Pesquisar este blog

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

COMUNICAÇÃO, LIDERANÇA, EMPREENDEDORISMO... e alguns VESPEIROS



CARLOS LEGER SHERMAN PALMER JUNIOR

Por ocasião de um trabalho de pós-graduação, respondi às seguintes questões:


Comunicação e liderança: por que elas devem caminhar juntas?

Antes de encarar a questão, devo pontuar que considero o conteúdo das unidades 1 e 2, versando respectivamente sobre Liderança e Comunicação, superficial e carente do necessário embasamento neuropsicológico. A liderança é tratada com base senso comum, e no lugar comum dos discursos da autoajuda - hoje rebatizados por “coaching” e “mentoring”; onde qualquer um pode se tornar um líder, ou um orador “inato”. Podemos ensinar técnica de liderança, mas não poderemos forjar um líder... ou “o líder do bando”.

ALGUNS VESPEIROS

A Neuropsicologia, ou Ciência Psicológica (Gazzaniga & Heatherton; 2007), é fundada precisamente para alçar o estudo do comportamento humano à condição de Ciência; cuja abordagem cumulativa de conhecimento dependerá de metodologia clara, com teorias devidamente comprovadas – ou “Método Dedutivo Baseado em Prova” (Popper; 2008). Este era o sonho de William James – há quase um século:
"Ao tratar a psicologia como uma ciência natural, quis ajuda-la a se tornar uma delas."
Mas isso nunca aconteceu... até agora, até o surgimento da Neuropsicologia. A Ciência Psicológica, portanto, não deriva da Psicologia (Pinker; 2007) (Gazzaniga & Heatherton; 2007) (Damásio; 2011), assim como a Química não deriva da Alquimia – sendo ainda, não raro, matérias antagonistas.

O eminente psicólogo Michael Gazzaniga, um dos fundadores da Neurociência, trabalhou diretamente com eminente “biólogo" Roger Sperry, ganhador do Nobel de Fisiologia e Medicina em 1981 por suas descobertas sobre a especialização funcional dos hemisférios cerebrais – especialmente no lobo frontal. Gazzaniga declarou peremptoriamente:
"A psicologia propriamente dita está morta. Ou, dito de outro modo, a psicologia vive uma situação curiosa. A minha universidade, Dartmouth, está construindo um magnífico edifício para a psicologia. Contudo, os seus cinco pisos repartem-se da seguinte forma: a cave destina-se por inteiro à neurociência, o piso térreo alberga as salas de aula e os gabinetes administrativos, o primeiro andar dedica-se à psicologia social, o segundo à ciência cognitiva e o terceiro à neurociência cognitiva. Vai lá saber porque é que lhe chamam de edifício da psicologia."
A resposta à esta intrigante questão seria dada por ele mesmo, no fabuloso marco da Neuropsicologia, que ajudou a escrever: CIÊNCIA PSICOLÓGICA – Mente, Cérebro e Comportamento (2007). Mundo afora, e principalmente nas melhores universidades americanas de Psicologia, como Harvard, Yale, Universidade da Califórnia em Davis, no SAGE em Santa Bárbara, Darthmouth, no Instituto de Neurociência do MIT etc., as grades curriculares do entendimento sobre a condição humana destacam palavras como “cérebro”, “genética”, “biologia social”, “evolução”, “cognição”... totalmente ausentes em qualquer curso de Psicologia brasileiro. Então, quando nos referimos à psicologia nos Estados Unidos ou na Europa – à exceção da França, “catequizada” pela “freudista” Elisabeth Roudinesco -, estamos na verdade endereçando a Neuropsicologia; fundamentada principalmente na Neurociência Cognitiva, Genética Comportamental, Biologia e/ou Psicologia Social e Evolucionária.

Na aula inaugural de Introdução à Psicologia em Yale, Paul Bloom esclarece – quando interpelado sobre “Freud” – um perigoso embusteiro:
"Vocês não encontrarão Freud no curso de Psicologia desta universidade, e já faz algum tempo. Talvez encontrem Freud na Sociologia, Filosofia ou Literatura."
Áreas correlatas, e dedicadas à ficção...

“ZIP Code or Genetic Code?” (“CEP - Código Postal ou Código Genético?”); esse é o provocador título da matéria da Harvard Gazette, mídia oficial de notícias da Universidade de Harvard, sobre o mais extenso e preciso estudo já realizado envolvendo gêmeos... Steven Pinker, professor emérito de Psicologia na mesma universidade, nos conta o resultado:
"[...] revela que as funções cognitivas são as que têm maior probabilidade de sofrerem influências genéticas (4/5) e as menos prováveis de sofrerem influência ambiental compartilhada (2/5)."
Por exemplo, a hierarquia ou “pirâmide” de Maslow é algo inteiramente ultrapassado, e sem qualquer fundamentação, senão pelo arbítrio de seu criador. Notem, por exemplo, a sua completa inutilidade quando conceituamos a importante e predominante herança genética. Falta também a perspectiva evolutiva; já que a hierarquia de “necessidades” parece inteiramente desconectada do processo evolutivo que a produziu. Depois, o conceito de hierarquia não foi totalmente desenvolvido, não explicando a interação entre os “níveis”, e sem levar em conta os flagrantes exemplos que violam de seu sistema “hidráulico” de classificação de “necessidades” (Cory; 1974) (Coming; 1983) (Maddi; 1989) (Smith; 1991).

Maslow e sua “pirâmide colorida” também receberam pesadas críticas por sugerir que a conquista material e sucesso são resultado inconteste do desenvolvimento humano (Yankelovich; 1981); com isso, tende a ignorar ou diminuir as grandes realizações intelectuais, morais e de serviço à humanidade, e que não estiveram centradas em resultados materiais ou exposição midiática à fama (Maddi; 1989). A hierarquia de Maslow, com seu foco quase exclusivo no indivíduo, denota pouca ou nenhuma percepção sobre a dinâmica da interação social – que nos caracteriza como humanos, troppo umanos. Este tipo de abordagem e suas emendas, nunca se tornaram de fato uma importante referência para o estudo da socialização humana, ou no campo das teorias políticas (Zigler & Child; 1973) (Knutson; 1972) (Davies; 1963), o que dirá uma abordagem séria sobre o comportamento.

Estamos aqui falando em Maslow em 2019, enquanto um editorial do New York Times publica o obituário Judith Harris – que se despediu de nós em 30 de Dezembro de 2018, aos 80 anos. Estudem Harris, estudem The Nurture Assumption, o livro que mudaria o entendimento sobre a personalidade e a relação entre pais e filhos – base para a Neuropsicologia... esqueçam Maslow et alia.

