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segunda-feira, 27 de maio de 2019

DISLEXIA

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DISLEXIA
Por Carlos Leger Sherman Palmer Junior

Introdução
Sigmund Freud, responsável pelos dogmas sacralizados pela Psicanálise, escreveria em 1900 que experiências dolorosas na infância ou maus tratos por parte do pai, da mãe, ou de ambos, era a causa para a dislexia. Ele postulou que crianças incapazes de se rebelar abertamente contra seus pais abusivos, passavam a desafiá-los e recusando o aprendizado da leitura. Uma explicação simplista e infantil demais, e apoiada em ZERO experimentos, evidências, provas científicas – como tudo no freudismo. Freud recomendava ainda que o único caminho seguro para a salvação dessas crianças era a Psicanálise... Na verdade seus métodos terapêuticos nunca surtiram efeito algum, e ao contrário, agravando e muito o equilíbrio emocional e psicológico de seus infelizes pacientes – ou vítimas.
Freud não entendeu nada sobre esse ou qualquer outro transtorno notadamente psicológico. Mas, financeiramente, e considerando a devida atualização monetária aos nossos dias, a Psicanálise rendia bons frutos aos seu séquito de adeptos, cobrando a bagatela de 300 a 400 Euros por sessão; isso sem contar o famoso jargão, que garantia receita estável durante o interminável tratamento: “te vejo na próxima consulta”. E assim foi... mas não é mais. Hoje a Psicanálise está completamente desacreditada por verdadeiros especialistas no comportamento humano, real... longe das páginas ficcionais do grande escritor de contos e pai de dita doutrina. Na verdade, seria um manancial para boas piadas, se não fosse um assunto tão sério, e causa de tantos males. Não, Freud nunca explicou nada, mas complicou muito.
Sofisticadas tecnologias de imageamento cerebral ou fMRI (Functional Magnetic Resonance Imaging), e cujo desenvolvimento foi regiamente guiado pela ciência nascente e responsável por estudar e entender os fenômenos relacionados com o comportamento humano, ou Neurociência Cognitiva; nos revelariam - clara e vividamente – certa inatividade em uma grande área inatividade que conecta o Giro Angular ao Córtex visual e outras áreas de associação visual, onde os signos da escrita são interpretados, e áreas no Giro Temporal Superior, ou área de Wernicke, onde a linguagem e a fonética são interpretadas. Além disso, durante as tarefas de leitura fonológica, a área associada à linguagem falada, ou área de Broca, mostrou ativação nos leitores disléxicos, e não ocorrendo o mesmo nos leitores normais. Os pesquisadores acreditam que esta área tenta compensar as deficiências na área de Wernicke.
Investigadores estudaram pacientes com lesões cerebrais, principalmente ocasionadas por tumores na área de Wernike. Embora não tivessem dificuldades de leitura antes que a lesão fosse grande o suficiente para ser detectada, estes pacientes desenvolveram problemas de leitura idênticos aos associados com a dislexia. Aqueles com dislexia também tendem a ter movimentos oculares rápidos, bruscos, e difíceis de controlar enquanto leem - outra indicação de falha no sistema neural, relacionado ao Giro Angular.
Trata-se, inequivocamente, de um problema fisiológico, e cujas raízes podem estar nos genes, na vida gestacional, nos primeiros anos de vida – imprintings – ou em patologias com o comprometimento de tecidos e/ou da morfologia cerebral em regiões muito específicas, e vão sendo mapeadas por estudos científicos cumulativos.


Definição
Consultando o acervo de informações sobre a dislexia no NINDS (National Institute of Neurological Disorders and Stroke), o instituto americano para estudos de transtornos psicológicos, concluo que:

A dislexia é um tipo de incapacidade de aprendizagem relacionada à atividade cerebral que, especificamente, prejudica a capacidade de leitura de um indivíduo. Tais indivíduos geralmente leem em níveis significativamente mais baixos do que o esperado, apesar de possuírem índices normais de inteligência. Embora o distúrbio varie de pessoa para pessoa, as características mais comuns entre pessoas com dislexia são a dificuldade com o processamento fonológico (a produção de sons), ortografia e/ou resposta verbal-visual rápida. Em indivíduos cujo distúrbio se manifeste na idade adulta, geralmente está diretamente associado com lesões cerebrais ou dentro do contexto dos diferentes tipos de demência; isso difere de indivíduos com dislexia congênita ou desenvolvida na infância, mas que simplesmente nunca foram identificados como tal enquanto ainda eram crianças ou na adolescência. A dislexia normalmente é herdada, direta ou indiretamente, e estudos recentes identificaram vários genes que podem predispor um indivíduo a desenvolver o distúrbio.

