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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Milagre, um Delírio



Durante o último terremoto no Haiti – 7.3 graus na escala Richter - em 2010, profundos desvios cognitivos de confirmação também sacudiram a região. O terremoto de grandes proporções causou enormes danos ao pobre país. Milhares de edifícios, incluindo os as edificações mais significativas ao patrimônio e à vida da capital - como o Palácio Presidencial, o edifício do Parlamento, a Catedral de Notre-Dame, entre outras igrejas, a principal prisão do país, e todos os hospitais e maternidades - foram indiscriminadamente devastadas. A tragédia contou 316 mil mortos, 350 mil feridos e mais de 1,5 milhão de flagelados, com 2.400 amputações.
O pastor cristão americano Pat Robertson declarou em seu canal televisivo Christian Broadcasting Network que o terremoto era “uma maldição de deus, uma vingança, um castigo”, em função de um suposto “pacto com o diabo”, orquestrado – pasmem – na época da independência do Haiti – em relação à França – em 1804:

Algo aconteceu há muito tempo no Haiti e as pessoas, talvez, não quisessem falar sobre isso. Estavam sob domínio francês… vocês sabem, Napoleão III ou qualquer coisa assim, juntaram-se e fizeram um pacto com o diabo. Disseram: "Vamos servi-lo se nos libertar do Príncipe". É uma história verdadeira. E o diabo disse: "Tudo bem, está combinado". E os franceses foram expulsos. Os haitianos revoltaram-se e conseguiram libertar-se. Mas, desde então, foram amaldiçoados com coisas atrás de coisas. - Pastor Pat Robertson

Além do ocorrido, e do fato de que a suposta “vingança de deus” tardou mais de 200 anos, desde o “pecado cometido”, vale lembrar também que o Haiti foi primeiro país do mundo a abolir a escravidão – amplamente endossada pela bíblia. Terá sido a abolição da escravatura também resultado de algum pacto demoníaco; e eventualmente está sendo punido por deus com estes sacrifícios humanos em 2010? Pat Robertson é um tremendo picareta, um golpista astuto, mas os desvios de confirmação estão amplamente configurados nos cérebros de seus devotos fiéis, e assim o mago contará com uma plateia crédula a ser facilmente enganada.
Antes de uma entrevista ao telejornal do SBT em cadeia nacional, em 14 de janeiro de 2010, sem saber que estava sendo filmado e gravado, o cônsul honorário do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, proferiu as seguintes frases:

A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui ficar conhecido. […] Acho que, de tanto mexer com macumba, não sei o que que é aquilo. […] O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano, tá foda! - George Samuel Antoine (Cônsul Honorário do Haiti)

Samuel, com um terço do Santo Rosário nas mãos, exprimiu sua fé cristã:

Esse terço nós usamos porque dá energia positiva; acalma as pessoas. Como estou muito tenso, deprimido com o negócio do Haiti, a gente fica mexendo com várias [coisas] para se acalmar. - George Samuel Antoine (Cônsul Honorário do Haiti)

Um dia após suas declarações cristãs, Samuel pediu desculpas em entrevista coletiva, esclarecendo que fala diversos idiomas mas que, mesmo há mais de 30 anos no Brasil, “não domina a língua portuguesa”. Disse também, por meio de nota do consulado, que “teve seus dizeres interpretados de maneira deturpada".
Antoine é um escroque, e suas explicações só acentuam a baixeza de seu caráter; mas muitos pensam como ele, pessoas de bem, como alguns dos meus leitores. Parte de toda esta fantasia sobre a realidade pode ser explicada pelos fenômenos psicológicos conhecidos por (1) Desvios Cognitivos de Confirmação, (2) ToM - Teorias da Mente, (3) e a adesão do cérebro humano a Falsos Positivos – resultantes de aspectos neurais potencializados pela ignorância sobre o comportamento humano, sobre a aleatoriedade, além de disciplinas do ensino fundamental e avançado.
Ainda no Haiti, Hoteline Losama, entre outras pessoas, foi resgata com vida quase uma semana após o sismo. Durante este tempo ela esteve protegida por um espaço aleatoriamente formado por forros, pedras, e uma geladeira, e perto de muitos mais cadáveres que não gozaram da mesma sorte; mas ainda assim um dos membros do grupo de resgate afirmou ter sido “uma bênção”. A jovem resgatada considerou o seu destino como “um milagre”.
Desviar os olhos dos 316 mil mortos, entre eles muitas crianças, e celebrar como “benção” o resgate de uma única pessoa, e corroborando assim uma crença prévia em bênçãos e milagres, constitui um clássico exemplo dos Desvios Cognitivos de Confirmação – e uma atitude execrável...
Quinze dias após o terremoto, um homem ligou para os seus familiares e amigos, e uma mulher ainda soterrada atendeu. Ela estava viva, e houve comoção e clamor: “Milagre!”. Ela tentou orientar as buscas, e uma equipe da Cruz Vermelha Internacional foi até o local com cães farejadores, mas o esforço foi em vão. A bateria acabou, e as equipes de resgate não puderam encontrá-la com vidaSe deus pretendia tal destino, por que permitiu a ligação telefônica? Onde está a “força superior”, senão em nossa formação inferior, além de tendências ilusórias, e propensão ao autoengano?
E peço aqui que outra mulher, também excepcional, dê o seu recado:

Eu não acredito nestas pessoas que sabem tão bem o que deus quer que elas façam; por perceber que isso sempre coincide com seus próprios desejos. – Susan Anthony

Durante um desmoronamento em uma mina no Chile, 13 homens foram soterrados. Vozes foram detectadas, e saíram as manchetes nos jornais: “13 hombres y un MILAGRO!”. Depois se descobriu que apenas um homem, dentre os treze soterrados, havia sobrevivido: “milagro”.
Mas como o nosso cérebro nos convence de que estamos sempre certos? Michael Shermer nos mostra o caminho:

Uma vez que criamos uma crença, e nos comprometemos com ela, nós a mantemos e reforçamos com fortes heurísticas cognitivas, que garantem que ela esteja correta. Uma heurística é um método mental para resolver problemas pela intuição, pela tentativa e erro [...]. – Michael Shermer (Cérebro e Crença; 2012)

Essas heurísticas podem no entanto falhar, e falham com muito mais frequência do que imaginamos, distorcendo a nossa percepção da realidade, e encaixando conceitos pré-concebidos, conhecidos como Desvios Cognitivos de Confirmação.

Crenças configuram percepções. Não importa que sistema de crenças esteja funcionando — religiosas, políticas, econômicas ou sociais —, esses desvios cognitivos moldam a maneira como interpretamos a informação que chega por intermédio de nossos sentidos e dão uma forma adequada à maneira como queremos que o mundo seja, e não necessariamente como ele realmente é. Chamo esse processo de confirmação de crença. – Ibidem

 Existem heurísticas cognitivas ou desvios específicos, que operam para confirmar as nossas crenças, atuando em conjuntamente como outros distúrbios, como a tendência à busca e reconhecimento de padrões; um recurso evolutivo essencial, mas que pode falhar, detectando falsos padrões, além da tendência ao animismo e ao intencionalimo.
Vejam o poder da crença, conduzidos pelo autor da área científica, roteirista – MacGyver e Star Trek - e físico, Leonard Mlodinow:

Alguns anos atrás, um homem ganhou na loteria nacional espanhola com um bilhete que terminava com o número 48. Orgulhoso por seu ‘feito’, ele revelou a teoria que o levou à fortuna. “Sonhei com o número 7 por 7 noites consecutivas”, disse, “e 7 vezes 7 é 48”. Quem tiver melhor domínio da tabuada talvez ache graça do erro, mas todos nós criamos um olhar próprio sobre o próprio e o empregamos para filtrar e processar nossas percepções, extraindo significados do oceano de dados que nos inunda diariamente. E cometemos erros que, ainda que menos óbvios, são tão significativos quanto esse. – Leonard Mlodinow (Subliminar; 2013)

Estes erros fazem parte do corpus de estudo da Neuropsicologia. No caso acima, o felizardo ganhador e crente no sobrenatural, incorreu em pelo menos um Desvio Cognitivo de Confirmação: a Tendência Retrospectiva; além do singelo desvio intelectivo, afinal “7x7” é matéria do ensino básico, e o resultado é “49”, e não “48”. Shermer nos esclarece a questão em Por que acreditamos em coisas estranhas (2011) e Cérebro e Crença (2012):

Construímos nossas crenças por várias e diferentes razões subjetivas, pessoais, emocionais e psicológicas, em contextos criados pela família, por amigos, colegas, pela cultura e a sociedade. Uma vez consolidadas essas crenças, nós as defendemos, justificamos com uma profusão de razões intelectuais, argumentos convincentes e explicações racionais; Primeiro surgem as crenças e depois as explicações. - Michael Shermer (Cérebro e Crença; 2012)

Primeiro aderimos às crenças, para só então tratar de justificá-las por meio de argumentos supostamente racionais. E por esta razão, pessoas inteligentes e cultas também podem acreditar em coisas absurdas.
Hume, indelével:

Os homens não ousam confessar, nem mesmo a seus corações, as dúvidas que têm a respeito desses assuntos. Eles valorizam a fé implícita; e disfarçam para si mesmos a sua real descrença, por meio das afirmações mais convictas e do fanatismo mais positivo. - David Hume

James, impecável:

Alucinação é uma forma estritamente sensacional de consciência, uma sensação tão boa e verdadeira quanto se estivesse ali um objeto verdadeiro. Acontece, simplesmente, que o objeto não está ali. - William James (Princípios de Psicologia; 1890)

Q.E.D.

Carlos Sherman

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Piramidiotas



E tem gente que ainda fala em Erich von Daniken... Diretamente do capítulo 'Paranoia' de meu novo livro 'FIAT LUX - O HOMEM MEMÓRIA DO UNIVERSO'...

No folclore extraterrestre com implicações ‘religiosas’, o suíço e gerente de hotel conhecido como Erich von Daniken pode ser considerado uma espécie de precursor... Suas obras, a começar por ‘Eram os deuses astronautas?’ [‘Chariots of the gods?’], foram grandes best-sellers no final dos anos 1960 e início dos 1970, vendendo dezenas de milhões de exemplares em todo o mundo todo... Mas, assistir já no Terceiro Milênio à uma legião de desinformados ‘desesperados por crer em deuses que descem de naves’ consumindo as mesmas ‘drogas’ dos ‘60’, é igualmente desesperador...

A hipótese fundamental desta verdadeira enciclopédia de baboseiras comercializada por Von Daniken nos remete à arqueologia mitologógica e ao folclore religioso, alegando que os mitos e deidades registrados por civilizações ‘bem terráqueas’ – e conectadas inescapavelmente pela Genética com todos os seres deste plantes - na verdade estariam “documentando contatos estabelecidos com extraterrestres”... Não bastesse a sandice dos deuses, agora precisaremos reeditá-los como astronautas...

Isso pressupões, de entrada, uma estratosférica ignorância em termos de Biologia, Genética, Antropologia, e História – principalmente a História Egípcia... Mas sigamos o raciocínio do espertalhão hoteleiro, e farei o possível para conter o meu sarcasmo, o que considero deveras complicado quando estou lidando com picaretas de carteirinha... Para dar um exemplo, e que na verdade acerta em cheio e pulveriza a pobre - porém populista e sedutora - teoria de Daniken, tratemos das PIRÂMIDES DO EGITO...

