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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Milagre, um Delírio



Durante o último terremoto no Haiti – 7.3 graus na escala Richter - em 2010, profundos desvios cognitivos de confirmação também sacudiram a região. O terremoto de grandes proporções causou enormes danos ao pobre país. Milhares de edifícios, incluindo os as edificações mais significativas ao patrimônio e à vida da capital - como o Palácio Presidencial, o edifício do Parlamento, a Catedral de Notre-Dame, entre outras igrejas, a principal prisão do país, e todos os hospitais e maternidades - foram indiscriminadamente devastadas. A tragédia contou 316 mil mortos, 350 mil feridos e mais de 1,5 milhão de flagelados, com 2.400 amputações.
O pastor cristão americano Pat Robertson declarou em seu canal televisivo Christian Broadcasting Network que o terremoto era “uma maldição de deus, uma vingança, um castigo”, em função de um suposto “pacto com o diabo”, orquestrado – pasmem – na época da independência do Haiti – em relação à França – em 1804:

Algo aconteceu há muito tempo no Haiti e as pessoas, talvez, não quisessem falar sobre isso. Estavam sob domínio francês… vocês sabem, Napoleão III ou qualquer coisa assim, juntaram-se e fizeram um pacto com o diabo. Disseram: "Vamos servi-lo se nos libertar do Príncipe". É uma história verdadeira. E o diabo disse: "Tudo bem, está combinado". E os franceses foram expulsos. Os haitianos revoltaram-se e conseguiram libertar-se. Mas, desde então, foram amaldiçoados com coisas atrás de coisas. - Pastor Pat Robertson

Além do ocorrido, e do fato de que a suposta “vingança de deus” tardou mais de 200 anos, desde o “pecado cometido”, vale lembrar também que o Haiti foi primeiro país do mundo a abolir a escravidão – amplamente endossada pela bíblia. Terá sido a abolição da escravatura também resultado de algum pacto demoníaco; e eventualmente está sendo punido por deus com estes sacrifícios humanos em 2010? Pat Robertson é um tremendo picareta, um golpista astuto, mas os desvios de confirmação estão amplamente configurados nos cérebros de seus devotos fiéis, e assim o mago contará com uma plateia crédula a ser facilmente enganada.
Antes de uma entrevista ao telejornal do SBT em cadeia nacional, em 14 de janeiro de 2010, sem saber que estava sendo filmado e gravado, o cônsul honorário do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, proferiu as seguintes frases:

A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui ficar conhecido. […] Acho que, de tanto mexer com macumba, não sei o que que é aquilo. […] O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano, tá foda! - George Samuel Antoine (Cônsul Honorário do Haiti)

Samuel, com um terço do Santo Rosário nas mãos, exprimiu sua fé cristã:

Esse terço nós usamos porque dá energia positiva; acalma as pessoas. Como estou muito tenso, deprimido com o negócio do Haiti, a gente fica mexendo com várias [coisas] para se acalmar. - George Samuel Antoine (Cônsul Honorário do Haiti)

Um dia após suas declarações cristãs, Samuel pediu desculpas em entrevista coletiva, esclarecendo que fala diversos idiomas mas que, mesmo há mais de 30 anos no Brasil, “não domina a língua portuguesa”. Disse também, por meio de nota do consulado, que “teve seus dizeres interpretados de maneira deturpada".
Antoine é um escroque, e suas explicações só acentuam a baixeza de seu caráter; mas muitos pensam como ele, pessoas de bem, como alguns dos meus leitores. Parte de toda esta fantasia sobre a realidade pode ser explicada pelos fenômenos psicológicos conhecidos por (1) Desvios Cognitivos de Confirmação, (2) ToM - Teorias da Mente, (3) e a adesão do cérebro humano a Falsos Positivos – resultantes de aspectos neurais potencializados pela ignorância sobre o comportamento humano, sobre a aleatoriedade, além de disciplinas do ensino fundamental e avançado.
Ainda no Haiti, Hoteline Losama, entre outras pessoas, foi resgata com vida quase uma semana após o sismo. Durante este tempo ela esteve protegida por um espaço aleatoriamente formado por forros, pedras, e uma geladeira, e perto de muitos mais cadáveres que não gozaram da mesma sorte; mas ainda assim um dos membros do grupo de resgate afirmou ter sido “uma bênção”. A jovem resgatada considerou o seu destino como “um milagre”.
Desviar os olhos dos 316 mil mortos, entre eles muitas crianças, e celebrar como “benção” o resgate de uma única pessoa, e corroborando assim uma crença prévia em bênçãos e milagres, constitui um clássico exemplo dos Desvios Cognitivos de Confirmação – e uma atitude execrável...
Quinze dias após o terremoto, um homem ligou para os seus familiares e amigos, e uma mulher ainda soterrada atendeu. Ela estava viva, e houve comoção e clamor: “Milagre!”. Ela tentou orientar as buscas, e uma equipe da Cruz Vermelha Internacional foi até o local com cães farejadores, mas o esforço foi em vão. A bateria acabou, e as equipes de resgate não puderam encontrá-la com vidaSe deus pretendia tal destino, por que permitiu a ligação telefônica? Onde está a “força superior”, senão em nossa formação inferior, além de tendências ilusórias, e propensão ao autoengano?
E peço aqui que outra mulher, também excepcional, dê o seu recado:

Eu não acredito nestas pessoas que sabem tão bem o que deus quer que elas façam; por perceber que isso sempre coincide com seus próprios desejos. – Susan Anthony

Durante um desmoronamento em uma mina no Chile, 13 homens foram soterrados. Vozes foram detectadas, e saíram as manchetes nos jornais: “13 hombres y un MILAGRO!”. Depois se descobriu que apenas um homem, dentre os treze soterrados, havia sobrevivido: “milagro”.
Mas como o nosso cérebro nos convence de que estamos sempre certos? Michael Shermer nos mostra o caminho:

Uma vez que criamos uma crença, e nos comprometemos com ela, nós a mantemos e reforçamos com fortes heurísticas cognitivas, que garantem que ela esteja correta. Uma heurística é um método mental para resolver problemas pela intuição, pela tentativa e erro [...]. – Michael Shermer (Cérebro e Crença; 2012)

Essas heurísticas podem no entanto falhar, e falham com muito mais frequência do que imaginamos, distorcendo a nossa percepção da realidade, e encaixando conceitos pré-concebidos, conhecidos como Desvios Cognitivos de Confirmação.

