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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Encontro com Homens Notáveis: Oliver Sacks




Encontro com Homens Notáveis: Oliver Sacks

Nós vemos com os olhos... Mas na realidade nós vemos, ouvimos, sentimos, saboreamos, degustamos com o cérebro...  Ver com o cérebro é comumente conhecido como ‘imaginação’...  E estamos familiarizados com este cenário, a nossa imaginação... Mas as alucinações podem irromper, a qualquer momento, com ou sem aviso prévio, e perturbar este cenário... 

As alucinações parecem vir do exterior... Parecem reais... Não parecem ser produzidas por falhas em nosso processamento cerebral... Não parecem ser, de certa forma, criadas por nós...  E elas, as alucinações, imitam a nossa percepção... 

Oliver Sacks vive esta realidade diariamente, ou seja, convive com alucinações, e com muitos de seus pacientes que imaginam que suas alucinações não passam da mera extensão de sua percepção... Uma paciente de Sacks, próxima dos 95 anos, estava ‘vendo coisas’, e ele foi avisado... Haviam suspeitado de sua senilidade, ou por estar muito idosa, também suspeitaram de um derrame, ou mesmo Alzheimer... E Sacks foi visitar Rosalie, a senhora idosa que estava ‘vendo coisas’...

Sacks percebeu de entrada que se tratava de uma senhora perfeitamente lúcida, sã, e inteligente, e estava muito assustada e desconcertada por estar ‘vendo coisas’... Mas o detalhe mais importante em toda esta estória, ainda não esclarecido, é de que esta senhora era completamente cega, pelos últimos 5 anos, resultado de uma degeneração macular... Mas agora estava vendo coisas... 

Sacks interrogou a senhora, "mas que tipo de coisas você vê?" Ela respondeu: "Pessoas com vestes orientais, subindo e descendo escadas. Um homem que olha pra mim e sorri, mas com dentes enormes, apenas de um lado da boca. Animais também. Eu vejo um prédio branco, e está nevando. Uma neve suave. Eu vejo um cavalo, com arreio, dragando a neve. Então em uma noite a imagem muda. Vejo gatos e cachorros andando na minha direção. Eles chegam até um ponto e param. Então a cena é interrompida e muda subitamente outra vez. Eu vejo várias crianças, com vestes coloridas, ela sobre e descem escadas. Elas vestem cores brilhantes, rosa e azul, em estilo oriental. Algumas vezes, antes das pessoas entrarem, vejo quadros rosas e azuis pintados no chão, que parecem subir até o teto." 

Sacks indagou: "É como um sonho?" E ela respondeu: "Não, não é como um sonho, é como um filme. Tem cor, tem movimento, mas é completamente sem som, como um filme mudo, um filme muito chato, como um filme mudo, com pessoas subindo e descendo escadas, com estas roupas orientais, tudo muito repetitivo e limitado" E sorriu... Rosalie tinha muito senso de humor, segundo Sacks, e sabia ser uma alucinação, mas estava assustada...  Ela estava havia vivido 95, cega há 5 anos, e jamais havia tido este ou qualquer tipo de alucinação... Estas alucinações iam e vinham sem aviso, e ela não sabia o que fazer, ou o que estava acontecendo... Ela não conseguia identificar as pessoas, nem os lugares, nem os animais, as roupas, a imagens... Era tudo espúrio para ela... As alucinações também não estavam relacionadas com nada que ela havia pensado, sentido ou feito... 

Rosalie pensou que estava enlouquecendo...  Sacks examinou aquela senhora brilhante, cuidadosamente, e constatou que ela não tinha outros problemas médicos, percebeu que, além das alucinações, ela estava perfeitamente lúcida, além de não tomar nenhum tipo de medicação que pudesse explicar esta sintomatologia... Mas ela estava cega... Então Sacks, com um brilho nos olhos, trouxe alenta à senhora dizendo: "Eu acho que sei o que a senhora tem. Existe um tipo especial de alucinação visual, associado com a deterioração da visão ou a cegueira, que foi descrito originalmente no século XVIII, por um homem chamado Charles Bonnet. E você tem uma Síndrome de Charles Bonnet. Não existe nada errado em sua mente, nada errado com o seu cérebro, você tem uma Síndrome de Charles Bonnet." Isso provocou grande alívio, e ela percebeu que não estava louca, e continuava lúcida aos 95 anos de idade...

Rosalie, diz a estória, ficou muito curiosa sobre este tal ‘Charles Bonnet’, quem era este homem? Ele havia desenvolvido a mesma ‘síndrome'??? Apressou-se em avisar às enfermeiras, "eu tenho Síndrome de Charles Bonnet", orgulhosa, rsrsrsrs, muito orgulhosa, rsrsrs... 

Alucinações visuais e auditivas, são mais frequentes do que imaginamos... Aproximadamente 10% das pessoas com alguma perda auditiva, tem alucinações musicais... O que dizer de Bethoven??? Será??? E aproximadamente 10% das pessoas com perdas visuais, tem alucinações visuais... E não é necessário que a pessoa esteja totalmente cega para ter alucinações, basta a perda parcial da visão... 

