0,5 ponto percentual. Na outra ponta, brancos somaram 44,2% em 2016, queda de 1,3 ponto percentual em relação a 2015. (IBGE/Pnad; 2017)
Se observarmos que pardos englobam diferentes etnias, características, e variantes fenotípicas, podemos afirmar que a declaração de "54% de negros" - somando especiosamente pardos e pretos - é falsa e viciada, não correspondendo minimamente à realidade. Sem considerar que toda a apologia à dita "Consciência Negra" tem produzido adesões ideológicas, mas sem qualquer correspondência biológica, genética, antropológica ou étnica. Somos, na verdade, 8,2% de pretos!
Segundo a gerente da Pnad, Maria Lucia Vieira, a queda dos pardos no Nordeste e Norte pode estar ligada aos movimento de reafirmação racial no pais. Mais negros estariam se declarando como tal, reduzindo, então, a quantidade de pardos. 
Mas, a quem interessa toda essa ladainha racial, e toda esta estória muito mal contada? A concentração de melanina em nossa pele serve tão e somente à proteção contra raios UV... Donde presumo que todo o debate em torno deste particular deveria focar em problemas como a carência de vitamina D, lúpus, câncer de pele etc... Em um recente e curioso estou o de DNA dos cantores Seu Jorge e Neguinho da Beija Flor foram rastreados até a Europa, enquanto Alcione é inexoravelmente africana. E daí? O que isso nos diz sobre a INDIVIDUALIDADE, sobre o caráter, personalidade? Sobre a Escravidão? E respondo à pergunta retórica  com um retumbante NADA!

Centenas de ONGs estabelecidas na África tratam de conter o comércio de membros amputados de crianças albinas, e vendidos como amuleto da sorte por um punhado de dólares. Isso, enquanto celebramos o Dia da Consciência Negra no Brasil na data de morte do maior proprietário de escravos em seu tempo - cerca de 400. Longe de fundar um movimento libertário, Zumbi dos Palmares tratava de estabelecer um reino em formato africano de época, e com direito a escravos... muitos!!!

A primeira medida de um negro alforriado no Brasil, no tempo de Zumbi, era possuir escravos, ou possuir "gente". Nos censos à época, mulheres negras eram muito mais numerosas do que as brancas em termos de declaração de propriedade de escravos para o serviço doméstico, embora possuíssem normalmente menos escravos. Em um caso muito bem documentado, Zé Alfaiate, capturado por seus conterrâneos africanos no reino de Angola, seria negociado com traficantes iberos, levado como mercadoria ao Brasil, vendido e alforriado prematuramente... Então, ainda jovem, Zé decide voltar à "Mãe África" para tentar a sorte, e casando-se com a filha de Chachá, o maior negociante de escravos da África Atlântica.

Em um documento particularmente odioso, Zé assina uma "fatura" dando fé de que os escravos de um determinado cliente, e que deveriam ser marcados com o número 5 - conforme o pedido de compra -, em função da quebra do ferro em brasa, foram marcados com a letra V; e demonstrando com certo orgulho o seu conhecimento sobre os Algarismos Romanos, além do seu franco desprezo por seus conterrâneos, humanos como ele, e que começavam uma jornada aterrorizante, e onde ele também havia sido um passageiro da agonia...

Lembro-me agora, com orgulho, de quando fui ovacionado em um debate por declarar que TODOS NÓS VIEMOS DE UMA MESMA MÃE NASCIDA NA ÁFRICA SUL-ORIENTAL HÁ CERCA DE 200.000 ANOS... E lembro-me, de forma ainda mais vívida e enaltecida, do silêncio incômodo que se seguiu quando continuei: E NESTA ÉPOCA, A NOSSA PELE ERA BRANCA, CLARA, ROSADA, ABAIXO DA PELAGEM AINDA ESPESSA, COMO EM NOSSOS PARENTES CHIMPANZÉS.

Em uma única sentença o dilema racial é reduzido a pó, e a cor volta ao seu lugar bioquímico - de origem. Entendo o dilema racial, mas qual é a cor do poder? Negros submeteram brancos, assim como brancos submeteram negros, amarelos... Pardos, cafuzos, caboclos, e o que mais? Mas  afirmo que a luta contra esta pendenga e sofrimento não partiu - jamais - da África, senão da Inglaterra e do Iluminismo Francês. Qual foi a "consciência negra"? Luther King lutou contra o preconceito nos Estados Unidos, mas não ousou questionar as raízes deste flagelo humano na "Mãe África", enquanto incrementava a audiência (e.g.) de seu programa de rádio pregando a "Cura Gay"...

Em 1958, enquanto escrevia uma coluna de conselhos para a 'Ebony Magazine', 'Dr. King' foi interpelado por um leitor que se declarava "gay":
O seu problema não é totalmente incomum. No entanto, ele requer muita atenção. O tipo de sentimento que você tem para com os meninos provavelmente não é uma tendência inata, mas algo que foi culturalmente adquirido. Suas razões para adotar esse hábito já foram conscientemente suprimidas ou inconscientemente reprimidas. Portanto, é necessário lidar com este problema voltando a algumas das experiências e circunstâncias que o levaram a este hábito. A fim de solucionar a questão, eu sugiro que você consulte um bom psiquiatra que possa ajudá-lo a trazer para o primeiro plano da consciência todas essas experiências e circunstâncias que levaram ao hábito. Você já está no caminho certo em direção à uma solução, desde que você honestamente reconheça o PROBLEMA - grifo meu - e tenha o desejo de RESOLVÊ-LO.
A filha mais jovem de King declarou durante uma conferência em Auckland, Nova Zelândia:
Eu sei do fundo do meu coração que meu pai não levou um tiro em prol de uniões homossexuais.
Ela só faltou agregar "nojentos", ou coisa pior... Mas o 'Fé em Contexto' não perdeu a oportunidade:
Obama em seu pronunciamento gayzista usou as palavras de Jesus para justificar seu apoio ao casamento gay. [...] Mas há uma falha na compreensão do Teólogo-Presidente. Citando o Velho Testamento, Jesus disse: 'Por esta razão, o homem deixará seu pai e mãe e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma só carne' (Marcos 10:7-8). Um homem, uma mulher.