Crenças configuram percepções. Não importa que sistema de crenças esteja funcionando — religiosas, políticas, econômicas ou sociais —, esses desvios cognitivos moldam a maneira como interpretamos a informação que chega por intermédio de nossos sentidos e dão uma forma adequada à maneira como queremos que o mundo seja, e não necessariamente como ele realmente é. Chamo esse processo de confirmação de crença. – Ibidem

 Existem heurísticas cognitivas ou desvios específicos, que operam para confirmar as nossas crenças, atuando em conjuntamente como outros distúrbios, como a tendência à busca e reconhecimento de padrões; um recurso evolutivo essencial, mas que pode falhar, detectando falsos padrões, além da tendência ao animismo e ao intencionalimo.
Vejam o poder da crença, conduzidos pelo autor da área científica, roteirista – MacGyver e Star Trek - e físico, Leonard Mlodinow:

Alguns anos atrás, um homem ganhou na loteria nacional espanhola com um bilhete que terminava com o número 48. Orgulhoso por seu ‘feito’, ele revelou a teoria que o levou à fortuna. “Sonhei com o número 7 por 7 noites consecutivas”, disse, “e 7 vezes 7 é 48”. Quem tiver melhor domínio da tabuada talvez ache graça do erro, mas todos nós criamos um olhar próprio sobre o próprio e o empregamos para filtrar e processar nossas percepções, extraindo significados do oceano de dados que nos inunda diariamente. E cometemos erros que, ainda que menos óbvios, são tão significativos quanto esse. – Leonard Mlodinow (Subliminar; 2013)

Estes erros fazem parte do corpus de estudo da Neuropsicologia. No caso acima, o felizardo ganhador e crente no sobrenatural, incorreu em pelo menos um Desvio Cognitivo de Confirmação: a Tendência Retrospectiva; além do singelo desvio intelectivo, afinal “7x7” é matéria do ensino básico, e o resultado é “49”, e não “48”. Shermer nos esclarece a questão em Por que acreditamos em coisas estranhas (2011) e Cérebro e Crença (2012):

Construímos nossas crenças por várias e diferentes razões subjetivas, pessoais, emocionais e psicológicas, em contextos criados pela família, por amigos, colegas, pela cultura e a sociedade. Uma vez consolidadas essas crenças, nós as defendemos, justificamos com uma profusão de razões intelectuais, argumentos convincentes e explicações racionais; Primeiro surgem as crenças e depois as explicações. - Michael Shermer (Cérebro e Crença; 2012)

Primeiro aderimos às crenças, para só então tratar de justificá-las por meio de argumentos supostamente racionais. E por esta razão, pessoas inteligentes e cultas também podem acreditar em coisas absurdas.
Hume, indelével:

Os homens não ousam confessar, nem mesmo a seus corações, as dúvidas que têm a respeito desses assuntos. Eles valorizam a fé implícita; e disfarçam para si mesmos a sua real descrença, por meio das afirmações mais convictas e do fanatismo mais positivo. - David Hume

James, impecável:

Alucinação é uma forma estritamente sensacional de consciência, uma sensação tão boa e verdadeira quanto se estivesse ali um objeto verdadeiro. Acontece, simplesmente, que o objeto não está ali. - William James (Princípios de Psicologia; 1890)

Q.E.D.

Carlos Sherman

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Além da Vida


Bela colocação de Lispector, bela escolha do 'Cérebro Emocional' - Facebook... Segue a minha perspectiva: 

'A vida é curta, por certo... Mas as emoções que podemos induzir, rsrsrsrsrs, na vida de outras pessoas, pode ser propagadas para além de nossa tênue existência...' - rsrsrsrsrsr... Esta é a minha perspectiva da questão, rsrsrsrs...

Costumo viver que 'CONTO O MEU TEMPO VIVIDO, PELA EMOÇÃO SENTIDA'...

Carlos Sherman

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Encontro com Homens Notáveis: Oliver Sacks




Encontro com Homens Notáveis: Oliver Sacks

Nós vemos com os olhos... Mas na realidade nós vemos, ouvimos, sentimos, saboreamos, degustamos com o cérebro...  Ver com o cérebro é comumente conhecido como ‘imaginação’...  E estamos familiarizados com este cenário, a nossa imaginação... Mas as alucinações podem irromper, a qualquer momento, com ou sem aviso prévio, e perturbar este cenário... 

As alucinações parecem vir do exterior... Parecem reais... Não parecem ser produzidas por falhas em nosso processamento cerebral... Não parecem ser, de certa forma, criadas por nós...  E elas, as alucinações, imitam a nossa percepção... 

Oliver Sacks vive esta realidade diariamente, ou seja, convive com alucinações, e com muitos de seus pacientes que imaginam que suas alucinações não passam da mera extensão de sua percepção... Uma paciente de Sacks, próxima dos 95 anos, estava ‘vendo coisas’, e ele foi avisado... Haviam suspeitado de sua senilidade, ou por estar muito idosa, também suspeitaram de um derrame, ou mesmo Alzheimer... E Sacks foi visitar Rosalie, a senhora idosa que estava ‘vendo coisas’...

Sacks percebeu de entrada que se tratava de uma senhora perfeitamente lúcida, sã, e inteligente, e estava muito assustada e desconcertada por estar ‘vendo coisas’... Mas o detalhe mais importante em toda esta estória, ainda não esclarecido, é de que esta senhora era completamente cega, pelos últimos 5 anos, resultado de uma degeneração macular... Mas agora estava vendo coisas... 

Sacks interrogou a senhora, "mas que tipo de coisas você vê?" Ela respondeu: "Pessoas com vestes orientais, subindo e descendo escadas. Um homem que olha pra mim e sorri, mas com dentes enormes, apenas de um lado da boca. Animais também. Eu vejo um prédio branco, e está nevando. Uma neve suave. Eu vejo um cavalo, com arreio, dragando a neve. Então em uma noite a imagem muda. Vejo gatos e cachorros andando na minha direção. Eles chegam até um ponto e param. Então a cena é interrompida e muda subitamente outra vez. Eu vejo várias crianças, com vestes coloridas, ela sobre e descem escadas. Elas vestem cores brilhantes, rosa e azul, em estilo oriental. Algumas vezes, antes das pessoas entrarem, vejo quadros rosas e azuis pintados no chão, que parecem subir até o teto." 

