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quinta-feira, 3 de setembro de 2015
OLIVER - um homem entre homens!!!
"E agora, fraco, falta de ar, meus músculos outrora firmes derretem pelo câncer, acho que meus pensamentos, cada vez mais, não vão ao sobrenatural ou espiritual, mas deitam sobre o que se entende por viver uma vida boa e que valeu à pena - criando um sentimento de paz dentro de si mesmo. Acho que meus pensamentos vagueiam pelo sábado [Sabbath], o dia de descanso, o sétimo dia da semana, e talvez o sétimo dia de sua vida, bem como, quando podemos sentir que o nosso trabalho está feito, e pode-se, em boa consciência, descansar."
Oliver Sacks
(Londres, 9 de julho de 1933 - Nova Iorque, 30 de agosto de 2015)
Du Pré
"A melhor coisa - em qualquer momento - é estar disposto a desistir de quem somos, afim de nos tornar tudo o que podemos ser."
Jacqueline du Pré
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Minha Própria Vida
Minha Própria Vida
Oliver Sacks
19/02/2015
Um mês atrás, eu senti que estava bem de saúde, e até mesmo com uma saúde robusta. Aos 81 anos, eu ainda podia nadar uma milha por dia. Mas minha sorte acabou - algumas semanas atrás descobri que eu tenho múltiplas metástases no fígado. Há nove anos, foi descoberto que eu tinha um tumor raro do olho, um melanoma ocular. A radiação e o o laser para remover o tumor, em última análise, me deixarm cego daquele olho. Mas, apesar de melanomas oculares só produzem metástase em cerca de 50 por cento dos casos, tendo em conta as particularidades de meu próprio caso, a probabilidade era muito menor. Eu estou entre os 2% azarados.
Sinto-me grato por ter sido concedido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado, e apesar de que seu avanço pode ser retardado, este tipo particular de câncer não pode ser interrompido.
Cabe a mim agora de escolher como viver os meses que me restam. Eu tenho que viver da maneira mais rica, mais profunda, mais produtiva que puder. Estou motivado com as palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que ele estava mortalmente doente aos 65 anos, escreveu uma pequena autobiografia em um único dia, em Abril de 1776. Ele intitulou-o "My Own Life" ["Minha Própria Vida"].
"Agora eu me encontro em dissolução rápida", escreveu ele. "Sofri muito pouca dor com a minha desordem; e o que é mais estranho, não obstante o grande declínio da minha pessoa, nunca sofri um abatimento de ânimo em meu estado de espírito. Eu possuo o mesmo ardor de sempre no estudo, e ao mesmo alegria na companhia."
Eu tive sorte o suficiente para viver 80 anos, e, dos 15 anos que são foram atribuídos a mim, para além da pontuação de Hume, cinco foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, eu publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (mais do que as poucas páginas de Hume), a ser publicada na Primavera deste ano; tenho vários outros livros quase concluídos.
Hume continuou: "Eu sou... um homem de disposições leves, de temperamento controlado, de um humor aberto, social, e alegre, capaz de afeto, mas pouco suscetível de inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões."
Aqui eu me aparto de Hume. Embora eu tenha desfrutado relacionamentos amorosos e amizades, e não ter inimizades reais, eu não posso dizer (nem qualquer um que me conheça dirá) que eu sou um homem de disposições leves. Pelo contrário, eu sou um homem de disposições veementes, de entusiasmo intenso, e extrema imoderação em todas as minhas paixões.
E, no entanto, uma linha do ensaio de Hume me parece especialmente verdadeira: "É difícil", escreveu ele, "ser mais desapegado da vida do que estou no presente."
Nos últimos dias, tenho sido capaz de ver a minha vida a partir de uma grande altitude, como uma espécie de paisagem, e com um profundo senso de conexão de todas as suas partes. Isso não significa que eu estou acabando com a vida.
Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero que no tempo que segue possa aprofundar minhas amizades para dizer adeus para aqueles que eu amo, para escrever mais, para viajar, se tiver força, para alcançar novos níveis de compreensão e insight.
Isso implicará audácia, clareza e simples uso da palavra; para tentar endireitar as minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para me divertir (e até mesmo para algumas bobagem).
Isso não é indiferença, mas desapego - eu ainda me importo profundamente sobre o Oriente Médio, sobre o aquecimento global, sobre a crescente desigualdade, mas estes não são mais o meu negócio; eles pertencem ao futuro. Alegro-me quando me encontro com os jovens sobredotados - mesmo aquele que a trabalhou na biópsia que diagnosticou minha metástase. Eu sinto que o futuro está em boas mãos.
