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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Sobre ambição desmedida, revoluções, formigas, e homens...





O que é UTOPIA?

Segundo a enciclopédia Britannica...


(...) Utopia, é uma comunidade ideal, cujos habitantes vivem em condições 'aparentemente' [grifo meu] perfeitas. Disso, advém o conceito de utópico, utilizado para designar visionário, ou queque tende a ser impossivelmente idealista.

A palavra 'utopia' foi criada por 'São Sir Thomas More', e foi cunhada em 1516 já no título de sua publicação, em Latim, "Libellus... de optimo reipublicae statu, deque nova insula Utopia" - cuja tradução seria algo como "Ponderando sobre o mais elevado estado da república e a nova ilha Utopia"... A palavra 'utopia' é uma composição de palavras gregas para "não" (ou) e "lugar" (topos), significando assim "lugar nenhum"... Veremos a seguir, que o neologismo não poderia ser mais apropriado para designar o fantasioso 'estado' idealizado por More, e que segue o modelo de outra célebre fantasia pueril, a 'República' de Platão... Tais pérolas da ficção - seção 'Contos de Fadas' - viriam a ser convertidas, em sua versão gótica, siderúrgica e fanfarrônica, no terrível tropeço 'marxista' - que melhor seria descrito, pelo grau de irrealidade, pelo neologismo 'marxiano'...

'São Sir Thomas More' (1478-1535) foi um homem de estado, diplomata, escritor, advogado e ocupou vários cargos públicos, e em especial, de 1529 a 1532, o cargo de "Lord Chancellor" (Chanceler do Reino - o primeiro leigo em vários séculos) de Henrique VIII da Inglaterra... More descreveu a si mesmo como um homem "de família honrada, sem ser célebre, e um tanto entendido em letras"... Era filho do juiz Sir John More, e foi investido cavaleiro por Eduardo IV - daí o Sir... Apesar de ser considerado um dos grandes humanistas do Renascimento, foi canonizado como 'santo' pela 'Santa' Igreja Católica em 9 de Maio de 1935, e sua 'festa litúrgica' é celebrada em 22 de Junho - daí o São... É mole? 


More, teve profunda influência sobre Montaigne, que por sua vez foi devorado por Rousseau e que finalmente foi canibalizado por Marx; em outra vertente pode ter sido absorvido pelo freudismo - mas esta é outra estória dentro da História... Mas o conceito de 'utopia' foi idealizado e encenado por 'São Sir Thomas More' em sua obra magna, hoje conhecida singelamente como 'Utopia'... Segundo vários historiadores, More ficou fascinado pelas extraordinárias narrativas de Américo Vespúcio sobre a recém avistada ilha de Fernando de Noronha, em 1503... More então idealizou um lugar novo e puro onde residiria uma sociedade perfeita... O termo passou então a designar a ideia de uma civilização perfeita, imaginária, fictícia... Um "lugar que não existe", e que teimo em insistir, um lugar que não seria bom para viver...

A utopia de More descreve uma sociedade organizada 'racionalmente', que estabelece - impõe - a propriedade comum dos bens... Não enviam seus cidadãos à guerra - salvo em casos extremos -, mas contrata mercenários entre seus vizinhos mais belicosos - ops!!!...  Todos os cidadãos da ilha vivem em casas iguais, a diferença interpessoal - e natural - não é considerada... Trabalham por períodos no campo e em seu tempo livre se dedicam a leitura e a arte... Mas quem proverá a leitura e a arte, e de onde virão as diferenças artísticas, diante de tal modelo 'uniformista'? Toda a organização social da ilha conduz à completa dissolução das diferenças e a fomentar a igualdade... Não apenas condições iguais, mas pessoas moldadas como iguais, com rotinas iguais... E este é o problema... Por exemplo, todas as cidades são geograficamente iguais, e na "ilha" impera uma "paz total" e uma "harmonia de interesses resultante de sua organização social", utópica... O homem e sua variantes genéticas, neurofisiológicas, bioquímicas, não tem lugar... Na ilha todo conflito foi eliminado, assim como suas potenciais possibilidades de materialização... Tudo isso é verdadeiramente assustador, além de completamente irreal, infantil e pueril... 

Em geral se concebe como comunidade utópica uma sociedade 'perfeita', embora 'inexistente', nos moldes paradisíacos, mas sem explicar claramente como tal 'milagre' será obtido, e sempre partindo da falsa premissa de que 'somos todos iguais', e desprezando a força imperativa da genética, acentuando as nossas salutares e necessárias diferenças... Exacerba-se a figura de um organização completamente equitativa na distribuição dos recursos, a partir da eliminação de nossa impulsão natural ao empreendimento, em diferentes medidas... Queremos coisas diferentes entre nós, e entre nós e o conceito de 'perfeição messiânica' de More... O que é perfeição para More pode ser o inferno para outros...

Na Utopia de More todos os suprimentos necessários à sobrevivência são oferecidos gratuitamente, e ninguém retira mais do que necessita, e não há necessidade de estocar alimento, já que é oferecido em abundância - rsrsrsr, ai ai... Apesar do dinheiro não ser necessário, este é acumulado pela república utópica pela venda de matéria-prima para outras nações e às vezes é usado para financiar guerras no exterior - rsrsrsrs, infantil e realmente 'utópico', posto que tal sistema, se completamente isolado e diminuto em população, e contando com a sorte de suprimentos 'infinitos' em termos de alimento e energia, poderia até merecer alguns minutos de atenção, mas considerando o seu convívio com outras repúblicas não utópicas, fatalmente seria contaminado pela LIBERDADE...

More no entanto foi um homem coerente, e cuja retidão não pode ser retocada... Recebeu uma tremenda batata quente ao substituir o Arcebispo de York como chanceler no histórico divórcio e seguido de anulação de casamento de Henrique VIII... Na queda de braço entre o Vaticano e o rei inglês, foi a cabeça de More que rolou... Henrique VIII rompeu com a Santa Sé, sagrando-se líder espiritual da Igreja Anglicana... More recusou-se a prestar juramento ao rei na figura de líder da Igreja da Inglaterra naquele que ficou conhecido como o Ato de Supremacia... Pelo atrevimento  de More, em toda a exuberância de sua Integridade Intelectual - divergências conceituais à parte - o réu foi condenado "a ser suspenso pelo pescoço e cair em terra ainda vivo, para depois ser esquartejado, e finalmente decapitado"... Mas, em "consideração" à importância do condenado, o rei, "por clemência", reduziu a pena à "simples decapitação"... More foi decapitado e teve a sua cabeça exposta durante um mês na Torre de Londres... 

Morreu um homem digno, íntegro até o fim - embora o seu pensamento sob muitos aspectos não tenha passado de 'utopia' e moralismo eclesiástico... More foi então considerado pela Santa Sé como um modelo de fidelidade e martírio em nome da Igreja, tendo sido, portanto, canonizado por decreto papal em 1935 por Pio XI... Mas sua atitude representou muito mais do isso, More foi fiel à sua consciência enfrentado a arbitrariedade, o que merece o mais profundo respeito humano...

A 'república' utópica de More, no entanto, já havia sido preconizada e encenada por Platão (427-347 AEC), em seu programa estatal impraticável, onde a justiça seria encontrada se - de forma um tanto simplista - "todos fizerem seu trabalho e cuidarem dos próprios assuntos"... Mas se não der certo pouca importância terá pois Platão profetiza de maneira incrivelmente vaga:

"(...) talvez no outro mundo ela esteja assentada como um modelo, um modelo que aqueles que o desejarem poderão contemplar e, assim, conseguir pôr em ordem as próprias cidades. Se tal cidade existe - ou se de fato existirá - não importa, pois tais pessoas viverão à maneira da cidade ideal e nada terão a ver com qualquer outro modelo"

Isso é ridículo... Leia mais uma vez, sem esquecer que este é o idolatrado e endeusado Platão... Sim... Foi ele mesmo quem escreveu está imbecilidade, esta pérola do non sense, esta verborragia vaga e vazia, que vai do nada ao lugar algum, em um parágrafo longo... Mas vamos adiante na República utópica de Platão, inspiração para More, e berço para viagem marxista... Veja como Platão começa sua República anedótica:

- Sócrates: Vamos considerar, antes de mais nada, como o modo de vida dos cidadãos, agora que assim os estabelecemos. Não produziram cereais, e vinho, e roupas, e calçados, e construirão casas para si? E quando estiverem abrigados, trabalharão, no verão, comumente, despidos e descalços, mas no inverno substancialmente vestidos e calçados. Eles se alimentarão de farinha de cevada e de trigo, assando-as e sovando-as, preparando bolos nobres e pães; eles os servirão sobre esteiras de junco ou folhas limpas, deitando-se enquanto comem sobre leitos espargidos com teixo e murta. E se regalarão com os filhos, bebendo vinho que fermentaram, com grinaldas na cabeça e cantando hinos em louvor aos deuses, em alegre conversação uns com os outros. E tomarão cuidado para que o tamanho das famílias não extrapole seus recursos/ prevendo a pobreza ou a guerra.

Rsrsrssrs, e então Glauco - adoro este cara - interpela:

- Glauco: Mas você não lhes deu qualquer condimento para as refeições.

Rsrsrsrs, estou transcrevendo a 'famosa' República de Platão, não é uma redação do meu sobrinho na quarta série, nem um papo gourmet entre Palmirinha e Ana Maria Braga... Mas Sócrates leva a sério, afinal isto é uma República - cuidemos do cardápio gastronômico de TODOS OS DIA ora bolas!!! -, e anui ao pedido de Glauco:

- Sócrates: É verdade, havia esquecido. É claro que devem ter condimentos - sal, olivas e queijo, e cozinharão raízes e ervas, dessas que costumam preparar as pessoas do campo. Para sobremesa lhes daremos figos, ervilhas e feijões; e assarão bagas de murta e bolotas de carvalho na fogueira, bebendo com moderação. E com tal dieta podem esperar viver em paz e saúde até idade avançada e legar uma vida semelhante aos seus filhos após a morte.

A expectativa de vida média em na Grécia de Platão - e Sócrates - girava torno dos 40 anos de idade - similar ao Homem de Cro-magnon no Paleolítico Superior - há 40.000 anos... O sentido da República de Platão parece escapar completamente a Sócrates - este Sócrates platônico -, a menos que seja só isso, uma discussão superficial e mega-utópica sobre "figos, ervilhas e feijões"... Este é o 'estadozinho frugal minimalista e vegetariano', pra lá de utópico, deste 'Sócrates platônico'; e vejam, estão discorrendo sobre a formação de um estado, e começando por definir o seu cardápio gastronômico... Estas são transcrições da República de Platão:

A exegese de tais obras não deixa dúvida sobre a força da velha crença dominante de que a natureza humana não passa de uma 'tábula rasa' - termo cunhado por John Locke (1632-1704) -, uma folha em branco no qual a personalidade e o caráter, são impressos por meio da cultura e do processo de socialização; desprezando inteiramente a condição natural do ser humano, em favor de uma 'sociologização' do comportamento... 

Tal premissa equivocada, nortearia o pensamento ocidental, de Platão a Marx, passando por More, Montaigne e Rousseau, para citar apenas uma das inúmeras ramificações que tal doutrina - a tábula rasa - produziu... O freudismo e as próprias tradições espirituais, navegaram a mesma nau... Não somos produtos do meio, com Marx 'reafirmou'... O aprendizado do meio, possibilitado e dirigido por nossa genética, operando a partir de nosso bioquímica e neurofisiologia, constitui o nosso complexo comportamento... Conceitos utópicos, como a "construção do novo homem" de Lenin, não só são uma caricatura falaciosa da realidade, como não passam de um "novo homem" 'segundo a visão leninista-marxista', utópico, irreal, e surreal... 

Os séculos vindouros tratariam de cristalizar o conceito de utopia como uma saída crítica - e possível (será?) - para escapar de regimes perversos e arbitrários, como a Inglaterra de Henrique VIII, a partir da elucubração de um estado ideal, mas 'atingível pela ação racional do homem social', e a partir de sua luta para converter-se em seu contrário, 'o bom selvagem', o puro ser primitivo, preenchendo a tábula rasa, a partir da correta doutrina sociológica... Mas se a própria sociologia depende da complexidade e da evolução do homem primitivo, como ficamos? Um Reductio ad absurdum parece inevitável, não acham? Claro que sim... 

Ou seja, utopia passou a designar a idealização de nosso desígnio mais nobre, repletos de ingenuidade, justiça e otimismo - ou ilusionismo... Ou talvez, a promessa vazia, e não testada, de uma organização impossível de ser realizada, posto que está fundamentada em falácias, remetendo à pura fantasia ou ficção filosófica... 

