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segunda-feira, 27 de maio de 2019

O ABISMO E O AMOR




O ABISMO E O AMOR
Por Carlos Leger Sherman Palmer Junior

Clive Wearing passou para História como um dos casos mais espetaculares de amnésia já registrados, além de figurar no top-five na lista de estudo de casos da também espetacular trajetória profissional e neurocientífica de Oliver Sacks - ele mesmo, um caso “espetacular” da Síndrome de Charles Bonnet. Não bastassem esses atributos “espetaculares”, Clive também protagonizaria uma espetacular estória de amor... que resiste à memória – ou quase isso.
Sacks registraria o caso em um memorável artigo para o The New Yorker, intitulado: O Abismo – Música e Amnésia... ao que agregaria: AMOR. Em março de 1985, Clive Wearing, um eminente músico e musicólogo inglês de quarenta e poucos anos, foi atingido em cheio por uma infecção no cérebro - uma encefalite herpética -, afetando especialmente regiões relacionadas com a memória, e deixando-o subitamente com apenas alguns segundos de memória – sendo assim o caso mais devastador de amnésia já registrado. Novas experiências eram pulverizadas quase que instantaneamente - como sua esposa, Deborah, escreveria em seu livro de “memórias”: "Forever Today" – ou, Para Sempre Hoje (2005)...
De maneira muito peculiar, a sua capacidade de perceber o que havia visto ou ouvido não era prejudicada; mas ele não era capaz de reter qualquer impressão de algo por mais tempo do que um piscar de olhos. Na verdade, se Clive piscasse, suas pálpebras se abririam sempre para revelar um novo filme.  A visão, antes do piscar de olhos era totalmente esquecida. Cada piscada, cada olhar para longe e para trás, trazia-lhe uma situação inteiramente nova.
Podem imaginar a angústia de Clive? Como se sua vida passasse como um filme defeituoso, com problemas de continuidade, o copo meio vazio, depois cheio, o cigarro de repente mais comprido, o cabelo do ator agora despenteado, agora liso. Mas esta era a vida real deste homem, uma sala transmutando em formas, em uma dança que era fisicamente impossível.
Além incapacidade de preservar novas memórias, Clive foi acometido de um tipo amnésia conhecida como retrógrada, com a supressão de praticamente todo o seu passado. Quando foi filmado em 1986 para o documentário também “espetacular” de Jonathan Miller, “Prisioneiro da Consciência”, Clive mostrou uma solidão desesperada, além de medo e perplexidade. Ele estava agudamente, continuamente, agonizantemente consciente de que algo bizarro, algo terrível, estava acontecendo... Sua queixa, constantemente repetida, entretanto, não era de uma memória defeituosa, mas de ser privado - de algum modo misterioso e terrível - de toda e qualquer experiência; em suma, privado da consciência em relação à própria vida - como Deborah descreveria:
Era como se todo momento de vigília fosse o primeiro momento de vigília. Clive estava sob a impressão constante de que acabara de sair da inconsciência porque não tinha nenhuma evidência em sua mente de ter estado acordado antes... "Eu não ouvi nada, ou vi qualquer coisa, ou toquei em algo, ou cheirei qualquer coisa", ele dizia. "É como estar morto."
Mas observem que Clive podia falar, expressar em língua inglesa, bom vocabulário, construções lógicas, e entendimento semântico sobre ouvir, ver, tocar, cheirar... morrer. Os únicos momentos em que se sentia vivo era quando Deborah o visitava. Mas no momento em que ela saia, ele ficava desesperado... e quando ela chagava em casa, dez ou quinze minutos depois, encontrava repetidas mensagens dele em sua secretária eletrônica: “Por favor, venha me ver, querida - faz muito tempo desde que eu vi você. Por favor, voe aqui na velocidade da luz.”
Passaram-se vinte anos antes, e Clive estava mudado pela insistência de Deborah em amar... Nada restava do homem assombrado e em agonia, do filme de Miller, que emergiu para uma figura elegante e borbulhante de vida, no verão de 2005. Clive e Deborah seguiam apaixonados um pelo outro, apesar de sua amnésia. O livro de Deborah tem o subtítulo “Uma memória do amor e da amnésia”. E cada vez que ela chegava, ele a cumprimentava carinhosamente, com extrema dedicação, como se ela sempre acabasse de chegar. Deve ser uma situação extraordinária, enlouquecedora e ao mesmo tempo lisonjeira, ser vista sempre como nova, como única... repetidas vezes, e sempre mais... como um presente, com se Deborah representasse a própria vida.
Certa feita, em visita a Clive, Sacks notou dois volumes de "Quarenta e Oito Prelúdios e Fugas" de Bach em cima do piano e perguntou a Clive se ele tocaria alguma coisa. Ele então alegou nunca haver tocado nenhum deles antes, e começou a tocar o Prelúdio 9 em Mi Maior dizendo: “Eu me lembro deste aqui”. Ele não se lembrava de quase nada a menos que estivesse realmente fazendo aquilo... e então ele pode chegar até lá, até o fundo. Sacks conta ainda que Clive inseriu uma improvisação minúscula e encantadora em algum momento, uma espécie de “final de Chico Marx, com uma enorme escala descendente”. Com sua grande musicalidade e humor, ele podia facilmente improvisar, brincar, tocar qualquer peça musical... até o fim.
[Stanno cercando un gran finale... estou seguro de que me concederam 200 palavras mais para contar esta linda estória!]
Já se passaram vinte e quatro anos desde a doença de Clive e, para ele, nada mudou. Pode-se dizer que ele ainda está em 1985 ou, dada sua amnésia retrógrada, em 1965. De certa forma, ele não está em lugar nenhum; ele abandonou completamente o espaço e o tempo. Ele não tem mais nenhuma narrativa interna; ele não está levando uma vida no sentido que o resto de nós faz. E, no entanto, basta vê-lo no teclado ou com Deborah para sentir que, nessas ocasiões, ele é ele mesmo de novo e totalmente vivo. Não é a lembrança das coisas passadas, “de uma vez”, que Clive anseia ou pode alcançar. É a reivindicação, o preenchimento do presente, o agora, e isso só é possível quando ele está totalmente imerso nos momentos sucessivos de um ato. Sacks escreveria: “É o “agora” que atravessa o abismo.” Deborah escreveria: “a proximidade da música de Clive e seu amor por mim são onde ele transcende a amnésia e encontra a continuidade; não a fusão linear de momento após momento, ou baseada em qualquer estrutura de informação autobiográfica-, mas onde Clive e qualquer um de nós está finalmente onde estamos, e sendo quem somos.”
Sacks faleceu em 2015, deixando um vazio que não poderá ser facilmente preenchido... seja pelo vigor intelectual, seja pela qualidade humana... Deborah e Clive continuam juntos, embalados pela música do amor, que finalmente prova ser capaz de transpor qualquer abismo... tempo, memória...