Tenho estado cada vez mais consciente, mais ou menos nos últimos 10 anos, das mortes entre os meus contemporâneos. Minha geração está passando, e senti cada morte como um descolamento a rasgar parte de mim. Não haverá ninguém como nós quando se forem, mas, em contrapartida, não há ninguém como qualquer outra pessoa, nunca. Quando as pessoas morrem, elas não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois assim é o destino - o destino genético e neural - de cada ser humano para ser um indivíduo único, para encontrar o seu próprio caminho, para viver sua própria vida, para morrer a sua própria morte.
Eu não posso fingir que eu estou sem medo. Mas o meu sentimento predominante é de gratidão. Eu tenho amado e sido amado; Eu tenho dado muito e dei algo em troca; eu li e viajei, pensei e escrevi. Eu tive uma relação sexual com o mundo, a relação especial de escritores e leitores.
Acima de tudo, eu tenho sido um ser senciente, um animal pensante neste belo planeta, e que, em si, tem sido um enorme privilégio e aventura.
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Correção: 26 de fevereiro de 2015
Por causa de um erro de edição, O ensaio de Oliver Sacks, na última quinta-feira, gerou má interpretação na proporção de casos em que o câncer de olho raro que ele tem - melanoma ocular - produz metástase. Fica em cerca de 50 por cento, e não de 2 por cento, ou "só em casos muito raros." Quando o Dr. Sacks escreveu: "Eu estou no meio do azar de 2 por cento," ele estava se referindo às indicações do seu caso. (A probabilidade de metástases do cancro baseia-se em fatores como o tamanho e as características moleculares do tumor, a idade do paciente e a quantidade de tempo decorrido desde o diagnóstico original.)
Oliver Sacks, professor de neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Nova York, é o autor de muitos livros, incluindo "Tempo de Despertar" e "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu".
Tradução: Carlos Sherman
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Sacks, Oliver Sacks, é um dos maiores homens já viventes... Este gigante notável não somente entendeu o comportamento humano como poucos... Ele foi um humano como poucos... Tive o privilégio de conviver com Sacks através de suas obras e ensinamento... Nosso primeiro encontro foi estonteante: "Um Antropólogo em Marte"... Minha vida jamais seria a mesma...
Enquanto aprendia com Sacks sobre a condição humana - maravilhosamente imperfeitos -, pude sentir o eco das palavras de nosso dileto mentor:
“A vida de um homem não é mais importante para o universo do que a de uma ostra.” - David Hume.
Com Sacks, Sagan, Russell, Hitchens, Hume, aprendi que não passamos de uma convergência diminuta e quase desprezível do universo, na forma de um ser vivo... um ser humano... Com prazo de validade, e a partir do qual voltará ao universo, inteiramente decomposto, atomizado, e sem direito a sursis... Como as ostras.... Então, "pequenos universos", dignifiquem ao menos este dia... E Sacks é o caminho...
Nunca havia dirigido palavras a alguém tão vivo como se já não vivesse... Por que o tempo de Sacks é finito, mais seu legado será imortal... Sua ausência será enormemente sentida, sua altivez uma exemplo a ser seguido, seu amor difícil de ser equiparado...
Carlos Sherman
Sacks - a pérola na ostra....
Sacks, Oliver Sacks, é um dos maiores homens já viventes... Este gigante notável não somente entendeu o comportamento humano como poucos; ele foi um humano como poucos... Tive o privilégio de conviver com Sacks através de suas obras e ensinamento... Nosso primeiro encontro foi estonteante: "Um Antropólogo em Marte"... Minha vida jamais seria a mesma... Mas conferi todas as suas obras...
Enquanto aprendia com Sacks sobre a condição humana - maravilhosamente imperfeitos -, pude sentir o eco das palavras de nosso mentor comum - e dileto:
“A vida de um homem não é mais importante para o universo do que a de uma ostra.” - David Hume.
Com Sacks, Sagan, Russell, Hitchens, Hume, aprendi que não passamos de uma convergência diminuta e quase desprezível do universo, na forma de um ser vivo... um ser humano... Com prazo de validade, e a partir do qual voltará ao universo, inteiramente decomposto, atomizado, e sem direito a sursis... Como as ostras.... Então, "pequenos universos", dignifiquem ao menos este dia... brilhem... E Sacks é o caminho, o exemplo a seguir...