Para Daniken, as pirâmides só poderiam ter sido construídas por ETs... Simples assim... E por quê??? Como na propagando da cerveja brasileira Schin: “Por quê Schin? Porque sim!”... “Porque sim ora bolas”, Daniken sacou da cartola mágica que:

“[...] as pirâmides do Egito foram construídas com blocos individuais, paralelepípedos retangulares, cada um deles com mais ou menos vinte toneladas.” – Erich von Daniken (hoteleiro suíço e autor)

“Vinte toneladas” [sic], afirmou o falastrão – o que não é minimamente verdade... E seguiu em frente, ‘já que vinte toneladas é muita coisa para uma pessoa carregar nas costas’, e mesmo com ‘toda a torcida do Corinthians unida para erguer a Taça Libertadores’, não seria possível carregar um bloco de vinte toneladas sem alguma “tecnologia avançada”... 

“Logo”, especulou Daniken, “considerando o período de construção, esta tarefa só poderia ter sido executada por extraterrestres; portanto, extraterrestres existem”... Simples assim!!! É muito fácil perceber que esse argumento negligencia fatos e provas sobre a construção das pirâmides, e não apresenta provas dos ‘ETs construtores – nem uma roldana ou maquina cortadora de blocos, barcos, etc...’, enquanto assume uma enorme liberdade dedutiva, EXTRATERRESTRE, e ‘extra-conhecido’, onde a explicação é muito mais ‘milagrosa’ do que o ‘milagre’... Invoquemos ao impagável filósofo inglês David Hume (1711-1776) em resposta aos ‘crentes’ em Daniken:

“[...] que nenhum testemunho é suficiente para estabelecer algo como milagre, a não ser que seja de tal espécie que sua falsidade se mostre mais milagrosa do que o fato que ele se esforça por estabelecer.” – David Hume

O que seria mais ‘milagroso’ ou ‘improvável’(?): (1) Que existam técnicas e explicações naturais para a construção de monumentos piramidais em alvenaria no deserto do Egito??? (2) ou que seres extraterrestres até hoje desconhecidos tenham viajado desde de outro sistema planetário sem deixar nenhum vestígio concreto, executando uma obra primitiva, inferior às obras do falecido Niemeyer em funcionalidade, e que não podem ser comparadas em complexidade, sequer, ao Maracanã???

Mesmo que não soubéssemos nada sobre a arqueologia egípcia, o que não é – em absoluto – o caso, ainda assim conseguiríamos imaginar imúmeras maneiras para um número muito grande de pessoas, trabalhando por anos e anos, construírem edifícios de grande porte... A própria ‘Bíblia’, outro livro de fábulas, faz referência a projetos ambiciosos de construção como a enorme Torre de Babel...

Mas quando analisamos as vastas evidências documentais detalhando o local de corte das pedras, a descrição da técnica utilizada – e que podemos repetir com sucesso -, o esquema de transporte, o esquema de ascenso e posicionamento das pedras – com o peso inferior à 2,5 toneladas -, nos damos conta de que Daniken tinha algo mais em mente, afional preferiu correr para os ETs antes de sequer estudar a vastidão dos registros egípcios... Penso que, descrever técnicas engenhosas, embora rudimentares, como fez Heródoto, não estava nos planos de nosso ambicioso hoteleiro suíço... 

O geógrafo e historiador grego Heródoto (485-420 AEC) descreveu em suas obras às técnicas egípcias de construção de pirâmides, com explicações e desenhos ‘naturais’, ‘terrestres’ e 100% coerentes com a vasta documentação hodierna... Heródoto documentou o tráfego de jangadas pelo Nilo, os rolamentos para o transporte dos blocos e a remoção posterior do material de apoio... Inclusive existem inscrições em alguns dos blocos mais importantes celebrando o cumprimento de tarefas como “Caramba, conseguimos!!!”, assinado por “Equipe Eufrades Onze”... 

Trata-se de uma exclamação e inscrição improvável para construtores espaciais, capazes de viagens interestelares a velocidades inimagináveis, posto que a nossa estrela mais próxima, Próxima Centauri, dista aproximadamente 4,22 anos luz da Terra, ou 4,0×1013 km... Isso se déssemos uma ‘puta sorte de ter um sistema solar habitável logo ali’, o que seria equivalente a ganhar na loteria 50.000 vezes seguidas, SEM JOGAR... 

Mais aqui vai o ZAP, pois sabemos que a primeira pirâmide a ser construída desmoronou, e que a segunda pirâmide, no meio da construção, teve os ângulos das laterais drasticamente aparados, porque acabaram aprendendo com o exemplo da primeira, que CAIU... E seria ‘improvável’ que uma civilização extraterrestre capaz de cruzar o espaço cometesse o erro de ultrapassar o ângulo de repouso - conhecimento básico de qualquer mestre de obra em nossos dias...

O americano Mark Lehner, eminente Doutor em Arqueologia por Yale e egiptólogo consagrado com mais de 30 anos de experiência dedicados a escavações no Egito, diretor do ‘Ancient Egypt Research Associates (AERA)’, e que dedicou várias uma obras às construções no Vale dos Reis, explicou que:

“As primeiras pirâmides egípcias conhecidas são encontradas em Saqqara, a noroeste de Memphis. A mais antiga delas é a pirâmide de Djoser (construída entre 2630 e 2611 AEC) construída durante a terceira dinastia. Esta pirâmide e seu complexo circundante foram projetados pelo arquiteto Imhotep, e são geralmente consideradas as mais antigas estruturas monumentais do mundo construídas em alvenaria. A estimativa do número de trabalhadores para construir as pirâmides variam de 20.000 a 100.000.” (Lehner; ‘The Complete Pyramids’; 1997)

Imhotep, o ARQUITETO desta pirâmide em particular tinha, como sabemos, uma família, filhos, etc... Não consta que os seus olhos tenham sido ‘esbugalhados’, com feições ‘mongoloides', ‘sem nariz’, sem cabelos, etc... Imhotep foi um egípcio HUMANO... O igualmente egípcio Zahi Hawass é doutor em arqueologia, e sem sombra para dúvidas o maior arqueólogo e egiptólogo da História, e tanto que o termo ‘egptólogo’ confunde-se com o seu nome e reputação... Participou de uma infinidade de documentários sérios promovidos pela BBC, Discovery e History Channel, sendo em 2006 nomeado pela revista ‘TIME’ como uma das 100 pessoas mais influentes do planeta... Desde 2002 desempenha o respeitável cargo de secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, responsável pela administração dos museus e patrimônios da antiguidade egípcia... Hawass encontra-se atualmente envolvido no importante trabalho de restauração das pirâmides de Gizé...

Hawass goza de inegável poder em seu país e junto à comunidade científica internacional, e encontra-se envolvido em processos polêmicos na tentativa de reaver importantes obras egípcias como o famoso ‘busto da rainha Nefertiti’, atualmente em Berlim, e a ‘Pedra de Roseta’ [‘Roseta Stone’], que pude conferir em várias oportunidades no Britsh Museum em Londres...

Hawass é um homem que dispõe de conhecimento sem igual sobre as pirâmides e não mede as palavras quando se trata de ‘endereçar a verdade’... Sobre as teorias Daniken e outros que afirmam que as pirâmides teriam sido construídas por extraterrestres, Hawass escarnece com um neologismo criado por ele mesmo para designar os adeptos de tais ‘crendices bizarras’: 

“Piramidiotas!!!” - Zahi Hawass

Mas coloquemos pedra sobre pedra:

Cerca de 2,3 milhões de blocos foram necessários para colocar a pirâmide de Quéops de pé... Cada bloco pesava em média 2,5 toneladas – equivalente a três ‘fuscas’ de 800 kg... Depois de cortados nas pedreiras os blocos eram lixados e catalogados, escrevia-se o nome do faraó e o do grupo de trabalhadores responsáveis... Para erguer as pirâmides o terreno era aplainado, e o platô, rico em rochas calcárias - região de Tura - fornecia matéria-prima para dar acabamento e brilho à pirâmide... Os blocos vinham de até 800 quilômetros de distância, e não vinham de ‘taxi’... Da pedreira de Assuã, os blocos eram transportados em jangadas pelo rio Nilo, e a experiência foi reproduzida, com materiais e técnicas da época, em nossos dias, com efetivo sucesso... A análise dos mineiras presentes nos blocos permite que identifiquemos a fonte de cada material utilizado... Os egípcios literalmente ‘rolaram as pedras’, num autentico ‘rock´n roll mesopotâmico’... A proeza impressiona, mas é necessário mais do que isso para inventar estória do além... Transportar os blocos gigantes é tão complexo como em nossos dias... Cordas foram utilizadas, assim como uma espécie de ‘trenó’ feito de troncos de madeira cilíndricos, sobre os quais as pedras deslizavam... Também existia a ‘tafla’, uma espécia de barro molhado e escorregadio, que permitia o deslizamento dos blocos... Depois de assentados os blocos eram ‘acabados’, sendo cortados em ângulos de 51º e dando forma à face da pirâmide... As rampas laterais permitiam quem os ‘terráqueos’ egípcios checassem se a obra estava ‘entortando’... As rampas subiam em ‘zigue-zague’ com inclinação constante, sendo preferível à uma rampa única... Não subestimem os egípcios!!! No topo da pirâmide era utilizada uma rampa interna em espiral, recuada 15 metros da face externa... No fim de cada andar uma aresta permite que as pedras girassem 90º... A partir deste ponto, sistemas de contrapeso levantavam as pedras maiores... Várias mecanismo rudimentares, mas bem engenhosos, ajudavam no trabalho, fazendo o papel de primitivos guindastes, alavancas, sistemas com gangorras utilizando cestos de areia... A maior pirâmide tem 147 metros, e equivale ao edifício ‘Copan’, com 49 andares... 

Este era o principal argumento de Von Daniken.. Daí pra frente é ladeira abaixo, mas vamos encarar todos eles...


Carlos Sherman

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Arbitrium



Não escolhemos a nossa configuração neural e bioquímica, e nem o que seremos capazes ou não de captar... Não podemos mudar quem somos, mas podemos mudar o nosso comportamento a partir de novas referências... Captamos a cena, comparamos com os nossos registros episódicos, referenciais, e conceituais, processamos e devolvemos como resposta... Mas não escolhemos de fato nada disso... Somos quem somos sem intencionar sê-lo... Mas somos, e responderemos por nossos atos... RESPONSÁVEIS SIM, CULPADOS NÃO... Se pretende ajudar alguém, ajude esta pessoa a obter novas referências; ou referências mais ajustadas à REALIDADE... E finalmente: "Você pode escolher, é certo. Mas não pode escolher o que vai escolher" - Schopenhauer - esclarecedor...

Carlos Sherman

EVA - AS ORIGENS DA MISOGINIA [INTRO]





















terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vulcanismo: "que dios nos guarde"...




Vulcanismo: "y que dios nos guarde"....