Harris foi dispensada do doutorado de Harvard pelo “famoso psicólogo” George Miller, então diretor do departamento, e tratada como uma reles “dona de casa”; para depois sacudir para sempre os dogmas do psicologismo. Harris deu a volta por cima, trabalhou como investigadora independente, e enfrentou uma grave doença degenerativa, para receber das mãos de Steven Pinker a maior honraria na psicologia: o prêmio – pasmem vocês – George Miller.


LIDERANÇA e COMUNICAÇÃO

Uma abordagem Neuropsicológica da Comunicação precisa levar em conta os aspectos neurais da fala e da linguagem, a natureza evolutiva da das expressões corporais e de dominância, o ToM – ou Theory of Mind -, a capacidade humana de imaginar o que o outro está pensando sobre o que estamos dizendo, além de muitas multiplicações deste tipo de interação... ou: “o que será que ela acha que eu acho, sobre o que ele disse?”...

Além das questões básicas de comunicação, emissor, receptor, envelopamento, mensagem, meio... é fundamental aprofundar a questão na semântica, gramática, construção lógica e conteúdo – ou CONHECIMENTO. Sobretudo quando o assunto é liderança, e aqui centrado na liderança profissional.

Steven Pinker adverte sobre o que considera o principal problema na comunicação em um ambiente profissional – mas que pode ser estendido para a vida:
"Quando você [realmente – grifo meu] sabe alguma coisa, é muito difícil saber como é não saber."
Um problema ordinário de empatia, ou a qualidade de colocar-se no lugar do outro... mas existe um degrau a mais: a capacidade de se colocar no lugar do outro pensando como o outro! E esse é o maior problema da comunicação relacionada à liderança, já que, por um lado, e supostamente, um líder deve possuir mais conhecimento em diferentes abordagens da realidade; enquanto, por outro, e quando nos referimos à questões muito específicas ou detalhadas, e ninguém sabe tudo sobre tudo, o líder precisará promover uma comunicação reversa, ou seja, ajudar o interlocutor a comunicar-se adequadamente.

Nas Unidades 1 e 2 não estamos abordando a questão mais importante – profundamente desprezada por Rogers - por exemplo: o CONHECIMENTO sobre o que pretendemos comunicar, a construção LÓGICA e GRAMATICAL da sentença, suas PREMISSAS, além da PERTINÊNCIA e UTILIDADE de sua conclusão.

A comunicação verbal é fundamentalmente uma ação, e toda ação nos leva a algum objetivo. Mesmo a introspecção, o pensamento, é – lato sensu - uma espécie de comunicação interior (Pinker; 2007). Elkhonon Goldberg, que estudou com o eminente psicólogo soviético Luria, divide o seu tempo entre as atividades de neuropsicologia clínica, docência, e pesquisas de ponta sobre as atividades do que batizou como “cérebro executivo” (Goldberg; 2002) - ou “interprete” (Gazzaniga; 2000); este é o sujeito dentro de nós... e vive no córtex frontal, normalmente do lado esquerdo. Aí também reside o líder em nós, o Diretor Executivo em nós...

Mas para exercer a liderança exterior será necessário muito mais do que isso, muito embora as respostas ainda estejam no cérebro, resultado da Genética Comportamental, e suas artimanhas Evolutivas... Talvez devêssemos chamar o “líder do bando” de “chefe do bando”, em função de sua insuspeita tirania. Estima-se que 25% dos CEOs estejam dentro do espectro de caraterização do psicopata, e esse número pode chegar a mais de 70% nos círculos políticos. Sendo assim, a tradução de Chief estaria então muito adequada em ¼ dos casos...

Finalmente, o psicopata, ou sua designação corporativa de sociopata, segue a máxima popular de “manter a cabeça fria” – ipisis litteris. O sociopata evolutivo (Goldberg; 2002) adapta o seu aparato comportamental para o poder - egocentrado, implacável, sem remorsos, nem escrúpulos, escalando com vantagens insuspeitas o cume das esferas públicas e privadas.

Suspeito que o aparente sucesso dos psicopatas se deve a um ajuste evolutivo em direção ao egoísmo, e em função de deficiências em termos de sensibilidade emocional ou empatia. O altruísmo heroico se opõe ao psicopata pela mesma linha de raciocínio, e provavelmente em função da elevada sensibilidade ao sofrimento alheio. Neste sentido, o equilíbrio natural, ou homeostase, seria obtido pela adoção de medidas que culminem com o bem comum... O neurocientista António Damásio tem as mesmas preocupações em mente em A Estranha Ordem das Coisas:
"A cooperação evolui como gêmea da competição, e isso ajudou a selecionar os organismos que mostraram as estrategias mais produtivas."
Mas existem impeditivos igualmente evolutivos para esta linha de análise, já que evoluímos para viver em clãs de 150 ou 200 pessoas, e não em megalópolis de 200.000, 2.000.0000, 20.000.000... Não seria o sucesso evolutivo dos psicopatas uma resposta à superpopulação? Ou seria exatamente o contrário? O altruísmo é jovem, e vem no encalço da densidade demográfica? Sustento que sim, e apesar de nos tornarmos mais agressivos com a densidade, também passamos a desenvolver estratégias mais bem sucedidas para a mitigação da violência.

O Batman, do imaginário popular, pratica o altruísmo, em busca do bem comum... apesar de milionário. Enquanto seus algozes, Coringa, Charada, Pinguim, almejam apenas poder, e bonança pessoal... apesar de miseráveis. Esses contos substituem as tragédias gregas... São dramas heroicos, onde acreditamos possuir mais controle sobre o destino de tudo... Sem notar, no entanto, que o supremo poder, ainda sim desprezível diante da Entropia, é o CONHECIMENTO.

E o altruísmo pode ser ensinado... Muito embora não possamos garantir que será aprendido ou praticado. E uma questão salta diante de todas: Por quê desejamos liderar? Pelo bem individual? Então seria chefia, e não liderança... Pelo bem comum? Então precisamos saber se estamos em condições de receber a tarefa. Por que empreender? Como viver melhor? Como ajudar a diminuir o sofrimento humano? Pensem nisso...