Nunca havia dirigido palavras a alguém tão vivo como se já não vivesse... porque o tempo de Sacks é finito, mais seu legado será imortal... Sua ausência será enormemente sentida, sua altivez uma lição de vida, seu amor difícil de ser equiparado...
Carlos Sherman
quarta-feira, 29 de julho de 2015
segunda-feira, 20 de julho de 2015
domingo, 19 de julho de 2015
A Capciosa Questão do MAL e A "GATA" DE SCHRODINGER...
A Capciosa Questão do Mal...
"É realmente preciso distinguir a força e a beleza das palavras, da força e da evidência das razões." - Malenbranche (‘Procura da Verdade’)
Erwin Schrödinger formulou sua 'Nova Mecânica', ou ‘Mecânica Ondulatória’ – base para o que seria a Mecânica Quântica -, em uma série de seis manuscritos brilhantes, onde entre outros lampejos geniais, compatibilizou seus estudos com os estudos de Heisenberg, e seu famoso 'Princípio da Incerteza'. Este furor criativo, no entanto, teve início durante duas semanas com uma misteriosa amante nos Alpes suíços. Nas palavras do entusiasmado e ‘fofoqueiro’ Heisenberg:
"Erwin convidou 'uma antiga namorada de Viena' para viajar com ele para Arosa, enquanto Annie [sua esposa] ficou em Zurique. Todas as tentativas para revelar a identidade desta mulher até hoje fracassaram [...] Como a sombria dama que inspirou os sonetos de Shakespeare, a dama de Arosa permanecerá para sempre em mistério [...] Seja lá quem foi a fonte de sua inspiração, o aumento nos poderes criativos de Erwin foi dramático. As duas semanas em Arosa marcaram o início de um período de doze meses de criatividade sem paralelo na História da Física."
Acho que Heisenberg queria o telefone da gata. Erwin era muito feio, e não deve ter tido grandes jorros de ‘endorfina’ em sua vida, e o coquetel pode ter sido ainda mais forte, com direito a elevadas doses de ‘serotonina’ e de poderosas ‘dopaminas’ - este é o coquetel do amor... E devo dizer que despertei sob este gratificante efeito, que abre a mente, estimula a criatividade, potencializa a sabedoria, e incrementa a generosidade... Despertei pensando em dar cabo do MAL, e comecei folheando 'Por que não sou cristão' do genial Bertrand Russell; mas preciso agradecer em especial à minha mulher, minha "dama de Arosa" nesta inspirada manhã...
Enquanto conjecturava sobre as inescapáveis vantagem do conhecimento sobre a ignorância, quando a melhor instrução nos conduz a melhores e mais justas decisões, me deparei com a questão cristã do MAL - que passo a enunciar: existem situações adjetivadas como más, em contraste com situações onde denotamos algum bem... Vemos o MAL por aí, seja em um desastre de carro, o fim de um relacionamento, problemas com a saúde, infortúnios de ordem geral, financeiros, profissionais, etc... E denotamos a bonança, a sorte, a bem aventurança... Algumas pessoas parecem assoladas pelo MAL ou por situações más, enquanto outras situações e pessoas parecem ser agraciadas com toda sorte de bendição... Essa é a questão judaico-cristã-islâmica sobre o mal... E devo acentuar ainda que o divisor de águas entre fortuna e infortúnio tem nome e endereço: vós, o deus todo-poderoso que estás no céu!!!
Já nos primeiros séculos da era cristã, a questão do MAL deflagrava importantes reflexões ou dava a ignição em piras funerárias que queimaram o pensamento; afinal deus não parecia discriminar bons e maus em destruições massivas ou infortúnios pessoais... Bons e maus viviam basicamente o mesmo tempo, bons e maus eram ricos, bons e maus eram pobres - com certa predominância de "maus" entre os ricos e abastados... Como explicar isso? Com muita criativa, silogismos, falácias retóricas, e truques pouco éticos... Podemos dizer que Santo Agostinho seria o mais importante "mago" da cristandade, dando nó em pingo d´água, e tentando justificar o injustificável... E com tanta pomba e circunstância que fazia com que sua completa ausência de respostas parecessem um resposta, burilando em circunlóquios, até que o truque pudesse ser engendrado, e "2+2=13" - para o azar da humanidade...