O grande problema do marxismo, reside no fato de que Marx -  administrado e financiado por Engels - decidiu deixar o mundinho utópico da especulação filosófica, e partir para a ação... E este movimento derramou muito sangue, e atrasou a saga humana... Pelo menos hoje sabemos 'o que não funciona'... Impor, arbitrar, sob pretexto de romper o estado de imposição e arbítrio, é apenas trocar seis por meia dúzia... Mas muto pagaram com a vida, na Era da Utopias, nas mãos do fanatismo marxista, de viés leninista-stalinista, maoísta, ou sistemas análogos, como o hitlerismo e o fascismo em todas as suas modalidades...

O "Socialismo Utópico” tornou-se assim, a encarnação da ingenuidade do retorno ao 'bom selvagem' de Rousseau, a partir do idealismo possível da 'tábula rasa' de Locke, e tudo isso envolto em cinismo e ilusão fervorosa... Este manancial de bondades, deveria ser convertido em ação, e foi, a partir do Manifesto de Marx, em benefício de uma versão atuante da organização socialista, apresentada como única solução possível, e salvação messiânica, para romper séculos de miséria e sofrimento, o Samsara civilizatório, encerrando, portanto, um ciclo de 'vidas sociais', em reencarnações históricas, em favor da LUX MARXIANA... A assim foi, movido por tais desígnios 'religiosos', que as bandeiras foram 'içadas', assim como os fuzis, em nome do amor, no melhor estilo bíblico, e mais uma Cruzada varreu a Terra... Triste destino...

Marx e Engels argumentavam que não partiam de meras fantasias 'platônico-moreanas-rousseaulianas' - entre outros teóricos como Tomaso Campanella, de Charles Fourier, de Robert Owen ou de Pierre-Joseph Proudhon -, mas sim de um modelo real, baseado apenas na crítica radical da situação existente, com base em sua visão do Leviatã Capitalista... Se a situação pode ser concebida ideologicamente, logo ela é real, rsrsrsr.. Será??? E então podemos prever mecanismos para modificá-la, e então a modificação de algo 'real' deverá ser 'real'... Certo???? Depende... 

Partindo das doutrinas da 'tábula rasa' e do 'bom selvagem', estaremos tentando modificar a realidade com varinhas de condão... Achando que podemos dizer à 'humanidade' o que eles devem querer, e com que deverão se contentar, estaremos confrontando a realidade com irrealidade... Mas, a partir da 'constatação óbvia', ao menos para Marx e Enegls, de que o capitalismo encerrava uma contradição em si, explicada pelo dogma do "caráter social da produção", e de sua consequente "apropriação privada", nefasta, indevida, através das hábeis maracutaias capitalistas, e munidos do chavão da "luta de classes", o povo foi conclamado a governar, em um colossal gesto de populismo utópico...

O caráter “científico” do socialismo marxista foi consagrado na "Introdução à Crítica da Economia Política" - também de Marx -, onde, resumidamente, é afirmado que em algum ponto do processo de desenvolvimento - capitalista -, as forças produtivas da sociedade - trabalhadores - entraram em choque com as relações de produção existentes - relações de empregatícias e de trabalho, iniciativa privadas -, e tal conflito deflagra a ruptura entre a "superestrutura" da sociedade, relativa ao caráter social das relações de produção, e a sua base, dominada pela apropriação privada dos meios de produção - pelos capitalistas malvadões - claro... 

Uma era revolucionária então abre caminho, com foice e martelo, e muita violência... E a "nova sociedade emerge da velha para realizar a reconciliação entre forças produtivas", ou 'o juízo final'... pomposas palavras, e uma respeitável inteligência à serviço de uma falácia utópica baseada em falsas premissas... Então, as relações de produção, sem os grilhões da propriedade privada e da opressão política das classes dominantes sobre a maioria da população, avançaram em direção à vida eterna... E provavelmente em direção à um novo ciclo, de conflito e ruptura - a reencarnação... Marx agrada a gregos, 'goianos', cristãos e budistas, com uma s´´o 'escritura sagrada'... 

Foi o que se viu... O marxismo e seus ritos sagrados, por mais que sejam negados, provaram na prática, a infantilidade de seus postulados... Não significa que o Socialismo/Comunismo verdadeiro ou puro, não foi 'ainda' tentado, significa que esta ilusão é deveras irreal, inverossímil, piegas, populista, e, portanto, impraticável; i.e., UTÓPICA...

Segundo a fábula anedótica, no melhor estilo bíblico, o socialismo seria uma espécie de purgatório, a partir do qual atingiríamos o nirvana comunista... Uma espécie de ilha de Lesbos, o Eldorado, a Ilhota de More ou a república platônica... A verdade inequívoca, é que o 'MUNDO MARXIANO' trata messianicamente de "figos, ervilhas e feijões", enquanto dá volta e voltas, em linguagem empolada e circular, baseando-se nas doutrinas superadas da 'tábula rasa' e 'do bom selvagem'... 

O 'bom selvagem' evoluiu para a realidade, na organização social a partir de anseios de decorrência genética, que culminam em comportamentos culturais - e sociais - e não o contrário... Empreendemos porque somos impelidos a isso, porque advém da natureza humana... A 'tábula rasa' de Locke, está sendo preenchida pela Genética e pela Neurociência, e o panorama é bem distinto da doutrina do homem como produto do meio...

Finalmente, a própria sociologia, que é parida neste estado de coisas, pelas ideologias do final do século XIX, está assentada sobre falácias... Durkheim promulga que "omnia cultura ex cultura", ou que o fenômeno cultural - ou social - só pode ser explicado pelo fato cultural - ou social... Ledo engano... 

OMNIA CULTURA EX HOMINEM

Não são apenas infindáveis dados estatísticos e científicos, mas também um sem número de experimentos que 'comprovam' que a mente humana não está sujeita à este nível de maleabilidade, da construção leninista do "homem novo", nem por meio da mal entendida 'plasticidade neural'... Não é por acaso que tal estado hipnótico, utópico, que irrompeu com a foice sangrenta e o martelo aterrador, no século XIX, alardeando profeticamente sobre 'a obsolescência das democracias', 'o ideal revolucionário', 'abolindo toda forma de policiamento interno e defesa armada de territórios', e apregoando a boa nova de que 'a sociedade pode e deve ser organizada de cima para baixo', tenham freado o seus ímpetos com o fim da década de 1960... Tudo isso era e é falso... Parafraseando Pinker, a visão trágica e a visão utópica inspiraram bizarras manifestações históricas, que só podemos perceber com clareza, depois que a poeria baixou - e os corpos foram sepultados... Podemos hoje contabilizar esta experiência na Psicologia Evolutiva e Comportamental, enquanto a Sociologia deve calar e aprender...  

Foi neste campo de batalha, que E. O. Wilson estréia o seu conceito de Biologia Evolucionista e Genética Comportamental, na década de 1970, quando o balanço está sendo feito... O ideário 'revolucionário' está 'morto' - assim como deus -, a tábula rasa - e sua negação da natureza humana, e da potência daquilo que é inato -, a falácia do bom selvagem - que repudia os nossos instintos e diferenças, em favor de um 'santidade' ou pureza original -, e o fantasma da máquina - uma alma imaterial, uma mente que pode escolher melhores arranjos sociais... Os pedaços de tais falácias estão atirados ao chão... E ali estavam cientistas falando em 'genes egoístas', falando no impulso pessoal para a auto-preservação e de seus parentes genéticos, falando sobre a impulsão na defesa do 'nós', que questiona e se confronta com são 'eles'... Analisando de perto o altruísmo, pertinência ou não, e causas, assim como o racismo, o sentimento nacional, a adesão política e religiosa... Analisando as diferenças entre a genética e o comportamento de gênero, analisando a pertinência do senso moral, do interesse pessoal e de grupo, e analisando sobretudo a nosso tendência ao auto-engano... Cientistas analisavam os conflitos em função do interesse genético, dependentes de nosso comportamento social como animais, e não como seres superiores... A máxima darwiniana alcança o status de profecia - cumprida -, eramos finalmente descritos como animais, e diferenciados em nossa atividade 'mental' - cerebral -, apenas por uma questão de GRAU, de grau de complexidade, e não de TIPO, de tipo de sistema neural... E asseguravam aos proponentes da visão trágica, de que a 'tragédia', a luta, a "luta de classes", a disputa, eram consequências naturais de nossa condição HUMANA - troppo umana...

A visão utópica é solapada, e esquecida no horizonte... Parafraseando Pinker, seguem alguns bons motivos para confrontar falsas ideologias - fantasiadas ora de esquerda ora de direita, conservadores ou liberais, mas embaladas por ôba-ôbas utópicos e falaciosos:

1. A primazia dos laços familiares em todas as sociedades humanas e em todos os tempos, e a consequente demarcação entre 'nós' e 'eles', assim como a atração pelo nepotismo e pela conceito de herança patrimonial e de privilégios sociais;

2. A universalidade do etnocentrismo, da hostilidade entre grupos em todas as sociedades conhecidas, bem como esta hostilidade pode irromper entre diferentes grupos dentro de uma mesma sociedade ou cultura;

3. As limitações reais da partilha comunitária de bens de consumo;

4. O etos humano da reciprocidade - payback -, e o colapso de contribuição para bens públicos quando a reciprocidade não pode ser implementada;

5. O fenômeno do Social Loafing: em Psicologia social, o social loafing caracteriza-se pelo fato de que muitas pessoas exercem menos esforço para alcançar um objetivo, quando trabalham em um grupo, do que o esforço que poderiam produzir se trabalhassem sozinhas... Este fenômeno é visto como um dos principais fatores para a improdutividade, considerando o desempenho combinado entre os membros de um grupo... As soluções estão relacionadas com modelos de gestão, controle e estímulo... O social loafing também está associado a dos outros fenômenos: a Teoria do "Free-Rider" e o "Efeito Aproveitador";

6. Teoria do Free-Rider: em Economia, Psicologia e Ciência Política, e negociação coletiva, o problema do free rider é descrito como uma situação em que os indivíduos ou organizações consumem mais do que deveriam, ou representando 'um ombro a menos' para dividir o peso equitativo dos custos de produção... O extremo deste comportamento seria o 'parasitismo', considerado como um severo problema econômico, quando leva à não-produção ou sub-produção de um bem público ou privado, mas eminentemente relacionado ao uso excessivo de um bem comum - i.e., à ineficiência de Pareto. O problema do free rider tem raízes profundas em negociações de forma geral, e em questões relativas à compatibilidade de incentivos... Em uma dada negociação, seja ela contratual, laboral, os participantes muitas vezes podem oferecer menos do que eles estão dispostos a pagar na esperança de melhorar a sua própria posição... Isso cria problemas, porque desconhecemos as curvas de desempenho dos competidores, e a mais valia poderá ficar comprometida, mas cabe ao gestor, corrigir desvios iniciais, provenientes da barganha, analisando a curva de desempenho;

7. O Efeito Aproveitador: considera a diferença inerente a cada ser humano, e trata da resultante exercida por um grupo, para compensar o peso de indivíduos ineptos ou ineficientes - geneticamente... Ringelmann, precursor dos estudos nesta área, descobriu que, em geral, membros de um grupo tendem a exercer menos esforço para puxar uma corda do que indivíduos sozinhos - isso também repercute quando envolvemos a tecnologia, grupos online, etc... Além de características genéticas e neurofisiológicas, e culturais, observa-se que o fenômeno está relacionado com a percepção individual, de que o seu esforço não será repercutir como um problema para o grupo;

8. A universalidade de conceitos como a dominância de uns sobre outros, liderança versus anuência, assim como a universalidade da violência - assim como a solidariedade -, mesmo entre os caçadores coletores, considerados falaciosamente como pacíficos... E o respectivo conhecimento atual, sobre os mecanismos genéticos e comportamentais que fundamento tal distribuição de conduta;

9. A importância da hereditariedade sobre o comportamento, e sobretudo sobre a inteligência, a conscienciosidade, as atitudes sociais e anti-sociais, assim como a tendência a refletir a violência, e a tendência a aprender com os seus próprios erros... O que implica sempre, que algum tipo de desigualdade será esperada sobre o resultado, mesmo vivendo em situação igualitária, e partindo dos mesmos recursos... Devemos almejar sociedade igualitárias em suas regras, mas precisaremos entender que o resultado será individual, e dependerá de questões involuntárias como a genética... Este é o conflito entre igualdade e liberdade;

10. Certa predominância dos mecanismos de auto-defesa, de parcialidade em defesa do interesse próprio, acompanhado dos respectivos desvios de confirmação e da redução da dissonância cognitiva - caminho pelo qual as pessoas iludem a si mesmas em relação às sua autonomia, integridade e sabedoria;

11. A parcialidade do senso moral humano, o nepotismo, o corporativismo, em função do interesse próprio;

12. A suscetibilidade ao comportamento pautado por tabus, falso moralismo, e a subsequente tendência a confundir moralidade com conformidade e alinhamento ideológico, hierarquia;

A primeira revolução deflagrada com uma visão nitidamente utópica, foi a Revolução Francesa... Na visão 'poética' - quase apologeta - do poeta William Wordsworth, a natureza humana "parecia renascida"... Era somente um desvio de confirmação, uma dissonância cognitiva, parecia mas não estava renascida, e o tempo testemunharia esta realidade... A nobre revolução pretendia derrubar o "ancien régime" - como aliás prescrevem os ritos de todas as revoluções -, para dar lugar ao "nouveau régime"... E a História viria a registrar 'um pouco mais do mesmo', nas 'revoluções' que se seguiram...