Retomando o ponto, a liderança, ortogonal à chefia, declara que “nós vamos”, ao invés de “você vai”; para finalmente elogiar que “nós conseguimos”, em lugar de “eu consegui”. O líder nato ou inato percebe que o sucesso do grupo é benéfico a ele também, e entende que chefiar um bando, ao invés de liderar, pode ser bem perigoso. Mas existem cenários onde a necessidade de chefia pelo medo se impõe à qualquer argumento em favor do idealismo de liderar... Isso diferencia ambientes pacificados e judicializados, da selva, ou da periferia, e daqueles cenários à margem da Justiça.

A Unidade 1 induz exercícios agradáveis e que revelam um pouco sobre as nossas tendências de personalidade. Também aponta – de forma leve – para uma série de boas práticas em liderança, e que naturalmente podem ser ensinadas e exemplificadas. Mas não podemos forjar um líder. Podemos melhorar um líder, ou ajudar aquele que não nasceu líder a liderar... sendo essas, sutis, mas fulcrais diferenças.

Por exemplo, uma personalidade dependente (DPD - Dependent Personality Disorder) NÃO PODE decidir. Existem personalidade neuróticas, narcisistas, autodestrutivas, sádicas, masoquistas, inseguras - patologicamente... e que jamais serão líderes... e não devem ser estimuladas a liderar. Aliás, a natureza parece subtrair os traits de liderança nestes casos... em função do risco... à exceção dos psicopatas, que ainda assim não lideram, mas chefiam.

Damásio, em a Estranha Ordem das Coisas,

Nas palavras de Jacqueline Du Pré:
"A primeira responsabilidade de um líder é definir a realidade. A última é agradecer. Entre esses dois extremos o líder deve servir."
Se este aforismo lhe diz alguma coisa, note quantos traços marcantes de personalidade serão necessários para desempenhar bem esse papel de regente de um grupo harmonioso - homeostático... aqui descrito de forma tão genial e singela.

[Escrevi um importante trabalho sobre liderança e regência... mas seria muito longo para este espaço. Desde já, ficarei feliz em enviar a quem possa interessar.]

Kaoru Ishikawa fez parte de uma verdadeira revolução no Japão pós-guerra, e influenciou mais de uma geração de empreendedores... Kaoru bem definiu o conceito de Círculo de Qualidade, e mais tarde esquadrinhou o engenhoso e simples Diagrama de Causa-e-Efeito - também conhecido como Diagrama de Ishikawa ou Diagrama de Peixe. Essa foi, sem dúvida, a maior contribuição desse mestre, fornecendo uma metodologia poderosa e segura, usada também por pessoas não-especializadas, para analisar e resolver todo tipo de problema. Sobre liderança e empreendedorismo, ele declarou:
"Na gestão, a primeira preocupação da empresa deve ser a felicidade das pessoas que estão ligadas a ela. Se as pessoas não se sentem felizes e não podem ser felizes, essa empresa não merece existir." 
Existem muitos testes para avaliar o espectro da psicopatologia – e.g., Psychopathy Checklistrevised (PCL-R) -, mas não existem dúvidas sobre a natureza genética do transtorno, nem sobre o fato que que não haverá cura. Por outro lado, não seria o psicopata um tremendo sobrevivente? Alguém que mantém a frieza diante do caos... narcisista, egoísta, calculista... dominante?

O paradoxo, afinal, sendo essa a proposta do meu trabalho na área de GRC, decorre do fato de que: (P1) os psicopatas focam em grandes organizações, (P2) e sabemos que de fato os mega-CEOs, ou super-treinadores esportivos em equipes repletas de talentos, não têm influência significativa no resultado do “jogo” (Mlodinow; 2008) (Lewis; 2013)... CEOs muito bem pagos por mega-organizações não serão capazes de influir no resultado de suas empresas - mas podem detoná-las... Grandes estruturas administrativas, com dezenas de milhares de empregados, têm os seus resultados definidos pelo convívio com a entropia, como o caminhar de um trôpego, e que não pode ser de forma alguma ordenado por um superman... Então, (S) o paradoxal é que a liderança tem muito mais impacto em grupos ou empresas pequenas, como pequenos clãs, e onde um homem ainda pode fazer a diferença. E essas empresas não precisam de fato de grandes heróis. Neste sentido sim podemos ensinar a liderança a pequenos empreendedores, que um dia poderão evoluir a médios e grandes negócios.

Vivemos a Era da Transparência, como destaca Daniel C. Dennett, Professor Emérito de Filosofia e Codiretor do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Tufts, durante um famoso discurso para calouros da turma de 2017. Precisamos sim de transparência e conformidade com as regras do jogo, e daí decorre todo o debate sobre Compliance, Risk and Governance. Afinal, hoje sabemos, convivemos com psicopatas e afins...

Este é um excelente ponto final em minha contribuição ao tema, mas preciso deixar mais algumas ressalvas para o que virá – Tarefas 3, Unidades 3 e 4: (P1) nem todos devem se aventurar na sina dos empreendimentos, e ao contrário. Muitos de nós, a esmagadora maioria de nós, será muito mais feliz sendo conduzida, guiada, liderada, de forma segura e protegida, do que encarando as vicissitudes de empreender, lutar por um lugar ao Sol, e liderar... Não é correto dizer às pessoas que podem empreender e liderar, sem maiores ressalvas; (P2) Sobre Ética, precisaremos encarar o Dilema do Pacifista – suas rubricas evolutiva, genética e neurocientífica.

P.S.: Finalmente, com tantos pensadores ilustres, com tanto conhecimento disponível, consagrado, é muito difícil "aprender" alguma coisa com opinólogos profissionais como Clovis de Barros, Cortella e Karnal... Decepcionante!!! Tenho denunciado a baixa qualidade do debate promovido por esse senhores, e seguirei denunciando.



Como você vivencia essa experiência integrativa no seu ambiente de trabalho?

 Fundei e dirigi empresas, gerenciei grandes projetos, trabalhei em 23 países, dirigindo pessoas muito diferentes em termos culturais, mas troppo umanos. Atuo como investigador acadêmico independente na área Neurocientífica, e com profundo interesse em traits de personalidade e transtornos. Escrevi livros sobre Ética, Comunicação, Liderança, e hoje estou preparando um curso sobre o assunto, envolvendo ainda GRC – Compliance, Risk, Governance. Considero a abordagem escolhida revolucionária e consciliente.

A abordagem do assunto é inteiramente nova para os padrões brasileiros, mas está consonante com o conhecimento disponível no exterior, e nos grandes centros de investigação, como Harvard, MIT, sobre “o que nos torna humanos” (Ridley; 2008). Trabalho com a Neurociência Cognitiva, Genética Comportamental, Biologia Social e Evolutiva... e não vendo ilusões. Assim que esse debate tem tudo a ver com minha vida em muitos sentidos, como empresário, consultor, pensador, investigador acadêmico, escritor e palestrante.