Possíveis Causas
A dislexia é um distúrbio de fundo fisiológico – como todos os distúrbios de comportamento, diga-se de passagem. As causas raízes da dislexia estão relacionadas com a herança genética ou com problemas de má formação na vida gestacional; ou durante os primeiros anos de vida, quando o córtex assemelha-se a uma massa de “cimento fresco”, com as conexões neurais sendo consolidadas; e.g., como na região ventral medial do lobo pré-frontal para a socialização, no lobo occipital para a visão, na fala com as áreas de Wernicke y Brocca, em janelas de tempo conhecidas por “imprinting”.
Existe comorbidade entre a dislexia e o Déficit de Atenção – ou TDAH, que por sua vez também está associado com a Discalculia. Quando a dislexia se manifesta na vida adulta, sempre está associada com traumatismos cranioencefálicos, acidentes vasculares cerebrais, tumores ou transtornos relacionados com os quadros de demência.

Sintomatologia
De maneira subjacente, podemos dizer que a dislexia envolve problemas com o processamento da linguagem pelo cérebro, mas também de imagem e reconhecimento dos signos que compõe a língua escrita.
O distúrbio por sua vez se manifesta em diferentes graus. Os principais sintomas são a dificuldade para pronunciar corretamente as palavras, limitações na leitura fluente, ao subvocalizar palavras, na leitura em voz alta, na compreensão concomitante da leitura, assim como na escrita à mão livre. Estas dificuldades são percebidas normalmente com a alfabetização, ou nos primeiros anos do ensino básico.
A dislexia está é o distúrbio de aprendizagem mais comum que existe, e está distribuída por todo o globo. Não existe estudos rastreando sua prevalência geográfica ou genética; é diagnosticada com maior frequência em homens, por pressão dos mercados de trabalho, mas estima-se que afete em igual proporção a homens e mulheres. Sabemos que atinge entre 3% e 7% da população mundial; embora existam registros de sintomas parciais em ao menos 20%. E que pese: LER NÃO É INATO... O cérebro humano adaptado à savana africana não estava preparado para a escrita, a leitura, e muito mais...

Diagnóstico
O diagnóstico clínico da dislexia consiste na realização de exames para avaliar a capacidade e o grau de memorização, dicção, visão e leitura. Os exames modernos são capazes de distinguir entre dificuldades relacionadas com deficiências no ensino ou causadas por problemas fisiológicos, como no caso da Dislexia.
A tecnologia associada à Neurociência Cognitiva, nos brindou com recursos muito mais precisos para o diagnóstico da dislexia, como: Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) e a Tomografia por Emissão de Fótons (SPECT) – para o diagnóstico de distúrbios neuroauditivos, presentes na dislexia; a Ressonância Magnética Funcional (fMIR) – para o diagnóstico da “integridade funcional do circuito dorsal parietotemporal e do circuito ventral occipitotemporal”, corrompidos na dislexia; a Tractografia e o Tensor de Difusão (DIT) – que fornece informações especificas sobre a integridade estrutural e orientação direcional dos tratos de substancia branca encefálica, demonstrando “anisotropia diminuída na região temporal esquerda” (áreas de Wernicke e Broca) em indivíduos disléxicos.

Tratamento
O tratamento está orientado à adequação da metodologia de ensino em relação às necessidades especiais do indivíduo. consiste em ajustar os métodos de ensino de forma a corresponder às necessidades da pessoa. Métodos audiovisuais têm obtido grande sucesso.
É exatamente aí que nós entramos, profissionais da área Neurocientífica, da Neuropsicologia, Educação, Biologia... Precisamos, a partir do bom entendimento do homem, da Genética Comportamental, da Biologia Social e Evolucionária, que culminam em nossa Neuropsicologia, encontrar melhores e mais eficientes métodos de ensino, e talvez a dislexia simplesmente desapareça no ar... como distúrbio. A fala é inata, mas a leitura, a escrita, e um monte de funcionalidades do mundo moderno, como digitar em computadores e operar mouses, mouse-pads, track-balls, etc... não são.