A 'salvação' viria pelas cabeças da autoridade empossada, composta por uma estirpe de líderes moralmente superiores, e claramente lembro de ter lido sobre isso, na figura do personagem platônico 'Sócrates', e lembro-em ainda de haver indagado: 'mas quem escolherá os líderes, sábios, e aqueles que são moralmente superior?'... E a santíssima trindade revolucionária, os nobres ideais de "Liberté, Egalité, Fraternité", entre um grito e outro, entre o som do cadafalso e da guilhotina... 

Robespierre, outrora fiel defensor dos direitos humanos e civis, firmava o destino de centenas, e depois milhares na engenhosa máquina de matar - sem dor - do Doutor Guillotin... Este mesmo 'líder', após abolir as religiões, trata de originar um outro culto, desta vez à Deusa da Razão, e de quebra a si mesmo... Mas em 6 de junho de 1794, o rolar das carroças silenciou e a guilhotina ficou imóvel... Robespierre promulgara um novo feriado religioso: o Festival do Ser Supremo... Ele queria substituir o antigo deus judaico-cristão-islâmico-espírita, por um novo, a Deusa da Razão... Mera falácia nomotética...

Ele patrocinou esse culto ao Ser Supremo em junho de 1794, com coros de gente vestida de branco e uma montanha de papel machê no centro de Paris. E num momento crítico da cerimônia, o próprio Robespierre emergiu do topo dessa montanha trajando uma toga, e descendo.” - David Bell

A 'Revolução' mandou um líder após o outro, do "ancien régime", para o para a guilhotina, mas depois os homens moralmente superiores começaram a discordar entre si sobre 'moralidade', e os líderes do "nouveau régime", foram convocados para perder suas cabeças... Um a um, conforme fracassavam os "humanos renascidos", foram sendo eliminados, até que já não era possível diferir os antigos usurpadores dos novos... A rotatividade de tais líderes, que não se mostravam à altura da missão moral, além de não denotarem suficiente sabedoria, produziu consternação, e um vácuo preenchido pela tirania napoleônica...


'Liberdade, Igualdade e Fraternidade', como princípios, devem ser pensados, proferidos, mas sobretudo praticados... Se o 'processo' revolucionário começa a não praticar as palavras que proferiu, alguma coisa está cheirando mal; e não é somente o queijo Roquefort...


A Revolução Russa encenou a mesma peça, revestida apenas por uma sombra gótica... O Comunismo trilhou caminho similar, mas bem piorado e macabro, na URSS e na China, assim como os seus regimes subsidiários no Vietnam, Korea, e Cuba... Trata-se de uma falácia nomotética, um novo nome para o mesmo fim, a crença na crença, mesmo recheada de algum racionalismo e intelectualismo, mas em flagrante atentado e contraste com os próprios fundamentos da lógica, do racionalismo e de COERÊNCIA - ou Ética, se preferirem -, mas sobretudo em contraste com a realidade humana, com a realidade sobre o comportamento humano... A ditadura, a supressão dos direitos individuais, através da prestidigitação pseudo-racional, pseudo-intelectual, não passou e não passa de falácia...


Nas sábias palavras de Camus - um homem livre e coerente:


"Contar-se-ão nos dedos da mão, os comunistas que chegaram à Revolução pelo estudo do marxismo... Convertem-se primeiro e só depois leem as Escrituras..."

Albert Camus
(O Homem Revoltado - L´homme révolté)


A Revolução Russa também veio embalada pela visão utópica, e também executou os seus líderes, até fixar-se no culto à personalidade de Lenin - o messias, o enviado, o beatificado -, para finalmente desembocar no açougue stalinista... A Revolução Chinesa 'pôs fé' na sabedoria, moralidade e benevolência de um homem, que finalmente demonstrou ser o exemplo perfeito para a antítese simultânea deste três conceitos... Mao superou-se em matéria de ambição, tirania, luxúria, crueldade, delírio e auto-engano...

Não existem dúvidas de que a natureza humana é a maior prova da futilidade das revoluções políticas, baseadas meramente na ambição, delírio, vontade, e conceitos 'morais' de um par de líderes revolucionários, carismáticos e irresponsáveis, quando não padecem de severas psicoses... Nas sábias palavras do grupo inglês The Who:

"Meet the new boss; same as the old boss" ("Apresento-lhes o novo chefe; igual ao velho chefe")

Este não é pois, uma ode à passividade, nem um ato derradeiro de conformismo... Ao contrário, trata-se da atitude corajosa de indispor-se com os velhos e novos líderes, para acentuar a necessidade de entender a natureza humana, para que possamos promover um melhoramento contínuo... A história das culturas não deixa dúvidas sobre o processo social humano, contínuo, dinâmico, convergente, contingente... Escrevi certa vez, na letra de uma de minhas canções: "a história não começa aqui, os ritos da guerra, e o poder como fim"...

Thomas Sowell - economista, crítico social, comentarista político e autor - salienta que o marxismo é um híbrido de duas visões, pois invoca uma descrição trágica do passado, criticando os modos de produção anteriores, com a falsa dicotomia da escolha entre somente duas formas de organização social, o feudalismo e o capitalismo 'selvagem'; enquanto invoca - por outro lado - uma visão utópica para o futuro, na qual poderemos moldar - sem maiores dificuldades - a nossa natureza, e toda a natureza humana, em plena interação dialética com um "Novo Mundo", seus meios materiais e sociais... As pessoas serão motivadas pela auto-realização, em vez do auto-interesse - "De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades" -, segundo a visão profética - e bíblica - de Marx:

"Na fase superior da sociedade comunista, quando houver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades." - Karl Marx

Marx buscou inspiração na Bíblia, mais especificamente no "Novo Testamento", e na parábola sobre o "Reino de Deus":

"E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe." - Mateus [25:15];


"Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade." - Atos [2:45];

"Da multidão dos que creram era um o coração e a alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum. Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça. Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade." - Atos [4:32-35];

Marx tinha verdadeira obsessão por sagra-se um personagem histórico, e persegue este objetivo sem escrúpulos, sua 'revelação' tem similaridade com a iluminação messiânica budista, judaico-cristã-islâmica, e também com a auto-análise freudiana... E sua 'missão messiânica', histórica, pode ser melhor absorvida com a leitura do seguinte 'versículo marxiano':

"(..) a genuína resolução do antagonismo entre homem e natureza e entre homem e homem; é a verdadeira resolução do conflito entre existência e essência, objetificação e auto-afirmação, liberdade e necessidade, indivíduo e espécie. É o enigma da História resolvido"

O que não é capaz de fazer um bom contador de estórias, e uma boa estória... Ao mesmo tempo me sinto enternecido e aterrorizado com este pensamento... Bons contadores de estórias promoveram a morte, em larga escala... Belíssimas palavras, pomposas, magnânimas, mas inteiramente falsas, e baseadas em suposições equivocadas, que levariam assassinos a esconderem-se sob o manto de ideólogos... Tal mensagem resume a tragédia gótica e a utopia fútil da mensagem marxista, além da presunção de um homem... Marx imaginava que seriamos perfeitamente adestrados, assim, num átimo, desprezando pelo menos a História, já que pouco sabia sobre a Evolução, e nada sabia sobre a Genética e a Neurociência Cognitiva... Mas ainda assim, a desculpa da contextualização não soluciona o problema... Muitos dos seus contemporâneos poderiam ter originado as ideias marxista, e de certa forma o fizeram, mas a ambição obstinada de Marx, além da falta de escrúpulos, adicionou um ingrediente à mais, transformando Marx no efetivo profeto do marxismo...

Marx fez pouco caso do legítimo - e consagrado - temor de Bukinin - Mikhail Aleksandrovitch Bakunin -, sobre a escalada do despotismo e do autoritarismo em os trabalhadores 'apoderados' - os eleitos... Marx deu de ombros, em seu populismo barato, fútil, infantil, mas também irresponsável e inescrupuloso:

"Se o senhor Bakunin fosse conhecedor apenas da posição de um gerente de uma cooperativa de trabalhadores, poderia mandar para o diabo todos os seus pesadelos sobre autoridade."

Poderíamos rolar de rir, se a tragédia marxiana não houvesse destroçado com a sua estupidez um bom pedaço de nossa História... E o que Marx tinha em mente, quando se referia a 'trabalhadores'? Todos somos de alguma maneira trabalhadores... Todos... Seria apenas uma questão de transposição, e no lugar de trabalhadores poderíamos dizer 'uma cooperativa humana'... Ou o pulo do gato está na 'cooperativa'? Ou ser proprietário, gerente, de uma empresa faz de um homem menos 'trabalhador'? O ser proprietário, uma vez que de forma geral, trabalhadores costumam fundar seus próprios negócios, é uma 'maldição' - em si??? É tão absurdo, que poderia ser risível, se não fosse o que foi: trágico...

Na época de toda esta sandice hipnótica, qualquer debate científico sobre a natureza humana era imediatamente incendiado, e declarado 'errado'... Tudo pelo partido, tudo pelo partido único... De acéfalos em Cristo para acéfalos em Marx... E esta mácula subsiste até hoje... Mas a História é um tipo de registro 'científico', e os seus dados mostram quem estava errado, sendo o marxismo considerado hoje como um terrível experimento fracassado... Os países que adotaram esta visão distorcida, repleta de vícios de consentimento, desvios de confirmação e falácias, entraram em colapso, voltado atrás, ou vegetando em ditaduras arqueológicas - como a Korea do Norte e Cuba... A China é um exemplo de hipocrisia sórdida, ainda travestida de comunismo, mas amargando as piores condições laborais do planeta, enquanto pratica um 'capitalismo de mercado inescrupuloso', uma ditadura, sem eleições diretas, um partido único, sem liberdade de expressão, sem liberdades ou direitos individuais... A China é um comunismo de mentirinha...

A ambição de 'refazer' a natureza humana, pelo desejo doentio do controle das massas, produziu uma sucessão de líderes totalitários, assassinos em série... A suposição de que existem seres iluminados, planejadores de mundos, centralizadores, moralmente incorruptíveis, desinteressados, imparciais, semi-deuses, ou deuses, decorre também de nossa genética, comportamento e evolução... Existe uma Biologia para a Crença...

Mas Wilson, o especialista mundial em formigas, pode ter rido por último em seu veredicto sobre o marxismo: "teoria maravilhosa, espécie errada"... Muito bom, mas considero suave demais:

MARXISMO? TEORIA INFANTIL, ARROGANTE, COMPLETO DESCONHECIMENTO SOBRE O COMPORTAMENTO HUMANO, POPULISMO DESCARADO E AMBIÇÃO SEM LIMITES, RESULTADOS TRÁGICOS...

Carlos Sherman 



...








quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Fisiológicos...



(..) sobre a sua resenha: somos antes, e sobretudo, 'fisiológicos' -  por meio da decorrência Genética e do Desenvolvimento Gestacional, além dos imprintngs em nossas primeiras horas, dias e meses de vida... O aprendizado e a cultura, assim como a cadeia de eventos de cada um, somente será capaz de potencializar quem somos por natureza, mas jamais 'moldar' quem seremos... Esta é a falácia da Tábula Rasa, e que infelizmente fundamenta a Sociologia, embora trata-se de um ledo engano, e com terríveis consequências históricas... Não somos produto do meio... 

Somos produto de nossa Genética expressa e nossa Fisiologia, e o nosso comportamento decorre, sobretudo, de nossa Neurofisiologia... O meio e o aprendizado vem depois, e também influenciarão o nosso comportamento, e a resultantes de nossas ações... A 'semente' biológica de 'quem somos', analogamente, 'rosas, girassóis ou cactus', decorrem diretamente de nossa 'natureza' - Genética... O meio deverá prover a intensidade luminosa, adequada ou não, a água, os nutrientes, mas não transformará a nossa natureza... Poderemos cumprir o nosso potencial como rosas, exuberantes, singelas, ou murchas, da mesma forma que seguiremos a nossa tendência natural, inescapável, para sermos outra coisa, outra pessoa, outro tipo de pessoa... 