Para Agostinho:
"[...] os seres humanos – em sua concepção - só estão livres para pecar.” ('De Corruptione et Gratia' / 'Da Corrupção e da Graça')
Triste, muito triste. Um falacioso truque de jogar tênis sem rede está no ar: o livre-arbítrio... Se deu certo foi deus, e se deus errado 'fodeu' - "foi o livre-arbítrio"... Mas quem marca os pontos? O herege não está em condições de ver a "divina rede", e assim seguimos como uma dantesca "divina comédia" - embora não seja de fato tão engraçado, mas não poderia desperdiçar o trocadilho...
Lutero e Calvino, outros homens "mono-livro", investidos de muito poder, os algozes do brilhante Servetus, ousaram outro truque: "a predestinação da salvação"... O mundo de Calvino era e é – para os seus devotos e presbíteros seguidores – uma extensão do medonho mundo de culpas, punições e predestinações agostinianas – com alguns séculos de culpas à mais sobre os ombros... Um mundo totalitário, onde uns estão fadados ao inescapável fogo do inferno, enquanto outros estão predestinados à condição coadjuvante da glória de Deus - sem mérito ou demérito, e sem direito a sursis. A sentença está dada, e apenas aguardamos o momento de separar o joio do trigo, as ovelhas das cabras... Não bastam boas ou más ações, e nem mesmo a fé, a "profissão de fé", será capaz de contrariar o projeto de Deus... Tal realidade determinística e determinada estava baseada apenas no solipsismo truculento de Calvino...
O "Calvinismo" sustenta até os nossos dias que o seu Deus já escolheu um grupo de pessoas que serão salvas, sendo que as demais serão irremediavelmente condenadas a arder no inferno... Consequentemente, a pergunta que todo protestante calvinista e presbiteriano se faz é: "Estarei eu entre os escolhidos?" A decisão já está tomada, então “como saber se serei salvo?” É simples, “deus irá atraí-lo”, e será necessário reconhecer e atender ao seu chamado. Mas como saber se tudo isso não é obra da ilusão, delírio ou mesmo alucinações? Como saber, por exemplo, se uma pessoa não atende ao chamado de deus por ser incapaz neurofisiologicamente? Mas, para quem ainda acredita em deuses em nossos dias, falar em ilusões pode parecer redundante ou irônico, mas naquela época foi FATAL.
O terror discriminatório calvinista, disfarçado em nossos dias nas tradições ditas protestantes e de viés presbiteriano, tem a sua apologia ampliada no Brasil e abrangendo instituições de ensino, atuando doutrinariamente desde a delicada educação infantil até o ensino superior - como no caso da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Seguramente a história de Servetus, entre outras atrocidades cometidas in nómine Dei, não são ensinadas em tais instituições, seja na disciplina de História, Filosofia, ou no ‘inconstitucional’ ensino religioso – considerando o currículo do ensino fundamental estabelecido pelo MEC em nosso país sabidamente Laico.
Para concluir, anedoticamente, mas com uma estorinha real que vem do Texas, e que foi extraída da magnífica obra 'Deus não é grande – Como a religião envenena TUDO [grifo meu]', passo a palavra ao ilustre e inesquecível Christopher Hitchens:
"[...] me faz lembrar o governador do Texas, que perguntado se a Bíblia também deveria ser ensinada em espanhol, respondeu que: - Se o inglês era bom o bastante para Jesus, então também é suficientemente bom para mim."
Olhando a partir da vantajosa perspectiva de um homem no século XXI, parece bem claro que o ambiente ‘religioso’, na época em que todas estas 'escalofriantes' estórias tiveram lugar, constituía o único espaço letrado e onde o acesso aos raros exemplares dos raros livros disponíveis era possível e permitido... Muito embora a maioria das obras do passado e do presente, estivessem sob o crivo proibitivo da Igreja medieval, sendo este também um espaço muito vigiado e extremamente censurado... Não devemos nos surpreender, no entanto, que todos estes episódios tenham ocorrido no ceio da própria religião, e em particular no seio do Cristianismo Medieval... A eterna luta pelo poder, perpetrada por uns, e a insistência em endereçar a verdade, impulsionada por outros, foi trasladada para o ambiente eclesiástico... Enquanto uns lutavam pelo poder, outros renasciam em lívido conhecimento... Estes últimos, e que fustigaram a verdade, cultivando a integridade de seus nobres intelectos, não se dispuseram ao controle do poder, e ao contrário... Mas eles estavam no caminho daqueles que, famintos, sonhavam com o júbilo da autoridade em doses cada vez mais altas...