Carlos Leger Sherman Palmer Junior


O ABISMO E O AMOR




O ABISMO E O AMOR
Por Carlos Leger Sherman Palmer Junior

Clive Wearing passou para História como um dos casos mais espetaculares de amnésia já registrados, além de figurar no top-five na lista de estudo de casos da também espetacular trajetória profissional e neurocientífica de Oliver Sacks - ele mesmo, um caso “espetacular” da Síndrome de Charles Bonnet. Não bastassem esses atributos “espetaculares”, Clive também protagonizaria uma espetacular estória de amor... que resiste à memória – ou quase isso.
Sacks registraria o caso em um memorável artigo para o The New Yorker, intitulado: O Abismo – Música e Amnésia... ao que agregaria: AMOR. Em março de 1985, Clive Wearing, um eminente músico e musicólogo inglês de quarenta e poucos anos, foi atingido em cheio por uma infecção no cérebro - uma encefalite herpética -, afetando especialmente regiões relacionadas com a memória, e deixando-o subitamente com apenas alguns segundos de memória – sendo assim o caso mais devastador de amnésia já registrado. Novas experiências eram pulverizadas quase que instantaneamente - como sua esposa, Deborah, escreveria em seu livro de “memórias”: "Forever Today" – ou, Para Sempre Hoje (2005)...
De maneira muito peculiar, a sua capacidade de perceber o que havia visto ou ouvido não era prejudicada; mas ele não era capaz de reter qualquer impressão de algo por mais tempo do que um piscar de olhos. Na verdade, se Clive piscasse, suas pálpebras se abririam sempre para revelar um novo filme.  A visão, antes do piscar de olhos era totalmente esquecida. Cada piscada, cada olhar para longe e para trás, trazia-lhe uma situação inteiramente nova.
Podem imaginar a angústia de Clive? Como se sua vida passasse como um filme defeituoso, com problemas de continuidade, o copo meio vazio, depois cheio, o cigarro de repente mais comprido, o cabelo do ator agora despenteado, agora liso. Mas esta era a vida real deste homem, uma sala transmutando em formas, em uma dança que era fisicamente impossível.
Além incapacidade de preservar novas memórias, Clive foi acometido de um tipo amnésia conhecida como retrógrada, com a supressão de praticamente todo o seu passado. Quando foi filmado em 1986 para o documentário também “espetacular” de Jonathan Miller, “Prisioneiro da Consciência”, Clive mostrou uma solidão desesperada, além de medo e perplexidade. Ele estava agudamente, continuamente, agonizantemente consciente de que algo bizarro, algo terrível, estava acontecendo... Sua queixa, constantemente repetida, entretanto, não era de uma memória defeituosa, mas de ser privado - de algum modo misterioso e terrível - de toda e qualquer experiência; em suma, privado da consciência em relação à própria vida - como Deborah descreveria:
Era como se todo momento de vigília fosse o primeiro momento de vigília. Clive estava sob a impressão constante de que acabara de sair da inconsciência porque não tinha nenhuma evidência em sua mente de ter estado acordado antes... "Eu não ouvi nada, ou vi qualquer coisa, ou toquei em algo, ou cheirei qualquer coisa", ele dizia. "É como estar morto."
Mas observem que Clive podia falar, expressar em língua inglesa, bom vocabulário, construções lógicas, e entendimento semântico sobre ouvir, ver, tocar, cheirar... morrer. Os únicos momentos em que se sentia vivo era quando Deborah o visitava. Mas no momento em que ela saia, ele ficava desesperado... e quando ela chagava em casa, dez ou quinze minutos depois, encontrava repetidas mensagens dele em sua secretária eletrônica: “Por favor, venha me ver, querida - faz muito tempo desde que eu vi você. Por favor, voe aqui na velocidade da luz.”
Passaram-se vinte anos antes, e Clive estava mudado pela insistência de Deborah em amar... Nada restava do homem assombrado e em agonia, do filme de Miller, que emergiu para uma figura elegante e borbulhante de vida, no verão de 2005. Clive e Deborah seguiam apaixonados um pelo outro, apesar de sua amnésia. O livro de Deborah tem o subtítulo “Uma memória do amor e da amnésia”. E cada vez que ela chegava, ele a cumprimentava carinhosamente, com extrema dedicação, como se ela sempre acabasse de chegar. Deve ser uma situação extraordinária, enlouquecedora e ao mesmo tempo lisonjeira, ser vista sempre como nova, como única... repetidas vezes, e sempre mais... como um presente, com se Deborah representasse a própria vida.
Certa feita, em visita a Clive, Sacks notou dois volumes de "Quarenta e Oito Prelúdios e Fugas" de Bach em cima do piano e perguntou a Clive se ele tocaria alguma coisa. Ele então alegou nunca haver tocado nenhum deles antes, e começou a tocar o Prelúdio 9 em Mi Maior dizendo: “Eu me lembro deste aqui”. Ele não se lembrava de quase nada a menos que estivesse realmente fazendo aquilo... e então ele pode chegar até lá, até o fundo. Sacks conta ainda que Clive inseriu uma improvisação minúscula e encantadora em algum momento, uma espécie de “final de Chico Marx, com uma enorme escala descendente”. Com sua grande musicalidade e humor, ele podia facilmente improvisar, brincar, tocar qualquer peça musical... até o fim.
[Stanno cercando un gran finale... estou seguro de que me concederam 200 palavras mais para contar esta linda estória!]
Já se passaram vinte e quatro anos desde a doença de Clive e, para ele, nada mudou. Pode-se dizer que ele ainda está em 1985 ou, dada sua amnésia retrógrada, em 1965. De certa forma, ele não está em lugar nenhum; ele abandonou completamente o espaço e o tempo. Ele não tem mais nenhuma narrativa interna; ele não está levando uma vida no sentido que o resto de nós faz. E, no entanto, basta vê-lo no teclado ou com Deborah para sentir que, nessas ocasiões, ele é ele mesmo de novo e totalmente vivo. Não é a lembrança das coisas passadas, “de uma vez”, que Clive anseia ou pode alcançar. É a reivindicação, o preenchimento do presente, o agora, e isso só é possível quando ele está totalmente imerso nos momentos sucessivos de um ato. Sacks escreveria: “É o “agora” que atravessa o abismo.” Deborah escreveria: “a proximidade da música de Clive e seu amor por mim são onde ele transcende a amnésia e encontra a continuidade; não a fusão linear de momento após momento, ou baseada em qualquer estrutura de informação autobiográfica-, mas onde Clive e qualquer um de nós está finalmente onde estamos, e sendo quem somos.”
Sacks faleceu em 2015, deixando um vazio que não poderá ser facilmente preenchido... seja pelo vigor intelectual, seja pela qualidade humana... Deborah e Clive continuam juntos, embalados pela música do amor, que finalmente prova ser capaz de transpor qualquer abismo... tempo, memória...