Durkheim estava equivocado quando disse que 'Omnia cultura ex cultura', i.e., 'o fenômeno cultural decorre do fato cultural'... Projetamos a natureza humana sobre a cultura, e somos realimentados por ela, dinamicamente, e nunca o contrário... Se faz 'mister' conhecer a neurofisiologia humana para compreender o homem e suas culturas derivadas... Freud, Jung, Marx, tropeçaram em sua ignorância sobre a natureza humana, e não entenderam que:

Omnia cultura ex hominem... 

Carlos Sherman


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um Breve História Sobre a Irresponsável e Ambiciosa Utopia 'Marxiana'




Uma Breve História Sobre a Irresponsável e Ambiciosa Utopia 'Marxiana'

'São Sir Thomas More' (1478-1535) foi um homem de estado, diplomata, escritor, advogado e ocupou vários cargos públicos, e em especial, de 1529 a 1532, o cargo de "Lord Chancellor" (Chanceler do Reino - o primeiro leigo em vários séculos) de Henrique VIII da Inglaterra... More descreveu a si mesmo como um homem "de família honrada, sem ser célebre, e um tanto entendido em letras"... Era filho do juiz Sir John More, e foi investido cavaleiro por Eduardo IV - daí o Sir... Apesar de ser considerado um dos grandes humanistas do Renascimento, foi canonizado como 'santo' pela 'Santa' Igreja Católica em 9 de Maio de 1935, e sua 'festa litúrgica' é celebrada em 22 de Junho - daí o São... É mole? 

More, ao que tudo indica, 'era homem de muito bom humor, caseiro e dedicado à família, muito próximo e amigo dos filhos', o que era raro para a sua época... Também era considerado um grande 'amigo de seus amigos', entre os quais se destacavam os maiores humanistas de seu tempo, como Erasmo de Rotterdam (1466-1536) - que escreveu o célebre 'Elogio da Loucura' publicado em 1511, um dos mais influentes livros da civilização ocidental e um dos catalisadores da Reforma Protestante, tendo ele sido acusado de 'colocar o ovo que Lutero chocou' - e Luis Vives (1492-1540) - teve profunda influência sobre  Montaigne, que por sua vez foi devorado por Rousseau e que finalmente foi canibalizado por Marx; em outra vertente pode ter sido absorvido pelo freudismo...

O conceito de 'utopia' foi idealizado e encenado por 'São Sir Thomas More' em sua obra magna, 'Utopia' (1516)... Segundo vários historiadores, More ficou fascinado pelas extraordinárias narrativas de Américo Vespúcio sobre a recém avistada ilha de Fernando de Noronha, em 1503...  More então idealizou um lugar novo e puro onde residiria uma sociedade perfeita... O termo passou então a designar a ideia de uma civilização perfeita, imaginária, fictícia... A palavra foi cunhada a partir de radicais gregos e significa um "lugar que não existe"... 

A utopia de More descreve uma sociedade organizada 'racionalmente', que estabelece - impõe - a propriedade comum dos bens... Não enviam seus cidadãos à guerra - salvo em casos extremos -, mas contrata mercenários entre seus vizinhos mais belicosos - ops!!!...  Todos os cidadãos da ilha vivem em casas iguais, a diferença interpessoal - e natural - não é considerada... Trabalham por períodos no campo e em seu tempo livre se dedicam a leitura e a arte... Mas quem proverá a leitura e a arte, e de onde virão as diferenças artísticas, diante de tal modelo 'uniformista'? Toda a organização social da ilha conduz à completa dissolução das diferenças e a fomentar a igualdade... Não apenas condições iguais, mas pessoas moldadas como iguais, com rotinas iguais... Por exemplo, todas as cidades são geograficamente iguais, e na 'ilha' impera uma 'paz total' e uma 'harmonia de interesses resultante de sua organização social', utópica... Na ilha todo conflito foi eliminado, assim como suas potenciais possibilidades de materialização... Tudo isso é verdadeiramente assustador, além de completamente irreal... 

Em geral se concebe como comunidade utópica uma sociedade 'perfeita', embora 'inexistente', nos moldes paradisíacos, mas sem explicar claramente como tal 'milagre' será obtido, e sempre partindo da falsa premissa de que 'somos todos iguais', e desprezando a força imperativa da genética, acentuando as nossas salutares e necessárias diferenças... Exacerba-se a figura de um organização completamente equitativa na distribuição dos recursos, a partir da eliminação de nossa impulsão natural ao empreendimento, em diferentes medidas... Queremos coisas diferentes entre nós, e entre nós e o conceito de 'perfeição messiânica' de More... O que é perfeição para More pode ser o inferno para outros...

Na Utopia de More todos os suprimentos necessários à sobrevivência são oferecidos gratuitamente, e ninguém retira mais do que necessita, e não há necessidade de estocar alimento, já que é oferecido em abundância - rsrsrsr, ai ai... Apesar do dinheiro não ser necessário, este é acumulado pela república utópica pela venda de matéria-prima para outras nações e às vezes é usado para financiar guerras no exterior - rsrsrsrs, infantil e realmente 'utópico', posto que tal sistema, se completamente isolado e diminuto em população, e contando com a sorte de suprimentos 'infinito' de alimento e energia, poderia até merecer alguns minutos de atenção, mas considerando o seu convívio com outras repúblicas não utópicas, fatalmente seria contaminado pela LIBERDADE...

More no entanto foi um homem coerente, e cuja retidão não pode ser retocada... Recebeu uma tremenda batata quente ao substituir o Arcebispo de York como chanceler no histórico divórcio e seguido de anulação de casamento de Henrique VIII... Na queda de braço entre o Vaticano e o rei inglês, foi a cabeça de More que rolou... Henrique VIII rompeu com a Santa Sé, sagrando-se líder espiritual da Igreja Anglicana... More recusou-se a prestar juramento ao rei na figura de líder da Igreja da Inglaterra naquele que ficou conhecido como o Ato de Supremacia... Pelo atrevimento  de More, em toda a exuberância de sua Integridade Intelectual - divergências conceituais à parte - o réu foi condenado "a ser suspenso pelo pescoço e cair em terra ainda vivo, para depois ser esquartejado, e finalmente decapitado"... Mas, em 'consideração' à importância do condenado, o rei, "por clemência", reduziu a pena à "simples decapitação"... More foi decapitado e teve a sua cabeça exposta durante um mês na Torre de Londres... 

Morreu um homem digno, íntegro até o fim - embora o seu pensamento sob muitos aspectos não tenha passado de utopia e moralismo eclesiástico... More foi então considerado pela Santa Sé como um modelo de fidelidade e martírio em nome da Igreja, tendo sido, portanto, canonizado por decreto papal em 1935 por Pio XI... Mas sua atitude representou muito mais do isso, More foi fiel à sua consciência enfrentado a arbitrariedade, o que merece o mais profundo respeito humano...

A 'república' utópica de More, no entanto, já havia sido preconizada e encenada por Platão (427-347 AEC), em seu programa estatal impraticável, onde a justiça seria encontrada se - de forma um tanto simplista - "todos fizerem seu trabalho e cuidarem dos próprios assuntos"... Mas se não der certo pouca importância terá pois Platão profetiza de maneira incrivelmente vaga:

"(...) talvez no outro mundo ela esteja assentada como um modelo, um modelo que aqueles que o desejarem poderão contemplar e, assim, conseguir pôr em ordem as próprias cidades. Se tal cidade existe - ou se de fato existirá - não importa, pois tais pessoas viverão à maneira da cidade ideal e nada terão a ver com qualquer outro modelo"

Isso é ridículo... Leia mais uma vez, sem esquecer que este é o idolatrado e endeusado Platão... Sim... Foi ele mesmo quem escreveu está imbecilidade, esta pérola do non sense, esta verborragia vaga e vazia, que vai do nada ao lugar algum... Mas vamos adiante na República utópica de Platão, inspiração para More, e berço para viagem marxista... Veja como Platão começa sua República anedótica:

- Sócrates: Vamos considerar, antes de mais nada, como o modo de vida dos cidadãos, agora que assim os estabelecemos. Não produziram cereais, e vinho, e roupas, e calçados, e construirão casas para si? E quando estiverem abrigados, trabalharão, no verão, comumente, despidos e descalços, mas no inverno substancialmente vestidos e calçados. Eles se alimentarão de farinha de cevada e de trigo, assando-as e sovando-as, preparando bolos nobres e pães; eles os servirão sobre esteiras de junco ou folhas limpas, deitando-se enquanto comem sobre leitos espargidos com teixo e murta. E se regalarão com os filhos, bebendo vinho que fermentaram, com grinaldas na cabeça e cantando hinos em louvor aos deuses, em alegre conversação uns com os outros. E tomarão cuidado para que o tamanho das famílias não extrapole seus recursos/ prevendo a pobreza ou a guerra.

Rsrsrssrs, e então Glauco - adoro este cara - interpela:

- Glauco: Mas você não lhes deu qualquer condimento para as refeições.

Rsrsrsrs, estou transcrevendo a 'famosa' República de Platão, não é uma redação do meu sobrinho na quarta série, nem um papo gourmet entre Palmirinha e Ana Maria Braga... Mas Sócrates leva a sério, afinal isto é uma República - cuidemos do cardápio gastronômico de TODOS OS DIA ora bolas!!! -, e anui ao pedido de Glauco:

- Sócrates: É verdade, havia esquecido. É claro que devem ter condimentos - sal, olivas e queijo, e cozinharão raízes e ervas, dessas que costumam preparar as pessoas do campo. Para sobremesa lhes daremos figos, ervilhas e feijões; e assarão bagas de murta e bolotas de carvalho na fogueira, bebendo com moderação. E com tal dieta podem esperar viver em paz e saúde até idade avançada e legar uma vida semelhante aos seus filhos após a morte.

A expectativa de vida média em na Grécia de Platão - e Sócrates - girava torno dos 40 anos de idade - similar ao Homem de Cro-magnon no Paleolítico Superior - há 40.000 anos... O sentido da República de Platão parece escapar completamente a Sócrates - este Sócrates platônico -, a menos que seja só isso, um discussão superficial e mega-utópico sobre "figos, ervilhas e feijões"... Este é o 'estadozinho frugal minimalista e vegetariano', pra lá de utópico, deste 'Sócrates platônico'; e vejam estão discorrendo sobre a formação de um estado definindo o seu cardápio gastronômico... Estas são transcrições da República de Platão:

A exegese de tais obras não deixa dúvida sobre a força da velha crença dominante de que a natureza humana não passa de uma 'tábula rasa' - termo cunhado por John Locke (1632-1704) -, uma folha em branco no qual a personalidade e o caráter são impressos por meio da cultura e do processo de socialização; desprezando inteiramente a condição natural do ser humano, em favor de uma 'sociologização' do comportamento... 

Tal premissa equivocada, nortearia o pensamento ocidental, de Platão a Marx, passando por More, Montaigne e Rousseau, para citar apenas uma das inúmeras ramificações que tal doutrina - a tábula rasa - produziu... O freudismo e as próprias tradições espirituais, navegaram a mesma nau... Não somos produtos do meio, com Marx 'reafirmou'... O aprendizado do meio, possibilitado e dirigido por nossa genética, operando a partir de nosso bioquímica e neurofisiologia, constitui o nosso complexo comportamento... Conceitos utópicos, como a "construção do novo homem" de Lenin, não só são uma caricatura falaciosa da realidade, como não passam de um "novo homem segundo a visão leninista-marxista", utópico,  irreal, e surreal... 

Os séculos vindouros tratariam de cristalizar o conceito de utopia como uma saída crítica - e possível (será?) - para escapar de regimes perversos e arbitrários, como a Inglaterra de Henrique VIII, a partir da elucubração de um estado ideal, mas 'atingível pela ação racional do homem social', e a partir de sua luta para converter-se em seu contrário, 'o bom selvagem', o puro ser primitivo, preenchendo a tábula rasa, a partir da correta doutrina sociológica... Mas se a própria sociologia depende da complexidade e da evolução do homem primitivo, como ficamos? Um Reductio ad absurdum parece inevitável, não acham? Claro que sim... 

Ou seja, utopia passou a designar a idealização de nosso desígnio mais nobre, repletos de ingenuidade, justiça e otimismo - ou ilusionismo... Ou talvez, a promessa vazia, e não testada, de uma organização impossível de ser realizada, posto que está fundamentada em falácias, remetendo à pura fantasia ou ficção filosófica... 