Em mais um hilariante episódio do seriado 'The BIG BANG Theory', o protagonista - Sheldon -, conjecturando sobre a existência de deuses, dispara algo mais ou menos assim:
"Deus prometeu acabar com o mal, e ainda vemos o mal por toda parte - principalmente na bíblia [grifo meu]... Mas THOR prometeu acabar com os gigantes de gelo, e já não vemos gigantes de gelo por aí; de forma que Thor está fazendo um bom trabalho."
Isso está posta aqui, para antecipar o argumento da contextualização; ou seja: ‘Naquele contexto a ideia de Thor derrotando os Gigantes de Gelo, ou da criação conforme o Gênesis, era aceitável’... Devo rebater esta falaciosa alegação com uma paráfrase de Umberto Eco; afinal:
"Se a rendição à ignorância, chamando-a de Deus, foi prematura, devemos notar que continua sendo prematura até hoje."
Essa também, é a inescapável questão, que o dramaturgo grego Aristófanes (447-385 AEC) nos coloca, com requintes de sarcasmo e humor, em sua magistral peça ‘As Nuvens’ (423 AEC)... Segundo Aristófanes - que mais se assemelhava à um cientista do que um dramaturgo:
“Quem pode girar todas as esferas estreladas e soprar sobre toda a terra o calor frutífero de cima, estar a postos em todos os lugares e todo o tempo, reunir nuvens negras e sacudir o céu plácido com terrível trovão, arremessar raios que muitas vezes destroem seus próprios santuários, se enfurecer no deserto, recuando para exercitar a pontaria, de modo que seus dardos possam errar o culpado e matar o inocente?”
Quem? O cérebro humano, inexato, complexo, em processo evolutivo, e incrivelmente sujeito à ilusões, delírios, e alucinações. e aos conhecidos e diversos ‘Desvios Cognitivos de Confirmação’...
Sucede que o jornaslita, autor e pensador, Christopher Hitchens (1949-2011) – e que ‘deus’, a pedido dele, ‘NÃO o tenha’ - andava pelo Sri Lanka em uma expedição de ajuda humanitária, em uma área povoada quase que exclusivamente por seguidores do mega-picareta, e também já falecido, Sai Baba... Só ‘babando’ mesmo para seguir este charlatão de segunda, e cuja seita continua viva até os nossos dias, com facções no Brasil, e ativa propaganda nas redes sociais – vide Prem Baba, além de outros mega salafrários...
Este marginal – Sai Baba - perpetrava o truque circense e mal executado de cuspir bolas de ouro; mas precisava pilhar a população miserável do sul da Índia e do Sri Lanka... E sabemos que para um ‘mago’ chegar ao estrelato basta uma plateia crédula - e na Índia a credulidade é estimulada no berço...
Hitchens viajava em uma van repleta de seguidores ‘babenses’, e que haviam iniciado a viagem com um cerimonial de quebra de cocos, para garantir a proteção espiritual de Sai Baba... Mas não deu certo, afinal o motorista que conduzia freneticamente pelo nevoeiro terminou atropelando um motociclista... E lá estava o corpo estendido no chão, a quizumba formada, quando a polícia chegou distribuindo bordoadas e prendendo "o motorista de deus"... Hitchens então interveio, preocupado em permanecer ali, no meio do nada; afinal, possuía credenciais como jornalista, e trajava o seu inconfundível terno branco, além do sotaque inglês, sem considerar que, em meio à ignorância reinante, ele seguramente era o mamífero mais articulado do pedaço... E assim sendo, os policiais liberaram a van para seguir viagem...
Enquanto Hitchens convencia os policiais, o organizador da excursão telefonou aos assessores de Sai Baba, que lhe garantiram que o espírito do próprio reverendo havia estado entre eles, na figura do tal ‘inglês’... Um inglês ateu e um ferronho denunciante de Sai Baba...
Pois bem, o homem atropelado morreu... E faço das reflexões de Hitchens minhas reflexões, quando penso que: não teria sido melhor que o espírito de Sai Baba tivesse atuado sobre o motorista e evitado o acidente? Este estado torpe de cegueira lógica, é conhecido pela Psicologia como Desvio de Confirmação, um atributo indissolúvel da Biologia da Crença... Certas pessoas, biologicamente, estão mais inclinadas do que outras para encontrar falsos padrões, ou falsos positivos, onde na verdade só existe aleatoriedade... Mesmo quando estão treinadas pela Probabilidade e Estatística, ainda assim tenderão a associar eventos que não estão associados; muito embora recomendo que a educação fundamental aprofunde os conhecimentos nesta áreas, sob pena de aprofundar o problema das crenças...