Sacks indagou: "É como um sonho?" E ela respondeu: "Não, não é como um sonho, é como um filme. Tem cor, tem movimento, mas é completamente sem som, como um filme mudo, um filme muito chato, como um filme mudo, com pessoas subindo e descendo escadas, com estas roupas orientais, tudo muito repetitivo e limitado" E sorriu... Rosalie tinha muito senso de humor, segundo Sacks, e sabia ser uma alucinação, mas estava assustada...  Ela estava havia vivido 95, cega há 5 anos, e jamais havia tido este ou qualquer tipo de alucinação... Estas alucinações iam e vinham sem aviso, e ela não sabia o que fazer, ou o que estava acontecendo... Ela não conseguia identificar as pessoas, nem os lugares, nem os animais, as roupas, a imagens... Era tudo espúrio para ela... As alucinações também não estavam relacionadas com nada que ela havia pensado, sentido ou feito... 

Rosalie pensou que estava enlouquecendo...  Sacks examinou aquela senhora brilhante, cuidadosamente, e constatou que ela não tinha outros problemas médicos, percebeu que, além das alucinações, ela estava perfeitamente lúcida, além de não tomar nenhum tipo de medicação que pudesse explicar esta sintomatologia... Mas ela estava cega... Então Sacks, com um brilho nos olhos, trouxe alenta à senhora dizendo: "Eu acho que sei o que a senhora tem. Existe um tipo especial de alucinação visual, associado com a deterioração da visão ou a cegueira, que foi descrito originalmente no século XVIII, por um homem chamado Charles Bonnet. E você tem uma Síndrome de Charles Bonnet. Não existe nada errado em sua mente, nada errado com o seu cérebro, você tem uma Síndrome de Charles Bonnet." Isso provocou grande alívio, e ela percebeu que não estava louca, e continuava lúcida aos 95 anos de idade...

Rosalie, diz a estória, ficou muito curiosa sobre este tal ‘Charles Bonnet’, quem era este homem? Ele havia desenvolvido a mesma ‘síndrome'??? Apressou-se em avisar às enfermeiras, "eu tenho Síndrome de Charles Bonnet", orgulhosa, rsrsrsrs, muito orgulhosa, rsrsrs... 

Alucinações visuais e auditivas, são mais frequentes do que imaginamos... Aproximadamente 10% das pessoas com alguma perda auditiva, tem alucinações musicais... O que dizer de Bethoven??? Será??? E aproximadamente 10% das pessoas com perdas visuais, tem alucinações visuais... E não é necessário que a pessoa esteja totalmente cega para ter alucinações, basta a perda parcial da visão... 

Charles Bonnet não teve alucinações... Mas o seu avô, um magistrado, um homem idoso, que havia feito uma cirurgia para catarata, passou a ter essas alucinações... Sua visão estava bem comprometida... Em 1759, preocupado, ele passou a descrever para o seu neto o que via: "A primeira coisa que me lembro de haver visto, foi um grande lenço azul pairando no ar, com quatro círculos laranjas. Uma grande roda pairando no ar." Ele naturalmente sabia que se tratava de alucinações, não existem rodas pairando no ar, e mesmo lenços finalmente acabam caindo... Mas tudo era tão perfeito que esta certeza fraquejava, e por vezes estas alucinações se encaixavam perfeitamente à cena... 

Uma vez, quando as netas foram visita-lo, ele perguntou: "Quem são estes jovens bonitos com vocês?" E suas netas, assustadas, responderam: "Mas vovô não existe nenhum jovem conosco." Isso foi o suficiente para que os jovens desaparecessem... E este comportamento é típicos em tais alucinações... Elas podem vir, e subitamente desaparecer... Normalmente tais alucinações não chegam gradualmente, elas chegam de súbito, e partem da mesma forma... Tais alucinações caracterizam-se por serem repentinas... 

Charles Lullin, o avô, via centenas de imagens diferentes, descortinando-se em sua ‘mente’; paisagens e situações de todos os tipos... Certa vez ele descreveu que viu "um homem de roupão fumando cachimbo, e percebi que era eu", e esta foi a única pessoa que ele reconheceu... Certa vez, caminhando pelas ruas de Paris, ele viu – e isso foi real – um andaime... Quando chegou em casa, havia uma miniatura do andaime, de aproximadamente 15 cm sobre sua escrivaninha, desta vez uma alucinação... Tal repetição de percepção é conhecida como ‘palinopsia’...

Ambos perguntaram a si mesmos, ‘o que está acontecendo?’... Sacks explica que, quando perdemos a visão, as partes responsáveis pela visão, o Córtex Visual, não recebem mais inputs ou sinais, tornando-se hiperativas e excitadas; e começam a disparar, produzindo imagens, e alucinações...  

E estas alucinações podem ser bem complexas, como no caso de outra paciente de Sacks, que possuía ainda certo grau de visão... Certa vez, ela descreveu, em um restaurante, a visão de um homem com a camisa rasgada, quando subitamente o homem se virou, dividindo-se em figuras idênticas com camisas rasgadas, e que começaram a andar na direção dela... Subitamente, as seis figuram voltaram a se unir, como em uma sanfona... Em outra oportunidade, ela ia no carro, e com o seu marido ao volante, quando a estrada se dividiu em quatro, e ela amargou a estranha sensação de seguir nas quatro direções, simultaneamente... 

Esta paciente tinha, frequentemente, alucinações com carros, ou qualquer tipo de movimento... Era também muito comum que ela visse um adolescente sentado no capô do carro, em movimento... Ele fazia gracejos, mantinha o controle mesmo quando o carro fazia curvas, e ela presenciava sua persistência... Quando o carro parava no semáforo, o garoto era lançado em um voo vertical, subindo a cerca de 30 metros de altura,  no melhor estilo ‘Cirque du Soleil’, para subitamente desaparecer... 

Outra paciente não tinha problemas particularmente com os olhos, ou com a sensibilidade visual, mas um pequeno tumor no Lobo Occipital... Isso era o suficiente para que ela literalmente assistisse a desenhos animados em seu campo de visão... Estes desenhos eram parcialmente transparentes, e cobriam apenas metade do campo visual, como em uma tela... Ela convivia especialmente com ‘Caco’, o sapo... Ela não se interessava por Vila Sésamo, e muito menos por ‘Caco’, o sapo, rsrsrsrs... Então, por que o ‘Caco’? Por que não o ‘Garibaldo’, rsrsrsrs, ou outros personagens de outros quadrinhos, e por que quadrinhos??? E antes que alguns freudianos exercitem suas alucinações próprias, devemos assegurar que o pai dela não se parecia minimamente com um sapo, e em especial com o ‘Caco’, rsrsrsrsrs... Ela interrogava Sacks: "Por que ‘Caco’, o sapo, ele não significa absolutamente nada para mim?"