O grande problema do marxismo, reside no fato de que Marx -  administrado e financiado por Engels - decidiu deixar o mundinho utópico da especulação filosófica, e partir para a ação... E este movimento derramou muito sangue, e atrasou a saga humana... Pelo menos hoje sabemos 'o que não funciona'... Impor, arbitrar, sob pretexto de romper o estado de imposição e arbítrio, é apenas trocar seis por meia dúzia... Mas muto pagaram com a vida, na Era da Utopias, nas mãos do fanatismo marxista, de viés leninista-stalinista, maoísta, ou sistemas análogos, como o hitlerismo e o fascismo em todas as suas modalidades...

O "Socialismo Utópico” tornou-se assim, a encarnação da ingenuidade do retorno ao 'bom selvagem' de Rousseau, a partir do idealismo possível da 'tábula rasa' de Locke, e tudo isso envolto em cinismo e ilusão fervorosa... Este manancial de bondades, deveria ser convertido em ação, e foi, a partir do Manifesto de Marx, em benefício de uma versão atuante da organização socialista, apresentada como única solução possível, e salvação messiânica, para romper séculos de miséria e sofrimento, o Samsara civilizatório, encerrando por tanto um ciclo de 'vidas sociais', em reencarnações históricas, e favor da LUX MARXIANA... A assim foi, movido por tais desígnios 'religiosos', que as bandeiras foram 'içadas', assim como os fuzis, em nome do amor, no melhor estilo bíblico, e mais uma Cruzada varreu a Terra... Triste destino...

Marx e Engels argumentavam que não partiam de meras fantasias 'platônico-moreanas-rousseaulianas' - entre outros teóricos como Tomaso Campanella, de Charles Fourier, de Robert Owen ou de Pierre-Joseph Proudhon -, mas sim de um modelo real, baseado apenas na crítica radical da situação existente, com base em sua visão do Leviatã Capitalista... Se a situação existe, logo ela é real, rsrsrsr.. Será??? E então podemos prever mecanismos para modificá-la, e então a modificação de algo real deverá ser real... Certo???? Depende... 

Partindo das doutrinas da 'tábula rasa' e do 'bom selvagem', estaremos tentando modificar a realidade com varinhas de condão... Achando que podemos dizer à 'humanidade' o que eles devem querer, e com que deverão se contentar, estaremos confrontando a realidade com irrealidade... Mas, a partir da 'constatação óbvia', ao menos para Marx e Enegls, de que o capitalismo encerrava uma contradição em si, explicada pelo 'dogma do caráter social da produção', e de sua consequente apropriação privada, nefasta, indevida, através das hábeis maracutaias capitalistas, e munidos do chavão da luta de classes, o povo foi conclamado a governar, em um colossal gesto de populismo utópico...

O caráter “científico” do socialismo marxista foi consagrado na "Introdução à Crítica da Economia Política" - também de Marx -, onde, resumidamente, é afirmado que em algum ponto do processo de desenvolvimento - capitalista -, as forças produtivas da sociedade - trabalhadores - entraram em choque com as relações de produção existentes - relações de empregatícias e de trabalho, iniciativa privadas -, e tal conflito deflagra a ruptura entre a "superestrutura" da sociedade, relativa ao caráter social das relações de produção, e a sua base, dominada pela apropriação privada dos meios de produção - pelos capitalistas malvadões... 

Uma era revolucionária então abre caminho, com foice e martelo, e muita violência... E a "nova sociedade emerge da velha para realizar a reconciliação entre forças produtivas", ou 'o juízo final'... pomposas palavras, e uma respeitável inteligência à serviço de uma falácia utópica baseada em falsas premissas... Então, as relações de produção, sem os grilhões da propriedade privada e da opressão política das classes dominantes sobre a maioria da população, avançaram em direção à vida eterna... E provavelmente em direção à um novo ciclo, de conflito e ruptura... 

Foi o que se viu... O marxismo e seus ritos sagrados, por mais que sejam negados, provaram na prática, a infantilidade de seus postulados... Não significa que o Socialismo/Comunismo verdadeiro ou puro, não foi 'ainda' tentado, significa que esta ilusão é deveras irreal, inverossímil, piegas, populista, e, portanto, impraticável; i.e., UTÓPICA...

Segundo a fábula anedótica, no melhor estilo bíblico, o socialismo seria uma espécie de purgatório, a partir do qual atingiríamos o nirvana comunista... Uma espécie de ilha de Lesbos, o Eldorado, a Ilhota de More ou a República platônica... A verdade inequívoca, é que o 'MUNDO MARXIANO' trata messianicamente de "figos, ervilhas e feijões", enquanto dá volta e voltas, em linguagem empolada e circular, baseando-se nas doutrinas superadas da 'tábula rasa' e 'do bom selvagem'... 

O 'bom selvagem' evoluiu para a realidade, na organização social a partir de anseios de decorrência genética, que culminam em comportamentos culturais - e sociais - e não o contrário... Empreendemos porque somos impelidos a isso, porque advém da natureza humana... A 'tábula rasa' de Locke, está sendo preenchida pela Genética e pela Neurociência, e o panorama é bem distinto à doutrina do homem como produto do meio...

Finalmente, a própria sociologia, que é parida neste estado de coisas, pelas ideologias do final do século XIX, está assentada sobre falácias... Durkheim promulga que "omnia cultura ex cultura", ou que o fenômeno cultural - ou social - só pode ser explicado pelo fato cultural - ou social... Ledo engano... 

OMNIA CULTURA EX HOMINEM

Carlos Sherman

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O Contador de Estórias...


Em meio à toda esta loucura, de Homero à Bíblia, passando por Marx, Freud,  Jung, Kardec, Lenin, Hitler, Fidel... ETs, 'abertura dos códigos de luz', 'seres de luz', e a imortalidade... e mesmo conhecendo o intercurso, e as respectivas decorrências neurofisiológicas, não posso deixar de pensar: 


"... o que não vale um bom contador de estórias,  ou uma boa fábula???


A realidade não é facilmente digerida, apetecida, nem a verdade nua e crua, sem as cores e os temperos dos contos de fadas, os dragões, sem a  boa nova da vida eterna, ou da hora e a vez do proletariado... E não entendo por quê? Talvez, porque a má notícia da vida finita, não possa ser assimilada, e a negação assuma o controle, mesmo diante de uma inescapável verdade; sem dúvida percebida em algum momento, mesmo que tênue, pelo sentido de realidade... Mas talvez a realidade não tenha sido contada com a mesma paixão, ou com os trejeitos 'verborrágicos', com os quais as fábulas esotéricas são contadas... Mas as fábulas precisam vender, enquanto a realidade teima em despertar do sonho... E a concorrência é duríssima, a realidade contra a eterna redenção e seus redentores... E o que é a realidade além de... REAL???

A Realidade é a droga mais poderosa que existe... Não entendo porque tantos fogem para drogas menores: religião, cocaína, freudismo, heroína, 'marxianismo', LSD, extra-terrestres, espiritismo, matrix, conspiracionismos diversos...  Mas trata-se de uma questão meramente retórica... Conheço a Biologia da Crença...

Mas insisto que não há experiência comparável à LIBERDADE DA LUCIDEZ, não há nada como a VIDA REAL... TENTE A REALIDADE??? SÓ PRA VARIAR...


Carlos Sherman

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Burguesia




Publicaram em 2013, a seguinte citação, com a subsequente questão:

“A lei, a moral, a religião são preconceitos burgueses, atrás dos quais se ocultam outros tantos interesses burgueses.”
MARX, Karl. Manifesto comunista, p. 36

Qual a opinião de vcs diante desta citação?


Falaciosa, insustentável, e superada... Marx é um fanfarrão, sua teoria um desastre prático, objetivo, registrado pela história em fatos... A ansiedade desesperada por notoriedade levou Marx à criar sua própria seita, valendo-se do tradicional mecanismo religioso: incutir o medo para vender a salvação... Populismo descarado e irresponsável, enquanto era sustentado pela prática dita 'burguesa' de Engel, e os respectivos lucros de sua fábrica têxtil em Manchester... 

O 'Leviatã' burguês foi desmistificado e exorcizado... A salvação proletária ridicularizada... Um pseudo-filósofo mete-se com economia, e termina com uma patética tese sociológica... Primeiramente não existe o animismo da entidade 'burguesa', e nem nada que se pareça com tal 'ameaça', orquestrando o destino da sociedade na forma de uma agremiação unida, organizada e homogênea... A estrutura e a organização social é bem mais complexa do que isso, e já o era na época de Marx... De forma que não existe uma entidade sobre a qual devem pesar, com o mínimo de objetividade, a alegação de 'preconceito' com respeito às 'leis, a moral e a religião'... 

É tão descabido, populista, vazio, superado, que não requer refutação... Na verdade a teoria de Marx, de forma geral, se provou tão equivocada, que restou apenas a sua ambição desmedida por converter-se em um personagem histórico... Não há refutação porquanto não existem argumentos... O marxismo mostrou-se uma aventura pra lá de desastrosa, grotesca, sombria; e contra fatos não subsistem meras opiniões... 

Triste destino, a crença na crença, a crença no 'marxianismo'... Uma crença entre tantas outras... Seus devotos primeiro aderem às bandeiras, os estandartes, e depois leem as escrituras 'sagradas' -  quando leem... Homens racionais e saudáveis - neurologicamente falando - aderem à absurdos por motivo torpe, por desvio de confirmação, e características de personalidade e idolatria... E depois, e somente depois, empenham sua inteligência em justificar o injustificável, valendo-se para isso de argumentos aparentemente racionais... Triste destino, decorre de nosso processo evolutivo... 

Ominia cultura ex hominem - e não como pretendia Durkheim... 

Resumidamente este aforismo não tem absolutamente nenhum valor sem argumentos que o sustentem, e não houveram  argumentos, mas experimentamos os fatos... Mera opiniões não subvertem a realidade... Trata-se então, de apenas mais um rompante de um tremendo fanfarrão, que como outros, e pela via da idolatria cega, pintaram de sangue, vermelho, vivo, a história...

Carlos Sherman

domingo, 6 de maio de 2012

A Teologia do Social




A Sociologia pode estar fundada sobre equívocos - severos equívocos -, transformados em dogmas donde se pode, metaforicamente, falar em uma ‘Teologia do Social’... Lamento dizê-lo... A sociologia vê no comportamento humano, o mesmo complexo de equívocos que levou crentes a afirmarem que as doenças – todas - eram causadas por possessão demoníaca... Desconhecimento, moralismo, crenças infundadas... Não, doenças não são, e nunca foram, causadas por possessão demoníaca; e aliás, não existem demônios, a não ser aqueles que fantasiamos... Pois os ditos sociólogos de ontem e de hoje, hão querido demonstrar que todos os males advém de um único Leviatã: o Capitalismo... O Capitalismo adquiriu na Teologia do Social contornos demoníacos, intencionais, malignos...

Longe do idealismo positivista de Augusto Comte, que cunhou em 1838 o termo Sociologie, os sociólogos trataram de entrincheirar-se de forma politeísta, mas severamente dogmática, em torno de Karl Marx  (1818-1883) e o seu panteão - Lenin, Fidel, Guevara, Platão, Aristóteles, Rousseau, Engels, Paulo Freire, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro et cetera -; sujeitos a uma espécie de ‘Santíssima Trindade’ do comportamento social: 1. A Doutrina da Tábula Rasa; 2. A Doutrina do Bom Selvagem; 3. A Doutrina do Fantasma na Máquina [Dualidade Corpo-Mente (Razão e Sensibilidade)]...  

1. A Doutrina da Tábula Rasa: 

O homem é, em sua essência, produto do meio”- que Karl Marx tomou emprestado a Rousseau, que por sua vez tomou emprestado a Locke, que por sua vez revisitou a Platão... O termo Tábula Rasa, de origem medieval, é comumente atribuído a John Locke (1632-1704), no sentido de que o homem é uma folha em branco, onde a experiência tratará de escrever a sua história e nortear o seu comportamento:

Suponhamos, pois, que a mente seja, como dizemos, um papel em branco, totalmente desprovido de caracteres, sem ideias quaisquer que sejam. Como ela vem a ser preenchida? De onde provém a vasta provisão que a diligente e ilimitada imaginação do homem nela pintou com uma variedade quase infinita? De onde lhe vêm todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, em uma única palavra: EXPERIÊNCIA.