Carlos Leger Sherman Palmer Junior

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sessão de Terapia





Uma amiga escreveu pedindo apoio para certas questões em sua vida pessoal, e em busca de um rumo... Respondi:

Querida, conte comigo, o meu negócio é servir...

Quando estamos - como você diz - 'sem rumo', tratamos de buscar saídas, e o difícil é encontrá-las... Normalmente pendemos para as saídas fáceis... Lamento dizer que grandes problemas ou grandes questões, exigem saídas elaboradas... Desconfie sempre da verborragia fácil e barata, das "leis do retorno", "você pode", "desperte sua luz interior", e baratos afins... Basicamente, o desespero das saídas fáceis desemboca no mundo mágico - e placebo - da auto-ajuda, ou coisa muito pior... 

O que poderia ser 'muito pior'??? Religiões, espiritismo, astrologia, numerologia, freudismo, junguianismo, e esoterismos correlatos... Para desenvolver a capacidade, e a auto-suficiência para encontrar suas próprias respostas, precisamos de verdadeiro conhecimento -  multi-disciplinar -, experiências, e 'a capacidade de aprender com  as nossas experiências... Mas as pessoas tem mais ou menos dificuldade em aprender com suas próprias experiências... Muitas vezes, é necessário um 'mestre' ou 'mentor', mas é bem difícil cruzar com eles, rsrsrsrsr... 