Assim como Rosalie, esta paciente também via em suas alucinações, muitas faces, e estas faces eram geralmente deformadas, com dentes desproporcionais ou olhos enormes... E isso, evidentemente, a assustava de sobremaneira... Não era tão simples quanto alucinar ainda mais sobre pessoas mortas, ou emular ‘chapeuzinho vermelho’ e o ‘lobo mau’: "Por que estes dentes tão grandes? Por que estes olhos tão grandes?”... Trata-se de um drama legítimo... E pode ser aterrorizante, frustrante, depauperante...

Então o que está acontecendo com estas pessoas? 10% das pessoas, que apresentam significativa perda visual, apresentam tais alucinações, mas apenas 1% destas pessoas percebem as alucinações como tal... Além do diagnóstico de epilepsia, o que seria suficiente, e necessário, para justificar alucinações sobre experiências místicas, no caso de Chico Xavier, também havia o componente das alucinações visuais... E todo este complexo alucinatório não foi percebido como tal... 

Portadores de tais alucinações, podem ainda, temer um diagnóstico mais severo, ou o generalizado diagnóstico de insanidade, e preferem não mencionar tais delírios aos seus médicos... Mas, em grande parte dos casos, tais alucinações são mal interpretadas como fenômenos sobrenaturais, paranormais, e mediúnicos, além de visões milagrosas... 

Sob o meu ponto de vista, alegar ‘mediunidade’ é ainda mais insano do que declarar ‘apenas’ possuir alucinações... Estar lúcido com respeito às alucinações é mais saudável do que acreditar piamente serem reais, e pior ainda, acreditarem que tratam-se de poderes sobrenaturais...

Ao longo de quase 50.000 anos de história, desde o homem de Cro-Magnon no Paleolítico Superior, passando por dezenas de milhares de divindades míticas e místicas, pela Antiguidade Clássica Grega, pelos tempos bíblicos, pela Idade das Trevas – Idade Média -, até os dias de hoje, podemos tecer uma vaga ideia de quantas alucinações foram convertidas em entidades míticas, sagradas e sobrenaturais... Se considerarmos ainda, a enormidade dos problemas e deficiências visuais, que não puderam ser diagnosticadas e tratadas adequadamente, em função da inexistência dos rudimentos das Ciências Médicas, da Oftalmologia, e da Neurologia; poderemos dispor de claro panorama sobre a nossa sina crente, alucinatória, explicando ao menos a origem dos fenômenos, através de figuras messiânicas, visionárias, místicas... Seguir ditos ‘alucinados’, requer outras disposições neurofisiológicas, que apontam para os Lobos Temporais, Parietais, Córtex Cingulado e Pré-Frontal...

Em geral, escutar coisas ou ver coisas que não estão lá, levam alguns a acreditarem que estão loucos... Mas devo insistir que a lucidez com respeito à alucinação tem um grande valor... No entanto, considerar alucinações como evidências do sobrenatural são, significativamente, mais graves... Temos outro problema a tratar nestes casos, e além das alucinações: a dificuldade em separar fantasia e realidade... Na esquizofrenia, tais devaneios estão ajustados à cena de forma perigosamente real...

Alucinações psicóticas são diferentes, sejam auditivas ou visuais... Alucinações psicóticas são pessoais, referem-se a você... Elas acusam você,  acossam você, enganam, seduzem você... As alucinações psicóticas podem humilhar você, e podem mata-lo... Nas alucinações psicóticas, já não existe um ‘filme’, você interage com elas... E tais alucinações não decorrem de perdas auditivas ou visuais... Tais alucinações desafiam sua sanidade e lucidez...

Existem também as alucinações decorrentes da Epilepsia nos Lobos Temporais... Cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de epilepsia, e quase 90% delas ocorrem em países em desenvolvimento... Além disso, em 80% dos casos, não existem convulsões - a chamada epilepsia "idiopática" -; sendo assim, e muitas vezes, os pacientes não são facilmente diagnosticados... Normalmente o diagnóstico se dá, nestes caso, por conta de incursões ‘místicas’... O paciente, ainda não diagnosticado epilético, passa a apresentar um comportamento alterado, aludindo a fenômenos sobrenaturais, e falando sobre visões, missões messiânicas, mágicas e mediúnicas... Nos 20% dos casos, onde as convulsões são conhecidas, também existem relatos de experiências místicas após as crises...

Nos casos de Epilepsia nos Lobos Temporais, a pessoa pode acreditar que está voltando a algum momento ou lugar no passado... Você está em um cruzamento qualquer, sente um cheiro familiar de castanhas tostando ou pão-de-queijo, você escuta o som do tráfego, e todos os sentidos estão envolvidos, e você espera pela sua namorada, naquela tarde de uma terça-feira em 1982... Trata-se de um complexo de alucinações multissensoriais, repleto de sentimentos de familiaridade, e localizado em algum lugar do espaço e do tempo, como uma torrente dramática...

No caso da Síndrome de Charles Bonnet, temos alucinações dispostas com um filme, e todo o tipo de imagens, desde figuras geométricas, até alucinações bem elaboradas e complexas, contendo figuras e principalmente rostos, e amiúde rostos deformados... E os desenhos animados, são também muito frequentes... Então, retomando a questão, o que está sucedendo com o nosso cérebro??? 

É fascinante, e ao mesmo tempo assombroso, que nos últimos anos, tenhamos alcançado a condição de produzir o imageamento do cérebro... De forma que, hoje, podemos produzir uma neuroimagem funcional de nossos cérebros (fMRI -  Functional Magnetic Resonance Imaging), enquanto o paciente está vivendo uma alucinação; para descobrir que, de fato, diferentes partes do cérebro, envolvidas na codificação visual, estão sendo ativadas...

Durante as alucinação geométricas, o Córtex Visual Primário é ativado, sendo esta a parte do cérebro que percebe bordas e padrões... Não formamos imagens com o nosso Córtex Visual Primário... Quando codificamos imagens, uma parte do Córtex Superior é envolvida no Lobo Temporal... Em particular, uma área chamada Giro Fusiforme... E hoje sabemos que quando uma pessoa tem um dano nesta parte, elas podem perder a capacidade de reconhecer rostos... Mas se existe uma atividade regular no Giro Fusiforme, elas podem alucinar rostos... E este quadro, é exatamente o que encontramos nestas pessoas... 