Charles Bonnet não teve alucinações... Mas o seu avô, um magistrado, um homem idoso, que havia feito uma cirurgia para catarata, passou a ter essas alucinações... Sua visão estava bem comprometida... Em 1759, preocupado, ele passou a descrever para o seu neto o que via: "A primeira coisa que me lembro de haver visto, foi um grande lenço azul pairando no ar, com quatro círculos laranjas. Uma grande roda pairando no ar." Ele naturalmente sabia que se tratava de alucinações, não existem rodas pairando no ar, e mesmo lenços finalmente acabam caindo... Mas tudo era tão perfeito que esta certeza fraquejava, e por vezes estas alucinações se encaixavam perfeitamente à cena... 

Uma vez, quando as netas foram visita-lo, ele perguntou: "Quem são estes jovens bonitos com vocês?" E suas netas, assustadas, responderam: "Mas vovô não existe nenhum jovem conosco." Isso foi o suficiente para que os jovens desaparecessem... E este comportamento é típicos em tais alucinações... Elas podem vir, e subitamente desaparecer... Normalmente tais alucinações não chegam gradualmente, elas chegam de súbito, e partem da mesma forma... Tais alucinações caracterizam-se por serem repentinas... 

Charles Lullin, o avô, via centenas de imagens diferentes, descortinando-se em sua ‘mente’; paisagens e situações de todos os tipos... Certa vez ele descreveu que viu "um homem de roupão fumando cachimbo, e percebi que era eu", e esta foi a única pessoa que ele reconheceu... Certa vez, caminhando pelas ruas de Paris, ele viu – e isso foi real – um andaime... Quando chegou em casa, havia uma miniatura do andaime, de aproximadamente 15 cm sobre sua escrivaninha, desta vez uma alucinação... Tal repetição de percepção é conhecida como ‘palinopsia’...

Ambos perguntaram a si mesmos, ‘o que está acontecendo?’... Sacks explica que, quando perdemos a visão, as partes responsáveis pela visão, o Córtex Visual, não recebem mais inputs ou sinais, tornando-se hiperativas e excitadas; e começam a disparar, produzindo imagens, e alucinações...  

E estas alucinações podem ser bem complexas, como no caso de outra paciente de Sacks, que possuía ainda certo grau de visão... Certa vez, ela descreveu, em um restaurante, a visão de um homem com a camisa rasgada, quando subitamente o homem se virou, dividindo-se em figuras idênticas com camisas rasgadas, e que começaram a andar na direção dela... Subitamente, as seis figuram voltaram a se unir, como em uma sanfona... Em outra oportunidade, ela ia no carro, e com o seu marido ao volante, quando a estrada se dividiu em quatro, e ela amargou a estranha sensação de seguir nas quatro direções, simultaneamente... 

Esta paciente tinha, frequentemente, alucinações com carros, ou qualquer tipo de movimento... Era também muito comum que ela visse um adolescente sentado no capô do carro, em movimento... Ele fazia gracejos, mantinha o controle mesmo quando o carro fazia curvas, e ela presenciava sua persistência... Quando o carro parava no semáforo, o garoto era lançado em um voo vertical, subindo a cerca de 30 metros de altura,  no melhor estilo ‘Cirque du Soleil’, para subitamente desaparecer... 

Outra paciente não tinha problemas particularmente com os olhos, ou com a sensibilidade visual, mas um pequeno tumor no Lobo Occipital... Isso era o suficiente para que ela literalmente assistisse a desenhos animados em seu campo de visão... Estes desenhos eram parcialmente transparentes, e cobriam apenas metade do campo visual, como em uma tela... Ela convivia especialmente com ‘Caco’, o sapo... Ela não se interessava por Vila Sésamo, e muito menos por ‘Caco’, o sapo, rsrsrsrs... Então, por que o ‘Caco’? Por que não o ‘Garibaldo’, rsrsrsrs, ou outros personagens de outros quadrinhos, e por que quadrinhos??? E antes que alguns freudianos exercitem suas alucinações próprias, devemos assegurar que o pai dela não se parecia minimamente com um sapo, e em especial com o ‘Caco’, rsrsrsrsrs... Ela interrogava Sacks: "Por que ‘Caco’, o sapo, ele não significa absolutamente nada para mim?"

Assim como Rosalie, esta paciente também via em suas alucinações, muitas faces, e estas faces eram geralmente deformadas, com dentes desproporcionais ou olhos enormes... E isso, evidentemente, a assustava de sobremaneira... Não era tão simples quanto alucinar ainda mais sobre pessoas mortas, ou emular ‘chapeuzinho vermelho’ e o ‘lobo mau’: "Por que estes dentes tão grandes? Por que estes olhos tão grandes?”... Trata-se de um drama legítimo... E pode ser aterrorizante, frustrante, depauperante...

Então o que está acontecendo com estas pessoas? 10% das pessoas, que apresentam significativa perda visual, apresentam tais alucinações, mas apenas 1% destas pessoas percebem as alucinações como tal... Além do diagnóstico de epilepsia, o que seria suficiente, e necessário, para justificar alucinações sobre experiências místicas, no caso de Chico Xavier, também havia o componente das alucinações visuais... E todo este complexo alucinatório não foi percebido como tal... 

