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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Poder do Mito...



Uma amiga disparou:


"Oi, Carlos. A necessidade do homem pelo mito existe?"

Respondi:

Querida, de certa forma sim... A distribuição genética produz mais liderados do que líderes... A figura do rebanho é bem representativa em termos do comportamento de massa... Some isso à tendência de encontrar padrões, e sobretudo padrões simplistas... E adicione o animismo e o antropomorfismo, ou a nossa tendência a ver 'homens' e 'seres animados' em tudo... Deste complexo surge uma genuína afinidade por mitos... Confira Campbell (Joseph) em 'O Poder do Mito', e 'As Máscaras de Deus', e sobretudo Shermer - meu amigo - nos imperdíveis 'Por que acreditamos em coisas estranhas', e no recém lançado 'Cérebro e Crença'... Sagan também é fundamental nesta área, no fora de catálogo 'Os Dragões do Éden' - que posso passar em PDF -, e no ainda não editado no Brasil - mas editado em Portugal - 'Sombras de Antepassados Esquecidos...

Ela seguiu:

"Você não poderia ver o mito como um modelo de construção psicológica, um campo morfogenético para moldar o crescimento das escolhas mentais?"

Segui também:

É mais simples do que isso - e mais complexo do que isso, rsrsrs... Nos dedicamos ao reconhecimento de padrões... E a inteligência é a medida de nossa capacidade em reconhecer padrões... Diante do que não conhecemos tendemos a 'acreditar' - falsos padrões... Estes falsos padrões podem ser atribuídos a um ser antropomórfico, só que com mais poder, um poder 'sobrenatural', acima da natureza... A medida que descortinamos os padrões e registramos o conhecimento, menos deuses são requeridos... O mundo caminha para a predominância da descrença... 

E os mitos são realmente construções psicológicas, e sem sombra de dúvidas... Existem em nosso cérebro, na psiquê humana... Mas os 'arquétipos' freudianos não passam de mais uma viagem na maionese do finado vienense, rsrsrs... Lamento dizer... Não sei se entendi a questão 'morfogenética', mas se mal entendi perdoe-me... Não vejo como justificar gene orientado ao mito, posto que é possível eliminar a devoção aos mitos... Sou um exemplo disso... Um fervoroso crente em mitos, que se tornou um 'iconoclasta' de carteirinha, rsrsrsrs... As evidência sugerem então, uma interação entre fatores e não uma causa genética específica... Explico, se existe um 'centro mitológico' neural, decorrente de uma ou muitas instruções genéticas, seria bem mais difícil alterar o nosso ser 'mitológico' em um ser humano cético... Mas se são interações se dão por meio de características ou partes menores, componentes de um sistema, podemos quebrar estas interações e retroalimentações... Estas partes ou componentes,  por sua vez, podem ser decorrentes de instruções genéticas... Por exemplo, componentes como a tendência - maior ou menor - ao 'animismo', aplicado ou não aos mitos... Vemos coelhos em nuvens, cavalos em rochas, escorpiões de constelações... O 'antropomorfismo' seria outro componente, e por exemplo, podemos nos referir a um celular dizendo 'esse cara não está funcionando'... A tendência a reconhecer padrões, e os subsequentes riscos de nos equivocarmos, seriam um outro componente, além de nossa tendência 'etológica' para incorrer em falsos positivos - mais do que em falsos negativos... De forma que, todo este sistema composto de partes neurais que redundam em comportamentos associados, e decorrentes da genética, podem funcionar em favor da crença em mitos - sejam eles ETs ou deuses... E tal sistema pode ser desconstruído, estando sua resultante externada no comportamento cético... 

Não existem arquétipos mitológicos configurados em nosso sistema neural... Mas existem vetores neurais, interagindo em nosso comportamento, e cuja resultante aponta para os mitos... Mitos, ao contrário do que se pensava, não evocam características humanas, de forma estruturadas... Mitos não evocam padrões morais, e não são as projeções morais do homem... Mitos, acima de tudo, evocam a loucura e o medo do desconhecido... 

Mito é Medo...


Carlos Sherman

domingo, 26 de agosto de 2012

Ilusão... Pareidolia, Apofenia... Crença, Superstição...




A pareidolia é um fenômeno psicológico que envolve um estímulo vago, aleatório, ou ilusório, geralmente uma imagem ou som, sendo percebido como algo distinto e com significado. É comum ver imagens que parecem ter significado em nuvens, montanhas, solos rochosos, florestas, líquidos, janelas embaçadas e outros tantos objetos e lugares. Também acontece com sons, sendo comum em músicas tocadas ao contrário, como se dissessem algo. A palavra pareidolia vem do grego para, que significa 'junto de' ou 'ao lado de', e eidolon, 'imagem', 'figura' ou 'forma'. Pareidolia é um tipo de apofenia.

Em situações simples e ordinárias, este fenômeno fornece explicações para muitas ilusões criadas pelo cérebro, por exemplo, discos voadores, monstros, fantasmas, mensagens gravadas ao contrário em músicas entre outros. O fenômeno psíquico, diante de uma figura com dados aleatórios, pode variar segundo o ângulo ou as crenças do observador. Para uma criança, por exemplo, uma figura notada talvez possua formas que tragam à lembrança animais de estimação, personagens de desenhos animados ou qualquer outra coisa condizente com a faixa etária de compreensão sobre coisas. Para uma pessoa com uma faixa etária superior, a mesma figura assume formas diferentes conforme a capacidade criativa de associação de formas.