A comunicação tem sido efetiva - transmissão <-> compreensão?

Acredito que sim. E o “x” da questão, como ressaltei antes, é o entendimento sobre a necessidade de clareza na “construção” da mensagem, parte gramatical, lógica e conteúdo. E a integridade intelectual... E falta abordar prioritariamente essa questão: A utilidade da mensagem e da comunicação é essencial. As premissas, sentenças, e respectivas conclusões, devem “endereçar a verdade” (Sherman; 2015). Além do protocolo, a mensagem deve estar bem construída e o tema deve ser bem conhecido. Para finalmente encarar o “problema do conhecimento” – ou “da falta de”... Onde um dos interlocutores não dispõe de estrutura prévia capaz de aproveitar a mensagem que está sendo transmitida. Esse também é um problema do Hipocampo, já que o registro de todo aprendizado, sabemos, depende da atividade desta área do sistema límbico, e que opera sob estimulo de neurotransmissores. Ou seja, registramos mais quando estamos excitados, e nos excitamos mais quando estamos familiarizados com o assunto, ou “impressionados”...

Em sentido muito amplo, defendo que vivemos contra a Entropia – Segunda Lei da Termodinâmica, e Primeira Lei da Neurociência. (Pinker; 2018) Jogamos contra uma sorte deletéria, mecânica e biológica, implacável em termos probabilísticos, de forma que tratamos de aprimorar a previsibilidade pelo conhecimento. Daí o comportamento, daí nosso destino... daí a comunicação, liderança, e todo o resto. Portanto... Entendamos a Entropia, a Genética e a Informação. Esse é o Jogo da Vida.



Carlos Leger Sherman Palmer Jr

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A VERDADEIRA ESTÓRIA - OU HISTÓRIA - DO NATAL !!!


O Natal é um bom momento para profundas reflexões...




Nicola de Patara

Santa Claus, Father Christmas, Sinterklaas, Papai Noel, Papá Noel, Baboo Natale, Pere Noel… Muitos são os nomes que recebe este personagem bonachão, terno, e protetor, que percorre o planeta distribuindo presentes para as criancinhas, na Noite de Natal...

Mas o único e verdadeiro Papai Noel de carne e osso de que se tem notícia viveu no século IV da era cristã e nasceu em Patara, Vale de Lycia, Asia Menor - hoje Turquia... Chamava-se Nicola (270 - 343) e foi uma das figuras mais veneradas por diferentes agremiações cristãs durante toda Idade Média, tanto no Oriente quanto no Ocidente... Um pop-star eclesiástico!!!

Católicos, Anglicanos, Batistas, Ortodoxos, Luteranos, Metodistas, Reformados etc... cultuam até hoje essa unanimidade entre as divindades... Sua figura cresceu a tal ponto que ele foi convertido em santo e patrono emérito de países como a Grécia, Rússia, Noruega, entre outras tantas cidades mundo afora... Ele também é o santo padroeiro das crianças, coroinhas, estudantes, arqueiros, marinheiros, pescadores, comerciantes e mercadores, radialistas, farmacêuticos... dos ladrões arrependidos, guardas noturnos, tanoeiros e cervejeiros... e também dos agiotas - em geral...


A Lenda do Bispo de Myra

Nicola nasceu em uma família abastada de comerciantes cristãos; mas, quando os seus pais morreram durante a avassaladora pandemia da Peste Negra, comovido com a tragédia, distribuiu sua herança ao povo assustado que havia sobrevivido à catástrofe - responsável por vitimar mais de um terço de toda a população da Eurásia... Nicola seguiu então para Myra, na Turquia, à procura de seu tio, o bispo do povoado...

Aqui deixamos a História para vagar pelo imaginário popular das lendas; e segundo as quais, em função da coincidente morte de seu tio, os sacerdotes da região, não encontrando um acordo sobre quem seria o seu sucessor, decidiram eleger o primeiro cristão que pusesse os pés na igreja... E assim, Nicola se converteria no Bispo de Myra...


Nicola de Bari

De volta à história, sabemos que por toda a Europa ergueram-se templos em seu louvor... Sob as ordens de Teodósio II, a Igreja de São Nicolau seria construída no mesmo local onde Nicola havia servido como bispo, em Myra; e os seus restos mortais foram então transferidos para um sarcófago na edificação... Em 1087, no entanto, quando o Império Bizantino perdeu temporariamente o controle da região para os turcos seljúcidas, um grupo de comerciantes da cidade italiana de Bari surrupiou os principais ossos do esqueleto de Nicola de seu sarcófago original, e trazendo-os à Bari, onde permanecem até hoje, sepultados na consagrada Basílica di San Nicola. 

Durante a Primeira Cruzada, os fragmentos ósseos remanescentes no sarcófago em Myra foram mais uma vez saqueados, e desta vez por marinheiros venezianos, e levados naturalmente para Veneza... "Dizem" que as suas relíquias em Bari exsudam uma substância aquosa miraculosa conhecida como "maná" ou "mirra", que os fieis acreditam possuir poderes sobrenaturais... 

Experimentos científicos refutam terminantemente essa hipótese, mas confirmam por datação radiográfica que a ossada pertence ao período em que Nicola viveu; mas a análise carece da importante confrontação do DNA desta amostra com os restos guardados em Veneza... Se os fragmentos realmente pertencem a Nicola, então ele sofria de artrite crônica grave em sua coluna e pelve... e as orações não deveriam ajudar muito com as dores...

Bari está na região vinícola de Puglia, e adoro o Primitivo desta região... Talvez isso explique porque Nicola é padroeiro dos tanoeiros, ou carpinteiros de tonéis de vinho... 


O Taumaturgo

Muitos feitos miraculosos são atribuídos a Nicola, com destaque para sua intervenção auspiciosa "impedindo que três jovens se tornassem prostitutas ou escravas"... Um pai desprovido de dinheiro para pagar pelo dote de casamento de suas três filhas, não via outra saída senão atirá-las à vida... Nicola teria então elaborado um alegórico plano, atirado uma bolsa cheia de moedas de ouro pela chaminé da casa do pai - e, por pouco, o proxeneta das próprias crias... Assim, o pai aliviado pôde pagar pelo dote de sua filha mais velha... Nicola então repetiu o gesto duas vezes mais, e assegurando assim um futuro diferente para as três ninfetas: agora seriam escravas privadas de um só homem, e que haviam inclusive recebido dinheiro por isso - ou invés de pagar por elas...