Outro problema reside na inércia para aprender... O besteirol esotérico é apenas um boa fábula, como a novela das 20:00hs, que pode ser "aprendida" por muitos, pela massa... Mas é difícil indicar uma literatura adequada para quem pretende começar a aprender 'Como a Mente Funciona' - título homônimo da obra do fantástico Psicologia e Neurocientista Steven Pinker... Esta talvez não seja a melhor obra de Pinker para iniciantes... 'Tábula Rasa' pode ser o caminho, mas devo advertir, que apesar de ser uma leitura sensacional e agradável, em nada se parecerá com livros de auto-ajuda - ou deveria dizer auto-engano (?)...

Mas existem outros caminhos para entender o comportamento humano, a Genética é essencial, e nesta particular, um obra se destaca: 'O que nos faz humanos' - Matt Riddley... Se faz mister dizer que tais obras não oferecerão receitas mágicas, imediatistas, fáceis... Tais obra são antes de tudo, conhecimento efetivo, que uma vez absorvido, passará a integrar o seu próprio conjunto de conhecimento, e servirão para analisar as questões de sua vida, na tentativa de elucidá-las e ajudando você a formulas suas próprias respostas... 

Entre Pinker e Riddley, a imperdível obra de Daniel Dennett, 'Quebrando o Encanto', também servirá como fonte inesgotável de conhecimento sobre os porquês do comportamento, assim como promoverá um autêntico choque de realidade... 

'A Dança do Universo' de Marcelo Gleiser, te conduzirá pela deliciosa história do conhecimento humano, contribuindo para a maravilhosa compreensão sobre o seu lugar no Cosmo... Carl Sagan também é uma leitura indispensável, nesta indescritível experiência de habitar verdadeiramente, e pala primeira vez, o seu lugar no Cosmo... 'Bilhões e Bilhões' é a minha sugestão neste caso... Estas duas obras citadas neste parágrafo, foram editadas pela Companhia de Bolso, uma série econômica da Companhia das Letras...

Igualmente editadas pela Companhia de Bolso, estão as obras primas do Neurocientista Oliver Sacks, 'Tio Tungstênio' e 'Um Antropólogo em Marte'... Não se assuste com o título, Sacks é extremamente gostoso e fácil de ler...

O delicioso e esclarecedor livro de Fernando Reinach, 'A Longa Marcha dos Grilos Canibais - e outras crônicas sobre a vida no planeta Terra', é uma coletâneas de textos publicados por Reinach em sua coluna na revista Nature... Infelizmente esta obra-prima não fez alarde na mídia literária, até porque não é um livro para todos... Reinach tangencia em um breve capítulo nesta obra prima, a questão das dificuldades da aprendizagem...

"Gato escaldado tem medo de água fria" é um ditado popular que resume a questão do aprendizado pela dor, trauma, etc... Mas podemos aprender também com estímulos positivos... O Hipocampo, responsável - em grande parte - por nosso processo de memorização, trabalha sob efeito emocional... Emoções extremas, excitação, dor, ou medo, podem conduzir à um processo de memorização mais efetivo de nossas experiências, assim como a indiferença, o desânimo, e a apatia, podem induzir também o nosso Hipocampo pelo desprezo por aquela experiência... 

Aprendemos com as punições e com as recompensas, certo? Nem sempre... Um grupo de cientistas alemães entendeu e quantificou este processo, demonstrando o papel de um gene, um receptor de Dopamina (D2), sobre a nossa capacidade de aprendizado... Os experimentos mostraram que dependendo de uma forma alterada para este gene (D2+A1), os indivíduos não serão capazes de aprender com a mesma facilidade que aqueles que possuem a forma original (D2), mas apenas sob efeito da punição... Em relação ao aprendizado por estimulo, os dois grupos não apresentaram diferenças sensível... 