Ele esqueceu de dizer que esta mulher poderia ser negociada e comparada a jumentos... Mas todos eles estão certos sobre as convicções de King... 

Lato sensu, a realidade e a verdade não pode ser sexista nem racial! E muito me preocupa o recrudescimento deste debate racial repletos de vícios de consentimento, ideologia, e desprezo pela verdade; quando poderíamos estar trabalhando exatamente para superar este triste capítulo da história humana - troppo umana. A escravidão nunca foi um problema racial, sendo a África - ontem e hoje - o continente que mais escraviza e atenta contra os Direitos Humanos, Civis e Individuais. Iguais sim, igualdade não... Somos diferentes, e o direito ao empenho humano nos trouxe até aqui, e com profundas vantagens... diminuindo a mortalidade infantil em 40 vezes, a violência em mais de 100 vezes, e aumentando a expectativa de vida em três vezes - adormecida desde o Homem de CroMagnon, e até o fim da Idade Média, até o inevitável confronto com a Ciência Médica. 

A solidariedade deve ser buscada e estimulada, e assim tem sido, e assim seguirá, de forma contingente, convergente e cega! Pois, abramos os olhos para ajudar, servir, e catalizar este processo de melhoramento contínuo. E observe que, em relação à esse assunto, tudo o que você pensava saber estava inescapavelmente equivocado... E o que mais você pode estar perdendo? O que mais estará mal entendendo? Voto em Joaquim, torço que sua dignidade seja maciça, contínua, duradoura... e jamais me importei com o seu filtro solar inato.

Q.E.D.

Carlos Sherman







sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Paradoxo do 'Feminismo'



Existe uma contradição no cerne da questão ‘feminista’, uma contradição que poucas feministas enxergam, reconhecem ou aceitam... 

(1) Somos Iguais: o 'feminismo' clama por igualdade e identidade entre mulheres e homens... Abaixo o sutiã, diferenças estéticas, corte de cabelo, pelos nas axilas, etc.;
(2) Somos Diferentes: mas alega que homens e mulheres são diferentes, e que as mulheres são superiores aos homens... Os homens devem 'mudar', mas as mulheres estão bem adaptadas...

Não podemos afirmar que homens e mulheres estão igualmente adaptados para todos os tipos de trabalho, e também não podemos afirmar que se todos os trabalhos fossem feitos por mulheres eles seriam feitos de um modo diferente, melhor, superior, ou mais eficaz... Por isso declarações feministas de superioridade da mulher em relação ao homem estão distantes de uma correta abordagem do ‘natureza humana' e sua 'diversidade'... 

O 'feminismo' afirma explicitamente que 'se houvessem mais mulheres em cargos de poder prevaleceriam valores mais humanos'... Parte-se, então, do pressuposto de que 'as mulheres diferem dos homens em sua natureza'... Supostamente, e ainda segundo o 'feminismo', se as mulheres gerissem ou cogerissem o mundo haveriam – por exemplo – menos guerras... Algumas arriscam mesmo a dizer que “não existiriam guerras”... Quando mulheres estão à frente de empresas, parte-se do pressuposto de que ‘haverá mais cooperação, em detrimento da competição - marcadamente masculina’... Estas são afirmações explícitas e firmes de 'puro sexismo', mas que realmente dizem que ‘a mulher tem uma personalidade e natureza que diferem do homem’... Dito de outra forma: 'se a mulher difere do homem em personalidade, significa que provavelmente sejam melhores ou piores do que os homens em determinados trabalhos tipos de trabalhos'... O que está cientificamente demonstrado...

Não podemos simplesmente ‘jogar tênis sem rede’, ou seja, alegar diferenças quando convém, e negá-las quando não convém... Chamamos a isso, em Psicologia, de Desvio Cognitivo de Confirmação... Também não poderemos apelar impunemente para as “pressões e convenções sociais” - um terreno pantanoso - para justificar tais diferenças... Se o “patriarcado” dispusesse de tamanho poder, como os cientistas sociais nos querem fazer crer, a natureza de uma pessoa seria irrelevante... Sendo assim, e apenas como exemplo, um homem proveniente de um lar desfeito e que viveu uma vida dedicada ao crime seria um produto inequívoco desta experiência... A correlação é realmente alta, de um lar violento produzir indivíduos violentos, MAS NÃO SE FOREM ADOTADOS... O que nos diz que a genética compartilhada por pais e filhos desempenha um papel fundamental... No caso de gêmeos homozigóticos, se um dos gêmeos é gay, existirá uma correlação de 70% para que o outro também seja gay... Se forem criados em lares diferentes esta correlação cai para 50%, e se forem gêmeos dizigóticos criados no mesmo lar, a correlação despencará para cerca de 16%... 