Ironias à parte, comenta-se também que, e ainda corre à boca miúda, em outra oportunidade, durante a grande fome na Europa, Nicola desvelou-se mais uma vez como super-herói; ao impedir que um terrível açougueiro, que já havia matado três crianças para vendê-las como suculentos BigMacs medievais, concretizasse seu plano gastro-infanticida... Isso, quando já estavam na macabra cozinha, corpos maturados e prontos para virar carne-moída... Nicola interveio e simplesmente ressuscitou as crianças... Uau!!!

No Bíblia Sagrada, por outro lado, e mais precisamente em Reis II, 2:23-24, o próprio "Deus" - valendo-se do avatar de "duas ursas" - assassina e despedaça os corpos de "42 meninos",  apenas por chamarem o profeta Eliseu de - pasmem vocês - "calvo"... Daria para abrir um fast food canibal...
"Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo; sobe, calvo! E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou no nome do Senhor; então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos." - Deus (Bíblia Sagrada; Reis II 2:24)
Mas, voltemos às criancinhas vivas...


A Coca-Cola...

A tradição de São Nicolau levando presentes na noite de natal se expandiu por toda a Europa durante o século XII, misturando-se a outras celebrações, e desvelando um sincretismo claro com outros ritos nórdicos e germânicos... Quinhentos anos mais tarde, os holandeses levariam esta tradição aos Estados Unidos... Na Espanha, por outro lado, são os Reis Magos os encarregados de trazer os presentes na Noite de Natal; e este costume também se difundiu por toda a América Latina...

Papai Noel distribuía os seus presentes à cavalo, até o famoso escritor  de contos Clement Moore  imaginar São Nicolau em um trenó puxado por oito renas... Mas ele só seria desenhado pela primeira vez em 1931, para uma campanha natalina da Coca-Cola... Foi aí que Papai Noel ganhou roupa vermelha e branca, uma longa e generosa barba, além de sua pança avantajada; recebeu também saudáveis bochechas rosadas, o sorriso eterno, e o olhar de suma bondade... sendo essa a imagem que Papai Noel tem hoje em todo o mundo...





Por que 24 de Dezembro?

É muito difícil precisar quando começou a celebração do Natal no formato a que estamos acostumados em nossos dias... Numerosas estórias, lendas, e mitos, foram sendo somados ao longo dos séculos - provenientes de diferentes países e culturas...

O que todos sabemos é que a cada 24 de Dezembro esperamos a chegada da meia noite para comemorar o nascimento de "Jesus Cristo", que teria sido anunciado e depois refutado por profecias judaicas; sendo venerado assim mesmo por cristãos dos quatro cantos do mundo como filho direto de seu "Deus"...

Mas a data na realidade foi arbitrada por decreto papal, e mais especificamente pela autoridade exercida por Júlio I, em 350 dos tempos cristãos... O decreto estabeleceu ainda, e com muito mais relevância histórica, que o "nascimento do Salvador Jesus Cristo" deveria substituir a veneração e adoração ao agora superado "Deus Sol"... O nascimento de Cristo passou então a ser comemorado no Solstício do Inverno em substituição às festividades do '"Dia do Nascimento do Sol Inconquistável" - e assim foi, e assim é...


O Nascimento do Pequeno Mitra e do Sol Inconquistável

Numerosas divindades - anteriores ao mito de Cristo - também teriam "nascido" no mesmo marco histórico e geofísico, como: Hórus, Mitra, Attis, Khrishna, Dionysio, entre tantas outras; terminando por influenciar o arbítrio papal desta data como sendo também o marco para o nascimento da nova divindade de uma nova religião: o Jesus Cristão, o "Salvador"...

No entanto, a sincrética celebração do Natal Cristão, na passagem de 24 para 25 de Dezembro, surgiria em paralelo (e.g.) com as respectivas solenidades em atenção ao "Deus Mitra", cujo nascimento também era comemorado no Solstício de Inverno do Hemisfério Norte - e de Verão no Hemisfério Sul... Por outro lado, como no Calendário Romano o solstício acontecia erroneamente no dia 25, em vez de 21 ou 22, o erro foi propagado também ao nascimento de Cristo... Então, os romanos comemoravam na madrugada de 24 de Dezembro o "Nascimento do Invicto", como alusão do alvorecer de um novo Sol, assim como o nascimento do "Menino Mitra"... e às festividades se adjuntou mais um nascimento: o "Menino Jesus"... 


Et nos servasti... sanguine fuso...

Et nos servasti... sanguine fuso...  Ou "e você nos salvou... no sangue derramado"... Escrito nas paredes do templo de Santa Prisca, erigido a Mitra, Roma, 200 AEC... Foram encontradas também figuras do "Pequeno Mitra" em Treveris, e a semelhança com as representações cristãs do "Menino Jesus" são incontestáveis... Existem representações de Mitra muito bem preservadas, especialmente em Roma, como nos templos San Clemente e Santa Prisca, agora sepultados sob edificações e igrejas cristãs mais recentes... Trata-se da prova cabal e inquestionável da conversão de templos e santuários do paganismo cívico em igrejas... como no notório caso do Panteão... No entanto, no caso dos Mitras romanos, sempre existiu o cuidado de esconder as imagens sob escombros, antes da construção de uma igreja exatamente no mesmo local...

Por outro lado, há pelo menos um exemplo conhecido de um relevo Mitraico entalhado, e esquecido, dentro de uma igreja cristã, em uma torre anexa à igreja de São Pedro em Gowts, Lincoln, Inglaterra, datando do início do século XI... Permaneceu aí, protegida, aparentemente em função da crença equivocada de que tratava-se de uma antiga representação do apóstolo Pedro... 



Solstício de Inverno no Hemisfério Norte, 
na passagem de 21 para 22 de Dezembro




De Fide Catolica

Mas a liberdade de culto ao cristianismo, estendido à todo o Império Romano, só seria seria oficializada em 313 com o Edito de Milão, expedido por Constantino... Rapidamente, os cristãos tomaram os postos dos sacerdotes pagãos na sociedade, inclusive mantendo as festas, rituais, vestimentas e indumentárias pagãs... Em Roma o Papa Cristão passou a ser o Sumo Pontífice, substituindo de maneira pomposa o anterior chefe religioso pagão... Constantino também passaria a estar ligado a ele, e esse legado traria mais tarde a unificação das religiões no império - até porque o culto a Mitra trazia semelhanças com o cristianismo... 