Carlos Leger Sherman Palmer Junior

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

COMUNICAÇÃO, LIDERANÇA, EMPREENDEDORISMO... e alguns VESPEIROS



CARLOS LEGER SHERMAN PALMER JUNIOR

Por ocasião de um trabalho de pós-graduação, respondi às seguintes questões:


Comunicação e liderança: por que elas devem caminhar juntas?

Antes de encarar a questão, devo pontuar que considero o conteúdo das unidades 1 e 2, versando respectivamente sobre Liderança e Comunicação, superficial e carente do necessário embasamento neuropsicológico. A liderança é tratada com base senso comum, e no lugar comum dos discursos da autoajuda - hoje rebatizados por “coaching” e “mentoring”; onde qualquer um pode se tornar um líder, ou um orador “inato”. Podemos ensinar técnica de liderança, mas não poderemos forjar um líder... ou “o líder do bando”.

ALGUNS VESPEIROS

A Neuropsicologia, ou Ciência Psicológica (Gazzaniga & Heatherton; 2007), é fundada precisamente para alçar o estudo do comportamento humano à condição de Ciência; cuja abordagem cumulativa de conhecimento dependerá de metodologia clara, com teorias devidamente comprovadas – ou “Método Dedutivo Baseado em Prova” (Popper; 2008). Este era o sonho de William James – há quase um século:
"Ao tratar a psicologia como uma ciência natural, quis ajuda-la a se tornar uma delas."
Mas isso nunca aconteceu... até agora, até o surgimento da Neuropsicologia. A Ciência Psicológica, portanto, não deriva da Psicologia (Pinker; 2007) (Gazzaniga & Heatherton; 2007) (Damásio; 2011), assim como a Química não deriva da Alquimia – sendo ainda, não raro, matérias antagonistas.

O eminente psicólogo Michael Gazzaniga, um dos fundadores da Neurociência, trabalhou diretamente com eminente “biólogo" Roger Sperry, ganhador do Nobel de Fisiologia e Medicina em 1981 por suas descobertas sobre a especialização funcional dos hemisférios cerebrais – especialmente no lobo frontal. Gazzaniga declarou peremptoriamente:
"A psicologia propriamente dita está morta. Ou, dito de outro modo, a psicologia vive uma situação curiosa. A minha universidade, Dartmouth, está construindo um magnífico edifício para a psicologia. Contudo, os seus cinco pisos repartem-se da seguinte forma: a cave destina-se por inteiro à neurociência, o piso térreo alberga as salas de aula e os gabinetes administrativos, o primeiro andar dedica-se à psicologia social, o segundo à ciência cognitiva e o terceiro à neurociência cognitiva. Vai lá saber porque é que lhe chamam de edifício da psicologia."
A resposta à esta intrigante questão seria dada por ele mesmo, no fabuloso marco da Neuropsicologia, que ajudou a escrever: CIÊNCIA PSICOLÓGICA – Mente, Cérebro e Comportamento (2007). Mundo afora, e principalmente nas melhores universidades americanas de Psicologia, como Harvard, Yale, Universidade da Califórnia em Davis, no SAGE em Santa Bárbara, Darthmouth, no Instituto de Neurociência do MIT etc., as grades curriculares do entendimento sobre a condição humana destacam palavras como “cérebro”, “genética”, “biologia social”, “evolução”, “cognição”... totalmente ausentes em qualquer curso de Psicologia brasileiro. Então, quando nos referimos à psicologia nos Estados Unidos ou na Europa – à exceção da França, “catequizada” pela “freudista” Elisabeth Roudinesco -, estamos na verdade endereçando a Neuropsicologia; fundamentada principalmente na Neurociência Cognitiva, Genética Comportamental, Biologia e/ou Psicologia Social e Evolucionária.