Estamos mais uma diante da falaciosa teoria da Tábula Rasa - termo cunhado por John Locke (1632-1704), e um dos pilares para todas as teorias sociais... Somos, segundo este princípio, uma folha em branco no qual a personalidade e o caráter são impressos por meio da cultura e do processo de socialização; desprezando inteiramente a condição natural do ser humano, em favor de uma 'sociologização' do comportamento... Convenceu a muita gente e por muito tempo, e segue predominando como a 'crença vigente' até os nossos dias, mas realmente não passa de mera 'crendice'...

Tal premissa equivocada nortearia o pensamento ocidental de Platão a Marx, passando por More, Montaigne e Rousseau, para citar apenas uma das inúmeras ramificações que tal doutrina produziu... O 'freudismo' delirante e as próprias tradições espirituais navegaram a mesma nau... Não somos um mero produto do meio, com Marx 'reafirmou'... O aprendizado do meio, possibilitado e dirigido por nossa genética, operando a partir de nossa bioquímica e neurofisiologia, constitui o complexo de nosso comportamento... 

Conceitos utópicos como a "construção do novo homem" de Lenin não passaram de  uma caricatura falaciosa da realidade, e inescapável demonstração da força do culto à personalidade... A exegese de tal ideário revela a arbitrariedade e o despotismo em pretender julgar e definir 'como seria' este "novo homem"... Faces do 'narcisismo leninista-marxista', uma utopia irreal e surreal... Hodiernamente nos divertimos com de tais disparates, que, no entanto, fundamentam a enclausurada 'Filosofia-Sociológica’... Mas este é outro assunto...
  
Inegavelmente as memórias episódicas, conceituais e referenciais do presente e o passado fazem parte do acervo de referências e experiências de um ser humano; mas tais impressões cognitivas serão percebidas e capturadas por nossa cognição e tratadas em nossa natureza... As diferenças entre 'gêneros' e 'inter-gêneros', jogarão um importante papel neste complexo, fazendo parte desta natureza ... 

Afirmar, por exemplo, que 'mulheres não escolhem a carreira política porque foram condicionadas a pensarem na política como uma carreira para homens’, subestima o papel e a força da mulher... A política tem tudo a ver com a busca de estabilidade, e sobre a qual, e majoritariamente, as mulheres têm se saído melhor do que os homens... As mulheres podem entrar para a política se o quiserem, e a sociedade ocidental diz que SIM... Um dos motivos que tornam a carreira política pouco atrativa para as mulheres, pode muito bem estar representado pelo 'sexismo' que vai na cabeça daqueles que as rodeiam... Mas também seria absurdo admitir tacitamente que é a única coisa que pesa é a opinião alheia...

Já argumentei - anteriormente - que homens e mulheres são diferentes, sob muitos aspectos, e não sobre todos os aspectos... E também demonstrei que tais diferenças provêm de um passado evolutivo no qual os homens caçavam e as mulheres coletavam...

Os homens percorriam grandes distâncias em busca de caça, e precisavam naturalmente enfrentar o desafio da 'orientação espacial’... As mulheres colhiam frutos e tubérculos, necessitavam de uma 'visão detalhada’ de seu entorno, mas permaneciam nas redondezas de seu núcleo de fixação... Por isso, e sem demora, antes que seja acusado de dizer que ‘lugar de mulher é em casa, enquanto o maridão sai para sustentar a casa', devo adverti-los e surpreendê-los com a excepcional observação de Matt Ridley (‘A Rainha de Copas’):

“A prática de sair de casa para trabalhar num escritório ou numa fábrica é estranha e nova para a psicologia do macaco antropoide que vivia na savana. É igualmente tão estranha para um homem como para uma mulher. Se no Pleistoceno os homens saíam de casa para realizarem longas caçadas, enquanto as mulheres percorriam distâncias mais curtas para recolherem plantas, então talvez os homens estejam mais bem adaptados para viagens longas até o emprego.”

Talvez... Mas o que realmente importa é que ninguém, mulheres ou homens, está realmente adaptado evolutivamente para ficar sentado como secretária falando ao telefone, ou passar dias a fio em uma bancada de fábrica apertando parafusos em moto-continuo... O fato do “trabalho” ter se tornado uma tarefa dita “masculina” enquanto o “lar” se tornou uma tarefa dita “feminina” é um acidente histórico: a domesticação do gado e a invenção do arado transformaram a coleta de alimentos em uma tarefa que podia se beneficiar da força física masculino... Porém, em sociedades onde a terra ainda é trabalhada à mão, são as mulheres que fazem a maior parte do trabalho... A revolução industrial veio reforçar tal tendência... Mas a revolução pós-industrial, com a crescente e 'recente' oferta de serviços, reverter mais uma vez tal tendência... As mulheres estão novamente ‘saindo para trabalhar fora de casa’, tal como o faziam quando procuravam tubérculos e frutos no Pleistoceno... Por isso, não existe qualquer justificativa com base na Biologia Evolucionária que sirva de esteio para a visão machista de que “os homens devem ganhar dinheiro e as mulheres devem cozer as suas meias”... 

Podemos, no entanto, topar com profissões - tal como a mecânica de automóveis ou a caça - para as quais os homens estarão mais bem adaptados neuropsicologicamente e fisiologicamente do que as mulheres... Assim como existem profissões - tal como a medicina ou a educação – para as quais as mulheres estarão naturalmente melhores adaptadas... 