"(..) y que dios nos guarde"... Foi assim que Libória Solano, uma fervorosa cristã mexicana, devota da Virgem de Guadalupe, recebeu a notícia de evacuação imediata no humilde povoado de Santiago de Xalitzintla, por ocasião da erupção iminente do 'Popo', o mortífero vulcão 'Popocatépetl'... Eu estava no México, e sobrevoei as proximidades do vulcão... Uma visão aterradora e magnífica...

Libória liderava os protestos contra a evacuação, afinal, dizia ela: "estamos bajo la protección de dios, y él no nos faltará"... Mas em 18 de Dezembro de 2000 o Popo mostrou a sua força, 'e deus faltou neste dia'... Nas palavras de Libória: "los últimos que quedaron escucharan la explosión y la tierra temblar, con desesperación... Dejamos todo, montamos en la camioneta sin mirar hacia atras, lo más rápido posible, y no pensávamos en parar, jamas"... Asi es Libória, asi es...

Em 15 de Dezembro de 2000 os sismólogos detectaram aquela que poderia ser uma severa ameaça: uma erupção 'pliniana' - termo associado à erupção do Monte Vesúvio em 79, e descrita por Plínio, o Novo; erupção essa que matou o seu pai, Plínio, o Velho, e soterrou as cidades de Pompeia e Herculano... Erupção pliniana, o tipo mais poderoso e destruidor de erupção experimentado e registrado pelo homem... Erupções plinianas, de grande intensidade, como as que ocorreram a 18 de Maio de 1980 no Monte Santa Helena ou a 15 de Junho de 1991 em Pinatubo, nas Filipinas, podem enviar cinzas e gases vulcânicos a vários quilômetros de altitude, atingindo a estratosfera... A cinza resultante pode afetar áreas a centenas de quilômetros de distância na direção dos ventos, a quantidade de magma que brota pode ser tão grande que o topo do vulcão pode colapsar, formando uma caldeira, e 'boooom'; como no Krakatoa em 1883, no Monte Tarumae (Japão) em 1667 e 1739, em Tira em 1600 AEC, na erupção que formou o Lago Crater em 4860 AEC, e a mais famosa, a do Monte Vesúvio em 79...

Mas o vulcanismo não é um fenômeno 'terrestre'... A Lua não possui grandes vulcões e não é geologicamente ativa, mas nela existem várias estruturas vulcânicas... O planeta Vênus é geologicamente ativo, sendo cerca de 90% da sua superfície constituída por basalto o que leva a crer que o vulcanismo desempenha um papel importante na modelagem da superfície volumosa do planeta... As escoadas lávicas estão bastante presentes e muitas das estruturas da superfície de Vênus são atribuídas a formas de vulcanismo que não se encontram na Terra... Outros fenômenos do planeta Vênus são atribuídos à erupções vulcânicas, tais como as mudanças na atmosfera do planeta e a observação de relâmpagos... Em Marte existem vários vulcões extintos, sendo quatro dos quais grandes vulcões-escudo, largamente maiores do que qualquer um existente na Terra, mas encontram-se extintos há vários milhões de anos... A sonda européia Mars Express encontrou indícios de que poderiam ter ocorrido erupções vulcânicas num passado recente em Marte...

Uma das luas de Júpiter, Io, é o corpo mais vulcânico de todo o sistema solar devido à interação de forças com Júpiter... Esta lua está coberta de vulcões que expelem enxofre, dióxido de enxofre e rochas ricas em sílica, o que leva a que a sua superfície esteja constantemente a ser renovada... As suas lavas são as mais quentes que se conhecem no sistema solar, com temperaturas que podem ultrapassar os 1500 °C... Em Fevereiro de 2001 a maior erupção de que há registo no sistema solar ocorreu em Io...

Era uma vez uma ilha paradisíaca, mais um "pueblo abandonado por dios": Plymouth - capital de uma pequena ilha caribenha chamada Montserrat, pertencente ao Reino Unido, localizada à sudeste de Porto Rico... Este pequeno paraíso, de clima agradável e vida tranquila, com a sua pequena população dedicada à pesca e ao turismo, abrigava um terrível perigo: o vulcão Soufriere Hills - que parecia adormecido... Todos dormiam à sombra do Soufriere, o sono dos justo, sob a guarda e proteção de deus... Mas ele 'faltou' ao trabalho mais uma vez... Em 18 de Julho de 1995 o Soufriere despertou... Mas a ciência sísmica não faltou, permitindo que 13.000 habitantes fossem salvos, e evacuados...

Templo 'de deus'... Afundado em lama vulcânica em Montserrat...

Tento entender: deus cria o universo, todo-poderoso, atende orações, visivelmente 'poderoso', controla eventos, controla a natureza, mas e os vulcões??? São meros fenômenos naturais, não podem ser controlados por seu CRIADOR??? Então todos os fenômenos naturais não podem ser controlados por deus??? Deus não pode aliviar o sofrimento??? Então não é onipotente... Se pode controlar a natureza mas permite que inocentes, 'pecadores', fieis e infiéis, criminosos e inocentes, sofram igualmente, então não é realmente justo... Se tem poder mas não estava lá, é negligente, e não é onisciente - nem onipresente... Muitos, diante de tragédias, oram a deus... Mas por quê, qual é a lógica? Ou deus não tem nenhum poder, ou é injusto ou negligente - cruelmente negligente... E outros culpam a deus, seguindo a lógica e o bom senso... 

Mas devotos e fieis, eu absolvo a deus, em nome da verdade, ele não tem culpa nenhuma, afinal, ele não existe - e nem nunca existiu... Jamais... Então escutem os sismólogos, escutem a ciência, deus não está rogando por vós, porque simplesmente deus não está lá... Mas existem humanos que estudam o fenômeno de forma abnegada, na tentativa de ajudar efetivamente à outros humanos, muitos dos quais, por razões neurofisiológicas e educacionais, estão 'acéfalos em cristo - em deus'...

Carlos Sherman

Obesidade




Drauzio Varella 

OBESIDADE

Bernardo Leo Wajchenberg é médico. Professor de endocrinologia, influenciou a formação de inúmeros profissionais dessa área em todo o Brasil.

A obesidade é um dos problemas mais importantes que a Saúde Pública enfrenta hoje no Brasil e em outros países do mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que, atualmente. nos países desenvolvidos, ela seja o principal problema de saúde a enfrentar.

Por que as pessoas estão engordando tanto? De onde vem esse desespero pela comida e a dificuldade para perder peso? A resposta, por certo, poderá ser encontrada nas raízes evolucionistas do homem. Há 50 mil anos, nossos antepassados tinham grande dificuldade para conseguir alimentos. A possibilidade de estocá-los é contemporânea ao advento da agricultura há dez mil anos, um segundo em termos evolucionistas. Essa carência alimentar moldou o cérebro humano de tal maneira, que ele busca obter o máximo de calorias possível para mobilizar energia acumulando-a sob a forma de gordura que, teoricamente, será usada nos períodos de fome provocados pela escassez de comida.

Entretanto, no mundo moderno, a realidade é bem diferente. A geladeira pode conservar alimentos variados por dias e semanas. Basta abri-la para saboreá-los. A propaganda nos incita a comer produtos altamente calóricos por preço razoável. Basta uma ligação telefônica para temos comida de diversos tipos e nacionalidades entregue, em poucos minutos, na porta das nossas casas.

Nosso cérebro condicionado em tempos de penúria agora encontra fartura e o mecanismo evolucionista que selecionou pessoas capazes de acumular gordura, decisão inteligente no passado, se volta contra elas. Reverter esse processo é tarefa árdua e muitas vezes inglória. No entanto, é preciso estar alerta. O excesso de peso está associado a uma série de doenças que comprometem a qualidade e a duração da vida.

DESEQUILÍBRIO ENTRE INGESTÃO E QUEIMA DE CALORIAS

Drauzio – Você, que tem grande vivência clínica e enfrentou pessoalmente o problema da obesidade, como enxerga a dificuldade de tantas pessoas para perder peso?

Bernardo Leo Wajchenberg – O homem moderno está pagando as contas pela facilidade de conseguir alimentos. Além disso, a tendência ao consumo do fast-food representa sério empecilho para resolver o problema. Na hora do almoço, em vez de sentar-se e comer arroz com feijão e salada como se fazia antigamente, a pessoa aproxima-se dos balcões das lanchonetes e se contenta com um hambúrguer e um milk-shake, alimentos de alto valor calórico que provocam sensação de saciedade. A gordura tem essa vantagem: comê-la garante sensação de bem-estar, de estômago cheio. Por outro lado, a vida moderna está marcada pela falta de atividade física e não há o gasto calórico suficiente. Ninguém anda mais. Todos se valem do transporte coletivo ou, o que é pior, do individual. Portanto, estamos comendo mais e gastando menos. Do ponto de vista termodinâmico, estamos armazenando calorias. É bem verdade que existem indivíduos, infelizmente a minoria, que comem muito e gastam muito também. A regra, porém, não é essa.

Já se procurou, por muitos anos, uma causa metabólica primária para a obesidade. Existem as formas ditas genéticas que são extremamente raras, raríssimas. Até hoje, encontrei apenas um indivíduo de cabelos vermelhos obeso (os ruivos podem ter um defeito na produção de melanocortina), mas esse achado tem valor apenas para o estudo da fisiopatologia da obesidade.

Então, a experiência que tenho é muito ruim. Eu e todo o mundo. O que costumo sugerir para os obesos é uma alimentação razoável, porque dietas muito restritivas não têm mais cabimento nos nossos dias. O indivíduo não deve perder muito peso. Em torno de 7kg a 10kg no prazo de alguns meses melhora as complicações que a obesidade traz consigo.

O problema é tão sério que o número de cirurgias da obesidade, ou bariáticas, aumenta a cada dia. Para muitos obesos mórbidos não existe outra solução apesar de estarmos substituindo uma doença por outra.

O procedimento cirúrgico mais frequente em nosso meio é a cirurgia de Capela em que se reduz o volume do estômago. Não se consegue interferir, porém, na vontade de comer. O paciente para de comer porque se o fizer vomita, não aguenta o mal-estar. Conheço um indivíduo que passou a tomar leite condensado, alimento de alto valor calórico, como se sabe, mas que é aceito pelo estômago cuja capacidade ficou reduzida a 20cm³ aproximadamente.

TENDÊNCIA AO SEDENTARISMO

Drauzio – Em geral, os obesos são vistos como pessoas desavergonhadas, de caráter fraco, o que injusto.

Bernardo Leo Wajchenberg – Isso é um absurdo. É inconcebível tal julgamento. Ninguém quer ser gordo. Eu, que sou um semigordo e fui um grande obeso tinha vergonha da minha condição e não ia à praia nem ao clube. O problema da obesidade está relacionado com o ambiente familiar, a genética e o sedentarismo. Decorre, em parte, como consequência da vida moderna e da falta de ensinamentos sobre a necessidade de praticar esportes. Só os adolescentes o fazem. A regra é que com o passar dos anos o indivíduo se mexa menos e coma mais. O rapaz se casa, por exemplo, as responsabilidades aumentam, ele come mais e engorda. Quando estudei nos Estados Unidos, reparei que eram gordos os diretores da instituição. A arraia-miúda, o pessoal de baixo, era toda magra.