Portadores de tais alucinações, podem ainda, temer um diagnóstico mais severo, ou o generalizado diagnóstico de insanidade, e preferem não mencionar tais delírios aos seus médicos... Mas, em grande parte dos casos, tais alucinações são mal interpretadas como fenômenos sobrenaturais, paranormais, e mediúnicos, além de visões milagrosas... 

Sob o meu ponto de vista, alegar ‘mediunidade’ é ainda mais insano do que declarar ‘apenas’ possuir alucinações... Estar lúcido com respeito às alucinações é mais saudável do que acreditar piamente serem reais, e pior ainda, acreditarem que tratam-se de poderes sobrenaturais...

Ao longo de quase 50.000 anos de história, desde o homem de Cro-Magnon no Paleolítico Superior, passando por dezenas de milhares de divindades míticas e místicas, pela Antiguidade Clássica Grega, pelos tempos bíblicos, pela Idade das Trevas – Idade Média -, até os dias de hoje, podemos tecer uma vaga ideia de quantas alucinações foram convertidas em entidades míticas, sagradas e sobrenaturais... Se considerarmos ainda, a enormidade dos problemas e deficiências visuais, que não puderam ser diagnosticadas e tratadas adequadamente, em função da inexistência dos rudimentos das Ciências Médicas, da Oftalmologia, e da Neurologia; poderemos dispor de claro panorama sobre a nossa sina crente, alucinatória, explicando ao menos a origem dos fenômenos, através de figuras messiânicas, visionárias, místicas... Seguir ditos ‘alucinados’, requer outras disposições neurofisiológicas, que apontam para os Lobos Temporais, Parietais, Córtex Cingulado e Pré-Frontal...

Em geral, escutar coisas ou ver coisas que não estão lá, levam alguns a acreditarem que estão loucos... Mas devo insistir que a lucidez com respeito à alucinação tem um grande valor... No entanto, considerar alucinações como evidências do sobrenatural são, significativamente, mais graves... Temos outro problema a tratar nestes casos, e além das alucinações: a dificuldade em separar fantasia e realidade... Na esquizofrenia, tais devaneios estão ajustados à cena de forma perigosamente real...

Alucinações psicóticas são diferentes, sejam auditivas ou visuais... Alucinações psicóticas são pessoais, referem-se a você... Elas acusam você,  acossam você, enganam, seduzem você... As alucinações psicóticas podem humilhar você, e podem mata-lo... Nas alucinações psicóticas, já não existe um ‘filme’, você interage com elas... E tais alucinações não decorrem de perdas auditivas ou visuais... Tais alucinações desafiam sua sanidade e lucidez...

Existem também as alucinações decorrentes da Epilepsia nos Lobos Temporais... Cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de epilepsia, e quase 90% delas ocorrem em países em desenvolvimento... Além disso, em 80% dos casos, não existem convulsões - a chamada epilepsia "idiopática" -; sendo assim, e muitas vezes, os pacientes não são facilmente diagnosticados... Normalmente o diagnóstico se dá, nestes caso, por conta de incursões ‘místicas’... O paciente, ainda não diagnosticado epilético, passa a apresentar um comportamento alterado, aludindo a fenômenos sobrenaturais, e falando sobre visões, missões messiânicas, mágicas e mediúnicas... Nos 20% dos casos, onde as convulsões são conhecidas, também existem relatos de experiências místicas após as crises...

Nos casos de Epilepsia nos Lobos Temporais, a pessoa pode acreditar que está voltando a algum momento ou lugar no passado... Você está em um cruzamento qualquer, sente um cheiro familiar de castanhas tostando ou pão-de-queijo, você escuta o som do tráfego, e todos os sentidos estão envolvidos, e você espera pela sua namorada, naquela tarde de uma terça-feira em 1982... Trata-se de um complexo de alucinações multissensoriais, repleto de sentimentos de familiaridade, e localizado em algum lugar do espaço e do tempo, como uma torrente dramática...

No caso da Síndrome de Charles Bonnet, temos alucinações dispostas com um filme, e todo o tipo de imagens, desde figuras geométricas, até alucinações bem elaboradas e complexas, contendo figuras e principalmente rostos, e amiúde rostos deformados... E os desenhos animados, são também muito frequentes... Então, retomando a questão, o que está sucedendo com o nosso cérebro??? 

É fascinante, e ao mesmo tempo assombroso, que nos últimos anos, tenhamos alcançado a condição de produzir o imageamento do cérebro... De forma que, hoje, podemos produzir uma neuroimagem funcional de nossos cérebros (fMRI -  Functional Magnetic Resonance Imaging), enquanto o paciente está vivendo uma alucinação; para descobrir que, de fato, diferentes partes do cérebro, envolvidas na codificação visual, estão sendo ativadas...