Existe ainda uma área, na parte anterior deste Giro, onde particularmente ‘dentes e olhos’ são representados... E esta parte em particular é ativada, quando as pessoas tem alucinações deformadas ou acentuadas... Evolutivamente, a associação entre ‘dentes e boca’, em uma mesma área, pode estar relacionada com a necessidade de ler as expressões faciais, e elaborar os nossos estratagemas sociais...

Mas, curiosamente, existe outra região do cérebro, que também pode ser ativada, quando a pessoas alucina desenhos animados... É particularmente curioso que haja uma parte do cérebro especializada em desenhar e reconhecer estorinhas em quadrinhos, ou desenhos animados... Existe ainda uma parte do cérebro relacionada com prédios e casas... Ainda na década de 70, descobrimos que não só haviam partes especializadas no cérebro, mas também ‘células neurais especializadas’, por exemplo, para rostos... Hoje sabemos que existem inúmeras células neurais específicas... Você pode, não apenas ter ‘células de carros’, mas também ‘células de Aston Martin’, rsrsrsrsrs... Tenho um copo vazio de Jack Daniel´s ao meu lado, o copo trás um logo, e estava realmente cheio de Jack Daniel´s, uma edição especial, a Fire Brigade, três pontos em grau alcoólico, superior ao original... Devem haver células de Jack Daniel´s, para o copo com logo, e para a garrafa, e também para o liquido, rsrsrsrs...

Estamos tratando do nível conhecido como Córtex Inferotemporal... Neste nível trata apenas de imagens visuais, ou fragmentos de imagens, ou um figmentum – imagem ficcional... Apenas nos níveis superiores, é que os outros sentidos serão incorporados, além do relacionamento com a memória e as respectivas emoções associadas... E finalmente, na Síndrome de Charles Bonnet, você não ascende a estes níveis... Você permanece no nível inferior do Córtex Visual, onde existe um acervo de milhares, milhões, bilhões de imagens, ou fragmentos, ou fragmentos de ficções, ou imagens ficcionais; todos codificados visualmente, em células particulares, ou em pequenos grupos de células particulares... 

Normalmente, neste nível, e estas células neurais envolvidas neste complexo, fazem parte do fluxo integrado de percepção - ou imaginação... E não temos consciência disso... Apenas quando a visão é comprometida, ou estamos totalmente cegos, é que o processo é interrompido... Então ao invés de uma percepção fluida, você passa a detectar um comportamento falho, anárquico, convulsivo, ou a liberação individualizada e desordenada, de todas estas células, no Córtex Inferotemporal... Então de repente você vê um rosto, agora um carro, então isso, depois aquilo... De forma súbita, interrupta, caótica... 

No entanto, a mente faz de tudo para resistir ao caos, reorganizando-se para dar algum tipo de coerência a isso, mas obviamente não pode ser bem sucedida... O fluxo está interrompido... Quando o fenômeno foi descrito pela primeira vez, foi proposto que interpretá-lo como um sonho... Mas as refutações imediatas recaiam sobre o fato de ‘eu não conheço o Caco, eu não conheço aquele rosto, eu não poderia ter feito esta ou aquela associação’... Embora isso também suceda nos sonhos... De qualquer forma, o processo é efetivamente divergente de um sonho...

Distúrbios neurais como a Síndrome de Bonnet, são achados preciosos, no caminho de entender como o cérebro realmente funciona... Charle Bonnet refletiu, há 250 anos, sobre ‘como o teatro da mente pode ser articulado pela maquinaria do cérebro’... Agora, 250 anos mais tarde, estamos começando a entender ‘como o teatro da mente, da consciência, pode ser encenado à partir da fisiologia do cérebro’... 

O próprio Oliver Sacks, o gigante Oliver Sacks, experimentou algumas das síndromes que ele ajudou a descrever, em suas próprias palavras: “Na verdade eu mesmo padeço da perda de visão, e eu sou cego de um olho, e o outo não está muito bom. E eu vejo alucinações geométricas, mas elas param por aí. Elas não me incomodam mais do que um zumbido que me acompanha, rsrsrs, e que trato de ignorar. Mas as alucinações me interessam ocasionalmente, e costumo desenha-las nos meus cadernos. Eu fiz uma fMRI em mim mesmo, rsrsrsrs. Para ver como o meu Córtex Visual está conduzindo tudo isso. E quando eu vejo todos estes hexágonos, e essas coisas complexas, eu também tenho uma enxaqueca visual. E costumo me perguntar se todo mundo vê coisas assim, ou se coisas como arte rupestre, ou arte ornamental, podem ter sido derivadas de experiências ou alucinações como estas.”

Lamento não haver estudado, ou passado mais tempo com este ser humano tão espetacular, singular, único, inefável e indelével... Tratei de comprar em ler todas as suas obras, e assistir a todos os seus vídeos, e preocupa-me o vazio que sua ausência produzirá... Longa vida a este gênio da lucidez, da sensibilidade, da generosidade... Poucos homens viveram como Oliver Sacks, Carl Sagan, Charles Darwin, Santiago de Cajal, Mendel, Steven Pinker, Bertrand Russel, Nietzsche, entre tantos outros... Sinto-me como agora, na companhia de Homens Notáveis, cujo legado transcende e muito, as suas vidas...

Carlos Sherman     

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

domingo, 26 de agosto de 2012

Ilusão... Pareidolia, Apofenia... Crença, Superstição...




A pareidolia é um fenômeno psicológico que envolve um estímulo vago, aleatório, ou ilusório, geralmente uma imagem ou som, sendo percebido como algo distinto e com significado. É comum ver imagens que parecem ter significado em nuvens, montanhas, solos rochosos, florestas, líquidos, janelas embaçadas e outros tantos objetos e lugares. Também acontece com sons, sendo comum em músicas tocadas ao contrário, como se dissessem algo. A palavra pareidolia vem do grego para, que significa 'junto de' ou 'ao lado de', e eidolon, 'imagem', 'figura' ou 'forma'. Pareidolia é um tipo de apofenia.