Na aula inaugural de Introdução à Psicologia em Yale, Paul Bloom esclarece – quando interpelado sobre “Freud” – um perigoso embusteiro:
"Vocês não encontrarão Freud no curso de Psicologia desta universidade, e já faz algum tempo. Talvez encontrem Freud na Sociologia, Filosofia ou Literatura."
Áreas correlatas, e dedicadas à ficção...

“ZIP Code or Genetic Code?” (“CEP - Código Postal ou Código Genético?”); esse é o provocador título da matéria da Harvard Gazette, mídia oficial de notícias da Universidade de Harvard, sobre o mais extenso e preciso estudo já realizado envolvendo gêmeos... Steven Pinker, professor emérito de Psicologia na mesma universidade, nos conta o resultado:
"[...] revela que as funções cognitivas são as que têm maior probabilidade de sofrerem influências genéticas (4/5) e as menos prováveis de sofrerem influência ambiental compartilhada (2/5)."
Por exemplo, a hierarquia ou “pirâmide” de Maslow é algo inteiramente ultrapassado, e sem qualquer fundamentação, senão pelo arbítrio de seu criador. Notem, por exemplo, a sua completa inutilidade quando conceituamos a importante e predominante herança genética. Falta também a perspectiva evolutiva; já que a hierarquia de “necessidades” parece inteiramente desconectada do processo evolutivo que a produziu. Depois, o conceito de hierarquia não foi totalmente desenvolvido, não explicando a interação entre os “níveis”, e sem levar em conta os flagrantes exemplos que violam de seu sistema “hidráulico” de classificação de “necessidades” (Cory; 1974) (Coming; 1983) (Maddi; 1989) (Smith; 1991).

Maslow e sua “pirâmide colorida” também receberam pesadas críticas por sugerir que a conquista material e sucesso são resultado inconteste do desenvolvimento humano (Yankelovich; 1981); com isso, tende a ignorar ou diminuir as grandes realizações intelectuais, morais e de serviço à humanidade, e que não estiveram centradas em resultados materiais ou exposição midiática à fama (Maddi; 1989). A hierarquia de Maslow, com seu foco quase exclusivo no indivíduo, denota pouca ou nenhuma percepção sobre a dinâmica da interação social – que nos caracteriza como humanos, troppo umanos. Este tipo de abordagem e suas emendas, nunca se tornaram de fato uma importante referência para o estudo da socialização humana, ou no campo das teorias políticas (Zigler & Child; 1973) (Knutson; 1972) (Davies; 1963), o que dirá uma abordagem séria sobre o comportamento.

Estamos aqui falando em Maslow em 2019, enquanto um editorial do New York Times publica o obituário Judith Harris – que se despediu de nós em 30 de Dezembro de 2018, aos 80 anos. Estudem Harris, estudem The Nurture Assumption, o livro que mudaria o entendimento sobre a personalidade e a relação entre pais e filhos – base para a Neuropsicologia... esqueçam Maslow et alia.

Harris foi dispensada do doutorado de Harvard pelo “famoso psicólogo” George Miller, então diretor do departamento, e tratada como uma reles “dona de casa”; para depois sacudir para sempre os dogmas do psicologismo. Harris deu a volta por cima, trabalhou como investigadora independente, e enfrentou uma grave doença degenerativa, para receber das mãos de Steven Pinker a maior honraria na psicologia: o prêmio – pasmem vocês – George Miller.


LIDERANÇA e COMUNICAÇÃO

Uma abordagem Neuropsicológica da Comunicação precisa levar em conta os aspectos neurais da fala e da linguagem, a natureza evolutiva da das expressões corporais e de dominância, o ToM – ou Theory of Mind -, a capacidade humana de imaginar o que o outro está pensando sobre o que estamos dizendo, além de muitas multiplicações deste tipo de interação... ou: “o que será que ela acha que eu acho, sobre o que ele disse?”...