A obesidade de per si não é um mal, se o obeso não apresentar outros fatores de risco, como colesterol elevado, hipertensão, diabetes. Não me lembro de nenhum paciente meu, um grande obeso, que tenha ultrapassado os 50 anos. Todos morreram antes de complicações cardiovasculares, de fraturas seguidas de embolia pulmonar, etc.

Em alguns países, há grupos populacionais em que a obesidade é mais frequente. Nos Estados Unidos, por exemplo, os índios que vivem no Arizona constituem um caso típico. Eles eram pobres, trabalhavam no campo e eram magros. Quando foi descoberto petróleo em seu território, as companhias petrolíferas lhes compraram as terras, deram-lhes royalties e eles pararam de dedicar-se à agricultura familiar. Como consequência, a obesidade tornou-se prevalente entre eles.

Drauzio – Quanto mais pobre a pessoa, maior é a tendência para comer mais gordura e mais carboidrato?

Bernardo Leo Wajchenberg – O problema está na comida com alto valor calórico. Em países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos, está caindo o número de obesos na classe A, ao passo que nas classes B e C esse número está subindo. Outra constatação triste é que o exercício físico não faz parte dos hábitos de vida dessa população. No meu ponto de vista, andar não ajuda a pessoa a perder peso. Já fiz um cálculo uma vez e cheguei à conclusão de que eu teria de caminhar 40km para perder um quilo. O exercício tem que ser aeróbico. Nas academias e clubes, só há jovens e umas poucas pessoas mais velhas que se acostumaram na juventude com a atividade física.

A obesidade é um problema muito sério e não há empenho por parte das autoridades governamentais para resolvê-lo de vez. Tenho uma triste opinião que compartilho com pesquisadores americanos a respeito desse assunto. Aos governos não interessa acabar com o problema. As indústrias envolvidas na fabricação de produtos para o controle da obesidade, as academias e outras instituições frequentadas por quem quer emagrecer rendem valores altos em impostos. Campanhas como “São Paulo, mexa-se!” são importantes, mas pouco eficientes e perdem para o apelo do interesse comercial.

TECIDO ADIPOSO: MAIOR GLÂNDULA ENDÓCRINA

Drauzio – Na época em que fui seu aluno na faculdade, o tecido adiposo era considerado um tecido inerte, mero depósito de células gordurosas que acumulavam energia para ser queimada num momento de necessidade. Esse conceito mudou completamente, não é mesmo?

Bernardo Leo Wajchenberg – Hoje está provado que o tecido adiposo é a maior glândula endócrina do organismo. Existem dezenas de hormônios produzidos por ele, hormônios ligados à hipertensão (angiotensinogênio) e ao apetite, como a lepitina, por exemplo. Quanto mais gordura, maior a produção desse hormônio que age no cérebro e faz diminuir o apetite. O obeso, porém, que tem muita lepitina, desenvolve resistência a ela. Se não fosse assim, ninguém seria gordo.

Drauzio – Quando a pessoa perde gordura, a lepitina cai. Nesse caso, o que acontece com a fome?  

Bernardo Leo Wajchenberg – A lepitina não tem muito a ver com a fome no grande obeso, como tem nos não obesos e nos animais experimentais. Por isso, é dificílimo tratar da obesidade. A experiência me mostra que deve ser dada uma orientação dietética aos pacientes. A dieta baseada em pontos atribuídos a cada alimento pode ajudar. Idealmente existe uma série de alimentos que devem ser evitados. Isso não quer dizer que nunca mais se possa comer pizza ou beber uma ou duas doses de uísque por semana, desde que alguma coisa de valor calórico equivalente seja retirada do cardápio daquele dia.

E aí fica evidente a necessidade do exercício físico, o verdadeiro nó da questão. O adulto de meia idade, a maioria em minha clínica, não faz. Já propus ir com eles para a academia, porque conheço as técnicas e posso orientá-los. Nenhum tem tempo. Nem mesmo depois de um infarto. No começo, adotam um programa de exercícios, mas logo voltam ao velho esquema sedentário.

No caso dos diabéticos, a obesidade é um fator de risco importante e reduzir o peso faz com que melhorem bastante. Eles conseguem perder peso por algum tempo, mas depois voltam a engordar. Manter o peso é um desafio muito complicado.

TRATAMENTO COM DROGAS CONTRA A OBESIDADE

Drauzio – Qual é sua impressão sobre as drogas usadas nos tratamentos contra a obesidade? Os médicos, em geral, defendem posições bastante contraditórias a respeito de seu uso.

Bernardo Leo Wajchenberg - A palavra droga define por si só as características dessas substâncias. Penso que usar drogas é uma droga. O bom seria poder evitá-las sempre. Mas qual é a alternativa que posso oferecer a meus pacientes? Experimento as mais variadas mudanças nos regimes alimentares. Nenhum resultado. Introduzo, então, as drogas mais leves, embora não haja estudos comparativos sobre a ação das mais potentes a longo prazo. É verdade que elas têm efeitos colaterais. Os psiquiatras me contam que vêem isso todos os dias. Eu não vejo nunca. Vez ou outra alguém se queixa de palpitação ou de insônia. Nesses casos, prescrevo um tranqüilizante.

O problema é que o uso dessas drogas precisa ser contínuo, o que as faz perder a eficácia, e é preciso mudá-las ou fazer combinações. É uma pena que isso não seja ensinado aos alunos de medicina na faculdade.

Drauzio – O fato é que o tempo de duração desses tratamentos tornou-se uma discussão importante para a ciência.

Bernardo Leo Wajchenberg – O tratamento deve ser mantido no mínimo por cinco anos. Estudos realizados pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos mostraram que, usando a droga por cinco anos, o paciente mantinha a perda de peso. Embora a tendência fosse perder e ganhar um pouco de peso ao longo do tratamento, o balanço era a favor da perda.

Tenho pacientes que estão tomando essas drogas por mais de oito anos e conseguem manter de 10kg a 15kg a menos com melhora significativa de todos os outros fatores de risco. Os residentes que trabalham comigo acham estranho que nunca tenham aprendido isso. Eu acho um absurdo.

Existem drogas modernas como a sibutramina, com menos efeitos colaterais, mas que não resolvem o caso dos grandes obesos. No começo é ótima, mas com o tempo perde o efeito. Existem outras que diminuem a absorção intestinal de gordura. Essas são menos eficientes, quando se suspende a ingestão de gorduras e têm efeitos adversos como a incontinência fecal. Contra as drogas antigas há o tabu de que fazem mal. Eu as uso e recomendo. Não como primeira opção.  A primeira opção é a dieta e a mudança de hábitos. Alguns raros indivíduos conseguem manter o peso depois que emagreceram. O grande gordo não. Toma a droga, emagrece dez quilos, acha horrível a dieta e volta a comer e a engordar. É o chamado efeito sanfona.

PERDA DE PESO NOS DOIS GÊNEROS

Drauzio – Quem engorda mais fácil e quem tem maior dificuldade para perder peso, os homens ou as mulheres?

Bernardo Leo Wajchenberg – Os homens perdem peso com mais dificuldade por causa da vida que levam. As mulheres perdem mais facilmente por interesse pela aparência do próprio corpo. A longo prazo, porém, ambos continuam gordos a não ser nos casos raros em que o individuo adere à medicação. Tenho alguns pacientes nessa situação. Eles me telefonam e dizem que o remédio deixou de funcionar e eu faço outra associação de drogas. Não é a conduta ideal. O ideal é a mudança de comportamento.

A propósito, gostaria de comentar que o governo americano patrocinou um programa chamado Diabetes Prevention Program (DPP), Programa de Prevenção ao Diabetes, que custou 150 milhões de dólares. Eles mostraram que os indivíduos que aderiram à mudança de estilo de vida e aos exercícios perdiam mais peso e reduziam o desencadeamento das complicações do diabetes em seis anos. Fiquei surpreso e fui conversar com quem apresentou esse trabalho num congresso em Glasgow, em 2001. Soube que o grupo de cinco mil pacientes que fazia parte do estudo foi selecionado por anúncio de jornal e cada um recebia uma ajuda de custo para não interromper a experiência. No dia a dia, os resultados não são os mesmos.

Os endocrinologistas não podem desprezar as características de comportamento do obeso. A Behavior Therapy (Terapia Comportamental), teoria desenvolvida por um cientista da Filadélfia, visa exatamente à mudança de comportamento desse paciente.

TERAPIA COMPORTAMENTAL E EMAGRECIMENTO

Drauzio – Em que consiste a terapia comportamental  utilizada nos casos de emagrecimento?

Bernardo Leo Wajchenberg -  Não conheço exatamente o processo, mas sei que o indivíduo conversa com o psicólogo ou com uma pessoa habilitada para o trabalho que faz sugestões para a mudança da dieta, do comportamento alimentar e cobra os resultados. No início, as sessões são semanais. Com o passar do tempo, sessões de reforço são realizadas pelo menos uma vez por mês. Infelizmente, isso consome tempo, custa caro e não é pago pelo governo.

Não tenho informação de nenhum centro no Brasil dedicado a esse tipo de serviço, mas sei de algumas pessoas que se beneficiaram com o tratamento. Em recente congresso, o grupo de Filadélfia da Sociedade Americana de Diabetes apresentou trabalhos com resultados encorajadores. O paciente perde de 7% a 10% do peso corpóreo e mantém esse valor por anos a fio.

Drauzio – Num estudo comparativo entre os diversos tipos de dieta para emagrecer, os institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos (NHI) concluíram recentemente que uma pessoa costuma perder com as dietas até 10% de seu peso corpóreo. Quando acompanhadas depois de um ano, 50% delas voltaram ao peso original e cinco anos depois praticamente todas readquiriram os quilos perdidos.

Bernardo Leo Wajchenberg – Qualquer regime pode ter esse resultado. Por isso, a importância da mudança de comportamento. Acompanhei no Hospital Sírio-Libanês um grupo de obesos e as psicólogas me disseram que estavam pensando em introduzir a Teoria Comportamental com reforço contínuo no tratamento da obesidade. Não sei se os planos foram concretizados, mas é fundamental que iniciativas como essa sejam postas em prática.

FALTA DE PREPARO ACADÊMICO

Drauzio – Você acha que nós médicos somos preparados nas faculdades de medicina para lidar com um problema tão sério quanto esse?

Bernardo Leo Wajchenberg – Acho que não. Aliás, de certa forma, os cursos das faculdades são irrelevantes. A formação médica vai se alicerçando depois da formatura com a aquisição de novos conhecimentos que surgem numa velocidade espantosa nos últimos tempos. Por exemplo: há 20 anos o diabetes constituía um ramo pequeno da endocrinologia. Hoje, é maior do que todos os outros assuntos somados. Nos congressos, as sessões sobre diabetes são as que têm maior número de ouvintes médicos. Eu me especializei em diabetes e obesidade, embora trate de outras doenças da mesma área. Todo diabético adulto é obeso até que provem o contrário. Quando não é obeso, é preciso investigar o que possa estar interferindo em seu emagrecimento.