Mas tal oficialização só viria em 27 de fevereiro de 380, com o Édito de Tessalônica, também conhecido como Cunctos Populos ou De Fide Catolica... O responsável por este feito, elevando o cristianismo niceno à condição de único culto permitido dentro das fronteiras do estado romano, seria o imperador Teodósio I... Assim, todas as demais práticas e rituais pagãos e politeístas seriam terminantemente abolidas e proibidas...



Vaticanum

O nome "Vaticano", por sua vez, é anterior ao Cristianismo, e vem do latim Mons Vaticanus, ou seja, o Monte Vaticano... A raiz da palavra "Vaticano" é derivada do latim "vates", que significa "vidente, adivinho"; que por sua vez é uma palavra emprestada do etrusco... Os Etruscos habitaram a Península Itálica antes dos Romanos, e na verdade deram origem ao povo Romano... A Colina do Vaticano foi a casa dos vates - ou videntes - muito antes da Roma pré-cristã... Vaticanus, também conhecido como Vagitanus, era um deus etrusco que "abria a boca do recém nascido para que ele pudesse dar o primeiro grito, o primeiro choro", e seu templo foi construído em antigo local: Vaticanum... Era também o nome de uma das sete colinas de Roma. e onde se erguia o Circo de Nero... Lá, segundo a mitologia cristã, São Pedro teria sido martirizado, crucificado de cabeça para baixo, e depois sepultado - apenas por proclamar a sua devoção a Jesus Cristo...

O território correspondente ao Estado Vaticano só seria doado pela Itália à Santa Sé em 1929, com o Tratado de Latrão, assinado entre o Papa Pio XI e Benito Mussolini; isso, além do perdão de dívidas da igreja, o pagamento de uma soma elevadíssima em dinheiro, e uma mesada vitalícia do governo italiano - que já foi revogada. Este Tratado garantiria o apoio incondicional da igreja ao fascismo de Mussolini e ao nazismo de Hitler - seu confesso aliado.


Sunday

Em 274 EC, o Imperador Aureliano proclamou a passagem do dia 24 para o dia 25 de Dezembro como "Dies Natalis Invicti Solis" (O Dia do Nascimento do Sol Inconquistável)... O Sol passaria então a ser venerado como uma divindade anímica... Buscávamos o calor do Sol, que pairava no espaço, e muito acima do frio invernal terreno... O início do inverno passou a ser festejado então como o dia do Deus Sol... Ou seja, o dia 25 de Dezembro, o dia do Deus-Sol foi de fato proclamado após o nascimento de Jesus... Outros "deuses" também tiveram seu aniversário arbitrado no solstício de inverno, como Hórus, Mitra, Attis, Khrishna, Dionysio, Cristo, e tantos outros... Cristo também teria o seu nascimento vinculado ao astronômico evento... 

A palavra DOMINGO, por sua vez, é originária do latim dies Dominicus, que significa "dia do Senhor"... As demais línguas vernáculas românicas e provenientes do Latim seguem a mesma etnologia, com Domingo em espanhol, Domenica em italiano, e Dimanche em francês... Já os povos de origem anglo-saxônica mantiveram fidelidade à origem etnológica da palavra, em reverencia ao astro Sol, e a sua correta denominação como Dia do Sol - Sunday em inglês e Sonntag em alemão...


Teodósio I - O Imperador Carola

"Que no venerável dia do sol os magistrados e as pessoas residentes nas cidades descansem, e que todas as oficinas, estejam fechadas, No campo ainda assim que as pessoas ocupadas na agricultura possam livremente continuar seus afazeres pois pode acontecer que qualquer outro dia não seja apto para a plantação de vinhas ou de sementes..." -  Cânone 29 - Concílio de Laodiceia

Senatus Populusque Romanus

O Concílio de Laodiceia foi um sínodo regional que contou com aproximadamente 30 clérigos da Anatólia (atual Turquia), ocorrido entre 363 e 364 EC; e foi convocado por Teodósio I logo após a guerra romano-persa... Tratava de diversas abobrinhas relativas ao catolicismo nascente, e entre elas versava sobre a Abordagem regular dos hereges (cânones 6-10, 31-34, 37), judeus (cânones 16, 37-38) e pagãos (cânon 39); mas versou principalmente sobre a guarda do domingo, e anatematizando a guarda do sábado (cânon 29)...

No entanto, o culto ao Sol Invicto ainda permaneceria vivo em Roma, assim como o uso da denominação dies Solis, até a promulgação do famigerado Édito de Tessalônica, de 27 de fevereiro de 380; quando Teodósio I finalmente estabelece que a única religião de Estado seria o cristianismo de Niceia, e banindo qualquer outro culto... Assim, em 3 de novembro de 383, o dies Solis passou oficialmente a ser chamado de dies Dominica - ou Dia do Senhor... In Nomine Caesar...


Sincretismo Deísta e Político

Por ser Roma uma cidade cosmopolita e sede de um vasto império, para lá afluíram povos de diversas culturas, com inúmeras crenças, as quais eram recebidas e reconhecidas pelos romanos; e que ter-se-iam associado às crenças dos latinos, sabinos, e etruscos, na reverência ao primeiro dia da semana...

Notem que a conceituação de "Deus", da divindade cristã-católica, pega carona na divindade pagã do Sol Inconquistável, sincretizando o Deus-Sol, para depois sublevar-se no Deus-só - monoteísta e monótono... E isso não ocorreu somente por causa da facilidade com que esta alegoria se aplicava a Deus; mas, e sobretudo, porque os cristãos receberam esta herança de cultos anteriores, e ainda vigentes em seu entorno à época; e mantiveram a tradição por interesses políticos, e na tentativa de solidificar um estado forte... Como todos os sincretismos ditos  religiosos, esse também era de fato um sincretismo político...


O Tempo

Como podemos notar, a data de nascimento de Jesus é uma data meramente comemorativa, que foi oficializada quase 400 anos depois de seu suposto nascimento... Isso ocorreu porque a Bíblia não nos dá a informação exata sobre a data do nascimento do "Salvador" - e, na verdade, a exatidão não é o forte da Bíblia; mas também porque não existe qualquer menção histórica ao nascimento, vida e morte de "Cristo"...


Vale lembrar ainda que nos tempos bíblicos não existia um sistema de calendário fixo para os diversos reinos ou povos; cada região possuía um calendário, e esses calendários eram confusos e dispares... Muitas vezes, na sucessão monárquica, e por ordem do novo rei, o calendário de um povo era completamente modificado, respeitando manias, gostos e caprichos do soberano... 