Além das questões básicas de comunicação, emissor, receptor, envelopamento, mensagem, meio... é fundamental aprofundar a questão na semântica, gramática, construção lógica e conteúdo – ou CONHECIMENTO. Sobretudo quando o assunto é liderança, e aqui centrado na liderança profissional.

Steven Pinker adverte sobre o que considera o principal problema na comunicação em um ambiente profissional – mas que pode ser estendido para a vida:
"Quando você [realmente – grifo meu] sabe alguma coisa, é muito difícil saber como é não saber."
Um problema ordinário de empatia, ou a qualidade de colocar-se no lugar do outro... mas existe um degrau a mais: a capacidade de se colocar no lugar do outro pensando como o outro! E esse é o maior problema da comunicação relacionada à liderança, já que, por um lado, e supostamente, um líder deve possuir mais conhecimento em diferentes abordagens da realidade; enquanto, por outro, e quando nos referimos à questões muito específicas ou detalhadas, e ninguém sabe tudo sobre tudo, o líder precisará promover uma comunicação reversa, ou seja, ajudar o interlocutor a comunicar-se adequadamente.

Nas Unidades 1 e 2 não estamos abordando a questão mais importante – profundamente desprezada por Rogers - por exemplo: o CONHECIMENTO sobre o que pretendemos comunicar, a construção LÓGICA e GRAMATICAL da sentença, suas PREMISSAS, além da PERTINÊNCIA e UTILIDADE de sua conclusão.

A comunicação verbal é fundamentalmente uma ação, e toda ação nos leva a algum objetivo. Mesmo a introspecção, o pensamento, é – lato sensu - uma espécie de comunicação interior (Pinker; 2007). Elkhonon Goldberg, que estudou com o eminente psicólogo soviético Luria, divide o seu tempo entre as atividades de neuropsicologia clínica, docência, e pesquisas de ponta sobre as atividades do que batizou como “cérebro executivo” (Goldberg; 2002) - ou “interprete” (Gazzaniga; 2000); este é o sujeito dentro de nós... e vive no córtex frontal, normalmente do lado esquerdo. Aí também reside o líder em nós, o Diretor Executivo em nós...

Mas para exercer a liderança exterior será necessário muito mais do que isso, muito embora as respostas ainda estejam no cérebro, resultado da Genética Comportamental, e suas artimanhas Evolutivas... Talvez devêssemos chamar o “líder do bando” de “chefe do bando”, em função de sua insuspeita tirania. Estima-se que 25% dos CEOs estejam dentro do espectro de caraterização do psicopata, e esse número pode chegar a mais de 70% nos círculos políticos. Sendo assim, a tradução de Chief estaria então muito adequada em ¼ dos casos...

Finalmente, o psicopata, ou sua designação corporativa de sociopata, segue a máxima popular de “manter a cabeça fria” – ipisis litteris. O sociopata evolutivo (Goldberg; 2002) adapta o seu aparato comportamental para o poder - egocentrado, implacável, sem remorsos, nem escrúpulos, escalando com vantagens insuspeitas o cume das esferas públicas e privadas.

Suspeito que o aparente sucesso dos psicopatas se deve a um ajuste evolutivo em direção ao egoísmo, e em função de deficiências em termos de sensibilidade emocional ou empatia. O altruísmo heroico se opõe ao psicopata pela mesma linha de raciocínio, e provavelmente em função da elevada sensibilidade ao sofrimento alheio. Neste sentido, o equilíbrio natural, ou homeostase, seria obtido pela adoção de medidas que culminem com o bem comum... O neurocientista António Damásio tem as mesmas preocupações em mente em A Estranha Ordem das Coisas:
"A cooperação evolui como gêmea da competição, e isso ajudou a selecionar os organismos que mostraram as estrategias mais produtivas."
Mas existem impeditivos igualmente evolutivos para esta linha de análise, já que evoluímos para viver em clãs de 150 ou 200 pessoas, e não em megalópolis de 200.000, 2.000.0000, 20.000.000... Não seria o sucesso evolutivo dos psicopatas uma resposta à superpopulação? Ou seria exatamente o contrário? O altruísmo é jovem, e vem no encalço da densidade demográfica? Sustento que sim, e apesar de nos tornarmos mais agressivos com a densidade, também passamos a desenvolver estratégias mais bem sucedidas para a mitigação da violência.

O Batman, do imaginário popular, pratica o altruísmo, em busca do bem comum... apesar de milionário. Enquanto seus algozes, Coringa, Charada, Pinguim, almejam apenas poder, e bonança pessoal... apesar de miseráveis. Esses contos substituem as tragédias gregas... São dramas heroicos, onde acreditamos possuir mais controle sobre o destino de tudo... Sem notar, no entanto, que o supremo poder, ainda sim desprezível diante da Entropia, é o CONHECIMENTO.