PREVISÕES PARA OS PRÓXIMOS 50 ANOS

Drauzio – Como você acha que o problema da obesidade vai ser r4solvido no futuro?

Bernardo Leo Wajchenberg - Diz um ditado popular que o futuro a Deus pertence. Não posso fazer previsões. Quando vi o primeiro computador em 1964, enorme, achei que não teria muita utilidade. Hoje, ele está aí, em todo o canto, pequeno e popular.

Entretanto, posso imaginar que se as coisas continuarem do mesmo jeito, o número de obesos vai aumentar. Nós, que vivemos no hemisfério sul, podemos ter uma ideia do que pode nos acontecer, se olharmos para o número de casos de obesidade em nossos irmãos do hemisfério norte.

Vejo que a educação na infância é a única forma para tentar resolver o problema. Não se pode induzir a criança a comer batata frita como um prêmio nos finais de semana. Isso não é prêmio, é punição. Batata frita tem alto valor calórico e muita gordura saturada. A educação deve começar em casa. Agora, me pergunto como médico e como pai de família: desde quando temos tempo para almoçar ou jantar com nossos filhos? Refeições em família tornaram-se um evento raro em nossas vidas.  Com isso, não ajudamos a criar hábitos alimentares saudáveis nas crianças, que acabam engordando.

Quero frisar, também, que nos últimos anos me impressionaram os casos de obesidade na infância e na adolescência nos quais o fator desencadeante foi a separação dos pais. Se existe tendência na família, conflitos emocionais desse tipo podem ser a origem do problema.

Drauzio – Você disse que a genética é responsável apenas por pequeno número de casos de obesidade. O que me intriga é ver, muitas vezes, um casal obeso com filhos pequenos também obesos.

Bernardo Leo Wajchenberg – Isso me faz lembrar os quadros do pintor colombiano Botero, em que o pai e a mãe são gordos, o filho é gordo e o gato também é gordo. Trata-se, porém, de uma situação diferente da encontrada naqueles casos raros determinados pela genética, como os de obesidade mórbida em indivíduos com cabelos cor de fogo.

Na verdade, não se pode negar que exista um componente genético familiar que ainda não foi bem definido. Um dos mais famosos cientistas no estudo da obesidade no Canadá, publica todos os anos um relatório dos genes envolvidos nessa doença, mas até agora não foram definidos exatamente quais são eles. Sabe-se que se trata de uma doença em que estão envolvidos múltiplos genes. Somos capazes de entender as doenças monogênicas, isto é, aquelas que estão associadas a um único gene. Para as outras ainda não foi encontrada explicação. É o caso do diabetes e da hipertensão, patologias que estabelecem interações gênicas de altíssima complexidade.

Não acredito que se encontrem soluções para essas doenças num futuro imediato, mas espero que a cura para ela apareça nos próximos 50 anos.

Drauzio – Você espera viver para assistir a essa descoberta?

Bernardo Leo Wajchenberg – Não espero nem quero. Também não cabe a mim decidir isso. Sou apenas um joguete nessa história. No momento, doença poligênica é ainda um brinquedo nas mãos dos pesquisadores. Você encontra em todos os números da revista Diabetes trabalhos sobre genética. Um dia, alguém acaba acertando e descobre a solução para esse enigma.

Aspectos Genéticos da Obesidade




Revista de Nutrição
Print version ISSN 1415-5273
Rev. Nutr. vol.17 no.3 Campinas July/Sept. 2004

Aspectos genéticos da obesidade

Iva Marques-Lopes; Amelia Marti; María Jesús Moreno-Aliaga; Alfredo Martínez
Departamento de Fisiología y Nutrición, Universidad de Navarra. Edificio de Investigación C/ Irunlarrea, 1, 31008, Pamplona, España

A obesidade é definida como a acumulação excessiva de gordura corporal deriva de um desequilíbrio crônico entre a energia ingerida e a energia gasta. Neste desequilíbrio podem estar implicados diversos fatores relacionados com o estilo de vida (dieta e exercício físico), alterações neuro-endócrinas, juntamente com um componente hereditário. O componente genético constitui um fator determinante de algumas doenças congênitas e um elemento de risco para diversas doenças crônicas como diabetes, osteoporose, hipertensão, câncer, obesidade, entre outras. O aumento da prevalência da obesidade em quase todos os países durante os últimos anos, parece indicar que existe uma predisposição ou susceptibilidade genética para a obesidade, sobre a qual atuam os fatores ambientais relacionados com os estilos de vida, em que se incluem principalmente os hábitos alimentares e a atividade física. A utilização de modelos animais de obesidade, a transferência gênica e os estudos de associação e ligamento, permitiram a identificação de vários genes implicados na obesidade.

A acumulação excessiva de tecido adiposo (obesidade) deriva de um aporte calórico excessivo e crônico de substratos combustíveis presentes nos alimentos e bebidas (proteínas, hidratos de carbono, lipídios e álcool) em relação ao gasto energético (metabolismo basal, efeito termogênico e atividade física). Nessa acumulação intervêm, tanto os hábitos alimentares e de estilo de vida, os fatores sociológicos e as alterações metabólicas e neuro-endócrinas, como os componentes hereditários.

Neste sentido, os genes intervêm na manutenção de peso e gordura corporal estáveis ao longo do tempo, através da sua participação no controle de vias eferentes (leptina, nutrientes, sinais nervosos, entre outros), de mecanismos centrais (neurotransmissores hipotalâmicos) e de vias aferentes (insulina, catecolaminas, sistema nervoso autônomo (SNA). Assim, o balanço energético, do qual participam a energia ingerida e a energia gasta, parece depender cerca de 40% da herança genética, podendo afetar ambas as partes da equação energética (apetite e gasto).

Os progressos científicos indicam que existe uma base genética transmissível, implicada na manutenção de um peso corporal estável, através dos seguintes mecanismos: 1) no controle de péptidos e monoaminas implicados na regulação do apetite; 2) nas variações do metabolismo basal, no efeito termogênico dos alimentos ou na atividade física espontânea e 3) na regulação da utilização metabólica dos nutrientes energéticos, para suprir as necessidades do organismo.

O aumento mundial da prevalência da obesidade atribui-se principalmente às mudanças nos estilos de vida (aumento do consumo de alimentos ricos em gordura, redução da atividade física, etc.), que incidem sobre uma certa susceptibilidade ou predisposição genética para ser obeso. Neste contexto, também o fenótipo da obesidade, do qual se distinguem quatro tipos em função da distribuição anatômica da gordura corporal (global, andróide, ginóide e visceral), é influenciado pela base genética e por fatores ambientais. Além disso, desde o ponto de vista evolutivo, os indivíduos com genes "austeros" ou "poupadores" podem ter sido favorecidos, já que a função reprodutora está dependente das reservas energéticas e as pessoas mais resistentes à desnutrição podem ter sobrevivido em maior proporção, durante as épocas de falta de alimentos.

Por último, a co-existência de obesidade em vários membros da mesma família, confirma a participação da herança genética na incidência da obesidade. A probabilidade de que os filhos sejam obesos quando os pais o são, foi estimada em alguns estudos obtendo-se percentagens entre 50% e 80%7. Confirmam essa hipótese tanto o fato de existirem indivíduos com uma alteração na termogênese, no metabolismo basal ou na ativação simpática, como a constatação de poderem os fatores genéticos modificar os efeitos da atividade física sobre o peso e a composição corporal.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Sistema Solar




Sociedade Racionalista

"A terra orbita o sol a 29,6 quilômetros por segundo. Que é cerca de 106 560 quilômetros por hora. Entre o tempo em que você vai para a cama e a hora que você acorda, você terá viajado de 1 milhão de quilômetros."

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

ETs




Sobre Vida Extra-Terrestre:

(..) Sim Diêgo e Bruno, trata-se de uma questão dedutiva, especulativa e probabilística - Equação de Drake, Paradoxo de Fermi, Hipótese da Terra Rara, Princípio de Mediocridade, etc... E o 'Bruno Kim A. Watanabe' Sintetizou muito bem "a distância é um fator crítico para o contato" - assim como o tempo, as contingências para a vida, e por aí vai... E comparto mais uma vez com o Bruno e com o Diêgo, "a educação é um entrave", para o ôba-ôba ufológico [grifo meu], versus a seriedade das considerações Astronômicas, e mais particularmente Astrobiológicas... 

Estamos muito mais próximos do conhecimento 'último' - se fosse possível abarcá-lo -, referencialmente, do que um homem comum está do conhecimento disponível... Em muitos aspectos, a sensibilidade geral engatinha por volta do fim da Idade Média... Decorrências e intercorrências do processo de convergência cultural, lento, dinâmico, e igualmente contingente... Mas seguimos em frente... 

E uma fronteira que precisa ser associada a toda esta questão: a Biologia da Crenças... Também avançamos muito neste sentido, nas últimas três décadas, graças à Neurociência Cognitiva e à  Genética - apoiadas pela Antropologia e pela Arqueologia, neste particular "ufológico"... 

A disponibilidade de elementos químicos na Terra - Hidrogênio, Oxigênio,  Carbono e Nitrogênio - segue a disponibilidade geral no Universo - com exceção do Hélio, um gás nobre inerte... Podemos então deduzir, ou especular com seriedade, sobre a existência ou não de 'VIDA' extra-terrestre, i.e., seres vivos, inteligentes ou não, vivendo por aí, no Universo, e fora do Planeta Terra... Podemos até calcular as probabilidades para a vida, mas associar isso à VGM - Viagem Geral na Maionese - da Ufologia barata é outra história... No primeiro tópico trata a Astrobiologia, do segundo a Neurociência Cognitiva, capítulo: Alucinações...

Cálculos otimistas, trabalhando sobre parâmetros e versões atualizadas de Equação de Drake, dão conta de cerca de 10 'mundos' com as condições contingentes para a vida extra terrestre em nossa galáxia, e com chances de contato... Enquanto os realistas - ou pessimistas - sugerem a existência de apenas 2 possíveis mundos contactáveis, embora assinalando que existiriam cerca de 200 'mundos' abrigando alguma forma de vida inteligente em nossa galáxia, mas com os quais, e pela distância e tempo de existência, nunca faríamos contato...