Apesar da natureza ser originalmente 'fêmea', e apesar de sermos todos 'fêmeas' até a sexta semana de gravidez - contrariando a ignorância bíblica -, a biologia não pode ser invocada pelo sexismo quando tratamos de ‘carreiras’... De fato, e curiosamente, olhando de uma perspectiva evolucionária, encontramos muitas mais sustentações para uma atitude igualitária de 'oportunidades' na Biologia e na Etologia do que a própria ‘Filosofia’... Na verdade devo ir mais longe afirmando que todas as questões ditas ‘morais’ e, portanto, ditas subjetivas, podem ser reduzidas a questões objetivas, onde a CIÊNCIA poderá contribuir - sendo o 'gênero' uma delas... 

E não espero mais para dizer que:

Mulheres, homens, humanos, tem 'expectativas' diferentes, o que não condiciona uma 'capacidade' diferente!!! Isso muda tudo, e novamente subverte a questão... Somos diferentes, evoluímos naturalmente para desempenhar papéis diferentes, e 'de um momento a outro', afinal 50.000 anos é um lapso evolutivo, nos vimos em um mundo inteiramente novo, gozando das mesmas faculdades inatas...

Ao longo de gerações o sucesso reprodutivo dos homens dependeu de sua posição hierárquica e política... As mulheres raramente foram incentivadas a este tipo de ‘batalha’, afinal  o seu sucesso reprodutivo dependia de outros fatores... Por isso a perspectiva evolucionária prevê que as mulheres não manifestarão, com tanta frequência, interesse espontâneo pela política... Mas nada implica em que não seriam boas no trato com as questões políticas - e ao contrário... As evidências sugerem que as mulheres são, em média, ligeiramente melhores do que os homens na gestão de países...

Não posso perder a oportunidade de dizer que este não é o caso da ‘masculinizada’ “presidenta Dilma” - um mero avatar do “Lulinha paz e amor” [sic]... Em suma, e no caso do 'gerenciamento', as evidências 'parecem' apoiar o pressuposto 'feminista' de que ‘existe um certo toque feminino’ para governar... Vejamos: intuição, avaliação de caráter, desapego em ‘adorar a si mesma’, diplomacia, etc... ‘- Morram de inveja, homens!!!’ 

Estamos falando em 'tendências' inatas, e muitos outros fatores serão importantes na especialização para o bom cumprimento de uma função, além da experiência... Infelizmente, muitas organizações - sejam empresas, instituições de caridade, ou governos - recompensam a 'ambição astuciosa' ao invés da 'capacidade'... Nem sempre os melhores na ‘guerra para chegar ao topo’ serão os melhores para o bom desempenho da função... E não sei por que ‘o capo Lula’ me vem à mente novamente [sic]!!! 

E já que homens estão mais preparados para a ‘guerra’, não nos beneficiamos tanto quanto poderíamos deste ‘toque feminino’ na administração... Devemos assinalar tal condição, não para acirrar a 'luta sexista', mas para retificar a compreensão sobre a natureza humana, em benefício das gerações vindouras, que poderão contar com o ‘ponto de vista’ das mulheres... Não defendo ações ditas ‘positivas’ e sim pleno esclarecimento... Não defendo ‘cotas femininas’, e sim esclarecimento público e acadêmico... 

As 'feministas' têm uma agenda diferente, e acreditam em cotas para a representação proporcional de mulheres no parlamento e no governo... Elas poderiam ter razão se assumissem  que as mulheres são ‘diferentes por natureza’... Se forem iguais, então não haverão motivos para considerar que homens ou mulheres fariam um melhor trabalho - e nem que cada qual representaria apenas o interesse de seu ‘gênero’... Notaram o périplo conceitual e paradoxal??? Iguais ou diferentes??? 

Acreditar na ‘igualdade de oportunidades’ para os sexos é uma proposta justa, mas acreditar na ‘identidade sexual’ é outra questão – uma questão muito peculiar, certamente 'pouco feminina', e muito 'mal colocada'... E deixar que os pelos cresçam sob as axilas não contribuirá para o debate - e ao contrário...

Este é um mundo 'novo'!!!

As poucas 'feministas' que entendem e reconhecem tal contradição são denunciadas no 'pelourinho' da categoria... A enfadonha escritora americana Camille Paglia é uma das poucas militantes feministas que denunciam este truque 'impossível': ‘provar que o homem deve mudar a sua natureza, enquanto insistem que a natureza das mulheres é especial e imutável’... Ela argumenta sabiamente que os homens não são mulheres dentro de um armário e que as mulheres não são homens dentro de um armário:

“Acorde! Homens e as mulheres são diferentes.” – Camille Paglia

Os cérebros de homens e mulheres são mais parecidos do que diferentes, e parafraseando Matt Ridley, 'a similaridade é a sombra da diferença'... Somos humanos, homens e mulheres, mais parecidos do que diferentes... Mas somos diferentes... Isso não erige um muro de impedimentos, mas sim uma tremenda escada de compreensão para que olhemos por sobre as divisórias naturalmente erigidos pela Evolução e pela Cultura, e por sobre as barrigadas erigidas pelo 'feminismo'... 



Chamo a atenção ainda, e concluo com destaque, para o fato de que a agenda do 'feminismo' pode estar totalmente equivocada, a ponto de não notar uma questão muito mais ampla e legitima: A QUESTÃO DA INDEFINIÇÃO DE GÊNERO... 'Feministas' podem estar diagnosticando mal o problema, e prognosticando a solução de forma ainda mais confusa e contraditória...

