Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador amor romântico sexo amar oxitocina serotonina dopamina cortisol endorfina neurociência genética comportamento ciência paixão neuropsicologia evolução shakespeare poesia relações casal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador amor romântico sexo amar oxitocina serotonina dopamina cortisol endorfina neurociência genética comportamento ciência paixão neuropsicologia evolução shakespeare poesia relações casal. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

AMOR ROMÂNTICO, RELAÇÕES, SEXO... E AMAR!



AMOR ROMÂNTICO, RELAÇÕES, SEXO... E AMAR!
Carlos Sherman

Dedicado a uma amiga, e em resposta a um vídeo enviado por ela, onde Pedro Calabrez fala sobre o Amor e Paixão.

------------------------------


Obrigado, querida, já conhecia o vídeo, mas tenho algumas ressalvas e complementos a fazer:

No amor, e após o jorro da paixão, a relação realmente precisará funcionar. Vivemos novos tempos, e a mulher definitivamente encontrou o seu espaço e independência... Mas não defendo causas feministas, e ao contrário, denuncio seus excessos.

E caracterizar a paixão no vídeo como "demência" não é uma resposta científica, e sim um apelo midiático. Existe certo exagero aí, com um viés muito negativo... É mais como uma sensação inebriante, deliciosa, e até viciante... Estudos mostram que em casos muito raros pode durar por toda a vida, embora normalmente despenque em menos de 12 meses, que começam a contar na assinatura dos papéis estabelecendo as condições para o destrato. 

Mas podemos sim continuar nos apaixonando pela mesma pessoa, sempre, e indefinidamente... e isso essa me parece ser a expressão máxima da experiência humana!

O circuito do amor, por outro lado, começa em uma região muito antiga, a área tegmental ventral, que se conecta no sistema límbico à amídala. Esse é o circuito responsável pela liberação de cortisol, produzindo aquele friozinho na barriga, e também estresse: o medo da perda, o ciúme. Outro circuito conecta a região tegmental ventral com núcleo accumbens liberando dopamina, e produzindo aquela maravilhosa sensação de recompensa característica do amor romântico, quando correspondido. 

Mas algumas pessoas ativam mais um circuito do que o outro, e produzem mais cortisol do que dopamina, mais medo do que recompensa, em diferentes gradações. Isso depende intrínseca e inescapavelmente de nossa natureza neuropsicológica. Finalmente o córtex pré-frontal media tudo isso, com papel predominante da região ventral medial, responsável direta por nossa tendência à socialização, caracterizando em grande medida nossa personalidade.

Existe ainda o problema da inibição da serotonina, responsável pelo prazer "suficiente e necessário", alegria, e satisfação... E é aí que entra o importante papel do sexo, de "fazer amor", exatamente para lavar e enxaguar os nossos cérebros com serotonina, além de mais dopamina e endorfina - até 400 vezes mais poderosa que a morfina... Assim, o sexo cumpre uma função essencial na satisfação, no relacionamento, e na vida. Sexo é saúde!!! E a liberação sexual coincidiu com o processo pacificador que estamos vivendo.

Como o tempo, em uma boa relação, caso raro, já que não evoluímos para relações monogâmicas, o estresse e o medo decaem, a confiança e a cumplicidade aumentam, enquanto o sexo ajuda muito nessa transição. Essa é a trama da vida e do amor... Pois, VIVA O CIRCUITO DO AMOR!

Lembrando ainda que o amor romântico é recente; e começa a ser cantado em verso e prosa por trovadores venezianos somente no século XII. E pensar que Platão desprezou a poesia em sua República vegetariana. Assim, o "cavaleiro" medieval transcende à condição de "cavalheiro". O culto às tradições de cavalaria é mantido, em parte, assim como o enaltecimento do heroísmo; mas dessa vez o objetivo é a adoração a/de uma só mulher... Isso subverte, em certa medida, os impulsos biológicos ditos masculinos em relação à quantidade de conquistas, em favor da qualidade da conquista... no advento da fidelidade. 

Este é um importante passo cultural alicerçado em possibilidades humanas inatas, como o altruísmo. O quarto elemento presente neste passo histórico é o sofrimento. E mais tarde, no final do século XVI, Shakespeare materializaria este amor romântico em Romeu e Julieta. Um romance como apenas três dias de intercurso, conta cinco mortos, rsrsrsrsrsrs... Mas está eternizado em nossa cultura; onde, definitivamente O AMOR ESTÁ NO AR! E lembrando que o Taj Mahal - que tive oportunidade de visitar - é uma construção mongol e muçulmana do século XVII; erigido em nome de uma entre centenas de concubinas - o que não guarda assim tanto "romantismo"... 