Um amigo, doutor desta disciplina, correlacionou o desfecho de uma crise de epilepsia, protagonizada por seu vizinho, como resultante direto e inequívoco de suas ‘orações’... O problema não está no desconhecimento sobre as leis que regem a estatística, mas sim sobre a fisiologia da epilepsia, sua sintomatologia, causas e consequências... Um bom grau de instrução é sempre melhor do que a ignorância sobre qualquer tema...
Mas, sobretudo, tal comportamento decorre da afinidade por "crer", em detrimento de "esperar para saber"... A supremacia do "saber que", em detrimento do "saber como":
“As mesmas elevadas faculdades mentais que a princípio levaram o homem a acreditar em agentes espirituais invisíveis, depois no fetichismo, politeísmo e, por fim, no monoteísmo, iriam levá-lo de qualquer forma, à medida que o seu poder de raciocínio permanecesse pouco desenvolvido, a várias superstições e costumes estranhos.” - Charles Darwin
Existem infortúnios naturais, outros são creditados aos homens e seu livre-arbítrio para pecar, enquanto outros são tidos como "sobrenaturais" - ou seja, comandados por deus ou por deuses... Mas não podemos dizer que as grandes catástrofes foram causadas pelo livre-arbítrio, como explosões vulcânicas, terremotos, maremotos, tufões, tornados, furacões, etc... A menos que bilhões de pessoas começassem a pular sobre uma determinada placa tectônica com o objetivo de movê-la, ou começassem a soprar forte para provocar uma tempestade... e sabemos que tudo isso é ridículo...
Então onde estaria o livre-arbítrio nas grandes catástrofes? Bom, poderíamos dizer que deus está punido o MAL, punindo homens maus, mas as grandes catástrofes não distinguem bons, maus, cristãos, hereges, idosos, inválidos, crianças, bebês... E por que as igrejas teriam que usar para-raios e fazer seguro contra incêndios, se o bom deus controla os fenômenos naturais - já que os criou, e criou todas as leis que governam o universo? Seria imoral fazer com que bons pagassem junto com os maus, e a lógica agostiniana ou calvinista estaria em cheque... Finalmente, qual seria a vantagem de crer em um deus que não demonstra claramente seus critérios?
Epicuro de Samos (341-271 AEC) - o primeiro grande naturalista -, especulou sobre o tema:
"Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer, que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então existência dos males? Por que razão é que não os impede?"
E se somos obrigados, por força dos argumentos e evidências a reconhecer que existem catástrofes naturais que evocam resultados maléficos, poderíamos também supor que muito do MAL atribuído ao homem pode vir de deus, ou mesmo ser interpretado como fenômeno natural... Deus, o seu deus, reclama a primazia sobre o bem e o mal:
"Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas." - Isaías [45:7]"
Este seria um deus imoral, mal, e sem espaço para a misericórdia, compaixão e amor... Este deus destrona Agostinho, e mais se assemelha ao patético deus de Calvino, que tem as cartas todas marcadas, tratando-nos como meras marionetes... E para quê? E por que os escolhidos deste sádico deveriam se vangloriar, e por que os não escolhidos deveriam se envergonhar, se nunca tiveram a opção de escolher que papel jogar?
Então invariavelmente retornamos à naturalidade dos fenômenos, e poderíamos invocar a seguinte proposição: bem e mal podem ser universais naturais e relativos... Naturais, já que nenhum deus joga com o destino do Universo, e simplesmente, desde de sinapses a fenômenos geológicos, tudo é natural, obedecendo a processos complexos, multivariáveis, estatísticos, caóticos, conferindo a falsa ideia de livre-arbítrio... E de fato este é o entendimento hodiernos...
SOMOS QUEM SOMOS SEM INTENCIONAR SÊ-LO... MAS SOMOS, E RESPONDEREMOS - DENTRO DOS ACORDOS SOCIAIS - POR NOSSOS ATOS... RESPONSÁVEIS SIM, CULPADOS NÃO...
Bem e mal, por outro lado, podem ser relativizados... Por exemplo: a anemia falciforme é um infortúnio; mas não em uma região endêmica da malária - onde a hemácia em forma de foice literalmente empala o vírus causador da doença... O mesmo vale para a fibrose cística no caso de regiões endêmicas da cólera, como a Índia... Provas concretas da seleção natural...
Bem e mal podem ser relativizados e dinamizados, assim como fortuna e infortúnio... E o divisor de águas já não serão os deuses e sim o conhecimento...
Q.E.D.
Carlos Sherman
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