Convivemos com uma anatomia genital que pode estar 'mais ou menos definida' quanto ao gênero, um cérebro mais ou menos definido, com paridade ou não em relação à nossa anatomia, e uma riqueza bioquímica hormonal, além dos complexos e 'dinâmicos' papéis sociais e culturais para homens e mulheres... Não existe um 'padrão' de pureza masculina ou feminina, e estamos no século que enfrentará e dará respostas definitivas à esta questão... Somos humanos, dispomos de 'características' referenciadas como mais ou menos masculinas; e poderemos acomodar, em futuro próximo, muitas e diferentes formas de conviver com diferentes expectativas... Não dependeremos do 'tudo ou nada', 'macho ou fêmea', abrigando novas expressões e possibilidades HUMANAS - troppo umanas... Diferentes tipos de 'homens', de 'A a Z', diferentes tipos de mulheres, e múltiplos tipos alternativos, todos eles HUMANOS, e fazendo jus às mesmas prerrogativas da cidadania, dos direitos humanos e individuais...

Na via auto-imune e frustrante do 'feminismo', seguem mulheres que, por diferentes questões relacionadas à personalidade, empunham bandeiras que ainda não entenderam - ou não podem entender -, ao lado de uma MAIORIA que ainda não encontrou clareza sobre sua REAL condição INTER-GÊNERO: 'cérebros um pouco masculinizados, em corpos anatomicamente mais femininos', e com um mundo de possibilidades pela frente... Podem assumir esta personalidade 'mais masculina' além de uma sexualidade mais masculina; ou podem - por exemplo - conviver com homens que disponham de perfis de personalidade mais 'femininos', mesmo que ambos decidam manter-se dentro da convenção hétero... 

E NÃO É ISSO QUE SE VÊ??? Aquele tio e aquela tia, um belo casal, ela com trejeitos 'ditos' masculinos, e ele com um certo toque 'feminino'??? 



Não foi Milton Nascimento quem disse que "TODA MANEIRA DE AMOR VALE À PENA"??? Hoje lutamos pelo DIREITO AO AFETO... E ISSO DEVE ENCERRAR O VELHO 'MAL-ENTENDIDO' FEMINISTA!!!

Espero que um futuro próximo possa acomodar todas as diferenças, entendendo sobretudo que:

SOMOS MARAVILHOSAMENTE IMPERFEITOS... 

Sem 'deuses' ou magos filosóficos, dediquemo-nos com curiosidade e alegria, e sem preconceitos, à nobre tarefa de desvendar e conhecer - parafraseando Sagan - 'a ficha do órfão': o HOMO SAPIENS...

E a propósito: FEMINISMO TAMBÉM É UMA FORMA DE PRECONCEITO!!! 

Carlos Sherman




terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Obesidade




Drauzio Varella 

OBESIDADE

Bernardo Leo Wajchenberg é médico. Professor de endocrinologia, influenciou a formação de inúmeros profissionais dessa área em todo o Brasil.

A obesidade é um dos problemas mais importantes que a Saúde Pública enfrenta hoje no Brasil e em outros países do mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que, atualmente. nos países desenvolvidos, ela seja o principal problema de saúde a enfrentar.

Por que as pessoas estão engordando tanto? De onde vem esse desespero pela comida e a dificuldade para perder peso? A resposta, por certo, poderá ser encontrada nas raízes evolucionistas do homem. Há 50 mil anos, nossos antepassados tinham grande dificuldade para conseguir alimentos. A possibilidade de estocá-los é contemporânea ao advento da agricultura há dez mil anos, um segundo em termos evolucionistas. Essa carência alimentar moldou o cérebro humano de tal maneira, que ele busca obter o máximo de calorias possível para mobilizar energia acumulando-a sob a forma de gordura que, teoricamente, será usada nos períodos de fome provocados pela escassez de comida.

Entretanto, no mundo moderno, a realidade é bem diferente. A geladeira pode conservar alimentos variados por dias e semanas. Basta abri-la para saboreá-los. A propaganda nos incita a comer produtos altamente calóricos por preço razoável. Basta uma ligação telefônica para temos comida de diversos tipos e nacionalidades entregue, em poucos minutos, na porta das nossas casas.

Nosso cérebro condicionado em tempos de penúria agora encontra fartura e o mecanismo evolucionista que selecionou pessoas capazes de acumular gordura, decisão inteligente no passado, se volta contra elas. Reverter esse processo é tarefa árdua e muitas vezes inglória. No entanto, é preciso estar alerta. O excesso de peso está associado a uma série de doenças que comprometem a qualidade e a duração da vida.

DESEQUILÍBRIO ENTRE INGESTÃO E QUEIMA DE CALORIAS

Drauzio – Você, que tem grande vivência clínica e enfrentou pessoalmente o problema da obesidade, como enxerga a dificuldade de tantas pessoas para perder peso?

Bernardo Leo Wajchenberg – O homem moderno está pagando as contas pela facilidade de conseguir alimentos. Além disso, a tendência ao consumo do fast-food representa sério empecilho para resolver o problema. Na hora do almoço, em vez de sentar-se e comer arroz com feijão e salada como se fazia antigamente, a pessoa aproxima-se dos balcões das lanchonetes e se contenta com um hambúrguer e um milk-shake, alimentos de alto valor calórico que provocam sensação de saciedade. A gordura tem essa vantagem: comê-la garante sensação de bem-estar, de estômago cheio. Por outro lado, a vida moderna está marcada pela falta de atividade física e não há o gasto calórico suficiente. Ninguém anda mais. Todos se valem do transporte coletivo ou, o que é pior, do individual. Portanto, estamos comendo mais e gastando menos. Do ponto de vista termodinâmico, estamos armazenando calorias. É bem verdade que existem indivíduos, infelizmente a minoria, que comem muito e gastam muito também. A regra, porém, não é essa.