Em situações simples e ordinárias, este fenômeno fornece explicações para muitas ilusões criadas pelo cérebro, por exemplo, discos voadores, monstros, fantasmas, mensagens gravadas ao contrário em músicas entre outros. O fenômeno psíquico, diante de uma figura com dados aleatórios, pode variar segundo o ângulo ou as crenças do observador. Para uma criança, por exemplo, uma figura notada talvez possua formas que tragam à lembrança animais de estimação, personagens de desenhos animados ou qualquer outra coisa condizente com a faixa etária de compreensão sobre coisas. Para uma pessoa com uma faixa etária superior, a mesma figura assume formas diferentes conforme a capacidade criativa de associação de formas.

Dependendo das figuras observadas, podem assumir um aspecto muito subjetivo que varia de observador para observador ao passo que outras mais claramente nítidas, possuem uma mesma interpretação ótica em comum entre vários observadores. Portanto, muito tem que ver com a condição psicológica de cada observador, do que se passa em sua mente.

O físico Carl Sagan explicou o fenômeno em O Mundo Assombrado pelos Demônios:

Os humanos, como outros primatas, são um bando gregário. Gostamos da companhia uns dos outros. Somos mamíferos, e o cuidado dos pais com o filho é essencial para a continuação das linhas hereditárias. Os pais sorriem para a criança, a criança retribui o sorriso, e com isso se forja ou se fortalece um laço. Assim que o bebê consegue ver, ele reconhece faces, e sabemos agora que essa habilidade está instalada permanentemente em nossos cérebros. Os bebês que há 1 milhão de anos eram incapazes de reconhecer um rosto retribuíam menos sorrisos, eram menos inclinados a conquistar o coração dos pais e tinham menos chance de sobreviver. Nos dias de hoje, quase todos os bebês identificam rapidamente uma face humana e respondem com um sorriso bobo.

Como um efeito colateral inadvertido, o mecanismo de reconhecimento de padrões em nossos cérebros é tão eficiente em descobrir uma face em meio a muitos outros pormenores que às vezes vemos faces onde não existe alguma. Reunimos pedaços desconectados de luz e sombra, e inconscientemente tentamos ver uma face.

A pareidolia não representa somente fenômenos visuais mas também auditivos onde pessoas executam músicas no sentido contrário e ouvem palavras ou até mesmo sentenças inteiras. Apesar de existir uma técnica sonora de mascarar mensagens sobre uma gravação (conhecida como Backmasking), é comum muitos entenderem frases ou palavras onde só há um ruído incoerente. Recentemente ocorreu um típico caso de pareidolia na Universidade Queen, em Ontário, Canadá, onde alguns médicos 'acreditaram' ter visto um rosto humano no ultrassom de tumor.

Já a Apofenia, um termo proposto em 1959 por Klaus Conrad, é um fenômeno cognitivo de percepção de padrões ou conexões em dados aleatórios. É um importante fator na criação de crenças supersticiosas, da crença no paranormal e em ilusão de ótica.

Inicialmente descrita como sintoma de psicose, a apofenia ocorre no entanto em indivíduos perfeitamente saudáveis mentalmente. Do ponto de vista da estatística é um Erro de tipo I, ou seja, tirar conclusões de dados inconclusivos. Em um exame pode levar a um resultado falso positivo. Psicologicamente é um exemplo de viés cognitivo.

Ocorrências de apofenia frequentemente são investidas de significado religioso e/ou paranormal ocasionalmente ganhando atenção da mídia como a impressão de ver Jesus em uma torrada. No teste projetivo de manchas Rorschach a apofenia é estimulada com o objetivo de identificar padrões significativos na vida do indivíduo que ele projeta sobre a mancha.

Existem vantagens evolutivas em perceber padrões na natureza para prever o futuro ou evitar perigos. Por exemplo, se você observa um vulto e identifica como um animal perigoso evitá-lo poderia salvar sua vida. Caso você não considerasse a impressão do vulto suficientemente conclusiva, ignorando a possível associação com perigo, e realmente fosse um animal perigoso você poderia morrer. Na lógica evolutiva é melhor prevenir que remediar e por isso é mais vantajoso ver um excesso de padrões mesmo onde eles não existem do que negligenciá-los e correr riscos desnecessários.

Exemplo:

Imagine que o Brasil esteja jogando na Copa do Mundo, e após 4 jogos obteve-se os seguintes placares: 2x2, 3x1, 4x0, 2x2. Alguém com apofenia poderia ver uma relação ente os placares e deduzir que a soma de cada um dos jogos do Brasil sempre dá 4, e pressupor que a soma do placar do próximo jogo também será 4. O problema está que este vínculo não existe e o placar foi apenas coincidência.

O exemplo acima é bastante simples, e pode não seduzir ninguém a acreditar. É mais comum pessoas se sentirem atraídos por casos onde há complexidade na forma de se encontrar o vínculo apofênico, muitas vezes usando operações matemáticas de mais alto grau. Pode-se usar o quadrado dos números, raizes da soma, produtórios, sequencia de Fibonacci, etc.

Três círculos e uma linha já é suficiente para o cérebro interpretar um rosto:



O relógio da imagem parece estar triste. No entanto, isso é apenas uma associação que o cérebro humano faz ao ver uma imagem com dois pontos semelhantes a olhos e uma curva virada para baixo, semelhante a uma boca representando tristeza:



Apesar de essa figura não ser de um rosto real, muitas pessoas podem identificar a semelhança com um... Ilusão... Superstição...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Gêmeos, intrigante semelhança...