Esta célebre passagem do “Ensaio acerca do entendimento humano”, embora sedutora, está retumbantemente equivocada... Lamento informar... Mas Locke mirou em outras questões essenciais, obtendo importantes avanços, como o questionamento da autoridade da Igreja e o direito divino dos reis, assim como da realeza hereditária, e da escravidão; e isso a partir da ideia de que como o comportamento vem diretamente da experiência, sendo que experiências e histórias de vida diferentes, produzirão pensamentos e comportamentos diferentes... Durante os séculos XIX e XX, a doutrina da Tábula Rasa deu o tom de boa parte das Ciências Humanas e – sobretudo – Sociais...

Enquanto as Ciências Humanas já revisaram seus postulados e paradigmas, as ditas Ciências Sociais, em seus vieses sociais, políticos, econômicos e psicológicos, teimam em limitar o homem à doutrina da Tábula Rasa, como uma Sagrada Escritura... O ser humano, seu comportamento - e seus desdobramentos emocionais, sexuais, relacionamentos, associações, ambições econômicas e políticas - é entendido como ‘socialmente construído’... A Sociologia foi erigida sobre fundamentos equivocados...

2. A Doutrina do Bom Selvagem:

“Sou tão livre quanto o primeiro homem da Natureza, antes de começarem as ignóbeis leis da servidão, quando o nobre selvagem corria solto nas florestas.” - John Dryden (1670, peça “A Conquista de Granada”)... Esta citação é comumente - e equivocadamente - atribuída a Rousseau...

O conceito do “bom selvagem” foi originado no período colonial, e emergiu do contato entre europeus e povos indígenas e primitivos - na África, América e Oceania -, e da crença de que os seres humanos - em seu estado ‘natural’ - são altruístas, pacíficos, serenos... A ganância e a violência nascem com a sociedade... Jean-Jacques Rousseau foi o grande defensor desta tese – teológica... Rousseau só não pôde explicar porque o nosso passado selvagem nos levou à sociedade... Por que não nos mantivemos selvagens? Mas seria esperar muito de um homem que postulava tais “leis” sentado em sua escrivaninha, e sem a menor ideia da natureza humana, muito embora, tenha ousado descrevê-la... E muitos, até hoje, teimam em idolatrá-lo... Karl Marx foi um destes homens, e que literalmente copiou as ideias – equivocadas – de Rousseau, alterando alguns aspectos, para cunhar o seu próprio nome na história... Muitos mais viriam para seguir a Rousseau, antes de depois de Marx, e assim caminha a humanidade, de equívoco em equívoco, de idolatria em idolatria...

Em 1755 Rousseau escreveria:
Muitos autores precipitaram-se a concluir que o homem é naturalmente cruel e requer um sistema de polícia regular para regenerar-se, porém nada pode ser mais manso do que ele em seu estado primitivo, quando posto pela natureza a igual distância da estupidez dos brutos e pernicioso bom senso do homem civilizado (...) Quanto mais refletimos sobre este estado, mais convencidos ficaremos de que era o menos sujeito de todos a revoluções, o melhor para  homem, e que nada poderia ter arrancado disso o homem a não ser algum fatal acidente, o qual, pelo bem público, nunca deveria ter acontecido. O exemplo dos selvagens, que em sua maioria foram encontrados nessa condição, parece confirmar que a humanidade foi formada para manter-se sempre nela, que essa condição é a verdadeira juventude do mundo, e que todos os progressos ulteriores foram muitos passos aparentemente em direção à perfeição dos indivíduos, mas de fato no caminho da decrepitude da espécie.” –amém...

Não Rousseau, a história, a saga humana é um processo contínuo... Tal visão é infantil, limitada, sob todos os aspectos - antropológicos, genéticos, evolutivos, neurofisiológicos... Rousseau não estava em condições de considerar todas estas questões relativas ao conjunto cumulativo de conhecimento científico, antes de ousar postular sobre a vida... Então por que se aventurou a postular sobre aquilo que soberbamente desconhecia? A troco de quê? Rousseau, o próprio, nos dá as respostas... Em suas Confissões, na linha das Confissões de Santo Agostinho – que buscava laboriosamente encontrar o mal em cada minúcia da sua vida cotidiana para confessá-lo -, Rousseau nos choca com a sinceridade de seu egoísmo – por exemplo, abandonando 5 filhos em orfanatos - e desonestidade – por exemplo, acusando injustamente uma criada de roubo, quando ele havia sido o larápio -, e nos dá algumas pista sobre a motivação de seus escritos: um prêmio oferecido pela Academia de Dijon... Daí um mar de péssimas ideias: Ciências, Literatura, Artes, eram ácidos que corroem os costumes... Cada fibra do conhecimento deriva de um pecado: a Geometria provém da avareza, a Física da vaidade e da curiosidade vazia, e a Astronomia vem da superstição...  A Ética, segundo Rousseau, provém do orgulho... Os cientistas estão arruinando o mundo, e todo o tipo de progresso é ilusão... 

E por aí vai... Suas origens puritanas e calvinistas, nunca se calaram... 

Então Rousseau tomou estas péssimas ideias e as misturou com um resgate da República platônica, preconizando outra sociedade utópica, fascista, e de “vida simples” como na “antiga Esparta”, publicando o seu “Discurso sobre as Ciências”... Tal ensaio, em meio ao vazio insípido de ideias da época foi um sucesso... Bombástico... E ele realmente ganhou o concurso... Rousseau, aos 38 anos, foi catapultado da obscuridade para a celebridade... Depois escreveria “Discurso sobre a Desigualdade”, onde não ganhou nada, mas aproveitou mais uma vez para fazer barulho e polemizar: “o homem é naturalmente bom, e somente por causa das instituições se torna mal”... Neste ensaio, ao invés de Platão, a inspiração vem de Thomas Hobbes (1588-1679), só que às avessas...

O termo ‘contrato social’ foi cunhado por Hobbes, mas Rousseau aplicou o termo em sentido diametralmente oposto ao sentido dado por Hobbes... Para Hobbes homens em “estado natural” precisariam de um “contrato social”, ou um conjunto de leis, para torna-los sociáveis e civilizados... Para Rousseau os “contratos sociais” vigentes eram elaborados pelos ricos para subjugar os pobres... Simples assim... Ao contrário de Locke e Hobbes, Rousseau considera em seu “Contrato Social” que o homem em seu “estado natural” – termo emprestado a Hobbes – não é ganancioso nem agressivo, mas sim pacífico, e em pleno estado de contentamento, e verdadeiramente livre... Baseado em que estudos antropológicos Rousseau afirma isso? Não sabemos, mas sabemos ser falso... Muitos estudos antropológicos mostram exatamente o contrário...

Rousseau salienta que a passagem do “estado natural” para o estado vil, o estado "civilizado", se dá por meio do 'advento' da "propriedade"... Meio forçado? Muito, mas vai piorar... Rousseau segue afirmando que a desigualdade brota da instituição da propriedade privada... Em uma passagem famosa, embora lamentável, sentencia os termos de seu 'pecado original social': “o primeiro homem que, tendo cercado um pedaço de terra, pensou em dizer ‘isto é meu’, e encontrou pessoas simplórias o bastante para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade”... Na verdade havíamos deixado de ser catadores coletores, para nos organizarmos como grupo, e apenas porque era melhor, e isso aos olhos das mesmas “pessoas simplórias” – termo vago... Rousseau é mais literário do que acadêmico, abusa de imprecisões e adota claramente um tom messiânico... E joga pra galera... Mas Rousseau não explica o que acomete este ser primitivo, puro, do sentido de propriedade... Também não olha ao redor para perceber que todos os grandes mamíferos são territoriais... Mas Rousseau, nem antropólogo, nem zoólogo, nem geneticista, nem neurocientista, parecia muito à vontade para achar coisas... E haviam fiéis para segui-lo...

Outra citação falaciosa famosa, tomada de empréstimo por Karl Marx do Contrato Social, para ser o frontispício de seu Manifesto Comunista, é: “O homem nasce livre e por toda parte encontra-se acorrentado”... A velha vitimologia, tão viva no marxismo de hoje, em estilo messiânico... As pessoas, sentencia Rousseau, não devem ser “medidas pela posição social, nem pelas posses, mas pela parcela da centelha divina que vê em todas elas; a alma imortal do homem natural”... Alma? Imortalidade, centelha divina? 

Rousseau empresta de Hobbes o conceito de “a guerra de todos contra todos”, só que de forma diametralmente oposta mais uma vez... Para Rousseau esta guerra provém da selva da civilização, enquanto Hobbes acredita que provém da selva primitiva... Os dois estavam errados... Rousseau também copia de Hobbes uma passagem de Leviatã, desta vez sem deformidades, o conceito magno do “direito fundamental” da autopreservação... E envereda pelo beco escuro e tortuoso da utopia, também trilhado por Marx, profetizando que quando a sociedade for degradada pela tirania e todos forem escravizados o “círculo se completará”, pois todos os indivíduos serão iguais quando nada forem... E só existe uma forma de redenção: "o povo deve ser soberano"... E lá está Marx, fiel seguidor, em seu Manifesto Comunista, propondo a ditadura do proletariado: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!

Marx não foi proletário, e muito menos empresário, aliás nunca trabalhou, e comete gafes incríveis em sua crítica ao capitalismo, como por exemplo desprezar a depreciação, manutenção, capital de giro, remuneração do capital, capital investido, capital de risco, et cetera...

O pensador Samuel Johnson (1709-1784), sepultado na Abadia de Westminster, dirige-se a Rousseau e seus fervorosos adeptos: “a verdade é uma vaca que não mais lhes fornece leite, de forma que tiveram que ordenar o touro”... Voltaire (1694-1778) – sepultado na Igreja de Santa Genoveva, ironicamente à frente do túmulo de seu maior inimigo: Rousseau - foi mais contundente e mordaz:

Recebi o seu último livro contra a raça humana e agradeço-lhe. Jamais tamanha inteligência foi usada com o propósito de fazer-nos parecer todos estúpidos. É de se desejar, após ler seu livro, caminhar de quatro. Mas como perdi este hábito há mais de sessenta anos, sinto-me infelizmente impossibilitado de retomá-lo.

Em 1954 como celebridade, Rousseau foi convidado a retornar a Genebra, sua cidade natal, e estava muito feliz, e reconvertido ao calvinismo... Só que Voltaire também residia por lá... Rousseau, o puritano influente, tratava de apoiar a proibição da encenação de peças teatrais – lembram da corrosão dos costumes -, enquanto Voltaire de insurgia contra tal censura... Mas o destino reservaria uma surpresa a Rousseau, enquanto Voltaire riria por último do ‘falso’ puritano... O mesmo pensamento reacionário e caduca calvinista, terminou por julgar o Contrato Social um atentado a moral pública, e seus exemplares foram queimados na Praça Municipal de Genebra em 1762, assim como sua obra sobre educação - Emílio...

Rousseau acreditava que o comportamento ruim era fruto do aprendizado e da socialização: “Os homens são maus; uma triste e constante experiência dispensa provas”... Rousseau não foi um exemplo de caráter - segundo ele mesmo... Mas essa maldade provém da sociedade, sentenciou: “Não existe perversidade original no coração humano. Não se encontra nele um único vício que não seja possível identificar como e quando entrou”... Esta é a autoindulgência de Rousseau, no melhor estilo agostiniano, e de São Tomás de Aquino... No melhor estilo da doutrina religiosa, e fundada no maniqueísmo religioso...

Rousseau, na falácia do bom selvagem, remete à brancura da folha em branco - da Tábula Rasa - às conotações morais adjacentes, limpo, claro, imaculado, cândido, puro, sem jaça, ilibado, virgem, assim como das respectivas perversões, marca, mancha, jaça, mácula, nódoa, e estigma...  Rousseau não era antropólogo, e pouco conhecia sobre os 'bons selvagens'... Toda é qualquer cultura primitiva, por mais isolada que tenha se mantido de 'nós', e por mais aferrada aos seus costumes, vivem de crendices, acreditam perdidamente no sobrenatural, escravizam outros grupos, desenvolvem hierarquias e sentido de posse, sem contar os incontáveis casos de canibalismo, sacrifícios humanos, e atrocidades cometidas em tempos de guerra, com rituais deploráveis - sob a nossa perspectiva - para com os guerreiros perdedores... cabeças decepadas que são utilizadas em alegres jogos, crânios transformados em tigelas et cetera... O potencial criativo em empreendedor humano, in natura, nos impulsiona naturalmente para a composição social... Basta um pouco de conhecimento antropológico, para entender que a organização do trabalho mostrou-se mais efetiva do que a sina dos catadores coletores... Só Rousseau não viu...