Dependendo das figuras observadas, podem assumir um aspecto muito subjetivo que varia de observador para observador ao passo que outras mais claramente nítidas, possuem uma mesma interpretação ótica em comum entre vários observadores. Portanto, muito tem que ver com a condição psicológica de cada observador, do que se passa em sua mente.

O físico Carl Sagan explicou o fenômeno em O Mundo Assombrado pelos Demônios:

Os humanos, como outros primatas, são um bando gregário. Gostamos da companhia uns dos outros. Somos mamíferos, e o cuidado dos pais com o filho é essencial para a continuação das linhas hereditárias. Os pais sorriem para a criança, a criança retribui o sorriso, e com isso se forja ou se fortalece um laço. Assim que o bebê consegue ver, ele reconhece faces, e sabemos agora que essa habilidade está instalada permanentemente em nossos cérebros. Os bebês que há 1 milhão de anos eram incapazes de reconhecer um rosto retribuíam menos sorrisos, eram menos inclinados a conquistar o coração dos pais e tinham menos chance de sobreviver. Nos dias de hoje, quase todos os bebês identificam rapidamente uma face humana e respondem com um sorriso bobo.

Como um efeito colateral inadvertido, o mecanismo de reconhecimento de padrões em nossos cérebros é tão eficiente em descobrir uma face em meio a muitos outros pormenores que às vezes vemos faces onde não existe alguma. Reunimos pedaços desconectados de luz e sombra, e inconscientemente tentamos ver uma face.

A pareidolia não representa somente fenômenos visuais mas também auditivos onde pessoas executam músicas no sentido contrário e ouvem palavras ou até mesmo sentenças inteiras. Apesar de existir uma técnica sonora de mascarar mensagens sobre uma gravação (conhecida como Backmasking), é comum muitos entenderem frases ou palavras onde só há um ruído incoerente. Recentemente ocorreu um típico caso de pareidolia na Universidade Queen, em Ontário, Canadá, onde alguns médicos 'acreditaram' ter visto um rosto humano no ultrassom de tumor.

Já a Apofenia, um termo proposto em 1959 por Klaus Conrad, é um fenômeno cognitivo de percepção de padrões ou conexões em dados aleatórios. É um importante fator na criação de crenças supersticiosas, da crença no paranormal e em ilusão de ótica.

Inicialmente descrita como sintoma de psicose, a apofenia ocorre no entanto em indivíduos perfeitamente saudáveis mentalmente. Do ponto de vista da estatística é um Erro de tipo I, ou seja, tirar conclusões de dados inconclusivos. Em um exame pode levar a um resultado falso positivo. Psicologicamente é um exemplo de viés cognitivo.

Ocorrências de apofenia frequentemente são investidas de significado religioso e/ou paranormal ocasionalmente ganhando atenção da mídia como a impressão de ver Jesus em uma torrada. No teste projetivo de manchas Rorschach a apofenia é estimulada com o objetivo de identificar padrões significativos na vida do indivíduo que ele projeta sobre a mancha.

Existem vantagens evolutivas em perceber padrões na natureza para prever o futuro ou evitar perigos. Por exemplo, se você observa um vulto e identifica como um animal perigoso evitá-lo poderia salvar sua vida. Caso você não considerasse a impressão do vulto suficientemente conclusiva, ignorando a possível associação com perigo, e realmente fosse um animal perigoso você poderia morrer. Na lógica evolutiva é melhor prevenir que remediar e por isso é mais vantajoso ver um excesso de padrões mesmo onde eles não existem do que negligenciá-los e correr riscos desnecessários.

Exemplo:

Imagine que o Brasil esteja jogando na Copa do Mundo, e após 4 jogos obteve-se os seguintes placares: 2x2, 3x1, 4x0, 2x2. Alguém com apofenia poderia ver uma relação ente os placares e deduzir que a soma de cada um dos jogos do Brasil sempre dá 4, e pressupor que a soma do placar do próximo jogo também será 4. O problema está que este vínculo não existe e o placar foi apenas coincidência.

O exemplo acima é bastante simples, e pode não seduzir ninguém a acreditar. É mais comum pessoas se sentirem atraídos por casos onde há complexidade na forma de se encontrar o vínculo apofênico, muitas vezes usando operações matemáticas de mais alto grau. Pode-se usar o quadrado dos números, raizes da soma, produtórios, sequencia de Fibonacci, etc.

Três círculos e uma linha já é suficiente para o cérebro interpretar um rosto:



O relógio da imagem parece estar triste. No entanto, isso é apenas uma associação que o cérebro humano faz ao ver uma imagem com dois pontos semelhantes a olhos e uma curva virada para baixo, semelhante a uma boca representando tristeza:



Apesar de essa figura não ser de um rosto real, muitas pessoas podem identificar a semelhança com um... Ilusão... Superstição...