Já se procurou, por muitos anos, uma causa metabólica primária para a obesidade. Existem as formas ditas genéticas que são extremamente raras, raríssimas. Até hoje, encontrei apenas um indivíduo de cabelos vermelhos obeso (os ruivos podem ter um defeito na produção de melanocortina), mas esse achado tem valor apenas para o estudo da fisiopatologia da obesidade.

Então, a experiência que tenho é muito ruim. Eu e todo o mundo. O que costumo sugerir para os obesos é uma alimentação razoável, porque dietas muito restritivas não têm mais cabimento nos nossos dias. O indivíduo não deve perder muito peso. Em torno de 7kg a 10kg no prazo de alguns meses melhora as complicações que a obesidade traz consigo.

O problema é tão sério que o número de cirurgias da obesidade, ou bariáticas, aumenta a cada dia. Para muitos obesos mórbidos não existe outra solução apesar de estarmos substituindo uma doença por outra.

O procedimento cirúrgico mais frequente em nosso meio é a cirurgia de Capela em que se reduz o volume do estômago. Não se consegue interferir, porém, na vontade de comer. O paciente para de comer porque se o fizer vomita, não aguenta o mal-estar. Conheço um indivíduo que passou a tomar leite condensado, alimento de alto valor calórico, como se sabe, mas que é aceito pelo estômago cuja capacidade ficou reduzida a 20cm³ aproximadamente.

TENDÊNCIA AO SEDENTARISMO

Drauzio – Em geral, os obesos são vistos como pessoas desavergonhadas, de caráter fraco, o que injusto.

Bernardo Leo Wajchenberg – Isso é um absurdo. É inconcebível tal julgamento. Ninguém quer ser gordo. Eu, que sou um semigordo e fui um grande obeso tinha vergonha da minha condição e não ia à praia nem ao clube. O problema da obesidade está relacionado com o ambiente familiar, a genética e o sedentarismo. Decorre, em parte, como consequência da vida moderna e da falta de ensinamentos sobre a necessidade de praticar esportes. Só os adolescentes o fazem. A regra é que com o passar dos anos o indivíduo se mexa menos e coma mais. O rapaz se casa, por exemplo, as responsabilidades aumentam, ele come mais e engorda. Quando estudei nos Estados Unidos, reparei que eram gordos os diretores da instituição. A arraia-miúda, o pessoal de baixo, era toda magra.

A obesidade de per si não é um mal, se o obeso não apresentar outros fatores de risco, como colesterol elevado, hipertensão, diabetes. Não me lembro de nenhum paciente meu, um grande obeso, que tenha ultrapassado os 50 anos. Todos morreram antes de complicações cardiovasculares, de fraturas seguidas de embolia pulmonar, etc.

Em alguns países, há grupos populacionais em que a obesidade é mais frequente. Nos Estados Unidos, por exemplo, os índios que vivem no Arizona constituem um caso típico. Eles eram pobres, trabalhavam no campo e eram magros. Quando foi descoberto petróleo em seu território, as companhias petrolíferas lhes compraram as terras, deram-lhes royalties e eles pararam de dedicar-se à agricultura familiar. Como consequência, a obesidade tornou-se prevalente entre eles.

Drauzio – Quanto mais pobre a pessoa, maior é a tendência para comer mais gordura e mais carboidrato?

Bernardo Leo Wajchenberg – O problema está na comida com alto valor calórico. Em países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos, está caindo o número de obesos na classe A, ao passo que nas classes B e C esse número está subindo. Outra constatação triste é que o exercício físico não faz parte dos hábitos de vida dessa população. No meu ponto de vista, andar não ajuda a pessoa a perder peso. Já fiz um cálculo uma vez e cheguei à conclusão de que eu teria de caminhar 40km para perder um quilo. O exercício tem que ser aeróbico. Nas academias e clubes, só há jovens e umas poucas pessoas mais velhas que se acostumaram na juventude com a atividade física.

A obesidade é um problema muito sério e não há empenho por parte das autoridades governamentais para resolvê-lo de vez. Tenho uma triste opinião que compartilho com pesquisadores americanos a respeito desse assunto. Aos governos não interessa acabar com o problema. As indústrias envolvidas na fabricação de produtos para o controle da obesidade, as academias e outras instituições frequentadas por quem quer emagrecer rendem valores altos em impostos. Campanhas como “São Paulo, mexa-se!” são importantes, mas pouco eficientes e perdem para o apelo do interesse comercial.

TECIDO ADIPOSO: MAIOR GLÂNDULA ENDÓCRINA

Drauzio – Na época em que fui seu aluno na faculdade, o tecido adiposo era considerado um tecido inerte, mero depósito de células gordurosas que acumulavam energia para ser queimada num momento de necessidade. Esse conceito mudou completamente, não é mesmo?

Bernardo Leo Wajchenberg – Hoje está provado que o tecido adiposo é a maior glândula endócrina do organismo. Existem dezenas de hormônios produzidos por ele, hormônios ligados à hipertensão (angiotensinogênio) e ao apetite, como a lepitina, por exemplo. Quanto mais gordura, maior a produção desse hormônio que age no cérebro e faz diminuir o apetite. O obeso, porém, que tem muita lepitina, desenvolve resistência a ela. Se não fosse assim, ninguém seria gordo.

Drauzio – Quando a pessoa perde gordura, a lepitina cai. Nesse caso, o que acontece com a fome?  