Manchetes sensacionalistas como 'o gene para isso, o gene para aquilo', são particularmente um desserviço à Ciência... No entanto o estudo dos gêmeos idênticos criados separadamente, em comparação à gêmeos fraternos criados juntos não deixa dúvida, a personalidade de um ser humano está mais relacionada a seus genes do que ao meio... Modernamente, e entre vários sistemas de classificação, os psicólogos tendem a definir a personalidade em 'cinco dimensões', ou 'cinco grandes fatores', ou ainda ACEAN - (A)bertura, (C)onsciência, (E)xtroversão, (A)gradabilidade, (N)eurose... Obviamente é um resumo grosseiro, e temos classificações que chegam a elencar até 2.000 aspectos da personalidade, mas a ACEAN pode se tornar uma ferramenta classificatória interessante para os fins e limites deste post... A dimensão 'abertura' define a disponibilidade para o aprendizado, a abertura para testar novos caminhos, explorar novas fronteiras, sair do bando e dar uma voltinha pela floresta, rsrsrs, ou aferrar-se ao grupo, apegado à bandeiras, e preso em devoções... A 'consciência' mede o grau de reflexão, o racionalismo, moderação de conduta... A 'extroversão' define a nossa capacidade de exposição, a nossa reação à opinião dos demais, a auto-confiança... A 'agradabilidade' sugere o grau de cordialidade, empatia, a tendência ao altruísmo ou ao egoísmo, ou mesmos à relação simbiótica... Preferiria chamar esta componente de (S)ociabilidade, mas... E a dimensão da 'neurose' mede a nossa tendência à obsessão, manias, sistematismos... Em maior ou menor grau, todos temos as nossas neuroses... O termo tem sido associado à transtornos mentais, mas não é o caso aqui... Aqui, a dimensão da 'neurose' mediria o nosso grau de tensão orientada a algum fim; o fervor, mania, obsessão... Comportamentos sistemáticos ou irracionais, e que provocam tensão, estariam elencados nesta dimensão - mas sem o caráter patológico... As psicoses seriam então a face patológica das neuroses extremas, e receberiam outro tipo de atenção, uma vez que estão associadas a delírios, alucinações e crises... Quadros neuróticos extremos invadem o espectro das psicoses...

Por exemplo, você poderá ter a mente moderadamente aberta (A), ser um cara muto meticuloso (C), e no entanto medianamente extrovertido (E), individualista (S/A), e calmo ou neutro em termos de neuroses (N)... Ou pode ter a mente bem aberta, sem um cara desorganizado, muito introvertido, altruísta, e muito polêmico, do contra ou reativo... Pode ter a mente fechada, ser organizado, extrovertido, ambicioso e egoísta, e um religioso fervoroso, sendo que este seria um excelente perfil para um pastor da Igreja Universal, srsrs... Se fosse mais introvertido e afetuoso, quem sabe o Vaticano? Mas gracinhas à parte, o assunto é sério e o jogo é de campeonato...

Um pouco mais do que 40% da variabilidade em nossa personalidade depende diretamente de fatores genéticos, menos de 10% de experiências ambientas compartilhadas - família -, e 25% decorrem das experiência únicas - ou da cadeia de eventos de nossas vidas -, sendo os 25% restantes relativos à erros e imprecisão, até porque não existem fronteiras tangíveis e determinadas, demarcando a força de cada fator sobre a resultante do comportamento humano... Mas estes são bons parâmetros... 

Ou seja - e durma com esse barulho: a personalidade é quase tão herdável quando o peso corporal !!!

A correlação média para o peso entre dos irmãos quaisquer é de 34%, e entre pais e filhos é ainda mais baixa 26%... Quanto desta correlação esta relacionada com o meio compartilhado - alimentação, sedentariedade, cultura - e quanto está relacionada com a genética? Gêmeos idênticos compartilhando o mesmo meio tem correlação para o peso de 80%, enquanto gêmeos fraternos criados juntos tem somente 43%, o que responde a questão... Observem que os gêmeos idênticos tem quase o dobro de correlação em relação aos gêmeos fraternos, mas os gêmeos fraternos tem uma correlação muito similar a irmãos não-gêmeos... Mas observe que gêmeos fraternos decorrem de genética inteiramente diferente, são dois óvulos distintos e dois espermatozoides distintos, assim como irmãos não-gêmeos... Pero, esta pequena melhora na correlação de 34% para 43% pode ser explicada por três importantes variáveis: primeiramente os óvulos e espermatozoides, no caso dos gêmeos fraternos, vem do mesmo 'lote', rrsrsrsrs... Ou seja, óvulos e espermatozoides que decorre do mesmo 'padrão de qualidade' - saúde... Diferentemente dos irmãos não-gêmeos, que decorrem de diferentes 'lotes', em diferentes momentos da vida do casal, o que pode redundar em diferenças sobre a qualidade ou saúde dos mesmos... A qualidade de óvulos e espermatozoide poderia então ser afetada pela ação do tempo - e do meio - sobre o organismo... Pelo mesmo motivo, e seguindo a linha do tempo do casal, os gêmeos fraternos compartilharão o mesmo 'meio' gestacional, exposição bioquímica no útero através da placenta et cetera... 

Assim como gêmeos idênticos apresentam sempre correlações superiores entre si em relação aos gêmeos fraternos, os gêmeos fraternos por sua vez estarão sempre mais correlacionados entre si - embora de forma menos gritante - quando comprados com irmãos não gêmeos... Ou seja, temos o fator tempo atuando sobre a saúde de óvulos e espermatozoides, mas sobretudo o impacto da vida e do desenvolvimento gestacional, ou ontogenia... Finalmente, o terceiro fator, também associado ao tempo, que contribui na diferença entre gêmeos fraternos e não-gêmeos, em relação ao peso, está relacionado ao meio compartilhado, ou seja, os hábitos familiares podem variar no tempo, em função da cultura, da mudança do padrão de vida et cetera... 

Mas e quantos aos irmãos adotivos? Qual seria a correlação média esperada no caso do peso?  A-haaa... Apenas 4%... Ou seja, irmãos adotivos não compartilham nada mais do que o meio, e por isso apresentam as diferenças esperadas... Mas gêmeos idênticos criados por famílias inteiramente diferentes, tendo sido separados na maternidade, educados em culturas, países e continentes diferentes, ainda assim, apresentam 72% de correlação em relação ao peso... Isso solapa de vez a ideia de que o homem é produto do meio... A genética é bem mais influente em nossas vida do que o meio, que por suas vez não deixa de representar um importante fator...

Portanto, queridos amigos, entendo como é chocante - depois de um século de 'certezas e sandices freudianas' e seus derivativos (Lacan e Jung), além dos dogmas behaviorianos -, descobrir que o comportamento humano e a personalidade são tão  pouco influenciados pela família em que fomos criados...