FIAT LUX  

Carlos Sherman

ETs: Não estamos sozinhosNunca estivemos tão perto de pôr um fim na nossa solidão cósmica. Pesquisas recentes mostram que boa parte dos planetas de fora do sistema solar é a cara da Terra. E agora astrônomos contam com um arsenal de novas tecnologias para buscar vida em clones do nosso planeta.por Pedro Burgos
Você mora na periferia de uma cidade do interior. Em termos cósmicos, pelo menos. Sua casa é uma rocha cheia d’água que gira num cantinho da galáxia, bem longe do movimentado centro. O Sol, esse reator nuclear com diâmetro de 1,4 milhão de quilômetros, é só uma entre os 300 bilhões de estrelas da Via Láctea. Uma galáxia bem pacata, por sinal. A verdadeira megalópole deste pedaço do Universo é Andrômeda, nossa galáxia vizinha, com 1 trilhão de sóis.
Não, não estamos nada sozinhos no Cosmos. Além de Andrômeda, há pelo menos outros 125 bilhões de galáxias no Universo visível. E, se respeitarmos a lógica, o que não falta em cada uma delas são planetas, muitos planetas. Como disse o astrônomo Carl Sagan sobre a vida lá fora: “Deve haver bilhões de trilhões de mundos. Então por que só nós, jogados aqui num canto esquecido do Universo, seríamos afortunados?”
A descoberta de que estamos no meio de um Universo tão vasto e rico é relativamente recente: começou na 2a metade do século 20. E as provas de que, sim, existem mesmo planetas em outras estrelas se trata de algo mais novo ainda. Isso tudo deu uma guinada na ciência, a ponto de a exobiologia, que estuda a possibilidade de vida fora da Terra, ter subido de status. “Quando cunharam o termo exobiologia, [nos anos 60] ele foi ridicularizado como uma ‘ciência sem objeto de estudo’.? Mas a maré científica mudou e hoje há um entusiasmo crescente em tentar achar vida em outros lugares do Universo”, diz a astrônoma Jill Tarter, da Universidade da Califórnia, no livro The Search for Life in the Universe, (“A Busca da Vida no Universo”), inédito em português.
Outros vão mais longe e apostam que não só a vida é inevitável lá fora mas civilizações tão ou mais avançadas que a nossa também. Como já disse o físico de Harvard Paul Horowitz: “Vida inteligente no Universo? Garantido. Na nossa galáxia? Extremamente provável”.
De onde vem tanta empolgação?
Condições para a vida
As apostas de que, sim, há muita vida lá fora começam com duas novas certezas. Primeiro, a de que não faltam planetas fora do sistema solar.
Até anteontem não havia prova de que outras estrelas, fora o Sol, tivessem mesmo planetas. A astronomia dizia que sim: estudos sobre a formação de estrelas mostram que elas costumam nascer carregando um séquito de pequenos astros. Mas o ponto final na questão só veio em 1995, quando astrônomos da Universidade de Genebra detectaram um planeta gigante feito de gás, como Júpiter, em volta de uma estrela parecida com o Sol, a 51 Pegasi.
De lá para cá a década de 1990 teve uma média de 3,4 planetas extra-solares descobertos por ano. E agora, com instrumentos mais precisos, o ritmo explodiu. No ano passado, foram mais 61. Em 2008, só até julho, outros 36. Total: 307. E a conta não pára de crescer.
A segunda certeza é ainda mais determinante: a de que dois ingredientes fundamentais para a vida, água e moléculas orgânicas, são comuns no Universo. Essas moléculas são fáceis de achar no espaço sideral – elas ajudam a formar as nuvens de gás e poeira que dão à luz qualquer estrela (e conseqüentemente qualquer planeta) no Universo. Quanto ao H20, ele também é arroz-de- festa no Cosmos: a própria água que enche os oceanos da Terra chegou aqui na forma de bolas de gelo que caíram do céu (os cometas) durante a formação do sistema solar. E isso pode ter acontecido em qualquer outro ponto do Universo.
Para completar, em 2007 o telescópio Hubble detectou pela primeira vez a existência de água num planeta extra-solar, ainda que em forma de vapor. E neste ano encontrou água e moléculas orgânicas em mais outro. Isso não indica que algum desses dois tenha vida. Ambos são gigantes feitos de gás, como Júpiter – um tipo de planeta pouco amigável a seres vivos. Mas, se houver um planeta parecido com a Terra na região, aquilo que aconteceu aqui pode ter acontecido lá.
“Estamos tão, tão perto de encontrar vida em outros planetas que é só uma questão de continuar procurando. Parece que é só uma questão de tempo”, diz o astrônomo Marc Kuchner, do Laboratório de Exoplanetas da Nasa. Mas como Kuchner e seus colegas estão procurando?
Guia do caçador de planetas
Buscar um astro em volta de uma estrela é como tentar achar um pernilongo ao lado de um prédio em chamas. A olho nu. Simplesmente não dá para ver. O que os astrônomos fazem, então, é detectá-los de formas indiretas. Por exemplo: se o brilho de uma estrela diminui um pouco num ponto da superfície dela, em intervalos regulares, significa que tem um planeta girando ali. Outro jeito de procurar é observar o “balanço” de uma estrela. A gravidade de um planeta é forte o bastante para chacoalhá-la um pouco. Se os observadores apontarem seus equipamentos por muito tempo para ela dá para analisar essas balançadas e deduzir que há um planeta passando por ali. Mais: pelo movimento, dá para calcular a massa do planeta e sua órbita.
Muito bom, mas tem um problema: desse jeito os mundos mais fáceis de detectar acabam sendo os muito grandes e próximos das estrelas. Só que planetas grandes são sempre bolas de gás como Júpiter, um monstro de hidrogênio com massa igual à de 317 Terras. E isso é um tanto frustrante na busca pelo que interessa, que é a vida fora da Terra: a atmosfera desses gigantes gasosos é tão maciça que a pressão lá dentro fica insuportável – seres complexos simplesmente estourariam em ambientes assim. E pior ainda se o planeta recém-descoberto estiver perto de sua estrela. Assim as temperaturas lá dentro ultrapassam 100 ºC, e a água só tem como existir na forma de vapor. Aí não adianta.
Procurar por planetas com vida significa buscar por um que tenha água líquida. Isso não é egocentrismo de cientista terráqueo, achando que a vida em outros planetas tem que ser igual à daqui. É respeito pelas leis da química, que valem para o Universo inteiro. Funciona assim: para ter algo que dê para chamar de vivo, precisamos de moléculas que se juntem para formar coisas complexas. As que melhor fazem isso são as moléculas orgânicas, estruturas que têm átomos de carbono como pilares e que, por sinal, formam o seu corpo. Só que moléculas não andam. Elas precisam de um solvente, de um meio fluido para se locomover e encontrar umas às outras. E a água líquida é a melhor coisa que tem para isso no Universo – não é à toa que a vida por aqui começou nos oceanos.
Isso não quer dizer que ausência de água seja evidência de planeta morto. “A vida como conhecemos é feita de carbono. Mas eu facilmente acreditaria que um ser fosse formado por outro elemento básico, como silício, ou que tivesse amônia como solvente em vez de água. Tenho certeza de que a vida no Universo é bastante diversificada”, diz a astrobióloga mexicana Graciela Matrajt, da Universidade de Washington.
Mesmo assim, os cientistas preferem o certo ao duvidoso, e vão atrás de planetas parecidos com o nosso – relativamente pequenos e com uma temperatura amena, que deixe a água correr.
Só que achar planetas assim por aí é difícil, justamente por causa do tamanho. A própria Terra, em pessoa, seria invisível para os instrumentos que os astrônomos usam hoje. Mas existe um alento: as “super-Terras”, mundos com a cara deste aqui, só que grandes o suficiente para entrar na mira dos equipamentos mais modernos.
A precisão desses instrumentos deu um salto nos últimos anos. A “sintonia fina” na hora de detectar as balançadas nas estrelas, por exemplo, melhorou. Já dá para perceber oscilações mais sutis, causadas por planetas menores. E isso abriu as portas para encontrarmos mundos com massa 10 vezes menor que a de Júpiter – planetas Terra muito, muito grandes. Mas ainda assim amigáveis para a vida.
Já encontraram 11 desses, de 2006 para cá. E a grande notícia veio no ano passado: dois gêmeos da Terra com possibilidades reais de terem água líquida. São os planetas Gliese 581 c e Gliese 581 d (não, os nomes não são nada poéticos: sempre colocam a denominação da estrela que eles orbitam – no caso, a Gliese 581 – seguida de uma letra). O que esses dois têm de mais especial em relação aos outros 9 planetas terrestres é a localização. O 581 c, por exemplo. Ele é o primeiro planeta pequeno, com “apenas” 5 vezes a massa da Terra, dentro daquilo que os astrônomos chamam de “zona habitável”: uma distância em relação à estrela que não deixa o astro nem frio nem quente demais. Ele fica mais perto de Gliese que Mercúrio fica do Sol. Se fosse no nosso sistema solar, isso significaria temperaturas de quase 500 ºC, só que a estrela Gliese é pequena e fria, com 10% da luminosidade do Sol. Então o planeta pode ter um clima equivalente ao da Terra. E só isso já é um indício de que existe água líquida por lá.
Quando o 581 c apareceu, foi uma festa. No mundo da astronomia a sensação era que, se existisse vida em algum lugar, seria ali. Mas então alguns astrônomos teorizaram que, se a atmosfera do planeta for grossa demais, os “raios de sol” de Gliese podem ficar presos no planeta. É o efeito estufa, que pode elevar demais o termômetro e acabar com a idéia de água líquida. A desconfiança ainda perdura entre os especialistas. E, se for isso mesmo, o grande candidato a abrigar seres vivos automaticamente passa a ser o 581 d. Ele fica um pouco mais distante de Gliese, numa região mais fria que a da zona habitável, com temperaturas sempre abaixo de zero. Mas aí o efeito estufa por lá seria um bom negócio. Ele poderia deixar a temperatura tão amena quanto a daqui.
Tudo isso é hipótese, claro. Quando você encontra um planeta pelo efeito que ele causa em sua estrela, como aconteceu com os dois de Gliese, o astro não “aparece na foto”. Então não dá para deduzir como ele é de fato, muito menos cravar que pode existir vida lá ou não. Mas essa limitação está para acabar. Quer dizer: acabou.
Como desvendar as novas Terras
Em fevereiro do ano que vem a Nasa lançará a missão Kepler, um telescópio em órbita que se dedicará exclusivamente a buscar planetas na nossa vizinhança galática. Ele tem duas grandes melhoras em relação ao Hubble. Primeiro, consegue observar mais estrelas em detalhes. Enquanto o telescópio veterano só tem foco para analisar uma de cada vez, o Kepler foi projetado para fazer isso com dezenas ao mesmo tempo. Segundo, fará imagens mais nítidas. Suas lentes ganharam uma espécie de máscara para filtrar o brilho das estrelas. Isso diminui as interferências de luz e permite detectar pelo menos algumas cores dos exoplanetas.
E isso pode dizer mais sobre eles do que parece. Cada elemento químico reflete a luz de um jeito diferente. É graças a isso que sabemos o que tem na atmosfera dos planetas mais distantes do sistema solar sem nunca termos pousado uma nave naquelas bandas.
Mas fazer isso com planetas a anos-luz de distância é outra coisa. O Hubble até fez aquela detecção de água e de moléculas orgânicas, mas só porque se tratavam de planetas gigantes. Agora, com o Kepler, o objetivo é desvendar a atmosfera dos exoplanetas menores. Se encontrarmos bastante oxigênio em algum, por exemplo, teremos um bom indício de vida. Quem encheu a Terra de oxigênio, afinal, foram coisas bem vivas: as algas.
Só com o Kepler, esperam achar e analisar a atmosfera de pelo menos 50 planetas do tamanho da Terra em zonas habitáveis. E vem mais por aí: a Agência Espacial Européia (ESA) prepara 3 telescópios espaciais que trabalharão juntos para encontrar lugares habitáveis, com lançamento agendado para 2015. E a Nasa planeja o sucessor do Hubble, também para a próxima década. Ele será 4 vezes maior e 10 vezes mais preciso. A esperança é que, com ele, consigamos fotos detalhadas de planetas extra-solares.