Bernardo Leo Wajchenberg – A lepitina não tem muito a ver com a fome no grande obeso, como tem nos não obesos e nos animais experimentais. Por isso, é dificílimo tratar da obesidade. A experiência me mostra que deve ser dada uma orientação dietética aos pacientes. A dieta baseada em pontos atribuídos a cada alimento pode ajudar. Idealmente existe uma série de alimentos que devem ser evitados. Isso não quer dizer que nunca mais se possa comer pizza ou beber uma ou duas doses de uísque por semana, desde que alguma coisa de valor calórico equivalente seja retirada do cardápio daquele dia.

E aí fica evidente a necessidade do exercício físico, o verdadeiro nó da questão. O adulto de meia idade, a maioria em minha clínica, não faz. Já propus ir com eles para a academia, porque conheço as técnicas e posso orientá-los. Nenhum tem tempo. Nem mesmo depois de um infarto. No começo, adotam um programa de exercícios, mas logo voltam ao velho esquema sedentário.

No caso dos diabéticos, a obesidade é um fator de risco importante e reduzir o peso faz com que melhorem bastante. Eles conseguem perder peso por algum tempo, mas depois voltam a engordar. Manter o peso é um desafio muito complicado.

TRATAMENTO COM DROGAS CONTRA A OBESIDADE

Drauzio – Qual é sua impressão sobre as drogas usadas nos tratamentos contra a obesidade? Os médicos, em geral, defendem posições bastante contraditórias a respeito de seu uso.

Bernardo Leo Wajchenberg - A palavra droga define por si só as características dessas substâncias. Penso que usar drogas é uma droga. O bom seria poder evitá-las sempre. Mas qual é a alternativa que posso oferecer a meus pacientes? Experimento as mais variadas mudanças nos regimes alimentares. Nenhum resultado. Introduzo, então, as drogas mais leves, embora não haja estudos comparativos sobre a ação das mais potentes a longo prazo. É verdade que elas têm efeitos colaterais. Os psiquiatras me contam que vêem isso todos os dias. Eu não vejo nunca. Vez ou outra alguém se queixa de palpitação ou de insônia. Nesses casos, prescrevo um tranqüilizante.

O problema é que o uso dessas drogas precisa ser contínuo, o que as faz perder a eficácia, e é preciso mudá-las ou fazer combinações. É uma pena que isso não seja ensinado aos alunos de medicina na faculdade.

Drauzio – O fato é que o tempo de duração desses tratamentos tornou-se uma discussão importante para a ciência.

Bernardo Leo Wajchenberg – O tratamento deve ser mantido no mínimo por cinco anos. Estudos realizados pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos mostraram que, usando a droga por cinco anos, o paciente mantinha a perda de peso. Embora a tendência fosse perder e ganhar um pouco de peso ao longo do tratamento, o balanço era a favor da perda.

Tenho pacientes que estão tomando essas drogas por mais de oito anos e conseguem manter de 10kg a 15kg a menos com melhora significativa de todos os outros fatores de risco. Os residentes que trabalham comigo acham estranho que nunca tenham aprendido isso. Eu acho um absurdo.

Existem drogas modernas como a sibutramina, com menos efeitos colaterais, mas que não resolvem o caso dos grandes obesos. No começo é ótima, mas com o tempo perde o efeito. Existem outras que diminuem a absorção intestinal de gordura. Essas são menos eficientes, quando se suspende a ingestão de gorduras e têm efeitos adversos como a incontinência fecal. Contra as drogas antigas há o tabu de que fazem mal. Eu as uso e recomendo. Não como primeira opção.  A primeira opção é a dieta e a mudança de hábitos. Alguns raros indivíduos conseguem manter o peso depois que emagreceram. O grande gordo não. Toma a droga, emagrece dez quilos, acha horrível a dieta e volta a comer e a engordar. É o chamado efeito sanfona.

PERDA DE PESO NOS DOIS GÊNEROS

Drauzio – Quem engorda mais fácil e quem tem maior dificuldade para perder peso, os homens ou as mulheres?

Bernardo Leo Wajchenberg – Os homens perdem peso com mais dificuldade por causa da vida que levam. As mulheres perdem mais facilmente por interesse pela aparência do próprio corpo. A longo prazo, porém, ambos continuam gordos a não ser nos casos raros em que o individuo adere à medicação. Tenho alguns pacientes nessa situação. Eles me telefonam e dizem que o remédio deixou de funcionar e eu faço outra associação de drogas. Não é a conduta ideal. O ideal é a mudança de comportamento.

A propósito, gostaria de comentar que o governo americano patrocinou um programa chamado Diabetes Prevention Program (DPP), Programa de Prevenção ao Diabetes, que custou 150 milhões de dólares. Eles mostraram que os indivíduos que aderiram à mudança de estilo de vida e aos exercícios perdiam mais peso e reduziam o desencadeamento das complicações do diabetes em seis anos. Fiquei surpreso e fui conversar com quem apresentou esse trabalho num congresso em Glasgow, em 2001. Soube que o grupo de cinco mil pacientes que fazia parte do estudo foi selecionado por anúncio de jornal e cada um recebia uma ajuda de custo para não interromper a experiência. No dia a dia, os resultados não são os mesmos.

Os endocrinologistas não podem desprezar as características de comportamento do obeso. A Behavior Therapy (Terapia Comportamental), teoria desenvolvida por um cientista da Filadélfia, visa exatamente à mudança de comportamento desse paciente.

TERAPIA COMPORTAMENTAL E EMAGRECIMENTO

Drauzio – Em que consiste a terapia comportamental  utilizada nos casos de emagrecimento?