Durante as alucinação geométricas, o Córtex Visual Primário é ativado, sendo esta a parte do cérebro que percebe bordas e padrões... Não formamos imagens com o nosso Córtex Visual Primário... Quando codificamos imagens, uma parte do Córtex Superior é envolvida no Lobo Temporal... Em particular, uma área chamada Giro Fusiforme... E hoje sabemos que quando uma pessoa tem um dano nesta parte, elas podem perder a capacidade de reconhecer rostos... Mas se existe uma atividade regular no Giro Fusiforme, elas podem alucinar rostos... E este quadro, é exatamente o que encontramos nestas pessoas... 

Existe ainda uma área, na parte anterior deste Giro, onde particularmente ‘dentes e olhos’ são representados... E esta parte em particular é ativada, quando as pessoas tem alucinações deformadas ou acentuadas... Evolutivamente, a associação entre ‘dentes e boca’, em uma mesma área, pode estar relacionada com a necessidade de ler as expressões faciais, e elaborar os nossos estratagemas sociais...

Mas, curiosamente, existe outra região do cérebro, que também pode ser ativada, quando a pessoas alucina desenhos animados... É particularmente curioso que haja uma parte do cérebro especializada em desenhar e reconhecer estorinhas em quadrinhos, ou desenhos animados... Existe ainda uma parte do cérebro relacionada com prédios e casas... Ainda na década de 70, descobrimos que não só haviam partes especializadas no cérebro, mas também ‘células neurais especializadas’, por exemplo, para rostos... Hoje sabemos que existem inúmeras células neurais específicas... Você pode, não apenas ter ‘células de carros’, mas também ‘células de Aston Martin’, rsrsrsrsrs... Tenho um copo vazio de Jack Daniel´s ao meu lado, o copo trás um logo, e estava realmente cheio de Jack Daniel´s, uma edição especial, a Fire Brigade, três pontos em grau alcoólico, superior ao original... Devem haver células de Jack Daniel´s, para o copo com logo, e para a garrafa, e também para o liquido, rsrsrsrs...

Estamos tratando do nível conhecido como Córtex Inferotemporal... Neste nível trata apenas de imagens visuais, ou fragmentos de imagens, ou um figmentum – imagem ficcional... Apenas nos níveis superiores, é que os outros sentidos serão incorporados, além do relacionamento com a memória e as respectivas emoções associadas... E finalmente, na Síndrome de Charles Bonnet, você não ascende a estes níveis... Você permanece no nível inferior do Córtex Visual, onde existe um acervo de milhares, milhões, bilhões de imagens, ou fragmentos, ou fragmentos de ficções, ou imagens ficcionais; todos codificados visualmente, em células particulares, ou em pequenos grupos de células particulares... 

Normalmente, neste nível, e estas células neurais envolvidas neste complexo, fazem parte do fluxo integrado de percepção - ou imaginação... E não temos consciência disso... Apenas quando a visão é comprometida, ou estamos totalmente cegos, é que o processo é interrompido... Então ao invés de uma percepção fluida, você passa a detectar um comportamento falho, anárquico, convulsivo, ou a liberação individualizada e desordenada, de todas estas células, no Córtex Inferotemporal... Então de repente você vê um rosto, agora um carro, então isso, depois aquilo... De forma súbita, interrupta, caótica... 

No entanto, a mente faz de tudo para resistir ao caos, reorganizando-se para dar algum tipo de coerência a isso, mas obviamente não pode ser bem sucedida... O fluxo está interrompido... Quando o fenômeno foi descrito pela primeira vez, foi proposto que interpretá-lo como um sonho... Mas as refutações imediatas recaiam sobre o fato de ‘eu não conheço o Caco, eu não conheço aquele rosto, eu não poderia ter feito esta ou aquela associação’... Embora isso também suceda nos sonhos... De qualquer forma, o processo é efetivamente divergente de um sonho...

Distúrbios neurais como a Síndrome de Bonnet, são achados preciosos, no caminho de entender como o cérebro realmente funciona... Charle Bonnet refletiu, há 250 anos, sobre ‘como o teatro da mente pode ser articulado pela maquinaria do cérebro’... Agora, 250 anos mais tarde, estamos começando a entender ‘como o teatro da mente, da consciência, pode ser encenado à partir da fisiologia do cérebro’... 

O próprio Oliver Sacks, o gigante Oliver Sacks, experimentou algumas das síndromes que ele ajudou a descrever, em suas próprias palavras: “Na verdade eu mesmo padeço da perda de visão, e eu sou cego de um olho, e o outo não está muito bom. E eu vejo alucinações geométricas, mas elas param por aí. Elas não me incomodam mais do que um zumbido que me acompanha, rsrsrs, e que trato de ignorar. Mas as alucinações me interessam ocasionalmente, e costumo desenha-las nos meus cadernos. Eu fiz uma fMRI em mim mesmo, rsrsrsrs. Para ver como o meu Córtex Visual está conduzindo tudo isso. E quando eu vejo todos estes hexágonos, e essas coisas complexas, eu também tenho uma enxaqueca visual. E costumo me perguntar se todo mundo vê coisas assim, ou se coisas como arte rupestre, ou arte ornamental, podem ter sido derivadas de experiências ou alucinações como estas.”