Sigmund Freud - corretamente - escreveu: "a humanidade ao longo do tempo teve que sofrer nas mãos da ciência três grandes ultrajes a seu amor-próprio"... Os referidos ultrajes são: 1) A descoberta de que o nosso 'mundo' - ou mundinho - não está no centro de um fantasioso sistema composto por 'perfeitas esferas cristalinas', criadas decorativamente por um deus mágico, somente para iluminar a noite; e que na verdade o nosso 'mudinho' é muito menos do que um grão cósmico, perdido em meio a três sextilhões (3x10^23) de outras 'esferas' - nem tão esféricas - de plasma, onde o Hidrogênio é fusionando para produzir toda a Tabela Periódica; 2) A descoberta de que não somos as criaturas especiais e diletas daquele deus 'decorativo', e que na verdade descendemos de animais, e somos resultado de um processo evolutivos, de onde compartilhamos com eles - animais - as mesmas unidades elementares da vida e pera o pensamento e consciência; 3) A descoberta de que a nossa mente 'consciente' não 'livre-arbitra' e nem controla o modo como agimos, mas na verdade a nossa mente apenas nos conta uma estória 'remontada e continua' sobre nossas vidas; uma estória por vezes fantasiosa, mas sempre pessoal e subjetiva...

Freud estava certo quanto ao impacto cumulativos de tais descobertas sobre a humanidade, mas foi a associação entre a Psicologia Cognitiva, a Neurociência Cognitiva e a Genética Comportamental, que desferiu o terceiro golpe, e não dogmática e bizarra Psicanálise...

Mas esta tríade - Psicologia Cognitiva, Neurociência e Genética - está promovendo alguns ultrajes mais: 4) A descoberta de que não somos uma 'tábula rasa', nem uma folha em branco preenchida apenas pela experiência, e muito menos pela engenharia social, e que não somos um mero produto do meio; 5) A descoberta de que a doutrina sociológica do 'bom selvagem' é uma falácia, e que podemos viver de forma civilizada construindo uma sociedade mais inclusiva, justa, fraterna, e ainda assim livre; operando a partir da tomada de ComCIÊNCIA sobre a 'real condição humana'; 6) A descoberta de que o fantasma da máquina não existe, consequentemente dualidade entre corpo em alma - ou mente - também cai por terra... Só o que existe é a Physis, em última análise, e pensamento decorre de nossas células neurais, e não de um comando central - ou alma - desconectado do corpo, e portanto resistente à morte; 7) A descoberta de que somos mortais, finitos mas maravilhosos; e que o tempo urge...

Lesões nos Lobos Frontais podem deixar a pessoa embotada ou modificar - moderada ou completamente - o seu repertório comportamental, uma vez que esta região do cérebro esta relacionada com os freios ou inibidores de nossos impulsos emocionais, atuando sobre o Sistema Límbico - particularmente em um circuito que liga a amígdala ao hipotálamo pela via conhecida como Stria terminalis... Os Lobos Frontais atuam sobre cada hemisférico, garantindo que as nossas estratégias e objetivos predominem sobre os impulsos deflagrados pelo Sistema Límbico... É por isso que cedemos lugar à uma pessoa idosa, ou respeitamos filas, ou pedimos as coisas ao invés de tomá-las... O nosso desejo e o nosso instinto de sobrevivência e defesa é então moderado, resultando em um comportamento dito sociável...

100 bilhões de neurônios conectados por 100 trilhões de sinapses, modelados por 30.000 genes, e um infindável número de combinações, resultando na complexidade e beleza da experiência  humana... Complexidade tal que Alfred Russel Wallace, co-desenvolvedor - ao lado de Charles Darwin - da Teoria da Evolução,  familiarizado com a diversidade 'não intencional ou moral' da vida, não foi capaz de aceitar... Wallace não pôde aceitar que a mente humana, ou sistema neural, diferia dos demais animais apenas em grau e não em tipo... De forma que infelizmente Wallace não pôde livrar-se do 'fantasma na máquina', o que de certa forma ofuscou o brilho e a importância de sua obra... Wallace terminou a vida tentando se comunicar com os mortos e procurando um lugar para a 'alma' humana... Em tempos vitorianos, antes da descoberta do DNA por Watson e Crick, antes das maravilhas de Santiago Ramón y Cajal - que intuitivamente postulou a doutrina do neurônio, que tempos depois foi comprovada -, e de outras descobertas genéticas e neurofisiológicas, não podemos condenar Wallace por sua hesitação... 

Apesar de toda a timidez (E), Darwin tinha uma mente incomum e aberta (A) para sua época; era meticuloso (C), generoso (S), e talvez uma de suas neurose tenha sido o detalhismo, que caiu como uma luva no desenvolvimento da Teoria da Evolução... Outra neurose de Darwin talvez tenha sido o medo do moralismo religioso de sua época... E Darwin, embora não tenha impetrado nenhum sendeiro místico - no estilo espírita de Wallace -, terminou a vida declarando-se um deísta quase agnóstico, mas sem permitir que isso interferisse em sua integridade intelectual... Mas para a nossa sorte, Thomas Huxley estava em seu caminho: aberto (A), consciente, intenso e disposto a correr riscos (C), extremamente extrovertido, eloquente e carismático (E); agressivo, combativo e sem medos - e muito temido - (S); e talvez a sua neurose mais tangível advenha do orgulho e de não levar desaforo para casa (N)... Estas explosivas e brilhantes características nunca estiveram tão claramente a serviço da humanidade como no célebre debate com o Bispo de Oxford Samuel Wilbeforce:

"(...) o Bispo de Oxford, Samuel Wilbeforce, de dedos enfiados na lapela volta-se ostensivamente para Huxley e, com maliciosa cortesia, insiste em saber se 'é por parte do avô ou da avó que o senhor afirma descender de um macaco?' Ao detectar a entonação bajuladora dada à palavra 'avô', a assistência solta alguns 'oohhs' em voz baixa e concentra a atenção em Huxley. Ainda sentado, Huxley vira-se para o indivíduo que está ao lado dele e, quase sonolentamente, murmura 'o senhor entregou-o em minhas mãos.' Pondo-se de pé e fitando Wilbeforce nos olhos responde: 'Prefiro ser descendente de dois símios a ser um homem que tem medo de enfrentar a verdade.' (...)" (Sagan, 2009 - Sombras de Antepassado Esquecidos)

Carlos Sherman

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Querer...




Sim... Na verdade não somos 'efetivamente' donos de nossos atos... O livre-arbítrio é uma falácia, e uma velha ilusão... Mas somos sim 'responsáveis' por nossos atos... Legalmente, rsrsrsrs... E não escolhemos o que sentir, e nem o que querer, rsssrs... Tem muita coisa pra entender aí, a genética, epigenética, o nosso equilíbrio bioquímico, a neurociência, a cadeia de eventos de nossa vida, o aprendizado, a cultura, etc... Schopenhauer resumiu brilhantemente a questão: 'Você pode querer, é certo, mas não pode querer o que quer'...

Carlos Sherman