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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Porque eles são mais fofos... Muito mais...




A história presta contas de que o primeiro relato sobre a síndrome foi feito entre 1864 e 1866, pelo médico inglês John Langdon Haydon Down, que trabalhava com crianças com atraso neuropsicomotor - em Surrey, Inglaterra... Ele listou com clareza as características físicas similares que observou em alguns filhos de mães acima de 35 anos de idade, descrevendo as crianças como “amáveis e amistosas”... Fofas... Muito mais fofas...

Após a descrição de Down, os estudos sobre a causa da síndrome foram erroneamente atribuído à tuberculose, à sífilis e ao hipotireoidismo, sendo os pacientes considerados como “crianças inacabadas”... Durante o período que antecedeu a identificação da alteração cromossômica, os pacientes foram rejeitados e mantidos isolados de suas famílias e sob regime hospitalar, em condições precárias... As famílias dos portadores de SD tinham vergonha de seus filhos ‘inacabados’... Este período na história da SD é marcado pela IGNORÂNCIA, com forte influência da dita ‘moralidade’ religiosa e cultural - e coincide com o Holocausto Judeu -, a epítome do preconceito humano... Lembrando sempre que toda 'diferença' é tratada pela bíblia como castigo... Na verdade a dor do parto é tratada por deus como um 'castigo à mulher'... As doenças, todas, estão descritas na bíblia como possessão demoníaca... Então não devemos esperar nada senão preconceito, por parte de crenças e da falsa moralidade vigente na época; e em certos círculos, vigente até hoje...



Em 1959, quase cem anos após a descrição do Dr. Down, os cientistas Jerome LeJeune e Patricia Jacobs, trabalhando de forma independente, determinaram a causa do que até então era tachado cruelmente de “mongolismo”, como sendo a trissomia do cromossomo 21... Ou seja, todo o preconceito religioso – a imperfeição, como punição –, social e cultural, cedeu lugar à verdade e ao conhecimento... Crenças e preconceitos abaixo, - down on the floor -, conhecimento acima - up in the sky...



A trissomia do 21 foi a PRIMEIRA alteração cromossômica detectada na espécie humana e dentro dos primeiros anos da década seguinte, seria renomeada para Síndrome de Down... A descoberta da alteração cromossômica marca o segundo período da história da SD, trazendo consigo uma fase repaginada de interesse científico, e de aceitação social...

Em 1960, Polani descreveu casos de Translocação, isto é, partes do  cromossomo 21, ou o cromossomo inteiro colado estava colado a outro cromossomo... Em 1961, foi descrito o primeiro caso de Mosaicismo, quando duas linhagens celulares possuem diferentes padrões cromossômicos... No caso da SD, uma linhagem celular tem 46 cromossomos (normal), enquanto a outra possui 47 (com a trissomia 21)... Nos Estados Unidos, após uma revisão de termos médicos, realizada em 1970, a denominação “mongolismo” foi finalmente abolida, e a alteração ou 'diferença' foi definitivamente denominada Síndrome de Down (Down Syndrome), em homenagem ao médico que a descreveu pela primeira vez...



O terceiro período da história da SD coincide com a onda de reconhecimento dos direitos da criança e do adolescente, que foi tomando conta de grande parte do mundo a partir das últimas décadas do século XX, e onde toda criança, independente de sexo, raça, cor, religião ou capacidade mental teria direito a cuidados médicos e educação... Começou assim, uma fase de influência do Humanismo Secular, e do interesse científico aliado ao interesse educacional... E hoje, a marginalização e a ignorância, enfim, vão cedendo paulatinamente lugar ao seguimento inter-disciplinar ‘humanizado’ e especializado, e dando lugar a programas educacionais cada vez mais ricos, pautados no conhecimento de que as pessoas com SD têm inúmeras potencialidades e revelam-nas quando bem integradas à família e à comunidade...



Hoje, nossas crianças Down, podem ter um desenvolvimento motor muito próximo às crianças que não tem SD, falam, correm, brincam... Muitas aprendem a ler, escrever; outras, a tocar piano; muitas praticam esportes, e tantas outras dedicam-se a uma profissão ou às artes, conforme suas potencialidades – que devem ser aproveitadas ao máximo...



Um programa de desenvolvimento e socialização para portadores de SD deve considerar - além do cuidado com a saúde – o carinho e a atenção como ingredientes essenciais, para o desenvolvimento pessoal, social e afetivo de nossos amiguinhos... Profissionais, pais, mães, colaboradores, e todos, precisam estar envolvidos nesta tarefa belíssima, e humana, de ajudar estes humanos como nós, com algumas necessidades especiais... Um exercício de ‘fazer o bem’, por meio do conhecimento - que suplanta a ignorância -, pela ética e pela HUMANIDADE... Sem deuses, e sem crenças sobrenaturais... Porque Down é natural... Muito natural... É HUMANO, TROPPO UMANO...

Uma linda vida sempre...

Carlos Sherman

Fontes de Pesquisa: Dra. Gisele Santos de Oliveira, Dra. Meire Gomes...









DOWN? IS SO UP !!!




DOWN? IS SO UP !!!

Recebi mais uma mensagem com as ‘maravilhas de deus’... Alguém relatando as maravilhas de seu amiguinho imaginário... Desta vez, contando a estória de Shaya, portadora de Síndrome de Down, e tentando "justificar" a "perfeição de deus, mesmo diante da imperfeição de Shaya"... E esta estória de imperfeição e de deuses, realmente me tira do sério... Respondi:

Inventamos Deus... Todos eles...