Lamento não haver estudado, ou passado mais tempo com este ser humano tão espetacular, singular, único, inefável e indelével... Tratei de comprar em ler todas as suas obras, e assistir a todos os seus vídeos, e preocupa-me o vazio que sua ausência produzirá... Longa vida a este gênio da lucidez, da sensibilidade, da generosidade... Poucos homens viveram como Oliver Sacks, Carl Sagan, Charles Darwin, Santiago de Cajal, Mendel, Steven Pinker, Bertrand Russel, Nietzsche, entre tantos outros... Sinto-me como agora, na companhia de Homens Notáveis, cujo legado transcende e muito, as suas vidas...

Carlos Sherman     

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ciência - Consuma sem moderação



(...) Sou contra a militância ateísta, mesmo sendo ateu... Mas sou muito mais do que isso... Devemos deixar que creiam no que quiserem... Mas devemos, como cidadãos - e não como ateus -, pressionar pelo cumprimento das leis, prendendo estelionatários, cobrando impostos e fiscalizando os grêmios da fé, enquadrando os bandidos do púlpito... Estaremos confundindo tudo atacando crentes... Crentes são vítimas de si mesmo e de seus algozes... Devemos lutar pela educação, e deixar que naturalmente o processo se cumpra, e possamos contar mais pessoas livres, pensantes e éticas - logo céticas...

(...) uma negação não constitui um conjunto de princípios... Os seus princípios decorrem da atitude cética e não de sua militância  ateísta... Esta atitude cética em sua vida - presumo - conduziu consequentemente à crítica religiosa, e o abandono da crença em deuses - todos eles... Não o contrário... Não crer em deuses não constitui princípio e nem uma proposição de vida... Um negação não é uma proposição... Ok, não acreditamos em deuses, Stálin teoricamente também não... Não temos, você e eu, nada em comum com Stálin, só porque não cremos em deuses... Defina a sua vida por proposições positivas, diga quem você é, e não que não é... A minha proposição positiva é procurar SER Ético - logo cético -, e luto por isso... Positivamente, busco o conhecimento para servi-lo, porque pretendo libertar mais pessoas do julgo do medo... Mas não crer foi uma mera consequência neste caminho, não um fim... Um abraço...

(...) ateus não são um grupo, uma entidade... Não deveriam ser... Não crer em deuses não diz muito sobre uma pessoa... Crer sim... Ou seja, aqueles que creem estão unidos em uma postura dogmática, avessos à realidade... Mas aqueles que estão livres do dogma religioso, e portanto frente a frente com a realidade, ainda precisarão contar muito sobre o que farão com esta liberdade... Não vejo um grupo ateísta, e sim uma atitude cética... Não vejo espaço para militância ateísta, mas sim atitude Ética - logo cética - em prol de justiça, igualdade, liberdade, baseados em princípios Científicos, no sentido de TOMAR CIÊNCIA, TORNAR-SE CIENTE... 

E não vejo consenso entre todos os ateus que conheço em torno destes princípios... Aliás, conheço bem poucos que sejam conscientes do poder da sua liberdade... Muitos ateus saíram de um grêmio crente para outro descrente, mas mantém a atitude corporativa, mobilizada, prontos para a luta... Homens livres, miremos nos estelionatários da fé, lutemos pela aplicação das leis, para todos... Impostos para igrejas, seitas... E lutemos por educação... E permitamos que aqueles que creem, creiam... Em liberdade.... Pouco a pouco, este rebanho dependente do grupo, com questões originadas na genética, e portanto involuntárias, encontrarão proteção em uma sociedade livre, não dependente de crenças... Como ocorreu em países majoritariamente descrentes... Ou seja, pessoas dependentes do grupo, nascerão em grupos descrentes, e encontrarão conforto na Ciência, na Ética, na atitude cética... Mas ainda conservarão uma tendência ao fervor, que poderá ser direcionada para outras questões... Talvez a fundação de um grupo ateísta, rsrsrsrs, brincadeirinha... 

Considerem a semelhança entre John Nash - de 'Uma Mente Brilhante', Prêmio Nobel de Ciências Econômicas - e Wellington Menezes - o assassino de Realengo -, ambos forma diagnosticados como esquizofrênicos... Evidentemente Nash e Menezes tem muitas outras diferenças genéticas, é claro, mas a esquizofrenia causa forte impulso obsessivo... E é nisso que estamos interessados... Mas o que os difere foi a doutrinação... Nash foi educado na Ciência, e seu delírio passeou pela Guerra Fria, devido ao momento histórico... Menezes foi educado pelo manual da morte bíblico... Ambos com dificuldades para discernir entre fantasia e realidade, ambos obcecados por seus ritos, um pelas equações diferenciais, outro pela pulsão de morte... Ou seja, a proteção do grupo foi um refúgio evolutivo, e seremos capazes de brindar a proteção fora da religião... Em uma sociedade mais solidária e ética - logo cética...

Carlos Sherman

sábado, 14 de abril de 2012

Crime e Loucura


Não é igualzinho? Idêntico? Não? Como assim? Você não tem fé!!!