Um exemplo da dificuldade em estabelecer marcos temporais é a própria Bíblia, onde não encontramos (e.g.) menções a aniversários – e os Testemunhas de Jeová que o digam -, ou menções claras à datas sobre celebrações e eventos históricos... Devido à tantas mudanças e imprecisões, as pessoas simplesmente não sabiam ao certo em que data haviam nascido – e não porque fosse algum pecado celebrar um mísero aniversário... 

Mas o Jesus cristão certamente gostava de celebrações, e estimulava o consumo de álcool, como claramente descrito na famosa passagem das "Bodas de Canaã"... Qual o vinho teria sido servido por Jesus? Safra? Variedade? Teria servido um Primitivo de Puglia, para homenagear in antecessum ao obcecado Nicola?


Inter Gravissimus

O calendário que adotamos hoje é uma forma recente de contar o tempo; e foi o Papa Gregório XIII quem decretou sua vigência através da Bula Papal Inter Gravissimus, assinada em 24 de fevereiro de 1582... A proposta foi formulada por Aloysius Lilius, um físico napolitano, e aprovada no Concílio de Trento (1545/1563)... Na ocasião, foi corrigido um erro na contagem do tempo, desaparecendo 11 dias do calendário anterior... A decisão fez com que o dia 4 de Outubro de 1582 fosse sucedido imediatamente pelo dia 15 - do mesmo mês... Os últimos a adotarem o calendário que usamos hodiernamente foram os russos, em 1918...

O calendário Judaico, por sua vez, é organizado da seguinte forma: os anos "defeituosos" têm 353 dias, os "regulares" 354, e os "perfeitos" ou "abundantes" têm 383 dias... O Rosh Hashana ou Ano Novo Judaico (7 de Outubro no Calendário Juliano) dá início ao período de dez dias de penitência que desemboca no Yom Kipur, ou Dia do Perdão... O calendário israelita é lunissolar, com anos solares e meses lunares... Para ajustar os meses ao ano solar intercala-se um mês nos anos 3, 6, 8, 11, 14, 17, e 19, em ciclos de 19 anos... Os meses são fixados alternadamente com 29 e 30 dias; sempre ordenados, e coincidentes com os movimentos observados da Lua e Sol... O calendário Judeu nunca sofreu modificações por parte de reis e governantes, sendo o mesmo até hoje, e poderia ser uma respeitável fonte histórica; mas como os judeus não deram muita bola para o mito de Jesus, sua data de nascimento, assim como os demais feitos atribuídos ao mito, não foram registrados, e na verdade são completamente ignorados até hoje...


Francisco e o Presépio

Embora a data não possa ser determinada com exatidão, o certo é que o Jesus bíblico nasceu durante o reinado de Herodes, rei da Judeia. Segundo relatos bíblicos cristãos, Maria, que já estava grávida, e José, seu companheiro, estavam a caminho de Belém para fazer a inscrição em um censo ordenado pelo imperador... Ainda, segundo a lenda, quando já estavam em Belém, chegou o momento de dar a luz; mas como não encontraram pousada em nenhuma estalagem, em função do grande número de pessoas naquela localidade, decidiram buscar abrigo em um estábulo, e assim "nasceu o menino Jesus"...

Esta cena foi recriada muitas vezes, mas foi montada e encenada pela primeira vez em 1223 por São Francisco, em Assis - hoje Itália; e a recriação ocorreu em um verdadeiro estábulo com a participação de camponeses e animais da região... 

Francisco, também proveniente de uma família abastada, não apresentava qualquer inclinação religiosa até ser acometido de uma severa enfermidade que por pouco não pôs fim à sua vida... Pelos sintomas descritos, presume-se que Francisco foi vitima de uma Meningite... e cujas sequelas foram uma obsessão religiosa sem descanso, completo desapego por quaisquer objetos ou pertences, como roupas, dinheiro, e propriedades... completa desconexão social, sem qualquer interesse por trabalho ou alguma atividade produtiva, além do desprezo por relações humanas convencionais, familiares ou afetivas... Francisco passou a falar sozinho e a conversar com animais - quer existissem ou não...

Desde então, o nascimento de Cristo foi reproduzido das mais diversas formas possíveis, não somente com personagens, mas também com imagens e figuras em todo tipo de material, expandindo o costume de montar o Presépio para a celebração do Natal, principalmente em países com forte de tradição cristã Católica... E este costume chegou até a América pelas mãos dos portugueses e espanhóis, nos tempos da grande cruzada de evangelização... E, apesar de mais tarde terem sido agregados os símbolos de Papai Noel e da Árvore de Natal, o Presépio e a celebração do nascimento de Jesus ainda permanecem como figuras centrais natalinas em muitas casas por todo o mundo... 


A Árvore de Natal

Todo dia 8 de dezembro, milhares de famílias brasileiras se dedicam a montar a Árvore de Natal... Este costume, que leva pouco mais de 200 anos em nosso país, na realidade vem de muito longe...

Civilizações antigas que habitaram os continentes europeu e asiático, no terceiro milênio antes de Cristo, já consideravam as árvores como um símbolo divino... Eles cultivam-nas e realizavam festivais em seu louvor... Essas crenças ligavam as árvores a entidades mitológicas, desde sua projeção vertical, até as raízes fincadas no solo, marcando uma simbólica e imaginária aliança entre "os céus e a mãe terra"...

Nas vésperas do solstício de inverno, os povos pagãos da região dos países bálticos cortavam pinheiros, traziam a seus lares, e os enfeitavam de forma muito semelhante ao que praticamos em nossos dias - mas sem os vaga-lumes de led, made in China... Essa tradição, muito cultuada pelos povos Germânicos, também incluía a colocação de presentes para as crianças sob o "Carvalho Sagrado de Odin"...


O Machado de São Bonifácio

No início do século VIII, o monge beneditino Bonifácio de Mogúncia tentou acabar com a tradição pagã na Turíngia, para onde fora como missionário... Com um machado, cortou um pinheiro sagrado no alto de um monte, adorado pelos locais... Como fracassou na erradicação do culto, decidiu sincretizar o formato triangular do pinheiro com a Santíssima Trindade, e suas folhas resistentes e perenes com eternidade de Jesus... Uau, santa imaginação!!! Mas, nascia aí a Árvore de Natal Cristã, e com direito ao "Pai, Filho e Espírito Santo", pegando uma carona na tese Ariana, una, não-trinaria, defendida por Arius... e contestada às bofetadas pelo Bispo de Myra... ele sim, Nicola, franco defensor da Santíssima Trindade... Sendo essa mais uma pendenga religiosa tola que renderia muitos desafetos, além de mortos...