De lá pra cá, tratamos de aplacar a violência que teimava em impedir que os amantes se unissem voluntariamente, rompendo com toda tradição patrimonial do casamento, e melhoramos muito. Só em nossos dias, e nunca antes na História, o amor romântico foi expressado de forma realmente livre.

Para essa tradição do amor romântico convergem cinco vetores contingentes muito fortes: (1) A cadeia de eventos que remonta o direito de propriedade, herança, e finalmente família; já que o matrimônio reza sobre bens - e nada mais; (2) O enaltecimento do prazer, com resultado o advento científico e bioquímico da pílula - assim como outros métodos contraceptivos; subvertendo o papel meramente procriativo em um tremendo parque de diversões; (3) A independência e direitos da mulher; (4) Questões de saúde pública; (5) A certeza da vida finita - mesmo quando não é confessa...

Queremos ser felizes aqui e agora... e com muito prazer! Hedonistas, e com pouco tempo a perder! Hoje, gestamos no máximo dois, um, ou nenhum filho. Não estamos dispostos à promiscuidade e a independência da mulher, nos círculos mais esclarecidos, é um fato. A propriedade se torna secundária, quando colocada em perspectiva de realização pessoal e humana. E o que decorre de tudo isso é uma interessante quebra de paradigmas, convertendo a monogamia "por toda a vida" em relações monogâmicas eternas enquanto durem... Várias relações monogâmicas ou de fidelidade, e, melhor dizendo, de lealdade - que abrange e amplia o conceito...

Finalmente, tudo isso versa sobre o "amor romântico"; mas  outras relações também podem funcionar, e o amor romântico definitivamente não é a regra, e nem vale para todos. Lembrando ainda que a maior parte dos matrimônios no mundo ainda são arranjados ou negociados. 

AMAR, verbo intransitivo, apesar da relação semântica, é algo bem diferente. Trata-se de uma capacidade neuroquímica ligada, entre outras coisas, ao conluio entre neuroreceptores e transmissores para a oxitocina e vasopressina. Estes hormônios estão em profusão no cérebro das mulheres durante a gestação e após o parto - mais em umas do que outras... Amar é um conceito mais amplo, que desencadeia ações com fortes vieses altruístas, em contraponto ao egoísmo e individualismo. Quando vivemos pelo sorriso alheio.

Amar não cobra um payback, mas alimenta-se do feedback bioquímico, da sensação pessoal e intransferível de fazer o bem a outrem... Dividindo recursos, víveres, tudo... ou até mesmo, em sua epítome, dedicando a própria vida.

Contrariando o senso comum, na verdade estamos amando mais... muito mais! Estamos selecionando o amor! Por isso estamos melhorando, aumentando a solidariedade, morrendo 40 vezes menos ao nascer, diminuindo a violência em mais de 100 vezes, e triplicando a expectativa de vida, enquanto controlamos a taxa de natalidade.

Por outro lado, a liberdade de escolha para homens e mulheres, a liberdade de escolher amar, vive também a sua fronteira paradigmática; já que tal liberdade vive seus dias de excesso... e escolhemos como em uma vitrine interminável - no POF, Tinder etc... Já não nos conformamos em questionar se a relação é boa ou não, mas passamos direto ao seguinte questionamento obsessivo: não poderia ser ainda melhor? Sem pretender nivelar a maravilhosa experiência de amar por baixo, advirto que isso pode, em certa medida, levar à vulgarização de nossa liberdade de escolha, e consequentemente à superficialidade nas relações... Afinal: NUNCA INVESTIMOS TANTO EM AMOR, EM AMAR... E NUNCA NOS SEPARAMOS TANTO!

Podemos invocar o "eterno enquanto dure", mas recomendo a cautela em julgar se uma relação pode ou não durar; o que dirá, "eternamente"! De minha parte, confesso estar condenado à sensibilidade, de forma que foco sempre no amor romântico e eterno. Sempre pulo sem paraquedas, e até o fim! Mesmo quando não dura, a disposição de quem possui a capacidade de amar sempre será um ato de amor... Sendo essa, repito, uma resultante inequívoca de nossa natureza neurofisiológica!!! Então, e para aqueles felizardos, capazes de amar... apreciem o voo, e curtam a vertigem!!!


Carlos Sherman