Marx também copiou Rousseau na canalhice, enviando um filho ‘bastardo’ para adoção, enquanto quatro outros filhos morreram de inanição... Marx, não diminuiu o número de charutos nem as noitadas na taverna, muito menos a insistência em aparentar um estilo aristocrático, para poder alimentar sua família... Era sustentado pelo “excedente” que o ‘empresário’ Engels obtinha pela 'exploração dos trabalhadores' de sua fábrica têxtil em Manchester... Mas esta é uma outra estória dentro da História...

3. A Doutrina do Fantasma na Máquina

Existe uma grande diferença entre mente e corpo, porquanto o corpo é por natureza sempre divisível, e a mente é inteiramente indivisível (...) Quando considero a mente, vale dizer, eu mesmo, na medida em que sou apenas um ser pensante, não posso distinguir partes de mim, mas aprender-me como claramente uno e inteiro; e embora toda a mente pareça unida a todo o corpo, se um pé, ou um braço, ou alguma outra parte do corpo for separada do corpo, percebo que nada foi tirado de minha mente. E as faculdades de querer, sentir, conceber etc. não podem, com acerto, ser consideradas suas partes, pois é a mesma mente que se ocupa de querer, sentir e entender. No entanto é muito diferente no caso de objetos corpóreos ou dimensionáveis, pois não existe algum imaginável por mim que minha mente não possa facilmente dividir em partes. (...) Isto bastaria para ensinar-me que a mente ou alma do homem é inteiramente diferente do corpo, caso eu já não tivesse avaliado isso a partir de outras premissas.” – René Descartes (1596-1650)

Um corolário repleto de asneiras, a Doutrina da Dualidade Corpo e Mente... Mas antes que levantem as bandeiras da contextualização eu pergunto: se não sabia por que não se calou? Por que outros em sua época não se expuseram ao ridículo desta maneira? Esta é uma questão de caráter, de temperamento... Descartes buscava notoriedade, e queria contestar a Hobbes... E neste conceito, está enganado do início ao fim... Descartes, por exemplo, experimentaria uma tremenda divisão em sua mente, com um braço tentando enforca-lo enquanto o outro tenta protege-lo, e poderia ter vivenciado tal fenômeno em um plantão médico neurológico... Problemas, tumores nos corpos calosos, responsáveis pela conexão entre os dois hemisférios cerebrais, acarretam a ‘divisão da mente’, pela divisão do cérebro... Sobre almas, rsrsrs, sem comentários... Mas o pior em tudo isso, é que aqueles que leem apenas o resumo sobre filósofos e pensadores, sacam a absurda conclusão de que Descartes é um marco na história da Ciência, quando na realidade é exatamente o oposto disso... Descartes mantém e joga um holofote sobre a velha besteira platônico-aristotélica da dualidade corpo e mente...
  
O filósofo Gilbert Ryle (1900-1976), foi um detrator desta falácia, cunhando o termo ‘Ghost in the machine’- nome de um dos memoráveis álbuns da banda inglesa The Police:
Há uma doutrina sobre a natureza e o lugar da mente de tal modo prevalecente entre os teóricos e até entre os leigos que merece ser designada como a teoria oficial (...) A doutrina oficial, que procede sobretudo de Descartes, é mais ou menos como descrita a seguir. Com a duvidosa exceção dos idiotas e das crianças de colo, todo ser humano possui um corpo e uma mente. Alguns prefeririam afirmar que tanto um corpo como uma mente. Seu corpo e a sua mente normalmente estão atrelados um ao outro, mas depois da morte do corpo a mente pode continuar a existir e funcionar. Os corpos humanos existem no espaço e estão sujeitos às leis mecânicas que governam todos os outros corpos no espaço. (...) Mas as mentes não existe no espaço, nem suas operações estão sujeitas a leis mecânicas. (...) Eis o esboço da teoria oficial. Com frequência me referirei a ela, com o intuito pejorativo, como ‘o dogma do fantasma na máquina’”...

O ‘fantasma na máquina’, assim como ‘o bom selvagem’, emergiram como oposição filosófica a Hobbes, que argumentava que a vida poderia ser explicada em bases mecânicas – quase... A luz excita nossos nervos e é mapeada no cérebro, e a isso chamamos enxergar... Descartes rejeitou a ideia de que a mente poderia operar segundo princípios físicos... Para ele, por exemplo, o comportamento, e em especial a fala, não era causado por nada, e sim “livremente escolhida”... Ele diz que não podemos duvidar da existência de nossa mente - ok - porque o ato de pensar pressupõe que nossa mente existe: penso logo existo (Cogito ergo sum)... Mas por outro lado, afirma que podemos duvidar da existência de nosso corpo, pois podemos nos imaginar como “espíritos imateriais, que apenas sonham ou têm alucinação de que estão encarnados”... Não Descartes, não podemo... Podemos imaginar que estamos voando, ou imaginar que somos azuis, mas não seremos azuis, nem voaremos, de fato... Puro sofisma...

Mas além do ‘truque’, Descartes encontrou um bônus moral para a dualidade corpo e mente: apartar-nos da natureza... “Nada há de mais eficaz para desviar espíritos fracos do caminho reto da virtude do que imaginar que a mente do animal é da mesma natureza que a nossa e que, em consequência, depois desta vida não temos nada a temer nem a esperar, assim como as moscas e formigas.”... Sim Descartes, assim mesmo... Como formigas e moscas... Mas com um nível mais elevado de atividade cerebral, não pelo tipo, mas pelo grau... Sim, somos animais, somos parte da natureza, compartilhamos o mesmo 'tipo' de células neurais que os demais seres vivos dotados de sistemas neurais...

Ryle explica o dilema de Descartes:
Quando Galileu mostrou que seus métodos de descoberta científica eram adequados para fornecer uma teoria mecânica que deveria abranger tudo o que ocupa espaço, Descartes descobriu em si mesmo dois motivos conflitantes. Como homem de gênio científico, não podia deixar de concordar com as proposições da mecânica, e contudo, como homem religioso e moral, não podia aceitar, como Hobbes aceitava, o desalentador corolário dessas proposições, isto é, que a natureza humana difere apenas em grau de complexidade do mecanismo de um relógio.

E Descartes, temia a morte... Preferindo fantasiar a imortalidade...

Charles Robert Darwin (1809-1882) e Alfred Russel Wallace (1823-1913), viriam para sacudir o mundo, provando que a nossa mente não difere de um relógio apenas pela complexidade – isto estava errado -, mas a alegação é válida para uma lesma, ou uma raposa, um macaco... Darwin sentenciaria em “A Origem das Espécies” de 1859: “A diferença do cérebro humano e de os outros animais é de grau, e não de tipo.”... Pensamos com os mesmos neurônios que um camarão... A mesma unidade fundamental, em termos de Biologia Molecular... Só que desta vez não estamos especulando... Estamos vendo, medindo, provando...

Mas entendo que deva parecer consternador, aceitar que o amor, a dignidade, as escolhas, a responsabilidade, são meras funções moleculares... De forma que os críticos atacam a ciência da mente – a real – com os adjetivos 'reducionista' ou 'deterministas'... Eles não sabem bem o que estão dizendo, mas sabem que isso deve ser ruim, e pode funcionar com oposição... Muitos especulam sobre os ‘transplantes de cérebro’, quando na realidade deveriam especular sobre os ‘transplantes de corpo’- como observou Daniel Dennett -, posto ser a única operação de transplante que beneficia totalmente o doador, rsrsrsrs...

Descartes, o homem que ainda crê em fantasmas, é presunçoso a ponto de imaginar ter descoberto uma "nova ciência", tratando de edificá-la em seu pomposo compêndio "Projeto para uma Ciência Universal, Destinado a Elevar Nossa Natureza Até o Mais Alto Nível de Perfeição"... Não verdade o título pressupões um fim - dogmático e moral - e não uma Ciência ou Caminho... Descartes de fato imitava os textos mais populares de Montaigne, como os Ensaios - repleto de divagações auto-irônicas -, abrindo o seu Discurso com uma astucioso referência ao seu predecessor: "o bom senso é a coisa mais equanimemente distribuída no mundo"... É? Não parece... Montaigne não é a única fonte de Descartes, que também copia e repete muitas das crenças de Santo Agostinho...

As famosas palavras Gogito ergo sum, elegantemente traduzidas para o português como 'penso, logo existo', nas estavam na versão original das Meditações... As palavras realmente escritas por Descartes são bem menos admiráveis, algo como:

"(...) deixe que o demônio me engane o quanto puder, ele nunca fará nada com que seu seja nada enquanto eu pensar que sou algo. Portanto, depois de considerar tudo de maneira muito completa, devo concluir que esta proposição, eu sou, eu existo, é necessariamente verdadeira, cada vez que eu digo ou a formulo em minha mente"...

Sobre o 'fantasma', e o conceito de alma, devemos muito à Platão (427-347 AEC) e Aristóteles (384-322 AEC)... Sócrates (469-399 AEC), ao que tudo indica - pelo simples fato de que nada escreveu, e dependemos de Platão, Diógenes Laércio, Xenofonte, para entender o a sua linha de pensamento -, tem um papel fundamental na separação do pensamento grego, antes direcionado para a interpretação do mundo natural de do homem como parte integrante da natureza ou physis - pelos ditos pré-socráticos -, para o mundo da ideias ou do mundo que conhecemos hoje como filosófico... Sócrates, no entanto, somente deslocou a atenção do mundo natural para o mundo das ideias, mas seria Platão quem trataria de denegrir o conceito de homem natural por completo, para destacar o conceito metafísico de alma, e dotado-a de toda a responsabilidade pela moralidade, enquanto o corpo se desvanece secundário, inútil, em sua 'vã filosofia'... Platão considerava, em sua 'teoria evolutiva', que deus havia criado o homem perfeito, e a sua degeneração produziu a mulher, que finalmente degenerou para originar os animais... No 'Timeu' sentencia:

"Apenas os homens são criados diretamente pelos deuses e recebem almas. Aqueles que vivem de maneira justa retornam às estrelas, mas os que são covardes ou seguem vidas iníquas, podem com razão esperar ser convertidos para a natureza das mulheres no segundo nascimento."

É mole ou quer mais?

Aristóteles mantém o equívoco em riste e piora, mas mete-se com o corpo humano para postular toda a sorte de asneiras, como por exemplo que "um lado do corpo é mais frio do que o outro", o cérebro é uma especie de radiador "esfriando o sangue", enquanto o coração é a parte "pensante" d corpo, e localizando a alma na região da nuca... Também postula que a mulher não tem alma - enquanto Platão sugeria que talvez ela tivesse, embora fosse inferior à alma do homem -, e diz ainda que escravos e animais são igualmente destinados à serem dominados, com o fim de executar trabalhos motrizes, e possuidores de "almas inferiores"...

"É melhor para todos os animais domesticados serem governados pelos seres humanos. Pois assim é que se mantêm vivos. Do mesmo modo, o relacionamento entre macho e fêmea é por natureza tal que o macho ocupa a posição mais elevada e a fêmea a mais baixa, de modo que o macho domina e a fêmeas é dominada."

E os absurdos seguem nesta linha, Aristóteles - o taxonomista -, apesar de meter-se com o corpo e com tudo o mais que lhe passasse pela vista, desprezou assim como Platão, a importância do corpo em prol do enaltecimento do intelecto, das ideias, que fatalmente decorriam da ALMA, ou de nosso fantasminha na máquina cerebral - que segundo ele, estava no lugar do coração, enquanto o fantasminhas residia na nuca...