Mas e aí? E se encontrarmos um planeta com uma atmosfera recheada de oxigênio, sinais de moléculas orgânicas, temperatura amena, oceanos e o escambau? Vamos mandar uma sonda espacial nos moldes dos jipinhos marcianos para ver se existem aliens mesmo no lugar?
Vida no sistema solar
Enviar sondas espaciais é o melhor jeito de entender o que acontece fora da Terra. Que o diga a nave Phoenix. Ela chegou a Marte em junho, ainda está coletando e analisando informações do solo marciano e de cara confirmou que existe água em forma de gelo no pólo norte de lá. A temperatura marciana é muito fria (chega a -140 °C), mas, se essas calotas fossem derretidas, seriam capazes de formar uma camada de 11 metros de profundidade no planeta inteiro, pelos cálculos da Nasa. Outra análise da Phoenix mostrou que o solo do planeta não é tão morto assim: nutrientes importantes para a vida, como magnésio, sódio e potássio, estão presentes nas amostras. É muito difícil haver vida lá? Hoje, é. Mas ontem, nem tanto: fotos aéreas mostram erosões que, ao que tudo indica, são leitos secos de rios que corriam numa época em que o planeta era mais quente. A probabilidade de que Marte tenha tido água líquida é real. Por isso estamos longe de desistir de achar indícios de que já houve pelo menos micróbios lá – e, em última instância, de que a vida é comum em qualquer lugar que ofereça as condições. Uma nave ainda mais equipada que a Phoenix pousará lá no ano que vem, enquanto a Agência Espacial Européia vai lançar em 2013 o ExoMars, carrinho capaz de perfurar profundamente o solo em busca de vestígios orgânicos. Para fechar, tanto os europeus como a Nasa planejam missões tripuladas com humanos antes de 2040.
Outro alvo na busca pela vida é Europa, uma lua de Júpiter. Ela tem uma fina atmosfera com oxigênio e, ao que tudo indica, uma surpresa embaixo de sua camada de 200 quilômetros de gelo: água líquida. É que a forte gravidade de Júpiter pode ter feito o gelo mexer e remexer tanto que ele acabou esquentado, só pela fricção. E onde há água líquida, há chance de vida.
Para ver se tem mesmo, a Nasa planeja mandar uma sonda para a órbita de Europa na próxima década. E a Agência Espacial Russa (Roscosmos) vai mais longe: quer pousar uma nave (não tripulada) em Europa até 2020. Tudo isso, porém, só dá para fazer porque Marte e a lua de Júpiter são logo ali. Se quisermos mandar uma sonda para algum planeta extra-solar, temos um problema. A estrela mais próxima daqui, Alpha Centauri, fica a 4,3 anos-luz da Terra. Isso significa que um raio de luz demora 4,3 anos para chegar lá. Não parece grande coisa, mas são 40 trilhões de quilômetros de distância. Demais para as nossas sondas.
E olha que elas são até rápidas. A Voyager, que já atravessou o sistema solar inteiro, hoje rasga o espaço a 1,4 milhão de quilômetros por hora, 1 000 vezes mais rápido que o som. Só que isso não é nada em termos espaciais: representa apenas 0,000058 da velocidade da luz.
Nesse pique ela demoraria 80 mil anos para chegar a um eventual planeta na órbita de Alpha Centauri. Dureza: nem se os neandertais tivessem lançado uma sonda espacial ela teria chegado...
Se é tão difícil mandar algo ou alguém para conversar, o que poderíamos fazer, então? “Telefonar” para eles é claro! Ou, pelo menos, ficar a postos para uma ligação interplanetária, ouvindo se chega alguma mensagem alienígena aos nossos radiotelescópios, as antenas que captam ondas de rádio vindas do espaço. Só que aí entramos em outro terreno.
Em busca da vida inteligente
Até agora estávamos falando da busca por seres vivos. Aí qualquer bactéria está valendo. Mas, se já é difícil encontrar sinais de vida pura e simples, como uma atmosfera cheia de oxigênio, topar com seres capazes de criar tecnologia é mais ainda. Se a história da vida na Terra, da primeira célula até hoje, fosse um jogo de futebol, o homem só teria entrado em campo faltando 3 segundos para o apito final. Quer dizer, se alguma civilização nos últimos bilhões de anos mandou mensagens para cá para ver se achava algum ser inteligente do outro lado da linha, pode ter cansado de esperar.
E, se a vida inteligente é só uma piscada na história deste planeta, o mais provável é que ela também seja extremamente rara lá fora. Mesmo assim, quem espera pelas chamadas de outros planetas mantém as esperanças.
Quem faz isso é o Seti, sigla em inglês para Procura por Inteligência Extraterrestre. Eles jogam todas as fichas na espera de receber sinais de rádio dos alienígenas. Mesmo com a possibilidade de que haja pouca vida inteligente lá fora, faz sentido: ondas de rádio viajam à velocidade da luz (1,08 bilhão de quilômetros por hora, a maior possível pelas leis da física). Não é o ideal para tentar falar com Andrômeda, a galáxia mais próxima, já que o sinal demoraria 2 milhões de anos para fazer a viagem. Mas dá para tentar aqui pela Via Láctea. Se uma mensagem partisse de um planeta na órbita da estrela Alpha Crucis, a base do Cruzeiro do Sul, levaria 321 anos para chegar aqui. Caso eles tenham mandado uma quando a Terra estava no ano de 1687, o sinal estaria chegando agora. E consideremos: captar um sinal assim nos colocaria em contato com uma civilização extraterrestre de um jeito até mais eficiente do que se tivéssemos mandado sondas.
“Trocar fotos e textos já é suficiente para quem se relaciona via internet, não? Então. Você pode aprender muito sem ter de ir a um planeta extra-solar”, diz o astrônomo americano Seth Shostak, diretor do Seti. O que o instituto faz, então, é alugar radiotelescópios para captar ondas do espaço e ver se aparece alguma que siga algum padrão, que só possa ter sido feita por alguma coisa inteligente. O romance Contato, de Carl Sagan, dá um exemplo prático: lá o Seti detecta uma espécie de código Morse vindo da estrela Vega.
Agora Shostak e sua turma esperam que isso vire realidade logo. É que está em fase final de construção o Allen Telescope Array (Campo de Telescópios Allen), bancado pelo bilionário Paul Allen, co-fundador da Microsoft. É um campo de 350 radiotelescópios todo dedicado ao Seti. “Não que isso seja caro. Manter os telescópios por um ano é menos do que o governo gasta para comprar um helicóptero militar de última geração [US$ 20 milhões]”, diz Seth. Com o batalhão de radiotelescópios de ouvidos abertos, a busca por vida inteligente será pelo menos 100 vezes mais rápida do que hoje. “Simplesmente por podermos usar o negócio o tempo inteiro, 24 horas por dia, nos próximos 20 anos teremos checado 1 milhão de estrelas.” Além disso, o Seti ficará de olho nas pesquisas das agências espaciais. E os planetas exosolares que podem ter vida serão alvos prioritários dos novos telescópios.
A outra maneira de fazer contato é, em vez de esperar por mensagens, mandá-las ao espaço para ver se algum alienígena capta. A humanidade tentou isso 4 vezes. As últimas foram enviadas pelo astrofísico canadense Yvan Dutil. Ele é uma espécie de porta-voz dos terráqueos e, junto com o colega Stephane Dumas, desenvolveu duas mensagens mandadas para os ETs em 1999 e 2003. A linguagem delas é a matemática (afinal, em qualquer lugar do Universo 1+1=2) e lá estão alguns dos últimos algarismos conhecidos de pi e o maior número primo pra mostrar que, se nós ainda não tivemos chance de viajar pela galáxia, pelo menos já temos uma capacidade computacional bem razoável (veja mais na página 68). No final das mensagens, Yvan propõe algumas questões para os aliens: “Nós nos baseamos na idéia de que, se quisermos sobreviver aqui na Terra, temos de gerenciar eficientemente nossos recursos. As civilizações mais avançadas teriam tido o mesmo problema e poderíamos aprender com elas. Os ETs que responderem podem ser um povo que já viveu por muito tempo, ou seja: que soube manejar a sustentabilidade”.
Não é só Yvan que acredita nisso. Existem modelos sérios de “exo-sociologia” que tentam explicar como seria, afinal de contas, uma civilização anos-luz à frente de nós – em ambos os sentidos. A teoria exo-sociológica que ficou mais famosa, e serve para guiar astrônomos até hoje, foi criada pelo astrofísico russo Nikolai Kardashev. Para ele, as civilizações extraterrestres poderiam ser divididas em 3 tipos. O primeiro, que ele chama de K1, seria o nosso: relativamente primitivo, e confinado em termos cósmicos – ou seja, só consegue usar os recursos de seu planeta natal para obter energia.
O segundo estágio seria uma civilização que dominasse a energia de sua estrela – o físico americano Freeman Dyson sugeriu que algum povo avançado poderia usar uma espécie de cobertor sobre as estrelas para absorver energia e, de quebra, controlar melhor a luminosidade de seu sol.
Uma civilização K3 seria mais ou menos como o Império de Darth Vader, de Star Wars: uma potência que reina sobre os recursos de várias estrelas e planetas.
Tudo isso é mais ficção do que teoria científica para valer, mas tem sua lógica. Tanto que um grupo de astrônomos japoneses procura distúrbios na luminosidade de algumas estrelas para verificar a existência de um desses “cobertores” de Dyson. Sem sucesso ainda – como tem sido toda e qualquer tentativa de acabar com a nossa solidão, seja buscando vida em planetas parecidos com a Terra, seja em nossos vizinhos, seja com radiotelescópios. Frustrante? Talvez não.
A verdade, lá fora
Mesmo que seja infrutífera para sempre, a busca por vida e por inteligência extraterrestre não deixa de revelar alguma coisa. Se daqui a centenas de milhares de anos jogarmos a toalha, dizendo “Já vimos tudo. Acabou. Somos únicos na Via Láctea”, vamos saber que somos privilegiados por uma série de eventos fortuitos. Primeiro, o Sol mantém basicamente a mesma luminosidade há 4,5 bilhões de anos, algo raro; vivemos em uma vizinhança tranqüila da nossa galáxia, sem estrelas explodindo o tempo todo, como acontece em outras áreas; temos um planeta grande como Júpiter por perto para atrair cometas e meteoros que, de outra forma, bateriam aqui o tempo todo... Seria sorte demais? Essa é a hipótese da “Terra Rara”, batizada pelos astrônomos americanos Peter Ward e Donald Brownlee.
Outra linha para explicar por que não fizemos contato até agora vai por um caminho oposto. Defende que a vida pode, sim, ser bem comum. Inclusive a inteligente. Mas que talvez as civilizações tecnológicas não sobrevivam por muito tempo: mais hora menos hora acabam se autodestruindo. Foi o que imaginou o astrônomo Frank Drake: o Universo tem 13,8 bilhões de anos; a fase tecnológica da nossa civilização, só 100. E já temos armas nucleares para acabar com essa festa a qualquer momento. Se for assim em outros lugares, outras civilizações já tiveram tempo mais do que suficiente para dar cabo de si mesmas (veja aqui em cima). E não teríamos muita “gente” para conversar na galáxia. Pense nisso quando ouvir o silêncio da noite.
“Na verdade a absoluta falta de certeza sobre o que vamos encontrar em outros planetas é o que faz a procura especialmente interessante”, diz Yvan Dutil, que tem uma citação favorita para explicar o seu interesse. “Cristóvão Colombo viajou para o Novo Mundo disposto a achar especiarias, ouro e diamantes. Voltou com batata, tomate e milho. E isso é 50% de nossa alimentação hoje. O que nos impactou não foi o que procurávamos”, dizia o ex-diretor da Nasa Daniel Goldin sobre por que gastar dinheiro procurando vida extraterrestre. A verdade, seja ela qual for, está lá fora.
Uma lua especial
Distância: 44 anos-luz.
O astro grandão ali atrás é o Cancri 55 f, uma bola de gás inóspita. Mas ele pode ter um satélite com água líquida. E vida.
Planeta “vizinho”
Distância: 4,3 anos-luz.
Simulações de computador indicam que pode haver um planeta com as características da Terra na estrela mais próxima daqui, Alpha Centauri.
Trio de super-terras
Distância: 41,3 anos-luz.
Descobertos em 2008 na estrela HD 40307, estes 3 planetas terrestres são quentes demais para a vida, mas indicam que astros como o nosso são comuns por aí.
Terra gigante
Distância: 20,5 anos-luz.
Um planeta igual a este aqui, só que com 5 vezes mais massa e diâmetro 50% maior. Eis o principal candidato a abrigar alienígenas.