Desta forma, pudemos demonstrar que uma parcela de nossa população (D2+A1), tem dificuldades para aprender com os seus erros, ou a partir da respectiva punição... Isso é revelador... E pode nos indicar por exemplo, porque códigos morais punitivos, regidos pela experiência negativa - como as Instruções de Shuruppak, Bíblia, Corão -, tem menos eficácia do que as instruções positivas - Tao Te King, ou 'O Livro do Caminho e da sua Virtude', assim como 'A Conquista da Felicidade' de Bertrand Russell -, onde sugerimos como viver melhor, mas não educamos pelo erro ou pela punição...

Na instrução negativa é dito por exemplo "se você fizer isso, será morto por deus, e se ouvirá o ranger de seus dentes"... Na instrução positiva dizemos "faça isso e serás mais feliz, evite isso porque causa a dor"... Esta é a diferença básica entre a tradição sumeriana, reproduzidas nos livros judaico-cristãos-islâmicos, em contraste com a Filosofia Oriental, as ideias Iluministas de do Humanismo Secular...

Sabemos, já há algum tempo, que a Dopamina está relacionada com o nosso comportamento, e o gene em questão (D2), atua sobre os neuroreceptores para a Dopamina, enquanto grande parte da farmacologia associada à depressão, age diretamente na oferta de de Dopamina no cérebro... Todos possuímos duas cópias pare este gene (D2), mas algumas pessoas possuem uma destas cópias ligeiramente alterada (D2+A1), implicando em um número menor de neuroreceptores para a Dopamina no cérebro... Estamos falando de uma pessoas normal e lúcida, mas com uma variante para este gene, assim como possuímos variantes genéticas para a cor da pele,  ou cor do olho... Trata-se de uma variante dentro da normalidade... Embora acarrete certa desvantagem sobre o aprendizado - da mesma maneira que menos pigmentação com a melanina, diminui a nossa proteção UV...

O resultado dos testes surpreendeu a todos... Os voluntários com o gene em sua forma original (D2), foram capazes de evitar cometer erros já cometidos, em 70% dos casos, contra 50% - o que equivale à uma escolha aleatória - dos voluntários com a variante (D2+A1)... 

Vale ressaltar ainda, que estes resultados podem ajudar na compreensão da correlação entre a quantidade de receptores para a Dopamina e a propensão a vícios e obsessões, como o álcool, drogas, jogos e até mesmo a religião... A hipótese mais em voga, sugere que tais indivíduos, em função da maior dificuldade em aprender com seus erros, e experiência negativas, tornam-se mais suscetíveis à estes distúrbios ou vícios, na forma de uma repetição de tais atos... Na verdade, este cenário é um pouco mais complexo, e estamos avançando a passos largos, mas existem outros genes, e outros efeitos sobre o comportamento, que estarão alinhados com o D2, para explicar outras variantes do comportamento humano...

Mas pensem nas implicações morais, jurídicas, psicológicas e educacionais, em demonstrar um incremento genético, sobre a dificuldade de aprender com os seus próprios erros e com a punição...

Finalmente, gostaria de indicar o livro supra-citado de Russell, 'A Conquista da Felicidade'... A Felicidade precisa ser conquistada, e também dependemos de nossa genética para a 'potência desta ação de conquistar', e também na hora de nos sentirmos 'felizes'... A sensação de realização e felicidade, está muito mais relacionada com os nossos neuroreceptores e neurotransmissores do que com nosso entorno... Quem nunca viu uma pessoas sujeita à toda sorte de intempéries, presa à um cadeira de roda, e com outras desvantagens fisiológicas, mas que não para de sorrir... A facilidade em sentir-se feliz, é interior, mas não é sempre uma questão de 'escolha'... Normalmente não é...

Mas, a em nosso processo de auto-conhecimento 'efetivo', real, comportamental, neurofisiológico, bioquímico, podemos descobrir quem somos, e assim sermos de propósito, rsrsrsrsr... Ou efetuar alguns ajustes, estar atentos a alguns detalhes, mas ainda assim seremos quem somos... 

Somos quem somos sem intencionar sê-lo... Mas somos... E respondemos socialmente e legalmente por isso...

Carlos Sherman

Fonte de Pesquisa:  "Genetically determined   differences  in learning from errors", 
Science, vol. 318, p. 1.642, 2007