Diante das fraudes comprovadas da quadrilha de Uberaba, Chico Xavier - psicografia e as grotescas aparições da irmã Josefa, Revista O Cruzeiro -, Waldo Viera - o mentor -, e Otília Digo - irmã Josefa - que terminou na cadeia; além das fraudes da esposa de Allan Kardec, de todas as fraudes desmascaradas por Houdini, James Randi e Derren Brown; além das fraudes confessas das irmãs fox; o que podemos esperar do espiritismo? Isso tudo é uma piada... Triste e pesada... E de baixíssimo nível... Mas que a crendice não é de baixíssimo nível? Crendice combina com cretinice de uns, e ignorância cega de outros...

Resolver este problema depende da aplicação do Código Penal de um lado e de boa educação de outro... Mas quem crê é vítima de si mesmo e dos estelionatários de plantão... Xavier era, sem a menor dúvida, esquizofrênico... E isso se confundia em sua cabeça com os golpes que aplicava... Em sua defesa diria apenas que ele administrava uma tremenda contradição, e no final das contas achava que o crime compensava... Ou seja, acho que Xavier realmente - em sua loucura - queria ajudar, e acreditava estar ajudando... Mas essa é meramente uma opinião fundada apenas em minha sensibilidade sobre o assunto, sem fatos que efetivamente corroborem tal tese... E para tal fim, fazer 'o bem', Xavier mentia, enganava, e dava um jeito de sentir-se bem com tudo isso... 

A verdade que fere é pior do que a mentira que consola… entenda quem puder
– O Evangelho segundo Chico Xavier (2000)


O kardecismo era a doutrina certa para solucionar esta insolúvel equação: delírio e ilusões, golpes e fraudes grotescas, e ajuda às pessoas... Como ajudar alguém mentindo e enganando? O espiritismo arrebanha loucos, santos, e bandidos... Todos unidos sobre a mesma sandice... Escura, triste, maniqueísta... Pecado, punição, expiação, culpa, purificação... Triste destino...


Além do exposto, enganar e roubar pessoas, quando lutam em desespero por contactar seus entes queridos, mortos, e negociando seu último suspiro de esperança, deveria ser enquadrado com crime hediondo, inafiançável, sem direito a sursis...

Carlos Sherman

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Uma breve viagem pela realidade...



Venha viajar comigo... Serão 5 minutos, e nada mais... Prometo trazê-lo de volta, são e salvo... Inteiro, completo, mas talvez, já não seja mais o mesmo... Isso no entanto só dependerá de você... Só dependerá de seus genes, educação e estória de vida... Só dependerá da sua capacidade de ser livre para pensar... Só dependerá do medo e de sua dependência da proteção de grupos e grêmios sobrenaturais...

Mas por favor aceite este convite, 5 minutos livre de suas pré-suposições, imerso em meu mundo... Vamos nessa?

Imagine que você tem um equipamento, um capacete especial que pode estimular qualquer região do seu cérebro, sem riscos de danos... Isso não é ficção científica, e tal dispositivo realmente existe... Este capacete especial, quando aplicado ao couro cabeludo, nos permite aplicar campos magnéticos de rápida flutuação, com resultados poderosos e surpreendentes sobre a nossa percepção... Você pode estimular áreas do Córtex neuromotor, contraindo músculos no seu corpo como se você se transformasse em um boneco movido a controle remoto... Se pudesse brincar com um equipamento deste o que faria? Pacientes com distúrbios no septo, um aglomerado de células localizado na parte anterior do tálamo relatam experiências de intenso prazer com 'milhares de orgasmos em um só'... E sem sexo, rsrsrsrs... Para um cego de nascença seria maravilhoso estimular o próprio Córtex Visual para tentar descobrir o que significa afinal a 'cor'... Sempre lembrando que distúrbios em tais regiões, significam respectivamente distúrbios sobre o prazer e a visão...

Mas o psicólogo canadense Michael Persinger decidiu testar o equipamento, estimulando os seus próprios lobos temporais... E o resultado foi como esperado, Persiger sentiu 'deus'... Isso porque a muito tempo a neurociência investiga o papel dos lobos temporais sobre as crenças e experiências místicas... Os distúrbios nesta região do cérebro trazem como consequência, uma mudança brusca de comportamento com respeito ao fervo místico... Mas será que se submetermos Francis Crick, Michael Shermer, Richard Dawkins a este aparelho obteríamos a mesma impressão: deus? Seguramente não, mas vale tentar... Já fizemos experimentos similares com alucinógenos aplicados a pessoas 'crentes' e 'descrentes'... Os crentes relataram a intensificação de suas crenças, enquanto os descrentes sentiram profundo prazer, êxtase, e conexão com a natureza...

A esquizofrenia levou o cético e científico John Nash - 'Um Mente Brilhante' - ao Nobel de Ciências Econômicas, e levou Wellington Menezes e Anders, crentes fundamentalistas, ao assassinato de inocentes... Wellington Menezes falava com deus, e recebia mensagens de purificação e morte aos hereges... Nash era perseguido por agentes russos da KGB, enquanto trabalhava para a CIA em plena guerra fria... 