As outras terras
Uma viagem por dentro de alguns dos astros com mais chances de abrigar vida
1. Pôr-do-sol eterno
Ele é 13 vezes mais próximo de sua estrela que a Terra do Sol. Mas Gliese 581 c pode ter vida porque sua estrela é mais fria. A gravidade, um pouco mais que o dobro da nossa, permitiria poucas montanhas. Por ser tão próximo da estrela, a atração gravitacional prende sua posição, e só um lado do planeta é iluminado. Então dia e noite duram para sempre em cada lado. E nos pólos o pôr-do-sol é eterno.
2. Sol das 3 da manhã
Os habitantes de um suposto planeta em volta de Alpha Centauri, um sistema com duas estrelas, veriam no céu, de manhã, um sol parecido com o nosso. Mas uma espécie de lua gigante, mil vezes mais clara que a daqui, apareceria durante o dia numa metade do ano e à noite na outra, eliminando a escuridão. Ainda não foi comprovado se há planetas ali – o sistema será alvo dos astrônomos a partir de 2009.
3. Terra mirim
Água abundante, um ano de 240 dias e temperatura amena. Quase como a Terra. Só que, no céu de lá, o astro dominante não é uma estrela, mas um enorme planeta, do tamanho de Saturno, o 55 Cancri f. A gravidade do gigante sacodiria o subsolo, criando erupções vulcânicas com quilômetros de altura. A esperança de vida é grande: já mandamos uma mensagem para lá em 2003, que chegará em 2044.

Carta de apresentação da humanidade
Em 1999, astrônomos mandaram esta mensagem para algumas estrelas. Agora esperam uma resposta dos Ets
Como falamos
A primeira parte explica o vocabulário da mensagem. São códigos que mostram os números de 1 a 9 como quadradinhos, e depois uma tradução em código binário (tipo, 2=0010), que será usada no resto da mensagem.
O que sabemos
Explicamos a eles como estabelecemos comprimento, área e volume. Mais os 15 primeiros números de pi e os últimos dos 51 539 600 016 algarismos que conhecemos da dízima, mostrando que temos computadores com potência para calcular isso.
Onde estamos
Aqui indicamos nossa localização, dando a posição da Terra no sistema solar. Para que eles nos achem mais facilmente, damos a massa e o raio do Sol e de Júpiter, os dois astros mais detectáveis para quem está longe.
Do que somos feitos
Aqui vão detalhes do que os humanos são feitos. Depois de mostrar os desenhos dos 4 ácidos nucléicos que compõem as bases do nosso DNA (timina, adenina, guanina e citosina), damos a estrutura básica das células e o tamanho delas: 10-5 metro.
Oi!
Dizemos a altura e o peso das pessoas na Terra. Outros gráficos apresentam as freqüências de som e de luz que nossos sentidos percebem. Assim, no caso de os ETs mandarem alguma mensagem de volta, eles terão certeza de que poderemos vê-la e ouvi-la.

Quantos vizinhos nós temos?
O astrônomo Frank Drake bolou uma equação para determinar quantas civilizações existiriam na galáxia neste momento. Veja os resultados otimistas (= O) e os conservadores (= C).
Número de estrelas
Como a comunicação com outras galáxias ainda é impossível – elas ficam tão longe que um sinal demoraria entre milhões e bilhões de anos para chegar –, a equação se restringe ao número de estrelas na Via Láctea: 300 bilhões.
Estrelas com planetas
Estrelas gigantes ou muito pequenas não têm condições de ter planetas habitáveis. Estrelas novas demais também estão fora. O que sobra é a fração de estrelas propícias a ter vida em volta. C: 0,005% O: 100%
Temperatura amena
Toda estrela tem uma zona habitável em sua órbita, onde a temperatura permite a vida. Pegando o exemplo do sistema solar (Marte estaria nessa zona), estimamos o número de planetas viáveis nessa zona. O: 3. C: 1.
Vida
Não é porque o planeta tem condição de abrigar vida que seres vivos irão aparecer. Como não sabemos o que provoca o aparecimento dela estimamos uma fração dos planetas favoráveis que produzam vida de fato. O: 100%. C: 50%
Inteligência
Alguns desses planetas com vida podem ter apenas bactérias e animais – a própria Terra teve só isso por mais de 99,9% do tempo. Aqui entra a fração de planetas onde a vida teria evoluído para uma civilização. O: 100%. C: 33%
Fator autodestruição
É preciso considerar que os seres inteligentes talvez não durem para sempre. Neste último fator dividimos o tempo de vida de uma civilização com capacidade de se comunicar com outras estrelas. O: 10 000 C: 450.
Civilizações aqui e agora
Acabou. Agora dividimos o resultado de todas as variáveis pela idade da Via Láctea (10 bilhões de anos). E o resultado é uma estimativa de quantas civilizações existem na galáxia neste momento. O: 900 000 C: 4
Fontes - Astrônomos Donald Goldsmith e Tobias Owen

Para saber mais
The Search for Life in the Universe
Donald Goldsmith e Tobias Owen, University Science Book, EUA, 2002.
Where is Everybody?
Stephen Webb, Copernicus Books, EUA, 2002.
Rare Earth
Peter D. Ward e Donald Brownlee, Copernicus Books, EUA, 2004.

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Nota:

Principais temas de pesquisa em Astrobiologia

1. Análise de dados de Titã: As observações de Titã pela Cassini serão analisadas para estudo de sua meteorologia, desenvolvimento de modelos de transferência radiativa, para definir composição da sua atmosfera, para aplicação em outras atmosferas de corpos celestes.

2. Envelopes circunstelares de objetos jovens: Medir fotometrica, espectroscopica e interferometricamente envelopes de estrelas jovens,sobretudo em bandas de moléculas astrobiologicamente interessantes a fim de identificar potenciais sítios de formação biológica favorável.

3. Formação e evolução de CHONs em diversos ambientes astrofísicos: A química da vida terrestre se baseia nos elementos C, H, O, N, os elementos quimicamente ativos com maiores abundâncias cósmicas. É provável que a vida em geral seja baseada em CHONs. O objetivo é a estimativa das abundâncias de compostos baseados em CHONs em diversos ambientes astrofísicos. Será usado o código de evolução quimiodinâmica CHEMODYN e a emissão IR obtida com a interface DUST. As previsões serão comparadas com observações de abundâncias, de galáxias até discos protoplanetários.

4. Identificação de biomoléculas no meio interestelar: O objetivo desta linha é identificar bandas em rádio de biomoléculas no MIS.

5. Investigação das condições de sobrevivência de microorganismos extremófilos em ambientes extraterrestres simulados: Simulações de ambientes extraterrestres em laboratório com o intuito de verificar a sobrevivência de microrganismos extremófilos em condições agressivas e investigar os mecanismos biológicos que podem contribuir para tal sobrevivência. Esse trabalho permite inferir a possibilidade desses microorganismos, ou microorganismos com mecanismos de resistência similares, sobreviverem ao ambiente extraterrestre, seja na superfície de outros planetas, seja em processos de transporte entre planetas.

6. Estrelas astrobiologicamente interessantes: idades, zonas habitáveis e órbitas galácticas: estudo de zonas habitáveis num conceito amplo e levando em conta condições astronômicas conhecidas.

7. Evolução química de biomoléculas no meio interstelar: Busca-se desenvolver equações e modelos que descrevam a evolução das abundâncias de biomoléculas importantes, tais como H2O, CO2, HCN, etc, no meio interestelar, a partir de um formalismo de Evolução Química da Galáxia misturado a considerações de Astroquímica.

8. Influência da atividade solar, da composição atmosférica terrestre e do campo geomagnético na vida da Terra: lições para a astrobiologia: A variação da atividade solar, da composição atmosférica terrestre e da intensidade do campo geomagnético foi registrada em diversas escalas temporais e pode-se relacionar a possíveis influências tanto na origem da vida na Terra como na sua evolução. Estes dados sugerem limite de variabilidade na atividade estelar, na composição atmosférica e nos campos magnéticos exoplanetários, permitindo o surgimento e evolução de vida semelhante a da Terra em exoplanetas a serem encontrados em zonas habitáveis.

9. Influência da incidência de radiação de alta energia em biosferas: Tem-se estudado os possíveis efeitos de radiação de alta energia, eletromagnética ou particulada, proveniente de fontes astrofísicas (flares solares, raios cósmicos, gamma-ray bursts, giant flares de soft-gamma repeaters, etc) sobre biosferas, tanto do ponto de vista de efeitos biológicos na escala molecular quanto na escala de ecossistemas, para o entendimento das possíveis influências na dinâmica ecológica e evolutiva global.

10. Formação de biomoléculas em atmosferas e superfícies planetárias: Pretende-se reproduzir dentro de uma câmara experimental, a química, a temperatura e o campo de radiação (Solar) presente em diferentes atmosferas e superfícies planetárias (ex. Titã, Marte, Vênus, Terra Primitiva, etc...), com o intuito de produzir resíduos orgânicos e novas moléculas consequentes do processo de fotólise na superfície de aerossóis suspensos na atmosfera ou mesmo no solo.

11. Fragmentação de biomoléculas em condições similares às do meio interestelar: Estudos da fragmentação de diversas biomoléculas por fótons energéticos ou partículas em condições de ultra-alto vácuo simulando o ambiente espacial têm sido realizados, de maneira a compreender a resistência das mesmas nessas condições. Tais estudos têm sido importantes para o cálculo do tempo de vida das diversas espécies moleculares, bem como para a geração de modelos químicos com as espécies químicas reativas formadas pelas fragmentações, os quais tem papel fundamental na química de moléculas biologicamente importantes no meio interestelar.