E o altruísmo pode ser ensinado... Muito embora não possamos garantir que será aprendido ou praticado. E uma questão salta diante de todas: Por quê desejamos liderar? Pelo bem individual? Então seria chefia, e não liderança... Pelo bem comum? Então precisamos saber se estamos em condições de receber a tarefa. Por que empreender? Como viver melhor? Como ajudar a diminuir o sofrimento humano? Pensem nisso...

Retomando o ponto, a liderança, ortogonal à chefia, declara que “nós vamos”, ao invés de “você vai”; para finalmente elogiar que “nós conseguimos”, em lugar de “eu consegui”. O líder nato ou inato percebe que o sucesso do grupo é benéfico a ele também, e entende que chefiar um bando, ao invés de liderar, pode ser bem perigoso. Mas existem cenários onde a necessidade de chefia pelo medo se impõe à qualquer argumento em favor do idealismo de liderar... Isso diferencia ambientes pacificados e judicializados, da selva, ou da periferia, e daqueles cenários à margem da Justiça.

A Unidade 1 induz exercícios agradáveis e que revelam um pouco sobre as nossas tendências de personalidade. Também aponta – de forma leve – para uma série de boas práticas em liderança, e que naturalmente podem ser ensinadas e exemplificadas. Mas não podemos forjar um líder. Podemos melhorar um líder, ou ajudar aquele que não nasceu líder a liderar... sendo essas, sutis, mas fulcrais diferenças.

Por exemplo, uma personalidade dependente (DPD - Dependent Personality Disorder) NÃO PODE decidir. Existem personalidade neuróticas, narcisistas, autodestrutivas, sádicas, masoquistas, inseguras - patologicamente... e que jamais serão líderes... e não devem ser estimuladas a liderar. Aliás, a natureza parece subtrair os traits de liderança nestes casos... em função do risco... à exceção dos psicopatas, que ainda assim não lideram, mas chefiam.

Damásio, em a Estranha Ordem das Coisas,

Nas palavras de Jacqueline Du Pré:
"A primeira responsabilidade de um líder é definir a realidade. A última é agradecer. Entre esses dois extremos o líder deve servir."
Se este aforismo lhe diz alguma coisa, note quantos traços marcantes de personalidade serão necessários para desempenhar bem esse papel de regente de um grupo harmonioso - homeostático... aqui descrito de forma tão genial e singela.

[Escrevi um importante trabalho sobre liderança e regência... mas seria muito longo para este espaço. Desde já, ficarei feliz em enviar a quem possa interessar.]

Kaoru Ishikawa fez parte de uma verdadeira revolução no Japão pós-guerra, e influenciou mais de uma geração de empreendedores... Kaoru bem definiu o conceito de Círculo de Qualidade, e mais tarde esquadrinhou o engenhoso e simples Diagrama de Causa-e-Efeito - também conhecido como Diagrama de Ishikawa ou Diagrama de Peixe. Essa foi, sem dúvida, a maior contribuição desse mestre, fornecendo uma metodologia poderosa e segura, usada também por pessoas não-especializadas, para analisar e resolver todo tipo de problema. Sobre liderança e empreendedorismo, ele declarou:
"Na gestão, a primeira preocupação da empresa deve ser a felicidade das pessoas que estão ligadas a ela. Se as pessoas não se sentem felizes e não podem ser felizes, essa empresa não merece existir." 
Existem muitos testes para avaliar o espectro da psicopatologia – e.g., Psychopathy Checklistrevised (PCL-R) -, mas não existem dúvidas sobre a natureza genética do transtorno, nem sobre o fato que que não haverá cura. Por outro lado, não seria o psicopata um tremendo sobrevivente? Alguém que mantém a frieza diante do caos... narcisista, egoísta, calculista... dominante?

O paradoxo, afinal, sendo essa a proposta do meu trabalho na área de GRC, decorre do fato de que: (P1) os psicopatas focam em grandes organizações, (P2) e sabemos que de fato os mega-CEOs, ou super-treinadores esportivos em equipes repletas de talentos, não têm influência significativa no resultado do “jogo” (Mlodinow; 2008) (Lewis; 2013)... CEOs muito bem pagos por mega-organizações não serão capazes de influir no resultado de suas empresas - mas podem detoná-las... Grandes estruturas administrativas, com dezenas de milhares de empregados, têm os seus resultados definidos pelo convívio com a entropia, como o caminhar de um trôpego, e que não pode ser de forma alguma ordenado por um superman... Então, (S) o paradoxal é que a liderança tem muito mais impacto em grupos ou empresas pequenas, como pequenos clãs, e onde um homem ainda pode fazer a diferença. E essas empresas não precisam de fato de grandes heróis. Neste sentido sim podemos ensinar a liderança a pequenos empreendedores, que um dia poderão evoluir a médios e grandes negócios.