Quando falamos em epilepsia pensamos logo em um ataque epilético, com o paciente tendo contrações, enrolando a língua e depois desmaiando... Normalmente, experiências místicas são relatadas após tais ataques... Mas nem sempre o paciente epilético reage desta forma... Muitos epiléticos relatam apenas experiências místicas comoventes, iluminação, viagens astrais, etc... Isso porque o lobo temporal está mais uma vez sob fogo cruzado... E estranho imaginar que um deus, Tupã por exemplo, escolha esta bizarra maneira de se comunicar conosco... A Neurociência fica em uma situação delicada para medicar ou tratar um paciente 'iluminado', além do risco de contrariar os planos - por exemplo - de Odin... 

Já imaginaram o impacto que a epilepsia e a esquizofrenia teve em tempo imemoriais, e até mesmo em nossos dias, em realidades culturais que distam muitas centenas ou milhares de quilômetros de um equipamento de ressonância magnética?

Uma enfermeira desenvolveu um enorme ponto cego em seu campo de visão... E para seu assombro, frequentemente vários personagens de estórias em quadrinhos vem brincar em seu campo de visão... Ela pode estar olhando para você, e o vê o Pernalonga sentado em seu colo, enquanto conversa com o Hortelino e o Papa-Léguas... E tudo isso parece desconcertantemente REAL... Não é possível para ela discernir entre o real e o imaginário, embora - claro - ela saiba que o ditos personagens só existem em sua imaginação... O que o mesmo fenômeno terá causado em culturas passadas?

Uma bibliotecária da Filadélfia teve um derrame, e começou a rir descontroladamente até que literalmente morreu de rir... Arthur sofreu um terrível acidente de carro com danos cerebrais... Logo que recuperou a consciência passou a afirmar que por meio de uma elaborada conspiração, seu pai e sua mãe haviam sido substituídos por impostores, duplicatas... Por isso sou contra filmes de ficções pseudo-científica fantasiosa, e teorias da conspiração... Pela 'piração' que podem promover, em quem passa a apresentar distúrbios cerebrais... Estamos aqui citando casos extremos, mas e os casos sutis, imperceptíveis? Serão obviamente confundidos com experiências místicas...

Pseudo-filósofos, pseudo-cientistas, e místicos de plantão adoram polemizar e profetizar sobre experiências sobrenaturais, mas agora estamos podendo 'provar' que tais assuntos residem em outra alçada, nada mística, como prognosticou Hipócrates: na Ciência Médica...

Os homens pensam que a epilepsia é divina meramente porque não a compreendem. Se eles denominassem divina qualquer coisa que não compreendem, não haveria fim para as coisas divinas.
Hipócrates (Pai da Medicina; 460–377 AEC)

O termo epilepsia vem do grego e significa 'mal sagrado', dando a idéia de que o indivíduo é acometido por algo que vem de fora, como a ira dos deuses... A epilepsia é conhecida desde a antiguidade, e  a bíblia já se referia à doenças como "possessão demoníaca"... Isso não é nenhuma novidade, afinal a bíblia descrevia todas as patologias como possessões demoníacas... Em Lucas [9:41-42] Jesus exorciza um menino epilético expulsando os seus demônios... Hipócrates foi o primeiro estudioso a referir-se a esta doença de maneira racional, dizendo que ela não era "nem mais nem menos sagrada que outras enfermidades e que certamente não provém de irritação dos deuses com os mortais, mas sim de uma disfunção do cérebro"... 

Durante os séculos seguintes, e durante toda a cristandade a epilepsia voltou ao obscurantismo de antes de Hipócrates... Os romanos a chamavam de "mal comicial", pois entendiam que os deuses, insatisfeitos com as decisões tomadas nos "comícios", descarregavam sua ira em alguns mortais que frequentavam tais reuniões... Muitos devem ter simulado o ataque convulsivo somente por sacanagem, mas esta é outra estória... O importante é que o medo infundado sobre a epilepsia, além da profunda ignorância reinante, tem submetidos os portadores da doença à um verdadeiro suplício, que somente a educação 'científica' pode aplacar... 

O que dizer de uma paciente que tenta enforcar a si mesma com a mão direita, enquanto a mão esquerda procura livrá-la da mão agressora? Quando esta senhora foi finalmente diagnosticada, o tumor no corpo caloso que conecta os dois hemisférios de seu cérebro estava em estado avançado... Ela morreu poucas semanas depois do diagnóstico, mas pode ficar tranquilo que não foi enforcada por si mesma... O tumor havia interrompido a conexão entre os dois hemisférios, criando dois comando independentes sobre o mesmo corpo....

Se você surpreender uma pessoa querida, provavelmente receberá um lindo sorriso... Mas se pedir uma pose para a foto, o sorriso fatalmente será diferente... Por quê? Vergonha? Talvez, mas a explicação é bem mais interessante... Embora os dois sorrisos dependam dos mesmos músculos faciais, os comandos virão de regiões diferentes do cérebro... O sorriso espontâneo, e as ações espontâneas vem dos Gânglios Basais, enquanto o sorriso e as ações intencionais vem do Córtex Neuromotor... Esta é a razão... O sorriso e as ações espontâneas, e tão preciosas, dependem dos Gânglios Basais... Viva os Gânglios Basais!!! Um dica para fotos é fotografar as pessoas sem que percebam... Virão muitas caretas até que 'tchan tchan tchan tchan', lá estará, o sorriso perfeito...