É impressionante ver - ainda hoje - como insistimos no ‘Auto-Engano’... Estou sempre recebendo mensagens como esta, e relevando... E isso porque sei que são enviadas com a melhor das intenções... Mas não é verdade que um deus está regendo tudo, e não precisamos ficar desculpando este deus por eventuais "imperfeições", posto não existirem imperfeições em Shaya... São apenas diferenças... E não existe um deus, e muito menos um projetista... Nem minimamente... E nem erro de projeto... Trata-se apenas da natureza, e de seus acasos... É muito mais simples, mas talvez, muito mais difícil de aceitar; isso porque nos torna responsáveis por nosso destino frágil e sem aparente sentido... 


Existem processos naturais, e que não controlamos, como – por exemplo - mutações genéticas... Sabemos, em muitos casos, detalhadamente como ocorrem, e onde ocorrem no DNA, e não existe mistério aí... Apenas um pouco de complexidade, que muitos ainda não entendem, e apenas porque não estudaram o suficiente... Dispomos de uma gama imensa de conhecimento, e entendo que fique difícil de estudar tudo, mas é que todo este papo é tão simples quanto a palavra 'desconhecimento'... Onde todos vêem mistério, existe apenas complexidade...



Me preocupo muito mais com as ‘pré-concepções’ do que com o desconhecimento... Quem desconhece sabe que desconhece... Quem ‘imagina, abstrai, fantasia’, e acredita nas próprias crenças, mesmo quando completamente infundadas, enfrenta um problema muito maior: desintoxicar-se de todas as idéias  - equivocadas - auto-infundidas, ou fruto de doutrinação, condicionamento, ou mesmo da lavagem cerebral... As pré-concepções são o problema, e não o desconhecimento... A mesma via que conduz a imaginação humana e à saudável criatividade, conduz ao engano e a superstição... E temos que conviver com isso...



Mas a minha missão - que passa bem longe de ser um campeão de popularidade – é ajudar a democratizar o conhecimento e trazer clareza onde existe completa escuridão... Leiam, estudem... Não se entupam de verborragia, e dos lugares comuns da ‘vitmologia’, do esoterismo, das falácias, e da auto-ajuda... ‘Auto-ajude-se’... Pense, dedique alguns minutos para considerar suas pré-suposições à luz do bom senso (e não do senso comum)...

Não só a Síndrome de Down, mas toda e qualquer 'diferença' ou problemas relacionados com a saúde, estão descritas na bíblia como "possessão demoníaca ou castigo"... Castigo? Aqueles fofinhos? Castigo? Down é natural...



Leiam ‘Como a Mente Funciona’, ‘De Que é Feito o Pensamento’, ‘Tábula Rasa’ de Steven Pinker’; ‘Em Busca da Memória’ de Eric Kandel; ‘O que nos faz Humanos’ de Matt Ridley; ‘Quebrando o Encanto’, ‘Brainstorms’ de Daniel Dennett; ‘As Borboletas da Alma’ de Drauzio Varella; ‘O Maior Espetáculo da Terra’, ‘A Grande História da Evolução’, ‘O Gene Egoísta’, ‘Deus um Delírio’ de Richard Dawkins; ‘Sombras de Antepassados Esquecidos’, ‘Pálido Ponto Azul’, ‘Os Dragões do Eden’, ‘Bilhões e Bilhões’, ‘O Mundo Assombrado pelos Demônios’, ‘Variedades da Experiência Científica’ de Carl Sagan; ‘E o Cérebro Criou o Homem’ de Antônio Damásio; ‘A Evolução do Cérebro’ de Paulo Dalgalarrondo; ‘Genética’ de Mayana Zatz; ‘Muito Além do Nosso Eu’ de Miguel Nicolélis; ‘Criação Imperfeita’, ‘A Dança do Universo’ de Marcelo Gleiser; ‘Auto-Engano’ de Eduardo Giannetti; ‘O Livro Negro da Psicanálise’ de vários autores; leia Michel Onfray, Sam Harris...

Leia Drummond, Pessoa, Borges, Neruda, Llosa, Garcia Marque, Jorge Amado, Machado de Assis, Veríssimo (os dois), Cora Coralina, Mário Quintana – todos, descrentes, todos eles... E muito humanos... Leia Voltaire, Nietzsche, Wittgenstein, Bertrand Russel, William James, Joseph Campbell... Empanturre-se de Epicuro de Samos... Leia... Estude, saiba, para não correr o risco de ‘precisar crer’, e errar... Errar muito... Pré-julgar e julgar equivocadamente... Saiba e ensine, ou escute e aprenda...



E se, TUDO O QUE VOCÊ – PENSA QUE – SABE ESTIVER ERRADO? Aposto que sim... Comece hoje mesmo a mudar o jogo... O Tempo está passando...

O bem estar de crianças como Shaya, e portadores de alterações genéticas de toda ordem, depende de você, e dependem de homens e mulheres que não vivem de crenças, enganos e auto-enganos, e que decidiram dedicar suas vidas a estudá-las e ajudá-las... Depende de humanidade... Nossas melhores práticas, nossa ética e nossa solidariedade não vieram de livros sagrados, nem de deuses... Vieram do sentido de pertencer à humanidade... ‘Umano, troppo umano’, como diria o meu grande amigo e poeta milanês – também descrente, apenas humano - Pino Mercure -, citando Nietzsche...



Hoje em dia podemos acertar mais porque entendemos mais... Não passe a vida de joelhos, recitando ladainhas medievais... Levante-se e faça parte da solução... Lute... Quem não sabe onde esta, não saberá para onde ir...

Sejamos simplesmente – e eficazmente -  ‘umanos, troppo umanos’...


Uma linda vida a todos...

Carlos Sherman

‘Por uma simples questão de bom senso não acredito em deus, em nenhum deles’ – Charles Chaplin