Bernardo Leo Wajchenberg -  Não conheço exatamente o processo, mas sei que o indivíduo conversa com o psicólogo ou com uma pessoa habilitada para o trabalho que faz sugestões para a mudança da dieta, do comportamento alimentar e cobra os resultados. No início, as sessões são semanais. Com o passar do tempo, sessões de reforço são realizadas pelo menos uma vez por mês. Infelizmente, isso consome tempo, custa caro e não é pago pelo governo.

Não tenho informação de nenhum centro no Brasil dedicado a esse tipo de serviço, mas sei de algumas pessoas que se beneficiaram com o tratamento. Em recente congresso, o grupo de Filadélfia da Sociedade Americana de Diabetes apresentou trabalhos com resultados encorajadores. O paciente perde de 7% a 10% do peso corpóreo e mantém esse valor por anos a fio.

Drauzio – Num estudo comparativo entre os diversos tipos de dieta para emagrecer, os institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos (NHI) concluíram recentemente que uma pessoa costuma perder com as dietas até 10% de seu peso corpóreo. Quando acompanhadas depois de um ano, 50% delas voltaram ao peso original e cinco anos depois praticamente todas readquiriram os quilos perdidos.

Bernardo Leo Wajchenberg – Qualquer regime pode ter esse resultado. Por isso, a importância da mudança de comportamento. Acompanhei no Hospital Sírio-Libanês um grupo de obesos e as psicólogas me disseram que estavam pensando em introduzir a Teoria Comportamental com reforço contínuo no tratamento da obesidade. Não sei se os planos foram concretizados, mas é fundamental que iniciativas como essa sejam postas em prática.

FALTA DE PREPARO ACADÊMICO

Drauzio – Você acha que nós médicos somos preparados nas faculdades de medicina para lidar com um problema tão sério quanto esse?

Bernardo Leo Wajchenberg – Acho que não. Aliás, de certa forma, os cursos das faculdades são irrelevantes. A formação médica vai se alicerçando depois da formatura com a aquisição de novos conhecimentos que surgem numa velocidade espantosa nos últimos tempos. Por exemplo: há 20 anos o diabetes constituía um ramo pequeno da endocrinologia. Hoje, é maior do que todos os outros assuntos somados. Nos congressos, as sessões sobre diabetes são as que têm maior número de ouvintes médicos. Eu me especializei em diabetes e obesidade, embora trate de outras doenças da mesma área. Todo diabético adulto é obeso até que provem o contrário. Quando não é obeso, é preciso investigar o que possa estar interferindo em seu emagrecimento.

PREVISÕES PARA OS PRÓXIMOS 50 ANOS

Drauzio – Como você acha que o problema da obesidade vai ser r4solvido no futuro?

Bernardo Leo Wajchenberg - Diz um ditado popular que o futuro a Deus pertence. Não posso fazer previsões. Quando vi o primeiro computador em 1964, enorme, achei que não teria muita utilidade. Hoje, ele está aí, em todo o canto, pequeno e popular.

Entretanto, posso imaginar que se as coisas continuarem do mesmo jeito, o número de obesos vai aumentar. Nós, que vivemos no hemisfério sul, podemos ter uma ideia do que pode nos acontecer, se olharmos para o número de casos de obesidade em nossos irmãos do hemisfério norte.

Vejo que a educação na infância é a única forma para tentar resolver o problema. Não se pode induzir a criança a comer batata frita como um prêmio nos finais de semana. Isso não é prêmio, é punição. Batata frita tem alto valor calórico e muita gordura saturada. A educação deve começar em casa. Agora, me pergunto como médico e como pai de família: desde quando temos tempo para almoçar ou jantar com nossos filhos? Refeições em família tornaram-se um evento raro em nossas vidas.  Com isso, não ajudamos a criar hábitos alimentares saudáveis nas crianças, que acabam engordando.

Quero frisar, também, que nos últimos anos me impressionaram os casos de obesidade na infância e na adolescência nos quais o fator desencadeante foi a separação dos pais. Se existe tendência na família, conflitos emocionais desse tipo podem ser a origem do problema.

Drauzio – Você disse que a genética é responsável apenas por pequeno número de casos de obesidade. O que me intriga é ver, muitas vezes, um casal obeso com filhos pequenos também obesos.

Bernardo Leo Wajchenberg – Isso me faz lembrar os quadros do pintor colombiano Botero, em que o pai e a mãe são gordos, o filho é gordo e o gato também é gordo. Trata-se, porém, de uma situação diferente da encontrada naqueles casos raros determinados pela genética, como os de obesidade mórbida em indivíduos com cabelos cor de fogo.

Na verdade, não se pode negar que exista um componente genético familiar que ainda não foi bem definido. Um dos mais famosos cientistas no estudo da obesidade no Canadá, publica todos os anos um relatório dos genes envolvidos nessa doença, mas até agora não foram definidos exatamente quais são eles. Sabe-se que se trata de uma doença em que estão envolvidos múltiplos genes. Somos capazes de entender as doenças monogênicas, isto é, aquelas que estão associadas a um único gene. Para as outras ainda não foi encontrada explicação. É o caso do diabetes e da hipertensão, patologias que estabelecem interações gênicas de altíssima complexidade.

Não acredito que se encontrem soluções para essas doenças num futuro imediato, mas espero que a cura para ela apareça nos próximos 50 anos.

Drauzio – Você espera viver para assistir a essa descoberta?

Bernardo Leo Wajchenberg – Não espero nem quero. Também não cabe a mim decidir isso. Sou apenas um joguete nessa história. No momento, doença poligênica é ainda um brinquedo nas mãos dos pesquisadores. Você encontra em todos os números da revista Diabetes trabalhos sobre genética. Um dia, alguém acaba acertando e descobre a solução para esse enigma.