Pessoas acometidas de uma derrame na região do Córtex Neuromotor, podem paralisar o 'outro lado' do corpo... Ou seja, derrames do lado direito paralisam o lado esquerdo do corpo e vice-versa... Então lá está aquele querido parente que sofreu um derrame... Na pose para a foto, por mais que se empenhe, o sorriso será dificultoso, uma careta... Mas, se este senhor for surpreendido por você, os Gânglios Basais - lembra deles - que nada sofreram, tratarão de conjurar aquele sorriso simétrico, completo e real... Nunca vivi a experiência, mas deve ser linda...

E o contrário também será verdadeiro, ou seja, pessoas com tumores nos Gânglios Basais, apresentaram a careta apenas nos sorrisos espontâneos... Mas na hora da pose para a foto, o sorriso sairá forçado mas simétrico e amplo...

O neurocientista Amir Raz hipnotizou pessoas e as submeteu ao teste Stroop... Este testa clássico mostra palavras grafadas em letra de forma, com os nomes das cores, só que cada palavra era pintada com uma cor diferente da grafia... A pessoa é apresentada à palavra e deve apertar um botão para indicar a 'cor' certa... Durante a hipinose Raz disse aos participante que apareceriam palavras 'em uma língua desconhecida e você não devem atribuir nenhum significado, informando apenas a cor'... 16 pessoas, metade altamente hipnotizáveis, segundo a seleção, e metade altamente resistentes à hipnose, pelas características ligadas à personalidade, entraram no laboratório... Então Raz encerrou a sessão de hipnose e deixou que cada um trabalhasse, em estado de sugestão pós-hipnótica... Repare que todos foram hipnotizados, mas realizaram os testes sem a hipnose... Os indivíduos esperados como resistentes à hipnose não puderam ignorar o conflito da palavra 'vermelho', pintada na cor 'verde', enquanto era arguidos sobre 'qual era a cor'... 

Assim como os efeitos placebo, a auto-sugestão e também as crenças, são mais facilmente absorvidas por nós, dependendo de nossa suscetibilidade para 'acreditar' ou 'não questionar'... Tudo está rigorosamente em nosso cérebro... Emoções, sentimentos, sentimentalismo, crenças, racionalismo, poesia, música, ciência, filosofia, e mesma a famosa VGM (Viagem Geral na Maionese)... 

Finalmente chegamos a H.M., uma dádiva para a Neurociência... H.M. sofreu uma acidente de bicicleta quando tinha 9 anos, e passou a ter ataques epiléticos com frequência crescente... Aos 27 anos não havia condições de prosseguir vivendo com crises constantes... H.M. foi então submetido a uma cirurgia, na década de 50, que deveria retirar partes de seus lobos temporais... Uma decisão de última hora levou a equipe a retirar também o Hipocampo de H.M.... H.M. - retratado em um filme com Drew Barrimore e Adam Sandler - passou a não reter nenhuma nova memória a partir da cirurgia... Ele podia lembra-se de tudo o que viveu até antes da cirurgia, mais nunca mais registrou novas memórias... Ele podia conversar por 30 minutos, uma hora, utilizando a memória de trabalho, de curto prazo, do Lobo Frontal... O Hipocampo é responsável por registrar - involuntariamente - de tempos em tempos, a nossa memória temporária em nossa memória de longo prazo, no Córtex... Sem o Hipocampo, nada mais foi registrado... As nossas habilidade ficam guardadas no Cerebelo, mas também dependem do Hipocampo para serem armazenadas... Portanto andar, falar, dirigir, já haviam sido aprendidas por H.M., mas ele não poderia aprender nenhuma nova habilidade... H.M. seria capaz de dirigir, isso não se não esquecesse a cada momento para onde estava se dirigindo... Também continuou falando sem problemas, mas não era capaz de aprender novos vocábulos... Lembrava-se das pessoas que conheceu até a cirurgia, mas nunca mais foi capaz de reconhecer ninguém... 

Considero a realidade, a droga mais potente e maravilhosa que existe, e ainda não entendo em detalhes porque as pessoas buscam drogas menores como a cocaína, a psicanálise e a religião... E pergunto, diante de todo o exposto, e já que estamos terminando a nossa viagem: Como é possível encarar tudo o que foi dito e pensar em espíritos, misticismo e mediunidade sem desconfiar veementemente que tudo isso possa estar 'também' e somente em nossas mentes... Como um distúrbio, falha, patologia, mal entendido...

Aqui está você, são e salvo, de aqui em diante depende de você - e do que o seu hipocampo tenha selecionado para armazenar, sempre lembrando que o hipocampo atua estimulado pela emoção, o que significa que também dependerá da minha capacidade de emocioná-lo, e da sua capacidade de se emocionar com a REALIDADE...

Humano, demasiado humano... Ético, logo cético...

Carlos Sherman