Vivemos a Era da Transparência, como destaca Daniel C. Dennett, Professor Emérito de Filosofia e Codiretor do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Tufts, durante um famoso discurso para calouros da turma de 2017. Precisamos sim de transparência e conformidade com as regras do jogo, e daí decorre todo o debate sobre Compliance, Risk and Governance. Afinal, hoje sabemos, convivemos com psicopatas e afins...

Este é um excelente ponto final em minha contribuição ao tema, mas preciso deixar mais algumas ressalvas para o que virá – Tarefas 3, Unidades 3 e 4: (P1) nem todos devem se aventurar na sina dos empreendimentos, e ao contrário. Muitos de nós, a esmagadora maioria de nós, será muito mais feliz sendo conduzida, guiada, liderada, de forma segura e protegida, do que encarando as vicissitudes de empreender, lutar por um lugar ao Sol, e liderar... Não é correto dizer às pessoas que podem empreender e liderar, sem maiores ressalvas; (P2) Sobre Ética, precisaremos encarar o Dilema do Pacifista – suas rubricas evolutiva, genética e neurocientífica.

P.S.: Finalmente, com tantos pensadores ilustres, com tanto conhecimento disponível, consagrado, é muito difícil "aprender" alguma coisa com opinólogos profissionais como Clovis de Barros, Cortella e Karnal... Decepcionante!!! Tenho denunciado a baixa qualidade do debate promovido por esse senhores, e seguirei denunciando.



Como você vivencia essa experiência integrativa no seu ambiente de trabalho?

 Fundei e dirigi empresas, gerenciei grandes projetos, trabalhei em 23 países, dirigindo pessoas muito diferentes em termos culturais, mas troppo umanos. Atuo como investigador acadêmico independente na área Neurocientífica, e com profundo interesse em traits de personalidade e transtornos. Escrevi livros sobre Ética, Comunicação, Liderança, e hoje estou preparando um curso sobre o assunto, envolvendo ainda GRC – Compliance, Risk, Governance. Considero a abordagem escolhida revolucionária e consciliente.

A abordagem do assunto é inteiramente nova para os padrões brasileiros, mas está consonante com o conhecimento disponível no exterior, e nos grandes centros de investigação, como Harvard, MIT, sobre “o que nos torna humanos” (Ridley; 2008). Trabalho com a Neurociência Cognitiva, Genética Comportamental, Biologia Social e Evolutiva... e não vendo ilusões. Assim que esse debate tem tudo a ver com minha vida em muitos sentidos, como empresário, consultor, pensador, investigador acadêmico, escritor e palestrante.



A comunicação tem sido efetiva - transmissão <-> compreensão?

Acredito que sim. E o “x” da questão, como ressaltei antes, é o entendimento sobre a necessidade de clareza na “construção” da mensagem, parte gramatical, lógica e conteúdo. E a integridade intelectual... E falta abordar prioritariamente essa questão: A utilidade da mensagem e da comunicação é essencial. As premissas, sentenças, e respectivas conclusões, devem “endereçar a verdade” (Sherman; 2015). Além do protocolo, a mensagem deve estar bem construída e o tema deve ser bem conhecido. Para finalmente encarar o “problema do conhecimento” – ou “da falta de”... Onde um dos interlocutores não dispõe de estrutura prévia capaz de aproveitar a mensagem que está sendo transmitida. Esse também é um problema do Hipocampo, já que o registro de todo aprendizado, sabemos, depende da atividade desta área do sistema límbico, e que opera sob estimulo de neurotransmissores. Ou seja, registramos mais quando estamos excitados, e nos excitamos mais quando estamos familiarizados com o assunto, ou “impressionados”...

Em sentido muito amplo, defendo que vivemos contra a Entropia – Segunda Lei da Termodinâmica, e Primeira Lei da Neurociência. (Pinker; 2018) Jogamos contra uma sorte deletéria, mecânica e biológica, implacável em termos probabilísticos, de forma que tratamos de aprimorar a previsibilidade pelo conhecimento. Daí o comportamento, daí nosso destino... daí a comunicação, liderança, e todo o resto. Portanto... Entendamos a Entropia, a Genética e a Informação. Esse é o Jogo da Vida.



Carlos Leger Sherman Palmer Jr