Hipócrates (460-370 AEC) mesmo não sendo propriamente um pré-socrático, na acepção do conceito, já duvidava do sobrenatural, enquanto Platão e Aristóteles o enalteciam:

"Os homens pensam que a epilepsia é divina meramente porque não a compreendem. Se eles denominassem divina qualquer coisa que não compreendem, não haveria fim para as coisas divinas." - Hipócrates (Pai da Medicina)

Outros como Leucipo de Mileto (primeira metade do século V AEC) - foi o mestre de Demócrito e é considerado o verdadeiro criador do atomismo -, Demócrito de Abdera (460-370 AEC) - estudou a physis - a natureza -, teorizando sobre o átomo, o vazio, e o Universo infinito, e influenciando pensadores como Epicuro e Giordano Bruno, entre outros; enquanto Platão, que odiava Demócrito, deseja ver as suas obras queimadas, enquanto Demócrito ria disso às gargalhadas -, Epicuro de Samos (341-271 AEC) - o primeiro grande naturalista:

"Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. 
Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus.
Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus.
Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus.
Se pode e quer, que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então existência dos males? 
Por que razão é que não os impede?" - Epicuro

Aristarco de Samos (310-230 AEC) foi o primeiro a propor que a Terra girava em torno do Sol (sistema heliocêntrico) e que a Terra possuía movimento de rotação... Por tal afirmação, foi acusado de impiedade por Cleanto, o Estóico - estóico pero no mucho... Isso enquanto Aristóteles escrevia e escrevia asneiras sobre o Cosmos, postulando à vontade, sem medo de ser feliz... Se Aristarco e Aristóteles compartilhavam o mesmo contexto, o que os diferia? A atitude científica de Aristarco, contra o puro 'constructo' - ou divagação mental - de Aristóteles... Aristarco calculou também as dimensões e distâncias do Sol e da Lua... Aristarco concluiu que o Sol estaria 20 vezes mais distante da Terra do que da Lua, mas embora tenha errado no cálculo, o seu procedimento estava correto... Aristarco também procurou calcular o diâmetro da Lua em relação ao da Terra, baseando-se na sombra projetada pelo nosso planeta durante um eclipse lunar e concluiu que a Lua tinha um diâmetro três vezes menor que o da Terra, sendo que o valor correto é 3,7 vezes... Também calculou, com mais precisão do que a dos antigos sábios, a duração de um ano solar... Embora obtivesse muitos erros em seus resultados, o problema estava mais nos instrumentos utilizados por ele do que nos seus métodos, que eram corretos... Aristarco tinha bom senso... Para ele, seria mais natural supor que um astro menor girasse em torno de um maior, que era uma opinião diferente da dos seus antecessores, contemporâneos e predecessores por quase 2.000 anos...

Infelizmente os escritos que sobreviverem e foram proliferados como praga, foram os escritos platônicos e aristotélicos, reavivados pelas mentes doentias de Al-Ghazali, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, entre tantos outros, sendo parte central e recorrente do pensamento ocidental até os nossos dias... 

Concluindo...

Pela enciclopédia de asneiras que poderíamos elaborar a partir das obras de Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, e parte importante dos escritos de Rousseau e Descartes, e uma parte - embora menos significativa - dos escritos de Locke e Hobbes, a profissão de filósofo ganhou severo desprestígio, significando vacuidade, especulação vazia... Mas incrivelmente, tais ideias continuam vivas em nossas vidas... E estes mesmos protagonistas ainda são endeusados por aqueles que não sabem sequer quem eles realmente foram, o que disseram,  propuseram, ou quais os seus exemplos em vida... 

Mas comecei falando do Leviatã da Teologia do Social – ou Sociologia – e gostaria de retomar o conceito, mas sem antes fazer a seguinte observação: as teorias sociais - posto que não atingiram de fato o status de ciência, e não produziram paradigmas - sofrem da mesma convergência que as doutrinas religiosas, aproveitando ideias anteriores, e expurgando alguns pontos, mantendo outros, acrescentando algo mais em função da época... Foi assim que Rousseau bebeu das fontes platônicas, agostinianas, assim como de Locke e Hobbes, e depois dele, Marx faria o mesmo trabalho, rescrevendo com os termos de época, a 'achologia rousseauliana'... A Psicologia vive o mesmo desafio... Ainda não encontrou o seu caminho científico - senão pela neurociência, que nada tem a ver com a Psicologia... As verdadeiras ciências encontraram paradigma - consenso teórico e experimental - de forma que caminham de maneira cumulativa - mesmo dispondo de severos métodos de correção...

Mas voltemos ao Leviatã - não o de Hobbes -, o Leviatã Bíblico; que é derrotado por deus, e que não economiza palavras para se gabar a Jó:

Poderás tirar com anzol o leviatã, ou ligarás a sua língua com uma corda? Podes pôr um anzol no seu nariz, ou com um gancho furar a sua queixada? Porventura multiplicará as súplicas para contigo, ou brandamente falará? Fará ele aliança contigo, ou o tomarás tu por servo para sempre? Brincarás com ele, como se fora um passarinho, ou o prenderás para tuas meninas? Os teus companheiros farão dele um banquete, ou o repartirão entre os negociantes? Encherás a sua pele de ganchos, ou a sua cabeça com arpões de pescadores? Põe a tua mão sobre ele, lembra-te da peleja, e nunca mais tal intentarás.“ - Jó 41:1-8

É ridículo imaginar um deus dando uma de gostosão e zombando de um monstro teoricamente assustador... Mas deixemos isso de lado, porque muito mais interessante é a convergência de crenças... O exemplo correspondente para os gregos foi a vitória de Zeus sobre Tifão, o filho mais novo de Gaia, a deusa Terra... O corpo de Tifão, diz a lenda, era metade homem metade cobra, e era enorme, e tão alto que “sua cabeça batia nas estrelas”, e “seus braços se estendiam do nascer ao por do sol”... De seus ombros, segundo os relatos de Hesíodo, saiam centenas de cabeças de serpentes... Todos com línguas de fogo, enquanto “labaredas dardejavam de seus muitos olhos”... E este monstro terrível teria de tornado o senhor da criação se Zeus não o tivesse derrotado pessoalmente em combate... A semelhança com outra façanha mítica, a vitória de Indra – rei do panteão védico – sobre a serpente cósmica Vritra, é inevitável... Muitas outras histórias de deuses enfrentando Leviatãs, poderiam ser contadas...

Todas essas lendas são, nas palavras da mitologista e arqueologista Jane Harrison (1850-1928), “acima de tudo, um protesto contra a adoração da Terra, e os daimones – demônios - da fertilidade da Terra”... “O culto dos poderes da fertilidade, incluindo toda a vida vegetal e animal, é suficientemente amplo para ser forte e saudável (...) mas como a atenção do homem centra-se cada vez mais em sua própria humanidade, uma tal adoração é obviamente fonte de perigo e doença.”...

Em nossa busca frenética - e sociológica - por dar destaque à nossa 'humanidade', em detrimento da natureza e de nossa natureza, terminamos por reinventar o Universo e a Vida forçando uma tremenda barra, para manter imortal a nossa arrogante existência, e exacerbá-la de aspectos morais; e a posteriori, enquanto a ciência tratava de desconstruir toda esta farsa, nos embrenhamos mais e mais na falácia social, último reduto da resistência covarde que teima em não aceitar a nossa beleza humana naturalmente mortal... Somos humanos, troppo umanos... Nem bons, nem maus, por natureza... Seres vivos, com algum grau de complexidade, mas parte integrante e indissolúvel da natureza... Vagando pelo espaço neste planetinha perdido, em torno de um Sol modesto, na periferia de uma galáxia entre bilhões de outras... Não vamos a lugar nenhum, mas mesmo assim, é fabuloso viver...

Somos seres vivos, complexos, e nosso comportamento decorre da resultante entre a nossa forte impulsão genética, nossa experiência intrauterina, os imprimtings das primeiras horas, dias, meses e anos, sobre o ‘cimento fresco de nossa genética’, nossa constituição neurofisiológica, nosso complexo bioquímico, nossa experiência, educação, doutrinação, o ambiente histórico e cultural, a cadeia de eventos de nossa vida et cetera... Lembrando sempre que a nossa capacidade de aprender depende de nossa genética... Somos individuais, não somos máquinas, mas o livre-arbítrio é só mais uma falácia... Convivemos com ‘bugs’ em nosso cérebro, posto que a nossa criatividade abre espaço para ilusões, e tateamos entre deuses, superstições, e as maravilhas do conhecimento cumulativo e científico, e as artes... Somos incrivelmente versáteis, e particulares, diferentes... Mas sem almas, nem livre-arbítrio, nem folha em branco... 

É a partir desta perspectiva, e abandonando as Doutrinas da Teologia Social, que superaremos nossas desigualdades, racismos, opressões, pelo pleno entendimento da natureza humana... Sem culpados e sem inocentes... Almejamos um Estado que assegure liberdade e igualdade – de tratamento-, para que as nossas diferenças se manifestem e sejam acomodadas... Isso decorre do pleno entendimento da natureza humana... E não mais de postulados sociológicos... Como a encomenda de Lenin a Pavlov, "a construção do novo homem", ou a eugenia de Hitler...

Esta é a verdade... Descubra quem somos, quem você é, e seja de propósito... Não viva de ilusões sociológicas, religiosas, psicológicas e febris... Não somos nem bons nem maus selvagens... E o homem civilizado não é nem bom nem mal... Daí advém o preconceito anti-capitalista, anti-ocidental, anti-globalização.... Falácias que vem sendo construídas por um antiga e equivocada noção do comportamento humano... Buscamos a associação, e a vida em sociedade, voluntariamente... Sem demônios... E devemos assegurar o direito de viver nossas diferenças, permitindo a assegurando a troca voluntária e pacífica, e o fluxo contínuo de nossos sistemas políticos e econômicos, a partir do melhoramento contínuo... Somos diferentes, e queremos empreender... Estamos melhorando a vida humana, ou pelo menos ajustando dia a dia, geração a geração, e a partir de parâmetros objetivos: diminuição da mortalidade infantil, aumento da expectativa de vida, maior acesso à saúde, e às fontes de alimento e água... E isso tudo enfrentando a realidade de sermos 7 Bilhões de pessoas... O prazer sem igual de gozar a experiência de viver, seja enfrentando dificuldades, seja celebrando as nossas conquistas, serão plenamente e inequivocamente vividos em nosso cérebro... Os nossos cálculos, a nossa poesia, os anos vividos, os beijos dados, os carinhos recebidos, a emoção sentida...

As ideias de filósofos e pensadores, se capturadas pelo 'zeitgeist' - ambiente - de época, pode perdurar por anos, séculos, milênios... Seus reflexos podem se infiltrar em lugares e questões inimagináveis... William Godwin (1756-1835), um dos fundadores da política liberal, escreveu que "as crianças são uma espécie de matéria-prima posta em nossas mãos", e suas mentes são como "uma folha de papel em branco"... Em tom mais sinistro e cínico, Mao Tsé-Tung justificou sua radical "engenharia social" dizendo que "é numa página em branco que se escrevem os mais belos poemas"... Foram 30 milhões de mortos, corrupção em massa, e tremenda injustiça social em plena fábula socialista... A Doutrina da Tábula Rasa também inspirou a Walt Disney, "imagino a mente da criança como um livro em branco. Durante os primeiros anos de vida, muito será escrito nestas páginas. A qualidade destes escritos afetará profundamente sua vida"... Walt Disney estava equivocado sobre a folha em branco, mas pode ter antecipado os imprintings que a mente recebe em seus primeiros anos, muitas vezes, como desfecho do processo fisiológico...

Locke não podia imaginar que sua ideias inspirariam o Bambi, nem Rousseau poderia imaginar-se co-diretor de Pocahontas, a exemplo mais vivo da Doutrina do Bom selvagem... Rousseau não poderia ter imaginado que estaria representando nas páginas do Boston Globe, de pesamento igualmente puritano, no editorial do Dia de Ação de Graças: "Eu diria que o mundo que os nativos americanos conheciam era bem mais estável, mais feliz e menos bárbaro que a nossa sociedade atual. (...) não havia problemas de emprego, a harmonia era grande, não existia abuso de substâncias tóxicas, o crime quase inexistia. A guerra que havia era grande medida ritualística e raramente resultava em matança em massas e indiscriminada. Embora ocorressem tempos difíceis, a vida, o mais das vezes, era estável e previsível. (...) Pois os nativos respeitavam o que os circundava, não havia perda de água ou recursos alimentícios decorrentes de poluição ou extinção, nem escassez de matéria-prima para os artigos básicos da vida, como cestas, canoas, abrigo ou fogo"...

A Doutrina do Fantasma na Máquina também tem os seus adeptos, como George W. Bush, que em 2001 anunciou que o governo americano não financiaria pesquisas com células-tronco... Esta ignóbil decisão, além da co-produção de Platão, Aristóteles e Descartes, teve a participação de 'filósofos e pensadores religiosos', que 'sabiamente' alicerçaram suas ideias na existência - inequívoca - da alma... Uma questão vital para nós, seres humanos no século XXI, foi decidida com bases nas crenças infantis dos dois últimos dois milênios, do pensamento dominante, que embora tenha se auto-intitulado 'revolucionário' e 'moderno', não passou de um dogma tradicionalista e conservador... O que há de novo no marxismo? O que aportou efetivamente à humanidade além do incremento do repúdio às ditaduras em pele de regime comunitário?

Homens éticos - logo céticos - livres, solidários, pensantes, UNI-VOS!!! Não para tomar o poder, como apregoava o Manifesto Comunista, mas para dar clareza à humanidade, e libertar mais homens, transformando pacificamente a sociedade...

Mas assim caminha a humanidade... So, keep walking...

Carlos Sherman

Fontes de Consulta: Steven Pinker, Duane e Sidney Schultz, Joseph Campbell, Claude Lévi-Strauss, Daniel Dennett, Martin Cohen