A primeira árvore de Natal Cristã documentada pela História foi decorada em Riga, na Letônia, em 1510... Acredita-se também que esta tradição também foi incentivada por Martinho Lutero, na Alemanha... Diz a lenda que, certa noite, enquanto caminhava pela floresta, Lutero ficou impressionado com a beleza dos pinheiros cobertos de neve... As estrelas do céu ajudaram-no a compor a imagem com os galhos das coníferas... Bela alusão poética, ao que poderíamos agregar que, como o rebelde Lutero era um tremendo beberrão, ele pode ter visto muito mais do que estrelas nessa noite fria de 1530...



Maçãs de Ouro e Nozes de Prata


Também existe uma antiga lenda, que remonta da Germânia do século VII; onde, numa fria na noite de natal, um monge missionário inglês teria talhado um tronco que fora utilizado anteriormente em festas pagãs, e para a oferenda de sacrifícios humanos... E, neste lugar, teria crescido então um tipo de árvore que mais tarde seria convertida em um símbolo do cristianismo... Provavelmente, uma versão apócrifa do gesto antipático de São Bonifácio...


Outra lenda europeia conta que durante uma fria noite de inverno um menino procurou refúgio na casa de um lenhador que vivia isolado com a sua esposa... Eles receberam o menino, oferecendo abrigo e comida... Durante a noite, o menino se converteu em um anjo vestido de ouro: era o menino Jesus – imaginem vocês! Para recompensar a bondade dos anciãos, ele tomou um ramo de pinho e lhes disse para semear, prometendo-lhes que a cada ano daria frutos... E assim foi: aquela árvore deu maçãs de ouro e nozes de prata... Mas não existem provas do feito...


Um Sentido Universal

Árvores representam simbolismos culturais diversos, desde milênios antes do mito crístico; os indo-europeus consideravam as árvores como expressão de fertilidade, os egípcios atribuíam à tamareira o significado e o dom vida, além da representação homóloga dos diversos estágios da vida humana... Uma verdadeira ÁRVORE DA VIDA...

Por outro lado, gregos e depois romanos teriam sido os primeiros a decorarem suas árvores para cada uma de suas muitas celebrações... Mais tarde, este hábito se espalharia até alcançar o norte da Europa... Por isso, as árvores escolhidas são pinheiros típicos de zonas de florestas temperadas europeias; que também são cobertas com grinaldas prateadas simulando a neve, também característica destas regiões no inverno...


Os Gregos usavam as árvores também como “intermediários” entre o céu e a terra, cultuando-as em reverência indireta aos deuses... Os Romanos costumavam enfeitar pinheiros com máscaras de Baco, o deus do vinho, para venerar o deus Saturno, também o deus da agricultura, da justiça e da força... A festividade recebia o nome de “Saturnália”, e deve ter inspirado Martinho da Vila ao nomear sua filha [sic]... e coincidia com o nosso Natal...

Já na China, o pinheiro ainda significa longevidade, enquanto no Japão, simboliza imortalidade... As primeiras árvores montadas no Brasil datam de 1800, e foram armadas e decoradas por imigrantes europeus... O costume de montar presépios veio de Portugal...


Reflexões...

O Natal é pois uma festa para onde convergem diferentes e variadas culturas; que, a despeito de suas origens históricas, lendas, e tradições, nos conduzem a uma experiência única: a sensação de unidade global, humana...

Estamos todos unidos no mesmo rito de reunir a família e os amigos, para DAR... Dar presentes, simbolizando afeto, dar aquele sorriso largo e o abraço amigo, dar de comer e beber... Beijos apaixonados, o som das taças em celebração, as vozes do presente e do passado... A experiência sublime, vivida por outros costumes, de outros povos, de outras eras, humanos como nós...


HUMANOS, TROPPO UMANOS...





Este é o meu sentido do natal, e qual é o seu? 





Um Feliz Natal, repleto de saúde e ternura...

E... para lograr o que ainda nos faltar, lutaremos com disposição e generosidade, juntos, no ano que se inicia...


Carlos Leger Sherman Palmer Junior







P.S.

Anote:


Horus (egípcio) 3000 a.C.
- nasceu dia 25 de dezembro;
- nasceu de uma “virgem”, a deusa Ísis-Meri com Osíris;
- nascimento acompanhado por uma estrela a Leste;
- estrela seguida por 3 reis;
- aos 12 anos, era uma criança prodígio;
- batizado aos 30 anos;
- começou seu ministério aos 30;
- tinha 12 discípulos e viajou com eles;
- operou milagres e andou sobre as águas;
- era “chamado” de Filho de Deus, Luz do Mundo, A Verdade, Filho adorado de Deus, Bom Pastor, Cordeiro de Deus, etc;
- foi traído, crucificado, enterrado e ressuscitou 3 dias depois.


Nos outros deuses, encontramos a mesma estrutura “mitológica”. Vejamos:

Mitra (persa – romano) 1200 a.C
- nasceu dia 25 de dezembro;
- nasceu de uma virgem;
- teve 12 discípulos;
- praticou milagres;
- morreu crucificado;
- ressuscitou no 3º dia;
- era chamado de “A Verdade”, “A Luz”;
- veio para lavar os pecados da humanidade;
- foi batizado;
- como deus, tinha um “filho”, chamado Zoroastro.

Attis (Frígia – Roma) 1200 a.C.
- nasceu dia 25 de dezembro;
- nasceu de uma virgem;
- foi crucificado, morreu e foi enterrado;
- ressuscitou no 3º dia;

Krishna (hindu – índia) 900 a.C
- nasceu dia 25 de dezembro;
- nasceu de uma virgem;
- uma estrela avisou a sua chegada;
- fez milagres;
- após morrer, ressuscitou.

Dionísio (Grego) 500 a.C
- nasceu de uma virgem;
- foi peregrino (viajante);
- transformou água em vinho;
- chamado de Rei dos reis, Alpha e Ômega;
- após a morte, ressuscitou;
- era chamado de “Filho pródigo de Deus”.

Qualquer semelhança não é mera coincidência...

Existem outros deuses com características muito semelhantes a estes... Estes são os mais conhecidos, e os que co-existiram com a nova religião, chamada de cristianismo... Ou seja, quando o cristianismo surgiu, tais deuses ainda eram adorados...


PENSO, LOGO RIO!!!